terça-feira, 30 de abril de 2013

O perfume do tempo




O perfume do tempo
inaugura o suave peso das horas

podemos senti-las na pele
como corcéis de silêncio

ou escrevê-las na parede da memória
como palavras mortas

ou colhê-las como pássaros lentos
para sempre interrompidos

O perfume do tempo
agarra-nos pela garganta
arrasta-nos inesperado
pelo prazer da memória

executa em rigor
os rituais da esperança
mostra sem rubor
a espada do desejo

adormecendo enfim
no despedir das tardes
como se nunca
tivesse acontecido

[ Rui Namorado]

domingo, 28 de abril de 2013

AINDA O CONGRESSO DO PS


Ao longe, escapa-me o elenco completo dos órgãos nacionais do PS. Estão agora a ser eleitos.

A experiência sugere-me um distanciamento desconsolado. A irremediável tentação da esperança leva-me a sonhar com uma Comissão Nacional composta com critérios objectivos, entre os quais a lucidez política e a capacidade de intervenção sejam tidas em conta.

Seria uma corrente amarrada às pernas do PS, fazer com que os congressistas elegessem uma plateia de espectadores, encarregada de aplaudir ou apupar duas ou três dezenas de artistas, destinados a dizerem periodicamente o esperado. Duas ou três vozes, escapadas ao crivo da rotina, não fariam a primavera.

Seria na verdade um retrocesso, não se aproveitar a circunstância para se estruturar a Comissão Nacional, de modo a transformá-la num órgão de autêntica direcção política, constituída por militantes experientes, esclarecidos e lutadores. De facto, uma direcção política deve estar mais próxima de um estado-maior militar do que duma plateia disciplinada de crentes. Uma direcção política deve ser muito mais parecida com um grupo de trabalho do que de um feixe de turistas, que vão ouvir, de quando em quando, um punhado de dirigentes , votando com aprumo favoravelmente as propostas que lhes fazem.

Enfim, talvez a réstia de esperança que me assaltou afinal se justifique.

sábado, 27 de abril de 2013

CONGRESSO DO PS


Aos oradores socialistas, com fraternidade.



Se o que disseres, mesmo com veemência, mesmo com palavras grandes e enérgicas, também puder ser dito por alguém de direita, desconfia.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

AINDA O 25 DE ABRIL


acenderam-se as horas   muitos anos   os meses
as palavras mais livres não ficaram cercadas

acenderam-se sílabas da mais pura revolta
e deixámos a cólera semear-se nos dedos

acendeu-se a memória como um cravo de gelo
nas cabeças fechadas pelo frio do terror

nós subimos os rios como um barco que cresce
foram nossos os meses passo a passo vencidos

olho agora as palavras em silêncio cansadas
pelos passos perdidos que tivemos que dar

muito longe da terra há um mar que nos espera
uma porta fechada que ainda vamos abrir

[ Rui  Namorado]

terça-feira, 23 de abril de 2013

O FADO DO CRESCIMENTO


O ministro pereira ressuscitou. Irrompeu com robustez no planeta do crescimento. Arrombou a porta da indecisão e, com um vigor quase colossal, apresentou o seu plano para o próximo milénio:

" Renhanhau... béu... béu... crescimento". "Béu...béu...béu. Renhau...nhau....nhau!"

Os mercados ficaram calmos como gatos de seda. Docemente miaram:"Miaaau!"

Os lobos do  FMI uivaram de contentamento: "Uuuuuuu...."

As hienas do BCE trotaram irrequietas.Ouviu-se: "mercaaaado"...

O ministro das insolvências insistiu, verdadeiramente ousado, subindo o tom: "Renhau...nhau...béu...béu. béu..."

Ao longe (e a norte) uma vaca leiteira, parecendo comover-se, mugiu.E, saindo subitamente da toca, um coelho amnésico olhou aflito para um relógio sem ponteiros e perguntou: "que troikas são" ? E o ministro pereira entusiasmado, num assomo final,  mostrou o último slide da sua genialidade económica: "Béu...béu...béu. Renhau,nhau nhau".

Foi então que  o fantasma de boliqueime, desvanecido pela voz atropelada do ministro, deu finalmente sinal de vida. Numa voz gulosa e arrastada gritou: "Maria, dá-me me um pastel de nata!!"


segunda-feira, 22 de abril de 2013

A REMODELAÇÃO SEM FIM - ocultação ou comédia?

Acabo de ler na página virtual do Diário de Notícias o texto que a seguir transcrevo:

"A saída dos secretários de Estado da Defesa e da Administração Interna estará relacionada com perdas de quase mil milhões de euros nos transportes públicos do Porto.
A auditoria que a Inspeção-Geral das Finanças (IGF) tem em curso às empresas públicas que efetuaram financiamentos de alto risco, causando um "buraco" de quase três mil milhões de euros, fez duas vítimas no Governo de Pedro Passos Coelho. Uma foi o secretário de Estado da Defesa, cuja substituição por Berta Cabral foi ontem anunciada. Outra foi a do secretário de Estado adjunto da Administração Interna, cuja saída não foi ainda confirmada oficialmente mas é dada como certa ao DN por várias fontes do Governo.
Em comum, Braga Lino e Juvenal Peneda têm a sua responsabilidade na gestão da empresa Metro Porto, na qual a IGF estima perdas potenciais de cerca de 800 milhões de euros em financiamentos de risco, em 15 contratos efetuados, no valor de 1,5 mil milhões de euros."

Agora compreendo melhor o alcance da remodelação "relvis causa" , que alguns consideraram gravemente como uma oportunidade perdida, outros qualificaram liquidamente como sendo "às pinguinhas". Afinal, ela teve muito mais de sorrateiro do que aquilo que pareceu. Mais do que uma simples remodelação, foi uma ocultação. Uma ocultação de alguns sinais exteriores que evidenciavam com demasiada nitidez a natureza última dos interesses ao serviço dos quais este Governo se esforça por estar.

Posso assim entender que na conturbada confusão de uma remodelação que de si própria se escondeu, alguém tenha estendido a confusão até ao ponto de ter pensado que era uma credencial sólida para encarregar alguém de uma tarefa governamental no Ministério da Defesa o facto de uma determinada senhora ser tida no ambiente laranja como uma "mulher de armas". Dizem que o sagaz Ministro Branco achou a ideia um verdadeiro tiro no porta-aviões. Oxalá que o irrequieto ministro não se convença de que está a jogar á "batalha naval".

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Poema ao 17 de Abril de 1969




no tempo dos desertos e das sombras
quando as manhãs custavam a chegar

fomos o gesto que não tem fronteiras
com sílabas sem medo com revolta

no pano negro que não tinha fim
rasgou-se então uma pequena luz

e as noites começaram a murchar
presas na teia do seu próprio fim

nos pátios tão augustos dos saberes
uma pequena luz foi inventada

sem o sabermos fomos a semente
do vento que chamou por outros ventos

[Rui  Namorado]

quarta-feira, 3 de abril de 2013

POLÍTICOS, CLASSE POLÍTICA E OUTRAS ASSOMBRAÇÕES


1. A onda branca que parece querer varrer, como se fossem lixo, os políticos, a classe política e a própria política, por generosas e limpas que sejam as intenções de alguns ou de muitos dos seus protagonistas é, na verdade, ideologicamente uma onda negra. Independentemente da subjectividade que mova os seus protagonistas , ou uma parte deles, se algum vento sopra através delas não é o da salvação democrática, mas pode ser o que nos traz a sombra negra de um populismo de cariz  fascista.

