sexta-feira, 2 de maio de 2008

Da terceira via à via sacra


Esperemos que na Internacional Socialista se deixe de ouvir de uma vez por todas o canto de sereia do "blairismo", essa terceira via virtual que se revelou um simples atalho para o vazio.

De facto, Blair deixou na história o rasto de três vitórias eleitorais sucessivas. Feito histórico que ficará certamente na sombra, quando o pendurarem no pescoço da deriva Bush. Na verdade, Blair no essencial, à escala do mundo, pouco mais será do que uma maneira ligeiramente diferente de pronunciar a palavra "bush".

Ele saiu de cena empurrado pela impopularidade, tendo deixado no seu lugar Gordon Brown, que era considerado o cérebro económico do "blairismo", mas que se revelou um político baço e arrastado, a quem parece faltar o sentido de oportunidade. Por um momento, aparentou ser uma esperança de pós-blairismo, mas, ao mostrar-se caninamente fiel ao legado político do seu antecessor, apenas se revelou, até agora, como cópia tardia de um original que se quereria esquecer.

Isso mesmo parecem ter confirmado os eleitores da Inglaterra e do País de Gales, quando nas recentes eleições municipais deram 20 pontos de avanço aos conservadores sobre os trabalhistas, tendo atirado estes últimos, suprema humilhação, para o terceiro lugar, atrás dos liberais-democratas.

Esta derrota não espelha necessariamente o que será o resultado das legislativas do próximo ano, mas é de muito mau augúrio para os trabalhistas britânicos. Eles correm o risco de, não só serem esmagados nas urnas pelos conservadores, mas também, dado o sistema eleitoral inglês e voltando a ficar em terceiro lugar, o de serem reduzidos a uma força com um modesto punhado de deputados.


Faço votos para que na Internacional Socialista se perceba, finalmente, que os caminhos fáceis da viragem à direita, mesmo que envernizada com tiques de uma modernidade aparente, podem render um ou outro bom resultado eleitoral, perante uma conjuntura de anomia da direita, mas levarão a um destino de desastre quando a neblina das ilusões política se esfumar, deixando à luz do dia os destroços dramáticos das derivas neoliberais.


De que vale, hoje e para o futuro, aos trabalhistas britânicos o perfume esbatido das glórias perdidas da terceira via ?

10 comentários:

Anónimo disse...

Não devemos esquecer que o grande capitalismo explorador e oligárquico mundial tem um nome: COMUNISMO.

Foi a China Comunista com o Vietname e a antiga URSS com os países satélites que recriaram o capitalismo de 1848 (data do Manifesto Comunista) ou pior com trabalho a 30 cêntimos do Euro à hora.
A PCUS auto-dissolveu-se para dar lugar ao capitalismo oligárquico e explorador só mitigado pelo elevado custo do petróleo, gás e outras matéris primas. A Federação Russa só exporta armas para matar pessoas e não possui um único objecto de consumo pacífico para exportar ou até para o mercado interno. O Eng. Jevtuschenkov era o Ministro Comunista para a Indústria Electrónica; hoje é o dono dessa mesma indústria, incluindo a cidade satélite de Moscovo denominada Slikenko ou coisa parecida, uma imitação do Silicone Valey americano que, obviamente, não tem um dono, mas sim milhares de empresas a trabalharem lá.
Não se pode pois criticar o Socialismo Democrático de desvio capitalista sem deixar de ficar boquiaberto e sem explicação para o capitalismo chinês e a imensa dimensão da escravatura chinesa.
Já nos tempos de Mao, os camponeses eram mobilizados para o trabalho escravo das grandes obras, mas o patrão nem dava de comer ou de vestir, ler Jung Chung. Era a família que ficava a cultivar as leiras atribuídas à mulher e filhos do escravo nas aldeias colectivas que tinha levar comida e roupa ao escravo chinês.
Mesmo na antiga Roma e na escravocracia colonial, o patrão fornecia alimentos e abrigos ao escravo. Na China, o escravo levava um tela sob a qual dormia à noite.

Em política não interessa o que os partidos dizem na oposição; interessa o que fazem no poder e o comunismo fez aquilo que nem é possível imaginar de mal e de exploração escravocrata.
Nunca no Mundo e na História da Humanidade, a escravatura foi tão longe como nos regimes comunistas.
E ainda há quem tem a lata de falar do Socialismo Democrático e do Blair ou outros semehantes.
Sim, na Europa Capitalista, as pessoas são pagas para trabalharem e na Inglaterra até não são nada mal pagas.Sucede que em democracia, ao fim de três mandatos, o eleitorado está farto dos mesmos e quer mudanças, nem que seja para pior. Sempre foi assim nas democracias.
Um Abraço de
Dieter Dellinger

aminhapele disse...

Já volto...
Tenho que ir pôr a máscara.
Passei por umas bombas desactivadas,que supunha estarem a trabalhar e foi uma desgraça!
Um cheiro insuportável a pedaços de bloco de betão,impregnados de petróleo e muita ratazana(viva e morta)...

Anónimo disse...

RN em comversa com DD:

1. Nada do que eu disse, quanto à terceira via, é invalidado por qualquer juízo que se formule sobre o modelo soviético ou sobre o modelo chinês. Modelos, aliás, chamados comunistas, apenas por serem dirigidos por Partidos que se audenominavam como tais. Nunca por neles ter algum dia existido algo de parecido com o comunismo.

