sexta-feira, 25 de julho de 2008

PS - Coimbra : primárias, já!

Os dias vão passando lentos pela política de Coimbra. A modorra e os turistas cruzam-se lentamente na cidade. O espaço simbólico dos estudantes parece mais curto. A Universidade vê passar os últimos dias de mais um ano lectivo, perplexa ainda pelo vendaval quase gratuito de Bolonha, suspensa de um novo estatuto que espera ver homologado, estrangulada financeiramente pela impolítica universitária dos governos, abafada pelo ranço ilusório da ideologia dominante, levemente aprisionada no seu próprio labirinto.


A política local autárquica extravia-se ainda como um barco sem rumo, apesar de estar próximo o ano de todas as eleições. O ano em que, mais uma vez, Coimbra pode falhar o encontro com um destino que realmente a engrandeça. De facto, até ver, tudo parece conspirar para um novo bocejo de quatro anos, arrastado na melancolia das pequenas intrigas, fechado na trivialidade dos pequenos negócios, com uma vaga atmosfera de polícias e tribunal a inquinar sonhos.

Os mais determinados parecem esgotar a frescura da sua energia na vontade inútil de cortar politicamente a cabeça dos adversários. Os mais plácidos bebem lentamente o cálice estéril de uma melancolia crescente.

A mim, militante do Partido Socialista, preocupa-me a reprodução arrastada das rotinas anunciadas, como se a futura presença de um socialista na Presidência da Câmara pudesse ser a simples consequência de um empanturramento de esperados discursos, de rituais melífluos há muito instituídos, que apenas haveria que repetir com persistência e método. É a política limitada a uma imprudente confiança na generosidade da roda da fortuna, radicada na esperança de que ela se não habitue a correr contra nós.

Adormecidos os ecos da última pugna concelhia dentro do PS, há uma desmobilização pesada que parece ter atingido, quer os militantes que então votaram, quer os que integraram a maioria abstencionista. Cresce a impressão de que só um sobressalto de imaginação política, um gesto de ousadia verdadeiramente novo, podem dar aos socialistas de Coimbra, no seu todo, aquele leve suplemento de alma, sem o qual dificilmente se porão em movimento.
Em redor, mas bem dentro do seu espaço político, esta melancolia autárquica estimula iniciativas de cidadãos comuns, atraídos pela evidência do vazio socialista, no seio das quais se intromete matreira a sombra de outros partidos e onde incauto naufraga até um ou outro militante socialista.

Em Lisboa, enredada na vertigem exigente do Governo, a direcção nacional do partido dorme distante um agitado sono autárquico. Pelo menos, no que diz respeito a Coimbra, é um sono imprudente. Uma campanha autárquica que possa parecer uma procissão de equívocos, protagonizada por irmandades previsíveis, atravessada por um cantochão repetitivo, não pode ser um auxílio para o necessário vigor da campanha para as eleições legislativas. Isto para não falar na miopia de se menosprezar o que tem de politicamente negativo, no plano nacional, o conformismo perante os pequenos destinos de que a direita dispõe para Coimbra.

Julgar que toda esta inércia, há anos vivida pelos nossos dirigentes nacionais, se compensa com um aparente golpe de asa final, que nos traga do Olimpo dos Grandes Independentes um anjo mágico, cuja simples candidatura tudo salva, é uma ilusão perigosa. Seria o mesmo que confiar na solidez de um belo palácio construído sobra a areia.

Resta pouco tempo para que sejam os socialistas de Coimbra, começando pelos seus responsáveis concelhios, a construir um novo amanhecer. Não vejo mais do que um caminho: estimular a emergência de pelo menos duas candidaturas (sem se temer que sejam mais) à liderança da lista socialista, para a Câmara de Coimbra, fazendo-as passar por eleições primárias. Eleições em que poderiam votar todos os militantes e todos os simpatizantes que possam ser referenciados objectivamente (como, por exemplo, todos os simpatizantes que nos últimos vinte anos tenham integrado listas de candidatos apresentadas pelo PS nos vários tipos de eleições, desde que posteriormente não se tenham filiado noutro partido).

Os órgãos do partido garantiriam, além disso, plena igualdade entre os candidatos, completa transparência de todo o processo eleitoral, estimulando a prevalência do combate de ideias e a competição programática, de modo a envolver o eleitorado socialista numa verdadeira pré-campanha que o acordasse, unido-o realmente numa nova esperança autárquica, libertando-a da hipoteca das pequenas intrigas, da competição entre fidelidades tribais e da estéril fulanização dos debates.

Quem vencesse essas primárias seria o candidato legitimado pela vontade maioritária dos militantes e simpatizantes, expoente de um programa testado, combatente temperado numa luta exigente. Com naturalidade teria o apoio efectivo de todos, sem reservas mentais sem arrastar de pés, sem favores.

Por outro lado, este caminho libertaria o candidato, que viesse a ser assim escolhido, da sombra negativa dos compadrios aparelhísticos, afastando-o das vicissitudes e dos riscos que, na actual circunstância, essa sombra o pode fazer correr.