2. Nessa onda, em vez de se olhar a política como um dos aspectos da clivagem que divide toda a sociedade, ficciona-se uma oposição estruturante entre o Estado e a sociedade, imaginada sem Estado, demoniza-se indirectamente o Estado, imaginando-o uno através da demonização dos políticos,  como se estes fossem apenas o seu rosto. Um rosto único, unívoco e sem contradições dentro de si. Quanto à sociedade, ela é angelizada como se contivesse em si apenas virtudes, estando só  á espera de se ver liberta do Estado; e assim poder ser para todos uma felicidade geral . Uma sociedade também imaginada como paisagem uniforme, como se a igualdade fosse o seu modo de ser natural.

Ora, de facto, o Estado é uma emanação directa da sociedade que o gera e molda , ao mesmo tempo que a sociedade é inseparável da existência de um Estado que, sendo a sua espinha dorsal politico-administrativamente, espelha as suas características essenciais; e tem como sua bússola a necessidade de conservar o tipo de sociedade que o moldou. Quando o tipo de sociedade existente começa a ser pressionado pela História, rumo a uma metamorfose necessária, o funcionamento da sociedade tende a degradar-se e, em sinergia depressiva com ele, o funcionamento do Estado também. E, principalmente,  degrada-se o modo como o Estado se relaciona com a sociedade, o modo como o Estado contribui para que o tipo de sociedade atualmente dominante  se mantenha.

Desse modo, a luta por um outro tipo de sociedade, tendencialmente protagonizada (principal e estruturalmente) pelos que vivem este modelo como um sofrimento injusto,  tem que fazer-se articuladamente no Estado e na sociedade. Num e noutro caso , contando-se com a oposição dos que vivem este modelo de sociedade como garantia de privilégios  e de bem estar. Entre estes dois pólos globalmente nítidos, há um território intermédio, hesitante e flutuante, que a conjuntura e a História dividem quase sempre, fazendo que cada um dos pólos atraia um pedaço maior ou menos deste território intermédio. Por isso, se percebe bem como é arriscado para os de cima uma penalização excessiva deste território intermédio, desse modo mais pressionado para se coligar com os de baixo, tornando assim difícil aos de cima travarem a consumação da metamorfose social historicamente sempre em curso. Risco tanto maior , quanto, no plano individual, muitos dos intermédios são activos ao lado dos de baixo, ficando muito longe dos seus vizinhos que aceitam ser capatazes dos de cima. Fica assim claro que anatematizar os políticos em geral (o que implica indirectamente visar os Estado como se ele estivesse fora da sociedade) é um caminho que oculta os verdadeiros termos da luta a travar, fazendo, por isso, o jogo objectivo dos que lutam pela eternização do tipo de sociedade em que vivemos, uma sociedade predominantemente capitalista.

3. Nesta perspectiva, percebe-se que  envolva um efeito idêntico a utilização da noção de “classe política” como elemento operativo da reflexão político-ideológica. Ele exprime a mesma oposição entre os protagonistas institucionalmente cimeiros do aparelho de Estado, ficcionados como um conjunto homogéneo, e todo o resto da sociedade também ficcionada e encarada como se todos os seus protagonistas vivessem, sofressem e aproveitassem as sua características da mesma maneira. Dum lado, estariam os dirigentes e quadros de todos os partidos e do aparelho de Estado, sejam de direita ou de esquerda; do outro lado, estariam todos os outros, sejam eles multi-milionários ou sem abrigo, directores de banco ou porteiros do banco, capitães de indústria ou operários. O mesmo embuste ideológico, portanto, a mesma garantia de que a partir de um ponto de vista como este a conservação do essencial das sociedades presentes está garantida e, se o não estiver, a infecundidade desta via torna inevitável  que através dela ou nada se muda ou apenas se pode mergulhar numa regressão ainda mais funda.

4. E tudo isto torna mais fácil compreender que a desvalorização da política no seu todo  apenas conduz a enfraquecer os constrangimentos dos poderes de facto actualmente existentes, apenas lhes garante mais impunidade e maior liberdade de movimentos. Na verdade, para os de cima a política é, estrutural e predominantemente, um embaraço ao exercício da sua supremacia; mas, para os de baixo, é a única oportunidade para não serem vítimas dóceis e eternas dos de cima. Para os de cima a política é principalmente uma auto-defesa de privilégios  uma persistente gestação de uma cortina de fumo que oculte o essencial da realidade; para os de baixo é uma questão de sobrevivência, de dignidade , a única via para compreenderem realmente o que se passa na sociedade em que vivem; e assim poderem resistir melhor.

5. Por isso, o povo de esquerda tem que vencer as assombrações com que tentam afastá-lo da luta política, ou confundi-lo no modo como combate. Nunca se esquecendo que não tem sentido falar nos políticos em geral, em classe política como um todo homogéneo, em política como uma zona da vida social insalubre  e desqualificante. Os políticos não podem ser encarados em conjunto.Os de esquerda podem ser insuficientes, podem como qualquer ser humano errar, mas fazem parte das forças que tentam contribuir para acelerara a metamorfose das sociedades em que vivemos. Podem ser criticados, devem mesmo estar sujeitos a uma crítica exigente e continuada, para serem corrigidos ou, se for caso disso, substituídos. Mas não pode ser  nunca esquecido que eles são outra coisa, estão de um outro lado relativamente aos políticos de direita, ao pessoal político encarregado da conservação do tipo de sociedade actual,  no plano político-institucional. Os políticos de direita, podem ser naturalmente objecto das  críticas inerentes ao quotidiano da política, mas fundamentalmente eles devem ser criticados por integrarem o bloco que defende que, no essencial, o actual tipo de sociedade se eternize.

Repito, para o povo de esquerda  os políticos de esquerda devem ser rigorosamente escrutinados para se avaliar a qualidade  e a intensidade do seu contributo para a transformação da sociedade, no que podem ser insuficientes ou agir equivocadamente. É imprescindível que sejam fieis à ética republicana  e à legalidade democrática, mas também que globalmente sejam eficazes. Para o povo de esquerda os políticos de direita devem ser encarados como uma parcela das forças político-sociais  que o querem manter subalterno, explorado e sem horizontes e como tal combatidos. Interessa-nos que também cumpram a legalidade democrática e se pautem pela ética republicana, que saibam gerir bem o imediato, mas o resto da sua eficácia é-nos indiferente, ou até desvantajosa, no longo prazo.

