terça-feira, 22 de março de 2011

HUMILHADOS E SEDUZIDOS


Há um vago rumor político a crescer lentamente nos círculos dos poderes fácticos e no condomínio fechado dos barões mais circunspectos dos partidos da direita, que nos deveria deixar perplexos.

De facto, ao mesmo tempo que todos os megafones mediáticos são usados para que cachorros dia a dia mais raivosos abocanhem o actual Governo e o PS, comparando-os a uma praga de que o país tem que livrar-se, é entre algumas das vozes mais sonantes desse coro que se insinua o rumor referido.

Um rumor segundo o qual essa mesma desgraça ambulante que a gente fina diz ser o PS é afinal o parceiro insubstituível de qualquer solução para o bloqueio em que o país está.

É estranho, atrevo-me a dizer. Mais natural seria que quem acha que o PS é um desastre procurasse afastar-se dele o mais possível e procurasse mantê-lo bem longe das alavancas de qualquer poder; ou, olhando noutra perspectiva, o natural seria que quem achasse que o PS é um parceiro indispensável em qualquer solução duradoura dos problemas que afligem o país, o não cobrisse diariamente de insultos e diatribes.

Mas não é isso que acontece. Num momento, os expoentes mais vistosos da direita comportam-se quanto ao PS como mabecos raivosos, para no momento seguinte lhe fazerem comoventes serenatas. Num momento exigem que o PS se deixe estraçalhar, no momento seguinte que se deixe seduzir.

Algo não bate certo. O mais prudente será, por isso, que se coloque a hipótese de que a direita não ataca o PS com receio do mal que o PS possa fazer ao país, mas com medo que um relativo êxito no caminho seguido a deixe mais algum tempo longe do ”pote” ( no dizer do seu chefe mais ostensivo). E, sendo assim, a direita quer o PS ao seu lado precisamente porque faz um inconfessável juízo positivo quanto à sua capacidade para fazer sair o nosso país da crise em que está.

Compreende-se. A direita sabe que sozinha em breve mostrará ao que vem, reconduzindo-nos a tempos ainda mais difíceis. Precisa pois de um parceiro que a auxilie e ainda por cima possa partilhar ou absorver as culpas do que vier a acontecer.

Ou se formos prudentes, podemos ainda recear que a direita esteja aqui a ser ainda mais perversa. Ela talvez queira matar o urso e não desiste de lhe ficar desde já com a pele.

É talvez demais. O urso, que neste caso somos nós, talvez nem morra; mas seguramente que não vai deixar que lhe vendam a pele antes de o esfolarem. De facto, se for por diante a demolição do actual Governo por impulso irresistível do PSD, não é decente exigir-se ao demolido que venha tirar da encrenca em que, precisamente em virtude da demolição, o demolidor se meteu.

1 comentário:

André Pereira disse...

querem entrar de mansinho e com a cobertura de um sorriso de hiena...