quinta-feira, 28 de março de 2013

PALAVRAS DE SÓCRATES


As palavras de Sócrates fizeram comichão em muita gente. É certo e é estranho. Estranhando, pensei: será pelo modo como na sua ausência o atacaram? Será pelo modo ronceiro como o defenderam? Talvez. Mas reconheçamos que, tendo sido frontal, contundente e claro, não saiu do que se poderia esperar. Mas não foi melífluo, nem mordeu nas canelas de ninguém, fingindo que as lambia. Quando se tratou de morder, fê-lo sem cerimónias e com todos os dentes. Antes de disparar não fez qualquer vénia. Terá sido, só, essa frontalidade? Talvez. Mas, verdadeiramente, uma boa parte da sua força  e da devastação que causou na história da carochinha, a que se tem reduzido a narrativa dominante, derivou do desastre a que os autómatos do neoliberalismo  conduziram o país. Uma boa parte da força de Sócrates radicou-se na ostensiva ligeireza de quem actualmente governa e na crescente entaramelação mental e política do inquilino de Belém. E, repita-se, na devastação que têm  vindo a cometer no nosso país:

De facto, hoje, sabe-se:
1) que o caso português foi uma das partes visíveis de um iceberg europeu;
 2) que a gestão dos governos contribuiu menos para a crise em curso do que a lógica predatória do próprio capitalismo, levada ao paroxismo pela banqueiragem, mais ou menos mafiosa, que domina o sistema financeiro;
3) que o atual governo português não é uma excepção, no quadro de cretinismo político dominante nos governantes da Europa fria;
4) que o atual governo é muito diferente do anterior, protagonizando por intermédio da sua diferença um dramático acréscimo de sofrimento para muitos e muitos portugueses; 
5 ) que a troika não é a representante de credores nenhuns, alegadamente ciosos de garantir pagamentos, mas a agente de centros de poder fautores de uma política reaccionária de regressão civilizacional, que nenhum governo conseguiria impor em democracia, por mais toscamente neoliberal que fosse, sem esta encenação.

Talvez, por tudo isso, o PS tenha comentado  com suavidade a importância do evento socrático, os dois partidos da direita tenham escoicinhado, mostrando bem que o ferro os atingiu bem no lombo, e os outros dois partidos de esquerda tenham reagido como se tivessem sido apanhados a colher laranjas no quintal do vizinho.

Enfim, grande movimentação; sendo, talvez, verdade que o mais positivo foi realmente o arejamento do debate político, como reivindicou expressamente José Sócrates.

4 comentários:

JGama disse...

Podem fazer-se muitas críticas a Sócrates. Haverá matérias para o fazer. Mas ontem assistimos a um contraditório que era necessário para desmontar uma narrativa dominante e cobarde. É difícil, por isso, compreender o veneno destilado por Carrilho no DN. A política, no seu sentido mais nobre, também não fica engrandecida com esta destilaria de ódios de estimação.

Maria Pinto disse...

Excelente análise!
É tudo o que me apetece dizer.
Muitos parabéns ao autor!
Maria Pinto

António Horta Pinto disse...

Também acho a análise excelente.
A entrevista era necessária e foi esclarecedora. Sócrates disse muitas verdades que já se sabiam mas que só ganharam em serem ditas pelo próprio e com a frontalidade que lhe é habitual.

Carlos Esperança disse...

Limito-me a subscrever o comentário do meu amigo e ilustre advogado António Horta Pinto.