Tudo isto deve alertar-nos para a necessidade de escolhermos bem os conceitos e as designações que usamos no nosso discurso crítico, de modo a evitarmos que, por erro, estejamos a favorecer aqueles que queremos combater. 

domingo, 31 de março de 2013

UNIVERSIDADE DE COIMBRA



Não sabes  que saber nunca soubeste
Nessa longa jornada

Atravessaste todos os caminhos
Num passo hesitante sempre exacto

Às vezes inventavas o futuro
Ou eras o passado concentrado

A ti em cada ano foi chegando
Um segredo de eterna juventude

Estudantes que esqueciam os compêndios
E sorviam a vida deslumbrados

Tecidos  pelo sonho  pelos tempos
Foram a luz que espera a madrugada

[ Rui  Namorado]

sábado, 30 de março de 2013

POEMA DA VERDADE PRÁTICA


Em Outubro de 2010, publiquei neste mesmo blog o poema que aqui faço regressar hoje. Errar foi  o seu título. Hoje, pretendo usá-lo como contraponto ao poema ontem aqui publicado, pelo que para esse efeito lhe atribuí um novo título: Poema da verdade prática.


 

Não deixes que os teus dedos
se percam
nas harpas da tristeza,
como folhas de outono

Dá-lhes o calor dos teus erros
a pele azul do sonho
o sabor tão relativo
das tuas verdades

Engana-te generosamente
a favor de um mundo melhor,
tropeça na realidade sem inibições,
colhe o impossível sem pudor
Nas arcas do sofrimento
não cultives as lágrimas
no exílio da alegria
não cedas ao desespero

Se a revolta subir
ao longo dos teus braços,
dá-lhe todas as asas,
vai com ela

Que nas cidades justas
do futuro,
entre os que enfim
se olharem inteiros e libertos,
alguém possa dizer sobre ti:

enganou-se,
mas era nosso irmão


[ Rui  Namorado]

sexta-feira, 29 de março de 2013

POEMA DA VERDADE












A verdade não é este silêncio,
amargo, plano, sufocado.
A verdade não é este deserto,
sem gestos , sem luz e sem ideias.

A verdade não fica neste exílio,
neste castelo antigo, abandonado.
A verdade não vive na tristeza
destas palavras soltas sem sentido.

Verdade é este vento que regressa,
enorme, desmedido, sem pecado.
Verdade é teres um sonho em tuas mãos,
à espera que o decidas  semear.

A verdade semeia-se  e renasce
como gesto de amor incendiado,
abrindo-se às palavras que hão-vir,
num íntimo pudor de ter ideias.

Só é verdade o sonho que não para,
no medo, na amargura, nas fronteiras.
Só é verdade cada primavera
conquistada, vivida, palmo a palmo.

A verdade não é este silêncio,
destas palavras podres repetidas,
destas palavras ditas sem sabor,
sem lábios, sem vigor  e sem saudade.

A verdade não para, não se rende,
não fica neste exílio degredada.
Mistura-se na vida, vai em frente,
nascida de novo, em cada dia.
[ Rui  Namorado]

quinta-feira, 28 de março de 2013

PALAVRAS DE SÓCRATES


As palavras de Sócrates fizeram comichão em muita gente. É certo e é estranho. Estranhando, pensei: será pelo modo como na sua ausência o atacaram? Será pelo modo ronceiro como o defenderam? Talvez. Mas reconheçamos que, tendo sido frontal, contundente e claro, não saiu do que se poderia esperar. Mas não foi melífluo, nem mordeu nas canelas de ninguém, fingindo que as lambia. Quando se tratou de morder, fê-lo sem cerimónias e com todos os dentes. Antes de disparar não fez qualquer vénia. Terá sido, só, essa frontalidade? Talvez. Mas, verdadeiramente, uma boa parte da sua força  e da devastação que causou na história da carochinha, a que se tem reduzido a narrativa dominante, derivou do desastre a que os autómatos do neoliberalismo  conduziram o país. Uma boa parte da força de Sócrates radicou-se na ostensiva ligeireza de quem actualmente governa e na crescente entaramelação mental e política do inquilino de Belém. E, repita-se, na devastação que têm  vindo a cometer no nosso país:

De facto, hoje, sabe-se:
1) que o caso português foi uma das partes visíveis de um iceberg europeu;
 2) que a gestão dos governos contribuiu menos para a crise em curso do que a lógica predatória do próprio capitalismo, levada ao paroxismo pela banqueiragem, mais ou menos mafiosa, que domina o sistema financeiro;
3) que o atual governo português não é uma excepção, no quadro de cretinismo político dominante nos governantes da Europa fria;
4) que o atual governo é muito diferente do anterior, protagonizando por intermédio da sua diferença um dramático acréscimo de sofrimento para muitos e muitos portugueses; 
5 ) que a troika não é a representante de credores nenhuns, alegadamente ciosos de garantir pagamentos, mas a agente de centros de poder fautores de uma política reaccionária de regressão civilizacional, que nenhum governo conseguiria impor em democracia, por mais toscamente neoliberal que fosse, sem esta encenação.

Talvez, por tudo isso, o PS tenha comentado  com suavidade a importância do evento socrático, os dois partidos da direita tenham escoicinhado, mostrando bem que o ferro os atingiu bem no lombo, e os outros dois partidos de esquerda tenham reagido como se tivessem sido apanhados a colher laranjas no quintal do vizinho.

Enfim, grande movimentação; sendo, talvez, verdade que o mais positivo foi realmente o arejamento do debate político, como reivindicou expressamente José Sócrates.

terça-feira, 26 de março de 2013

FRANCISCO OU PILATOS ? Lavar os pés ou as mãos?

Estamos ainda em plena onda mediática suscitada pelo advento de um novo Papa. Um olhar atento permite adivinhar complexidade nessa nova figura politico-religiosa. O complexo mediático conservador, que domina o espaço público, apenas descobriu uma quase-santidade no novo personagem. É por isso particularmente recomendável tomarmos conhecimento do lado oculto da lua, ouvindo vozes dissonantes. Uma delas surgiu na revista brasileira de grande circulação CartaCapital, através de um texto do escritor e jornalista brasileiro Eric Nepomuceno, com o sugestivo título de Francisco ou Pilatos?" Atrevi-me a acrescentar-lhe uma interrogação paralela : tenderá, no decorrer do seu papado, este Francisco a humanizar- se, lavando os pés dos pobres, numa exuberância de solidariedade; ou a congelar-se, lavando as suas próprias  mãos, perante os desmandos dos poderosos ? O tempo desfará implacavelmente essa dúvida. Vejamos pois o referido texto:


"As evidências parecem claras, ao menos neste primeiro instante: Jorge Mario Bergoglio, jesuíta, cardeal de Buenos Aires até virar o papa Francisco, será uma figura popular. A imagem de um clérigo que prepara a própria comida, conversa com o jornaleiro e anda de metrô foi cantada em prosa e verso aos quatro cantos do mundo. No lugar dos refinados sapatos de seu antecessor, vermelhos, de pelica finíssima e feitos à mão, calçados comuns, visivelmente gastos. É bonachão, brincalhão, de hábitos banais. Após se tornar o chefe espiritual de mais de 1 bilhão e meio de almas, ainda teve o gesto singelo de pagar a conta da hospedagem.
Na mesma toada, faz questão de autointitular-se bispo de Roma, para deixar claro ser apenas mais um. E dispensou o veículo blindado, azucrinou sua segurança com a mania de ir ao encontro dos fiéis e, claro, não deixou de afagar um rapaz enfermo nos braços de um homem na Praça São Pedro.
Também parece claro ter ele consciência do tamanho dos problemas internos do Vaticano. Há de tudo, e para todos os gostos: corrupção, intrigas palacianas, conspirações, disputa de espaço e poder, lavagem de dinheiro, traições e, para completar, os abusos sexuais e os casos de pedofilia. Isso para não mencionar o pesado, pesadíssimo peso do véu da omissão a encobrir os pecados.
O papa Francisco é o primeiro latino-americano a chegar aonde chegou. E o primeiro jesuíta. E o primeiro não europeu em mais de mil anos a virar chefe máximo da Igreja Católica. E já que se trata de ineditismos, substitui outro papa vivo, o alemão Joseph Ratzinger, o primeiro a renunciar em 600 anos. Deixou de ser o papa Bento XVI, mas não voltou a ser apenas Ratzinger: virou papa emérito.
Os grandes meios de comunicação, com destaque para a mídia da América Latina, saudaram eufóricos a escolha de Bergoglio. Em seu país, a Argentina, vive-se um clima de conquista de Copa do Mundo. Mas, como sempre acontece, há vozes dissonantes. E essas vozes dizem coisas graves, tão graves que provocaram uma dura reação do Vaticano e um imediato reforço na maré de aplausos dos conglomerados de jornais, revistas, emissoras de rádio e televisão. Na falta de melhores argumentos, tratou-se de desmoralizar os dissonantes: quem afirma ter o papa desempenhado um papel no mínimo melífluo durante a ditadura é pecador, ou quase.
Há, porém, indícios concretos, documentos já não tão secretos, depoimentos de vítimas. O padre Bergoglio, em seus tempos de provincial dos jesuítas na Argentina, foi omisso, quando não conivente, com prisões ilegais e torturas desumanas praticadas contra integrantes de sua congregação. E em mais de uma oportunidade se fez de sonso quando cobrado por sua inércia diante de apelos recebidos de familiares de desaparecidos, em especial de quem teve filhas grávidas sequestradas e mortas e seus bebês doados aos verdugos e cúmplices.
Estranha sequência papal. Ratzinger foi na adolescência integrante das Juventudes Hitleristas. Bergoglio foi na juventude membro da Guardia de Hierro, a extrema-direita desse confuso amontoado de ideologias formadoras do peronismo. Ratzinger ao menos podia apresentar o argumento de que, nos anos 1930, todos os jovens alemães eram automaticamente cooptados para integrar as Juventudes Hitleristas. Bergoglio, agora Francisco, preferiu não comentar o caso. Deixou correr o rumor de ser um papa peronista.
Não há, é verdade, nenhuma prova contra Bergoglio. Muitos integrantes da alta cúpula da Igreja argentina silenciaram em público e aplaudiram em privado os desmandos bárbaros da ditadura genocida iniciada em março de 1976 por um trio encabeçado pelo general Jorge Rafael Videla, atualmente na cadeia, sentenciado a diversas penas de prisão perpétua. O trio se completava com Orlando Agosti (Aeronáutica) e o chefe máximo da Marinha, o almirante Emilio Massera, na juventude simpatizante da mesma Guardia de Hierro da extrema-direita peronista e conhecido de Bergoglio. Massera, já morto, chegou a ser condecorado, no auge do horror, pela Universidad del Salvador, da ordem jesuíta.
O novo papa nunca foi acusado de apoiar, como outros clérigos, os voos da morte, quando prisioneiros eram retirados de campos de concentração e cárceres clandestinos, levados para aviões e lançados vivos nas águas do Atlântico, ou do Rio da Prata, ou do Rio Paraná. Documentos revelam que a cúpula católica considerava esse o meio mais humano ou menos desumano de matar, pois os prisioneiros não percebiam seu destino, já que eram dopados antes de ser jogados dos aviões.
Daí a sustentar desconhecimento sobre os fatos é outra história. Sobre o roubo sistemático de bebês nascidos em cárceres clandestinos, cujas mães eram mortas antes de eles serem doados, Bergoglio afirmou num tribunal ter tomado conhecimento da barbárie recentemente. Não é verdade. Familiares de presos políticos contam ter procurado em vão por apoio do jesuíta nos momentos mais sombrios da ditadura.
Há mais sombras em seu passado e em seu presente. Ao assumir a presidência da Conferência Episcopal Argentina, em 2005, poderia ter determinado punições previstas no direito canônico, e não fez nada. Videla não foi excomungado. Ao contrário, continua, no quartel do Campo de Mayo, onde cumpre pena, a receber a hóstia sagrada dos católicos. Christian Von Wernich, capelão condenado à prisão por ter acompanhado, cúmplice, sessões de tortura, continua a realizar missas no presídio de Marcos Paz, onde está recolhido.
Bergoglio não permitiu, quando cardeal de Buenos Aires, o acesso da Justiça aos arquivos do Episcopado. Mais: negou que nos arquivos houvesse qualquer documento relacionado aos sequestros e assassinatos de militantes políticos, religiosos ou não. Quando a Justiça finalmente conseguiu acesso aos arquivos, constatou justamente o contrário: havia documentos, e muitos.