Não se garantiria a vitória do PS em Coimbra, mas ela seria claramente mais provável. E, considerada em si mesma, estar-se-ia perante uma lufada de frescura política que muito poderia beneficiar o PS em Coimbra e, indirectamente, a própria conjuntura política do concelho.

Desde logo, os que têm procurado caçar no terreno político deixado vazio pelo PS, em Coimbra, veriam a sua margem de manobra drasticamente reduzida. Por outro lado, desapareceria, pela força das coisas, a hipótese de um paraquedista lançado, em desespero de causa, em Coimbra, pela direcção nacional do PS.

Se assim não for, não estando, evidentemente, excluída a possibilidade de uma vitória eleitoral autárquica do PS, ela é contudo muitíssimo mais difícil. E os que têm andado à pesca na nossa área política continuarão a sentir-se encorajados a prosseguir; os nossos dirigentes nacionais hão-de continuar sob a tentação de nos enviarem um salvador de última hora.

Será um cenário triste que só os socialistas de Coimbra podem evitar, esquecendo rotinas e ambições pessoais, superando os tribalismos habituais e os cálculos de carreira. Estamos a tempo, mas não podemos continuar adormecidos.

9 comentários:

PmA disse...

E em Coimbra? Na própria, pois creio... fala-se dos estudantes: que dizem, todavia, os eruditos "donos" da academia - os senhores professores doutores? Que acalmia perpassa por esta Coimbra tão (a)tipicamente académica...

Anónimo disse...

Para poder compreender, peço a pma que decifre o discurso alusivo que introduziu no comentário.

RN

Anónimo disse...

Caro Rui Namorado:

O maior cego é aquele que não quer ver....
Se tivéssemos concentrado os votos na única candidatura de mudança, protagonizada pelo camarada Carlos Cidade, neste momento teríamos o Partido a trabalhar e a mobilizar todos:militantes e independentes.
Assim, temos o Partido parado.
Que capacidade tem um governador civil para fazer oposição capaz e consequente ao Dr. Carlos Encarnação?
Agora vêm com propostas serôdias de primárias...
Já não cola...
Henrique Fernandes vai-nos conduzir a mais uma derrota e o Camarada Rui Namorado é resposável por isso...

Anónimo disse...

Caro Anónimo:

O seu texto desmente-se a si próprio.Não faria qualquer sentido, não teria qualquer autenticidade política, eu convergir consigo em qualquer projecto com um mínio de consistência.

De facto, não sendo infalível, não renuncio a ter uma opinião própria. Essa opinião traduziu-se numa recusa de apoio a qualquer dos candidatos à Concelhia do PS, pelo que para mim era a insuficiência política de ambos. Insuficiência que não significa que desconheça que ambos tiveram , pelo menos , o mérito da intervenção.

Por outro lado, o seu comentário, independentemente da sua sustetabilidade, imputa-me um relevo absolutamente excessivo, como se tivesse podido depender de uma outra opção minha , um outro resultado.

Ao fim e ao cabo, o seu texto não é discutível ( a não ser num ponto que irei refeir de seguida). O seu texto não é discutível, porque no fundo é uma simples agressão verbal de quem se recusa a fazer auto-crítica por ter seguido uma via que reconhece ter falhado.

O ponto que acima referi como o único que pode ser discutido é o que se refere á proposta que faço. Não é ao, contrário do que disse uma proposta serôdia. Há anos, há vários anos que a sustento politicamente. NOmeadamente, na campanha eleitoral para a concelhia de que estamos a afalar coloquei-a como uma das condições para poder apoiar o candidato que a tomasse como sua. Nenhum o fez. Não apoiei qualquer deles.

Para fechar, apenas quero sublinhar que a minha proposta é no presente a que melhor pode conduzir a uma solução satisfatória do problema que as eleições autárquicas representam para o PS de Coimbra.

RN

Luis disse...

