terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Palavra de socialistas

Dois militantes socialistas tomaram recentemente posições críticas, em face do Partido a que pertencem.


Elísio Estanque abre assim um texto postado por si, ontem , no seu Blog "Boa Sociedade" : "No actual contexto político, como sabemos, o PS é um partido completamente domesticado perante o governo e o seu líder (isto é, um partido sem alma nem vida própria)."

Na véspera, Ana Benavente começava o seu artigo de opinião no"Público" em termos igualmente expressivos: "não sou certamente a única socialista descontente com os tempos que vivemos e com o actual governo".

Dois textos críticos que merecem ser lidos e meditados. Concordo com ambos no essencial, congratulando-me que o acaso tenha feito com que dois membros do clube político Margem Esquerda, a que também pertenço, tenham dado público testemunho das sua inquietações quase simultaneamente.

Por mim, também acho que o PS está bastante anemiado, enquanto colectivo produtor de ideias , de críticas, de propostas e de reflexão, talvez por se achar, erradamente, nas altas esferas, que a sua única função conveniente, no momento, é a de ovacionar, se possível com entusiasmo.
Estou também descontente com o estilo algo pimpão do actual governo e com algumas das suas políticas, com destaque para o desastre universitário que o ministro se tem esforçado por provocar e ao qual, na medida do possível, se vai resistindo no terreno.

5 comentários:

horta pinto disse...

Não estou inscrito em nenhum partido, porque, como dizia o Cardeal de Retz - cito aproximadamente, de memória - "o mais difícil, num partido, não é lutar contra os outros partidos, mas aturar as lutas intestinas do partido". No entanto, desde que acabou o MES, e como socialista, republicano e laico que sou, voto habitualmente no PS. Porém, também me parece que o PS está a descaracterizar-se. Jà nas últimas eleições legislativas não consegui votar no PS, porque pretenderam impingir-me, como cabeça de lista, a SR.ª Dr.ª Matilde Sousa Franco. É sem dúvida uma excelente pessoa, e talvez seja republicana; mas socialista e laica é que ela não é; será quando muito democrata-cristã- e isso viu-se quando se discutiu a questão do aborto. E pelos vistos não fui o único; por alguma razão o distrito de Coimbra foi um daqueles onde o PS subiu menos e o BE subiu mais. O PS tem de se consciencializar de que não tem os votos comprados, e se quer que votem nele tem que se mostrar digno das suas tradições, que são as da revolução liberal do século XIX , da revolução republicana, e do 25 de Abril.

aminhapele disse...

Creio que sabes que recebi a minha "carta de alforria"...
Passei a HOMEM LIVRE.
Continuo a pensar da mesma maneira:
O PS está a descaracterizar-se em termos ideológicos e a ser conquistado por liberais.
Claro que a culpa também é minha que não me soube opôr a isso.
Aceitei democràticamente as derrotas ideológicas e constatei que não estava lá a fazer nada.
Porque havia de ser dirigido por "camaradas" que têm medo de se afirmar socialistas?
A última vez que votei PS já nem me lembro.
Também é verdade que,desde então,exerço um voto de protesto.
Mas não posso com eles,nem juntar-me a eles.
Prefiro continuar como franco-atirador.

RN disse...

É hoje, cada vez mais irrealista, pensar que o PS, enquanto partido historicamente enraizado, é apenas a soma dos que mantêm válida a sua inscrição. Pelo contrário,tende cada vez mais a ser a expressão organizada de uma área politico-social bem mais vasta, que partilha com pessoas e organizações, que, de uma maneira ou de outra, se situam dentro dela, mesmo não estando inscritos no PS.

A tensão máxima entre o PS, enquanto partido de governo e essa sua área ocorre, em regra, quando ocupa o poder.
Se essa tensão se tornar numa ruptura, estaremos em pleno desastre histórico, o que nem é certo nem é impossível.

Mas se ocorrer , decerto, se gerará uma nova expressão política da área socialista que, a prazo, se fortalecerá o suficiente para poder aspirar ao poder democrático. Mas esse eventual processo levará tempo e a sociedade não ficará parada, esperando pela sua ocorrência. Continuará desde então sem qualquer entrave institucional a sua deriva auto-destrtutiva.

Por isso,continua a ser decisivo o que se passa no PS, como núcleo de poder organizado de toda uma área que abrangendo, em certo sentido, toda a esquerda, tem uma influência mais directa no seu território específico.

O problema político não está, por isso, na avaliação do PS em si próprio como organização. Uma avaliação que possa ter como consequência a desinscrição, quando ela for muito negativa na perspectiva de quem estiver em causa. O problema está na procura de uma atitude que, para cada um, seja aquilo que ele acha que pode fazer de melhor para contribuir para evitar a ruptura histórica referida.

Não só por isso, tens toda a razão quando admites também ter culpa por se ter chegado aonde se chegou. Não uma culpa individual, mas uma corresponsabilidade política, que colectivamente cabe a toda a esquerda socialista por não ter sabido afirmar-se no interior do PS, de modo ter uma influência efectiva no rumo a seguir.

Nomedadamente, não soube compensar o vazio ideológico e a subalternidade política estratégica que têm vindo a corroer a tendência dominante da Internacional Socialista e que também se tem manifestado no caso português.

aminhapele disse...

Palavras sábias,como sempre.
Acredita que me vão servir como matéria de reflexão.
Uma coisa não duvido:continuo a ser SOCIALISTA!
A outra será matéria de reflexão:o que é bom para um socialista,será bom para o PS?
Um abraço.

RN disse...

Como pode agir com eficácia um socialista sem articular a sua acção ( pelo menos, articular) com uma organização socialista ?