Estava claramente registrado como a ditadura reprimiu duramente, ferozmente, os religiosos ligados aos movimentos populares. Dois bispos foram assassinados, Enrique Angelelli e Carlos Ponce de León. Até hoje Bergoglio se refere a suas “mortes”. Jamais pronunciou a palavra “assassinatos”, embora, segundo a Justiça, esse seja o tema mais apropriado.
Para fazer mais sombra e trazer mais névoa, existe ainda a suspeita, forte suspeita, de que Bergoglio, quando era o principal líder dos jesuítas, entregou dois padres da congregação.
Em depoimentos, altos dirigentes da Igreja Católica admitem que logo após o golpe de 1976 houve um acordo não formalizado com os militares. Antes de prender um sacerdote ou freira, as Forças Armadas avisariam o bispo responsável. Aconteceu justamente o contrário no caso dos jesuítas Orlando Yorio e Francisco Jalics. Depois de sugerir aos dois para abandonar o trabalho de caridade em favelas vizinhas do Bairro de Flores, em Buenos Aires, Bergoglio avisou à Marinha que havia retirado a proteção a ambos. Tecnicamente, retirou suas “licenças”, uma espécie de luz verde para a ação militar.
Em junho de 1976, Yorio e Jalics foram sequestrados, levados à Escola Superior de Mecânica da Armada (Esma), o maior campo de concentração clandestino da ditadura, onde foram torturados em infindáveis interrogatórios. Seis meses depois, Bergoglio, superior jesuíta, pediu pela libertação dos sacerdotes. Cuidou, porém, de instruir as paróquias a não aceitá-los. Jalics, de origem húngara, ao sair da prisão foi para a Alemanha, no fim de 1976. Três anos depois, tentou renovar seu passaporte argentino. Para tanto, assegurou seu desinteresse em retornar ao país. O diretor de Culto Católico do Ministério de Relações Exteriores, Anselmo Orcoven, recusou a renovação e acrescentou uma observação: “O próprio padre Bergoglio escreveu uma nota com especial recomendação de que o pedido não seja atendido”.
Tudo isso, e muito mais, está documentado. Eis um dos tantos problemas das ditaduras, por mais sanguinárias e bárbaras: sempre alguém guarda algum documento. E anos ou décadas depois esse documento acaba por aparecer.
O papa realmente não atuou intensamente ao lado dos ditadores. Tentou ajudar alguns perseguidos, chegou a abrigar na igreja gente que se sentia ameaçada, aceitou esconder livros considerados perigosos. Mas também é verdadeira a avareza de sua solidariedade. Vários sacerdotes jesuítas, além de Yorio e Jalics, carregam até hoje a angustiosa certeza de terem sido, se não diretamente denunciados, “facilitados” pelo seu superior até cair nas garras da repressão mais brutal.
Seja como for, Jorge Mario Bergoglio já não existe. Quem existe agora é Francisco. Começa outra história, surgem outras perguntas. Como será seu papado? Seu forte discurso a favor dos pobres, dos excluídos, irá ao encontro das posturas de diversos governos da América Latina, ou servirá de instrumento de pressão política, num gesto de apropriação do discurso progressista? Alguém se atreveria a ignorar o forte, fortíssimo peso da opinião do Vaticano sobre as políticas aplicadas na região?
Na Argentina, por exemplo, os conflitos do cardeal com os governos de Néstor Kirchner primeiro, e de sua viúva e sucessora Cristina Kirchner, são tão sérios como evidentes. Extremamente conservador na doutrina e nas decisões do -Vaticano em tudo relacionado ao casamento entre cidadãos do mesmo sexo, ao aborto, aos métodos de prevenção da gravidez, o então cardeal de Buenos Aires não perdeu oportunidade para criticar o governo. Quando não havia oportunidade, ele soube criar.
Os dois Kirchner, Néstor primeiro e Cristina depois, responderam no mesmo tom beligerante. As relações entre o governo e a cúpula eclesiástica se deterioraram rapidamente. É de se esperar gestos e movimentos de boa vontade dos dois lados. Cristina Kirchner sabe não ser nada interessante, ainda mais num ano de cruciais eleições legislativas, estender o conflito. O papa, claro, sabe que a presidente sabe disso, da mesma forma que maior será sua influência política se conseguir se mostrar menos crispado em sua relação com ela.
A questão política, porém, não se limita ao país natal do papa. Pode-se dar como certo o firme apoio dos grandes meios hegemônicos de comunicação a qualquer gesto papal que confronte os governos de esquerda e de centro-esquerda da América Latina.
Em países onde a oposição navega qual nau sem rumo, como o Brasil, ou onde a polarização se faz mais aguda, como na Venezuela e, aliás, na própria Argentina, Francisco poderá se tornar bússola e farol.
Convém jamais esquecer que o Vaticano, a Igreja Católica, não se limita a ser uma doutrina, uma fé. É, principalmente, um forte poder político e econômico. Que sempre soube agir, forte e determinadamente, na defesa do interesse muito mais da tradição e da propriedade do que dos pobres e desvalidos. Esses ficam nos discursos da alta cúpula religiosa, ou entregues aos cuidados sempre limitados e pressionados, por essa mesma cúpula, das correntes minoritárias e progressistas do catolicismo.
Em seus tempos de cardeal, Bergoglio era considerado extremamente habilidoso. Melhor, habilidosíssimo. Foi um aliado eficiente e contundente dos barões do agronegócio na Argentina, da oposição mais rançosa, enquanto mantinha um discurso aberto às grandes causas sociais.
Saberá se manter nesse frágil equilíbrio? Saberá levar às ruas um discurso cristão, enquanto nos bastidores luta para sanar os pecados do Vaticano para que nada mude e as tradições e interesses de sempre, por mais anacrônicos, se preservem?"

