segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Louvor do Aprender


O Zé Cândido mandou-me hoje um poema de que é o autor. Onde escreveu "aprendo" podia ter escrito "ensino". É assim desde os velhos tempos da República dos Pyn-güyns.
Não conseguindo colocar o poema na sua exacta arrumação, alguns versos podem ser prejudicados por serem artificialmente desdobrados. Como a alternativa prática era não publicar, optei por correr o risco dessa pequena adulteração. Publico sem consentimento do autor. Sujeito-me. Vou dar abusivamente um título ao poema, ainda por cima pilhando-o do grande Brecht: Louvor do Aprender.


Louvor do Aprender

José Cândido Rodrigues


Aprendo, todos os dias, que devo ser criança.
Aprendo que se aprende errando
Que crescer não significa fazer anos
Que o silêncio ou o riso são a melhor resposta para a asneira.

Aprendo que trabalhar não significa ganhar dinheiro e que dinheiro muito
menos significa felicidade.

Aprendo que os sonhos andam por aí para serem alcançados por quem é mais
corajoso e mais jovial.

Aprendo que conquistamos amigos quando nos mostramos como somos

E que somos verdadeiramente amigos quando conseguimos estar absolutamente
nus perante o próximo.

Em seguida os amigos riem connosco, choram connosco, ficam juntos connosco
até ao fim.
Também aprendo que pode haver maldade escondida em qualquer lado
E que a felicidade não existe se não for procurada.
Aprendo que quando julgo saber tudo é prova absoluta de que não sei nada.
Aprendo que é a natureza que deve comandar a vida
E que amar é uma entrega, um abandono, um esquecer de passados, um presente
sem projectos.
É por isso que um só dia pode ser mais importante que muitos anos.
E, então, todos os dias há tempo para conversar com as estrelas e com a lua
Para olhar o sol apesar das nuvens.
Só este tempo dá para viajar até ao infinito onde sempre um sonho azul nos
abre janelas doiradas sob um jardim imprevisto
Donde volto, outra vez criança, tão contente e inocente como quando era
livre e justo como as flores.

2 comentários:

Maria Eduarda Horta disse...

Pois fez muito bem em publicar. O Zé do Mar também me enviou o poema mas eu fui muito menos atrevida...
quem não arrisca não petisca.
Um bom Natal para o nosso amigo Zé do Mar, para o blogger e e para todos os que se dão ao trabalho de nos ler...
Maria Eduarda Horta

Anónimo disse...

Outro "Louvor do aprender", mas bem diferente. De um grande clássico do século XX. Cumprimentos.

Louvor do Aprender

Aprende o mais simples! Pra aqueles
Cujo tempo chegou
Nunca é tarde de mais!
Aprende o abc, não chega, mas
Aprende-o! E não te enfades!
Começa! Tens de saber tudo!
Tens de tomar a chefia!

Aprende, homem do asilo!
Aprende, homem na prisão!
Aprende, mulher na cozinha!
Aprende, sexagenária!
Tens de tomar a chefia!

Frequenta a escola, homem sem casa!
Arranja saber, homem com frio!
Faminto, pega no livro: é uma arma.
Tens de tomar a chefia.

Não te acanhes de perguntar, companheiro!
Não deixes que te metam patranhas na cabeça:
Vê c'os teus próprios olhos!
O que tu mesmo não sabes
Não o sabes.
Verifica a conta:
És tu que a pagas.
Põe o dedo em cada parcela,
Pergunta: Como aparece isto aqui?
Tens de tomar a chefia.

Bertolt Brecht