2. Qualifica-se uma sociedade como capitalista, não se acusa uma sociedade de ser capitalista. Chamar capitalista a uma certa sociedade não é um insulto é uma caracterização.
Qualificar o modelo soviético como capitalista, parece-me ser um elemento de confusão teórica,que nada ajuda a compreender o nosso tempo, sendo certo que nem tudo o que não é capitalista é melhor que o capitalismo.

3. Eu não critico o socialismo democrático de desvio capitalista. Eu critico algumas direcções de alguns partidos por não preservarem a sua autonomia ideológica, em face do paradigma neoliberal.

4. Quanto à China actual, é escassa a minha infromação, mas parece-me claro que os grandes parceiros do actual poder político chinês são as grandes multinacionais, não são os movimentos de esquerda e muito menos aqueles que dentro destes representam o socialisno democrático.

5. Tem toda a razão em sublinhar o elo de continuidade entre a ex-burocracia soviética e uma boa parte do actual capitalismo russo. Essa sucessão talvez estivesse inscrita na natureza das coisas, mas, para mim, ela foi poderosamente incentivada pelas potências ocidentais, que preferiram aniquilar Gobarchov, desamparando-o, para apostarem num outro ex-comunista , mas "borracho", que pilotou esse processo de sucessão que refere.

5. Por mim, nunca fui comunista, nunca estive filiado em qualquer organização comunista, pelo que não tenho qualquer complexo que me faça dar-lhes centralidade, quer para os absolver, quer para os esconjurar. Mas, principalmente, não acho que se possam na Europa de hoje, liberta da sombra soviética, esquecer as clivagnes históricas que a fundaram Foi a aliança das democracias ocidentais com a União Soviética que permitiu derrotar os nazis e os fascistas integrados no Eixo. E, do mesmo modo, em Porugal, os democratas, os socialistas e os comunistas combateram durante décadas o fascismo salazarista.
E, tal como não se podem desvalorizar as diferenças entre as várias correntes anti-fascistas, também não se pode desvalorizar o facto de todas o serem.

horta pinto disse...

Permitam-me umas notas avulsas e algo desconexas por falta de tempo.
1.Para compreender a chamada 3ª via, seria necesário saber quais eram a 1ª e a 2ª; parece-me que para Blair eram o capitalismo selvagem e o socialismo democrático; ora, não me parece que essas duas realidades possam assimilar-se ou conciliar-se em qualquer 3ª via.
2. Para quem tenha lido um pouco de Marx ou sobre Marx, é evidente que nunca houve comunismo neste mundo (a não ser, eventualmente o chamado comunismo primitivo pré-esclavagista); nunca houve sequer um verdadeiro socialismo (a não ser talver durante alguns dias, na Primavera de Praga de 1968, que a URSS se apressou a esmagar, fazendo assim um grande favor ao mundo capitalista estarrecido com medo que "a coisa" alastrasse por toda a Europa). Não basta a um partido ou a um regime chamarem-se comunistas para o serem.
3. Quanto aos "comunistas" chineses, parece-me que finalmente leram Marx, embora algo enviesadamente, e chegaram à conclusão óbvia de que o socialismo é gerado pelo capitalismo, e então, uma vez que na China nunca houve capitalismo,e a sua tentativa de "construir o socialismo" à força não deu qualquer resultado, resolveram agora "construir o capitalismo", também à força, e reproduziram na China a Inglaterra de meados do século XIX, (mas sem as liberdades políticas que nesta já existiam), para para criar um verdadeiro proletariado que construa o socialismo! Mas parece-me que,numa perspectiva marxista, a 1ª vítima dessa criatura será o seu próprio criador, ou seja a ditadura do PC chinês.
4.Concordo com RN em toda a sua análise, de que sublinho particularmente a parte que se refere a Gorbachov e o último parágrafo.

Anónimo disse...

É POR ESTE TIPO DE INTERVENÇÃO, POLÍTICA INTERNACIONAL, QUE A POLÍTICA CASEIRA ANDA COMO ANDA. ANDAM ESTES PSEUDO-INTELECTUAIS A REFILAR COM O QUE ESTÁ A SUCEDER AO PS E DEPOIS CRIAM BLOGS PARA ASSOBIAR PARA O LADO.
BOM,
DEVE ANDAR TUDO BEM.
TENHAM VERGONHA E JUNTEM-SE AO MOVIMENTO DO MANUEL ALEGRE PÁ.

Anónimo disse...

RN responde:

O anónimo das 22.03, mostra que entre os apoiantes do que ele chama o "movimento do Manuel Alegre " também há idiotas. Idiotas anónimos, é certo, mas nem por isso mesnos idiotas.

Anónimo disse...

Faltava a alusão aos pseudo-intelectuais... Há fascistas mentais que se desconhecem...

Anónimo disse...

Caro Dr. RN,
Acho muito interessantes os seus textos sobre politica internacional. Mas gostava de o ver a escrever sobre politica local, tão diferente dos que se passa na internacional. O pensar globalmente e agir localmente (pensando agora em Giddens ou mesmo David Held) não me parece que seja real. O que pensa sobre isto?

Anónimo disse...

RN diz:

Lá chegará o tempo.

Embora neste blog até já tenha escrito textos sobre política nacional e mesmo, ainda que mais raramente sobre política local.

Enfim, não "blogueio" programdamente...

Anónimo disse...

Caro Dr.RN,
Obrigada. Fico à espera.