domingo, 24 de março de 2013

O PAPA E O TEÓLOGO


A comunicação social fez eco de posições favoráveis ao novo Papa, tomadas pelo grande expoente da Teologia da Libertação que é o brasileiro Leonardo Boff, procurando usá-las, talvez, para tentar apagar algumas sombras que pairaram sobre Francisco I , em virtude da sua complacência para com a mais recente ditadura argentina. Sombras que, aliás, já foram mostradas neste mesmo Blog. Pareceu-me, por isso, apropriado transcrever do Jornal do Brasil, um texto datado do passado dia 18 de Março. Melhor do que utilizar Leonardo Boff, em pequenas doses mediáticas na tentativa de o fazer dizer coisas que pareçam convenientes, é lê-lo realmente.

Aqui vou, por isso, transcrever o texto do referido teólogo, publicado no Jornal do Brasil, intitulado “É  possível um exercício do papado diferente”. Ei-lo:

“A grave crise moral que atravessa todo o corpo institucional da Igreja fez com que  o Conclave elegesse alguém que tenha autoridade e coragem para fazer profundas reformas na Cúria romana e inaugurar uma forma de exercício do poder papal que seja mais conforme ao espírito de Jesus e adequado à nova consciência da humanidade. Francisco é o seu nome. 
A figura do papa é talvez o maior símbolo do sagrado  no mundo ocidental. As sociedades que pela secularização exilaram o sagrado, a falta de líderes referenciais e a nostalgia  da figura do pai como aquele que orienta, cria confiança e mostra caminhos, concentraram na figura do papa  estes ancestrais anseios humanos que podiam ser lidos nos rostos dos fiéis na Praça de São Pedro. Por isso é importante analisar o tipo de exercício de poder  que o papa Francisco vai exercer. Disse em sua primeira fala que vai “presidir na caridade” e não como os anteriores com poder judicial sobre todas as igrejas. 
Para os cristãos é irrenunciável o ministério de Pedro como aquele deve “confirmar os irmãos e as irmãs na fé” segundo o mandato do Mestre. Roma, onde estão sepultados Pedro e Paulo, foi desde os primórdios referência de unidade, de ortodoxia e de zelo pelas demais igrejas. Esta perspectiva é acolhida também pelas demais igrejas não católicas. A questão toda é a forma como se exerce tal função. O papa Leão Magno (440-461), no vazio do poder imperial, teve que assumir a governança de Roma. Tomou o título de papa e de sumo pontífice, que eram do imperador, incorporou o estilo imperial de poder, monárquico, absoluto e centralizado, com seus símbolos, as vestimentas e o estilo palaciano. Os textos atinentes a Pedro que em Jesus tinham um sentido de serviço e de primazia do amor foram interpretados como  estrito poder jurídico. Tudo culminou com Gregório VII, que com o seu “Dictatus papae” (a ditadura do papa) arrogou para si os dois poderes, o religioso e o secular. Surgiu a grande Instituição Total, obstáculo ao caminho da liberdade dos cristãos e da sociedade. 
A partir daí o papa emerge como um monarca absoluto com a plenitude de todos os poderes como o cânon 331 bem o expressa.  Levanta a pretensão de subordinar ao seu poder toda as demais igrejas. Esse exercício absolutista foi sempre questionado, especialmente, pelos Reformadores. Mas nunca foi amenizado. Como reconhecia João Paulo II, este estilo de exercer a função de Pedro é o maior obstáculo ao ecumenismo e à aceitação pelos cristãos que vem da cultura moderna dos direitos e da democracia. Para suprir esta falta, os últimos dois papas organizaram uma espetacularização da fé, com viagens e eventos massivos,  como a dos jovens a se realizar  no Rio. 
Esta forma monárquica e absolutista representa um desvio da intenção originária de Jesus, e agora com Francisco deve ser repensada à luz da intenção de Jesus. Será um papado pastoral e de serviço à caridade e à unidade e não mais um papado do poder jurídico absolutista. O Concílio Vaticano II estabeleceu os instrumentos para uma reformulação no governo da Igreja: o sínodo dos bispos, esvaziado e feito até agora apenas consultivo, quando foi pensado para ser deliberativo. Criar-se-ia um órgão executivo que com o papa governaria a Igreja. Criou-se pelo Concílio a colegialidade dos bispos, quer dizer, as conferências continentais e nacionais ganhariam mais autonomia para permitir um enraizamento da fé nas culturais locais, sempre em comunhão com Roma. Representantes do Povo de Deus, cardeais, bispos, clero e leigos e até mulheres ajudariam a eleger um papa para toda a cristandade. Faz-se urgente uma reforma da Cúria na linha da descentralização. Certamente o que fará o papa Francisco. Por que o Secretariado para as Religiões não Cristãs não pudesse funcionar na Ásia? O Dicastério da unidade dos cristãos em Genebra, perto do Conselho Mundial de Igrejas?  O das missões, em alguma cidade da África? O dos direitos humanos e justiça, na América Latina? 
A Igreja Católica poderia se transformar numa instância não autoritária de valores universais, do cuidado pela Terra e pela vida sob grave ameaça, contra a cultura do consumo, em favor de uma sobriedade  condividida, enfatizando a solidariedade e a cooperação a partir dos últimos contra a exacerbação da concorrência. A questão central não é mais a Igreja mas a Humanidade e a civilização que podem desaparecer  Como a Igreja ajuda em sua preservação?  Tudo isso é possível e realizável, sem renunciar em nada à substância da fé cristã. Importa que o papa Francisco seja um João XXIII do Terceiro Mundo, um “Papa buono”. Só assim poderá  resgatar a credibilidade perdida  e ser um luzeiro de espiritualidade e de esperança para todos.” 

* Leonardo Boff é teólogo, filósofo e escritor. - lboff@leonardoboff.com

segunda-feira, 18 de março de 2013

O NOVO PAPA - a sombra de um passado


Horacio Verbitsky é um conhecido jornalista  e escritor argentino, autor de duas dezenas de livros, entre os quais uma obra em cinco volumes que tem como eixo a história da Igreja Argentina, bem como um livro que ganhou enorme visibilidade com a eleição do novo Papa: “El silencio: de Paulo VI a Bergoglio: las relaciones secretas de la Iglesia con la ESMA”.[ou seja, Escuela de Mecánica de la Armada, situada em Buenos Aires, lugar de detenções ilegais e de tortura durante a ditadura militar argentina -1976-83].
Foi este jornalista que esteve na base da polémica de que ontem fiz eco, no texto publicado aqui no Grande Zoo. No dia seguinte e também na Página 12, prestigiado jornal argentino,  Horacio Verbitsky publicou um novo artigo “Cambio de piel “, que enquadrou nos seguintes termos : La primera conferencia de prensa del vocero del papa Francisco fue para desprenderse de Jorge Mario Bergoglio, acusado por la entrega de dos sacerdotes a la ESMA. Como los testimonios y los documentos son incontestables, el camino elegido fue desacreditar a quien los difundió, señalando a este diario como izquierdista. Las tradiciones se conservan: es lo mismo que Bergoglio dijo de Jalics y Yorio ante quienes los secuestraron”. Eis o texto do artigo ontem publicado no Página 12:
“En su primer encuentro con la prensa luego de la elección del jesuita Jorge Mario Bergoglio como Papa de la Iglesia Católica Apostólica Romana, su vocero también jesuita Federico Lombardi descartó como viejas calumnias de la izquierda anticlerical, difundidas por un diario caracterizado por las campañas difamatorias, las alegaciones sobre el desempeño del ex provincial de la Compañía de Jesús durante la dictadura argentina y sobre todo, el papel que desempeñó en la desaparición de dos sacerdotes que dependían de él, Orlando Yorio y Francisco Jalics. Al mismo tiempo, medios y políticos argentinos de oposición incluyeron la nota “Un ersatz”, publicada aquí al día siguiente de la elección papal, entre las reacciones del kirchnerismo por la entronización de Bergoglio. También un sector del oficialismo prefirió aclamarlo como “Argentino y peronista” (la misma consigna con que cada septiembre se recuerda a José Rucci) y negar los hechos incontestables.