Caro Rui Namorado,

A questão das primárias, dentro do PS, não é nova e, todos os socialistas deveriam aceitá-las, porque representa o que de mais bonito tem a Democracia: o voto secreto.
Contudo, no meu entender, a oportunidade de se debater internamente esta questão, é exactamente nas elições internas. Não foi feito em Abril passado, não está a ser feito para a Distrital e não sei se alguém terá coragem de a lançar no âmbito nacional.
Depois, temos a questão de independentes poderem votar dentro do PS. Claro que há independentes que estão identificados com nossa Declaração de Princípios e que sempre (ideologicamente) pugnaram pelo Socialismo Democrático. è que se assim não fôr podemos ter um PS com mais "populismo" que sinceramente não defendo, tanto mais que todos os dirigentes que ao longo dos anos foram fazendo listas autárquicas mais facilmente teriam o apoio desses cidadãos. Falo por mim e julgo que em nada acrescentaria à vontade que tenho (temos) de eleger um Socialista para a Presidência da Câmara de Coimbra em 2009.
Mais grave seria que esta lógica aparelhista vingasse e se reproduzisse no todo nacional.
Sem me opor ao sentido democrático das directas, teriamos aqui uma questão difícil de resolver.
Para falar verdade, a influência que teriam, com o seu voto, alguns independentes que considero uma mais valia (Prof. Rui Alarcão, Profª. Isabel Vargues, etc., etc., seria sempre muito inferior à que teriam outros independentes que há mais de 10 anos fazem arte das listas do PS/Coimbra em todas as Freguesias.
Por último, gostaria de dizer que algumas questões de fundo, como estas das Prímárias, Já!, não pode ser assumida sem primeiramente ser discutida com os militantes nas suas Secções, sob pena de mudarmos as regras de jogo a meio de um campeonato.
Estou disponível para este confronto de ideias no seio interno do PS. Mais, estou disponível para prestar o meu contributo a esta Concelhia e a todos os militantes do PS, assim haja vontade política para depois termos a UNIDADE NA ACÇÃO.
Finalmente, entendo que o "papão" da Direcção Nacional enviar um candidato independente é um falso problema. Ainda nas vestes da minha última liderança citei como bons candidatos do PS:
- José Penedos
- Henrique Fernandes
- Vassalo de Abreu
- Francisco Bandeira
Todos eles socialistas. Mas há muitos mais e até independentes que não sejam impostos por ninguém a não ser pela vontade dos militantes socialistas de Coimbra, em diálogo com os órgãos distritais e nacionais, numa posição de Igualdade e não de subserviência.

Anónimo disse...

Não é só em Coimbra. Por outras altitudes há uem partilhe da mesma opinião:

http://cadsf.blogspot.com/2008/07/silly-season_24.html#links

Anónimo disse...

RN em conversa:

A proposta de eleições primárias para a escolha dos candidatos do PS, já esteve inscrita por mais do que uma vez em programas de candidatos às eleições para a distrital de Coimbra do PS , bem como também , pelo menos, para as de Lisboa e de Faro.

Foi igualmente apresentada por um Clube Político a que pertenço, Margem Esquerda, aos três candidatos a secretário-geral nas eleições internas do PS em 2005.

Na maior parte destes casos, a proposta era acompanhada de uma outra que visava uma radical democratização das regras que regem as eleições internas no PS. De facto, as primárias, para terem efeitos positivos, têm que ser exemplarmente limpas e transparentes. Pior do que não haver primárias, só haver primárias cuja autenticidade democrática seja posta em causa.

De qualquer modo, na actual conjuntura política do Concelho de Coimbra, a realização de eleições primárias, além de ser a materialização de um princípio, que certamente virá a fazer parte das rotinas do PS num futuro não muito longínquo, surge como uma das poucas vias disponíveis para se activar o protagonismo dos socialistas, de modo a poderem lutar, com boas probabilidades de êxito por uma vitória autárquica.

De facto, se as primárias tiverem as características que proponho, podem ser uma poderosa alavanca para se desencadear um verdadeiro movimento de opinião em Coimbra em redor do candidato socialista que as consiga vencer.

O colégio eleitoral chamado a manifestar-se deve ser tão amplo quanto possível, mas não deve restringir-se ao membros do Partido de modo a que fique claro que para o PS também são partido os seus eleitores habituais , bem como todos aqueles cidadãos que partilham com ele os mais diversos combates políticos. Que se comece com prudência, compreendo, desde que se proteja o carácter amplo da consulta.

Para concluir quero destacar duas coisas: 1) seria simbolicamente desastroso para o PS que em Portugal algum outro partido lhe tomasse a dianteira neste domínio; 2) em cada ano que passa aumentam os exemplos de mais partidos de esquerda que realizam primárias , em diversos continentes. Neste domínio o PS podia ter sido pioneiro. Não foi. Esperemos que, pelo menos, se não deixe apanhar pelo “carro-vassoura”.

Anónimo disse...

Ao Anónimo da 21.30,

O CC, poderia fazer muito como oposição a HF, dentro da CPC. Mas preferiu associar-se integrando as equipas constítuidas pelo novo presidente. Como poderá ser ele agora oposição? Os argumentos apresentados em campanha perderam toda a razão de ser!

Anónimo disse...

RN diz:

As eleições primárias para escolha do candidato a Presidente da Câmara pelo PS são um dos poucos elementos possíveis de um reforço político significativo do PS em Coimbra.

Estão longe de ser uma opção irrealista e pode muito bem acontecer que a própria direcção nacional do partido, em certos casos, as recomende como solução política para problemas que se desenhem no horizonte.

Entretanto, enquanto os responsáveis locais gozam o remanso estival, um potencial candidato "independente" vai sendo temperado; e os potenciais paraquedistas salvadores vão sendo postos em lume brando para qualquer eventualidade.

Acordem ! Estejam pelo menos atentos ao que está a ser equacionado...