La reconciliación
Desde Alemania, donde Jalics vive retirado en un monasterio, el provincial jesuita germano dijo que el sacerdote se había reconciliado con Bergoglio. En cambio el anciano Jalics, hoy de 85 años, aclaró que se sentía reconciliado con “aquellos acontecimientos, que para mí son asunto terminado”. Pero aún así reiteró que no haría comentarios sobre la actuación de Bergoglio en el caso. La reconciliación, para los católicos, es un sacramento. En palabras de uno de los mayores teólogos argentinos, Carmelo Giaquinta, consiste en “perdonar de corazón al prójimo por las ofensas recibidas” 1, con lo cual sólo indica que Jalics ya perdonó el mal que le hicieron. Esto dice más de él que de Bergoglio. Jalics no niega los hechos, que narró en su libro Ejercicios de meditación, de 1994: “Mucha gente que sostenía convicciones políticas de extrema derecha veía con malos ojos nuestra presencia en las villas miseria. Interpretaban el hecho de que viviéramos allí como un apoyo a la guerrilla y se propusieron denunciarnos como terroristas. Nosotros sabíamos de dónde soplaba el viento y quién era responsable por estas calumnias. De modo que fui a hablar con la persona en cuestión y le expliqué que estaba jugando con nuestras vidas. El hombre me prometió que haría saber a los militares que no éramos terroristas. Por declaraciones posteriores de un oficial y treinta documentos a los que pude acceder más tarde pudimos comprobar sin lugar a dudas que este hombre no había cumplido su promesa sino que, por el contrario, había presentado una falsa denuncia ante los militares”. En otra parte del libro agrega que esa persona hizo “creíble la calumnia valiéndose de su autoridad” y “testificó ante los oficiales que nos secuestraron que habíamos trabajado en la escena de la acción terrorista. Poco antes yo le había manifestado a dicha persona que estaba jugando con nuestras vidas. Debió tener conciencia de que nos mandaba a una muerte segura con sus declaraciones”.
En una carta que escribió en Roma en noviembre de 1977, dirigida al asistente general de la Compañía de Jesús, padre Moura, Orlando Yorio cuenta lo mismo, pero reemplazando “una persona” por Jorge Mario Bergoglio. Nueve años antes que el libro de Mignone y 17 años antes que el de Jalics, Yorio cuenta que Jalics habló dos veces con el provincial, quien “se comprometió a frenar los rumores dentro de la Compañía y a adelantarse a hablar con gente de las Fuerzas Armadas para testimoniar nuestra inocencia”. También menciona las críticas que circulaban en la Compañía de Jesús en contra de él y de Jalics: “Hacer oraciones extrañas, convivir con mujeres, herejías, compromiso con la guerrilla”. Jalics también cuenta en su libro que en 1980 quemó aquellos documentos probatorios de lo que llama “el delito” de sus perseguidores. Hasta entonces los había conservado con la secreta intención de utilizarlos. “Desde entonces me siento verdaderamente libre y puedo decir que he perdonado de todo corazón.” En 1990, durante una de sus visitas al país, Jalics se reunió en el instituto Fe y Oración, de la calle Oro 2760, con Emilio Fermín Mignone y su mujer, Angélica Sosa. Les dijo que “Bergoglio se opuso a que una vez puesto en libertad permaneciera en la Argentina y habló con todos los obispos para que no lo aceptaran en sus diócesis en caso que se retirara de la Compañía de Jesús”. Todo esto no lo dice Página/12, sino Orlando Yorio y Francisco Jalics. ¿Quién quiere destruir la Iglesia, entonces? Cada tomo de mi Historia Política de la Iglesia en la Argentina incluye una advertencia: “Estas páginas no contienen juicios de valor sobre el dogma ni el culto de la Iglesia Católica Apostólica Romana sino un análisis de su comportamiento en la Argentina entre 1976 y 1983 como ‘realidad sociológica de pueblo concreto en un mundo concreto’, según los términos de su propia Conferencia Episcopal. En cambio, su ‘realidad teológica de misterio’ 2 sólo corresponde a los creyentes, que merecen todo mi respeto”.
En defensa de la tradición
La calificación de este diario por el vocero de Bergoglio como de izquierda anticlerical revela la continuidad de arraigadas tradiciones. Es lo mismo que el ahora pontífice hizo hace 37 años con sus sacerdotes, aunque entonces implicaba un grave peligro. Las acusaciones contra Bergoglio fueron formuladas por primera vez antes de que existiera Página/12. Su autor fue Mignone, director del órgano oficial de la Acción Católica, Antorcha, fundador de la Unión Federal Demócrata Cristiana y viceministro de Educación en la provincia de Buenos Aires y en la Nación. Ninguno de esos cargos podía alcanzarse sin la bendición episcopal. En su libro Iglesia y dictadura, de 1986, Mignone escribió que los militares limpiaron “el patio interior de la Iglesia, con la aquiescencia de los prelados”. El vicepresidente de la Conferencia Episcopal, Vicente Zazpe, le reveló que poco después del golpe la Iglesia acordó con la Junta Militar que antes de detener a un sacerdote las Fuerzas Armadas avisarían al obispo respectivo. Mignone escribió que “en algunas ocasiones la luz verde fue dada por los mismos obispos” y que la Armada interpretó el retiro de las licencias a Yorio y Jalics y las “manifestaciones críticas de su provincial jesuita, Jorge Bergoglio, como una autorización para proceder”. Para Mignone, Bergoglio es uno de los “pastores que entregaron sus ovejas al enemigo sin defenderlas ni rescatarlas”.
Dos décadas después encontré por azar las pruebas documentales que Mignone no conoció y que confirman su enfoque del caso. Que Bergoglio haya ayudado a otros perseguidos no es una contradicción: lo mismo hicieron Pío Laghi e incluso Adolfo Tortolo y Victorio Bonamín.
Cronos
En estas páginas se profundizó el caso cuatro años antes de que el kirchnerismo llegara al gobierno. La primera nota, publicada en abril de 1999, “Con el mazo dando”, decía que el flamante Arzobispo porteño “según la fuente que se consulte es el hombre más generoso e inteligente que alguna haya vez haya dicho misa en la Argentina o un maquiavélico felón que traicionó a sus hermanos en aras de una insaciable ambición de poder. Tal vez la explicación resida en que Bergoglio reúne en sí dos rasgos que no siempre van juntos: es un conservador extremo en materias dogmáticas y posee una manifiesta inquietud social. En ambos aspectos se parece a quien lo designó al frente de la principal diócesis del país, el papa Karol Wojtyla”. El concepto es el mismo que expresé el jueves cuando la fumarola blanquiceleste conmovió a todas las hinchadas, de La Quiaca a Tierra del Fuego. Aquella nota contraponía la versión de Mignone con la de Alicia Oliveira, abogada del CELS y amiga de Bergoglio, cuya hermana trabajaba en la villa de Flores junto con la hija de Mignone y con los dos curas. “Les dijo que tenían que levantarse y no le hicieron caso. Cuando los secuestraron, Jorge averiguó que los tenía la Armada y fue a hablar con Massera, a quien le dijo que si no pone en libertad a los sacerdotes, yo como Provincial voy a denunciar lo que pasó. Al día siguiente aparecieron en libertad.” También incluía la refutación de un sacerdote de la Compañía de Jesús: “La Marina no se metía con nadie de la Iglesia que no molestara a la Iglesia. La Compañía no tuvo un papel profético y de denuncia, a diferencia de los palotinos o los pasionistas, porque Bergoglio tenía vinculación con Massera. No son sólo los casos de Yorio, Jalics y Mónica Mignone, de cuyo secuestro la Compañía nunca formuló la denuncia pública. Otros dos curas, Luis Dourrón, que luego dejó los hábitos, y Enrique Rastellini, también actuaban en el Bajo Flores. Bergoglio les pidió que se fueran de allí y cuando se negaron hizo saber a los militares que no los protegía más, y con ese guiño los secuestraron”. Ese sacerdote, que murió hace seis años, era Juan Luis Moyano Walker, quien había sido íntimo amigo de Bergoglio. A raíz de la nota, Bergoglio me ofreció su propia versión de los hechos, en la que aparecía como un superhéroe. Tanto él como Jalics, a quien llamé por teléfono a su retiro alemán, me pidieron que atribuyera sus declaraciones a un sacerdote muy próximo a cada uno de ellos. Bergoglio dijo que vio dos veces a Videla y otras dos a Massera. En la primera reunión con cada uno, ambos le dijeron que no sabían qué había ocurrido y que iban a averiguar. “En la segunda reunión, Massera estaba fastidiado con ese jovencito de 37 años que se atrevía a insistir.” Según Bergoglio, tuvieron este diálogo:
“–Ya le dije a Tortolo lo que sabía –dijo Massera.
–A monseñor Tortolo –corrigió Bergoglio.
–Mire Bergoglio... –comenzó Massera, molesto por la corrección.
–Mire Massera...–le respondió en el mismo tono Bergoglio, antes de reiterarle que sabía dónde estaban los sacerdotes y reclamarle por su libertad”.
Me limité a transcribir lo que Bergoglio dijo, con la atribución que me pidió. Pero hasta hoy no me parece verosímil ese diálogo con uno de los gobernantes más poderosos y más crueles, que lo hubiera hecho desaparecer sin ningún escrúpulo. Ambos tenían en común la relación con Guardia de Hierro, el grupo de la derecha peronista en el que Bergoglio militó en su juventud y al que Massera le designó un interventor a partir del golpe, con el propósito de sumarlo a su campaña por la herencia del peronismo. En 1977 la Universidad jesuítica del Salvador recibió como Profesor Honorario a Massera, quien objetó a Marx, Freud y Einstein, por cuestionar el carácter inviolable de la propiedad privada, agredir el “espacio sagrado del fuero íntimo”, y poner en crisis la condición “estática e inerte de la materia”. Massera indicó que la Universidad era “el instrumento más hábil para iniciar una contraofensiva” de Occidente, como si Marx, Freud y Einstein no formaran parte de esa tradición. Bergoglio se cuidó de subir al estrado ese día, de modo que nadie ha visto una foto suya con Massera. Pero es inimaginable que el dictador haya recibido la distinción sin que la ceremonia fuera autorizada por el provincial jesuita que delegó la gestión diaria en una asociación civil conducida por Guardia de Hierro, pero retuvo su conducción espiritual. Luego, Massera fue invitado a exponer en la universidad jesuítica de Georgetown, en Washington. El sacerdote irlandés Patrick Rice, quien pudo dejar la Argentina luego de ser secuestrado y golpeado, interrumpió esa conferencia exigiendo explicaciones sobre los crímenes de la dictadura. Según Rice, el provincial estadounidense no hubiera invitado a un personaje semejante sin la aprobación, o el pedido, del provincial argentino. Estos hechos comprobables desmienten el diálogo fantasioso en el que el jovencito Bergoglio desafía al amo de la ESMA.
Una muerte cristiana
En 1995, un año después que el libro de Jalics se publicó El Vuelo, donde el capitán de fragata Adolfo Scilingo confiesa que arrojó a treinta personas aún vivas al mar desde aviones de la Armada y la Prefectura, luego de drogarlas. Además dice que ese método fue aprobado por la jerarquía eclesiástica por considerar el vuelo como una forma cristiana de muerte, y que los capellanes de la Armada consolaban a quienes volvían perturbados de esas misiones, con parábolas bíblicas sobre la separación de la cizaña del trigo. Impresionado, retomé una investigación que había iniciado años antes sobre la isla del Tigre “El Silencio”, en la que la Armada escondió a 60 detenidos-desaparecidos para que no los encontrara en la ESMA la Comisión Interamericana de Derechos Humanos. Era propiedad del Arzobispado de Buenos Aires y allí celebraban su graduación los seminaristas que egresaban cada año y descansaba los fines de semana el cardenal Juan Aramburu. El sacerdote Emilio Grasselli la había vendido al grupo de tareas de la ESMA, que la compró con un documento falso a nombre de uno de sus prisioneros. Pero no había visto los títulos de propiedad hasta que Bergoglio me dio los datos precisos sobre el expediente sucesorio de Antonio Arbelaiz, el solterón administrador de la Curia que figuraba como dueño. Esto muestra que con aquel episodio no tuvo relación. Arbelaiz hizo testamento a favor de la Curia, que es donde fue a parar el dinero que la Armada le pagó a Grasselli por la isla, donde los 60 prisioneros pasaron dos meses encadenados. Parece el camino típico de una operación de lavado: Arbelaiz vende a Grasselli que vende a la ESMA que compra con un documento falso y la hipoteca se levanta pagándole a la Curia, que es la heredera de Arbelaiz. En uno de sus testimonios judiciales, Bergoglio reconoció que habló conmigo sobre el secuestro de Yorio y Jalics. Pero dijo que nunca oyó hablar de la isla “El Silencio”. Siempre el doble juego, la admisión privada y la negativa pública.
Por la espalda
Durante la investigación encontré por azar en el archivo del ministerio de Relaciones Exteriores una carpeta con documentos que a mi juicio terminan con la discusión sobre el rol de Bergoglio en relación con Yorio y Jalics. Busqué una escribana que certificó su ubicación en el archivo, cuyo director de entonces, ministro Carlos Dellepiane, los guardó en la caja fuerte para impedir que fueran robados o destruidos. La historia que cuenta esa carpeta suena familiar. Al quedar en libertad, en noviembre de 1976, Jalics se marchó a Alemania. En 1979 su pasaporte había vencido y Bergoglio pidió a la Cancillería que fuera renovado sin que volviera al país. El Director de Culto Católico de la Cancillería, Anselmo Orcoyen, recomendó rechazar el pedido “en atención a los antecedentes del peticionante”, que le fueron suministrados “por el propio padre Bergoglio, firmante de la nota, con especial recomendación de que no se hiciera lugar a lo que solicita”. Decía que Jalics tuvo conflictos de obediencia y una actividad disolvente en congregaciones religiosas femeninas, y que estuvo “detenido” en la ESMA junto con Yorio, “sospechoso contacto guerrilleros”. Es decir, los mismos cargos que le habían formulado Yorio y Jalics (y que corroboraron muchos sacerdotes y laicos que entrevisté): mientras aparentaba ayudarlos, Bergoglio los acusaba a sus espaldas. Es lógico que este hecho de 1979 no alcance para una condena legal por el secuestro de 1976. El documento firmado por Orcoyen ni siquiera fue incorporado al expediente, pero perfila una línea de conducta. Sumar al Director de Culto Católico de la dictadura a una conspiración contra la Iglesia sería demasiado. Por eso, Bergoglio y su portavoz callan sobre estos documentos y prefieren descalificar a quien los encontró, preservó y publicó.

1 Carmelo Giaquinta: “Reconciliándonos con nuestra Historia”, organizado por el Proyecto “Setenta veces siete” y Editorial San Pablo, en la 36ª Feria Internacional del Libro, Salón Roberto Arlt, 8 de mayo de 2010.
2 Conferencia Episcopal Argentina (CEA), Plan Nacional de Pastoral, Buenos Aires, 1967, p. 14, cfr. Luis O. Liberti, Monseñor Enrique Angelelli. Pastor que evangeliza promoviendo integralmente al hombre, Editorial Guadalupe, Buenos Aires, 2005, p. 164.
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Documentos referidos no texto:


 De puño y letra de Bergoglio, sobre la isla de la Curia. El manuscrito en el que identifica el expediente sucesorio de la propiedad.

Bergoglio imputa a sus sacerdotes contactos con guerrilleros. El documento que ridiculiza la acusación de campaña anticlerical