quarta-feira, 21 de maio de 2008

Algumas ideias, um pouco de futuro




Muitos aceitam, como evidente, que toda a realidade tem duas faces e que no seio dessa realidade interagem dinâmicas que exprimem cada uma delas. Poucos tiram disso as naturais consequências práticas. Poucos usam sequer essa evidência estrutural como guia. para ajudar a compreender os objectos, sobre os quais reflectem.

É também por se desconsiderar esse vector estrutural, no que diz respeito à política, que, por vezes, se cometem erros grosseiros ao vivê-la. Por exemplo, poucos têm a lucidez de perceber que, quando um lado vitorioso leva ao paroxismo da arrogância a sua vitória, tentando esmagar o adversário até ao ápice da humilhação, não está a esmagar o outro até à anulação total, mas a estimular fortemente as suas hipóteses de se retemperar.

Nessa medida, um dos elementos nucleares da arte da política é a capacidade para se chegar até ao limite da determinação e da persistência, sem se atravessar a linha fatal que as separa do fanatismo e do sectarismo. Por isso, nós vemos soçobrar igualmente, quer os pusilânimes incapazes de continuidade, quer os exaltados incapazes de ponderação. Nessa medida, é tão importante não cairmos no sono que nos afasta do que temos que percorrer, como evitar a sofreguidão que nos faz atropelar o que almejamos.

Vem isto a propósito da acção política, da vida política, da luta política, não na perspectiva do cientista, que se ostenta como frio observador de uma realidade que imaginariamente o transcende, mas do ponto de vista do cidadão e militante que procura compreender a sociedade para poder agir sobre ela, movido pela urgência pragmática da vitória. Vitória que, exactamente por ser urgente, não pode ser amarrada ao imediatismo apressado. Pelo contrário, é por ser urgente que tem que ser amadurecida.

E assim essa análise “científica” da realidade política é apenas uma pequena parte da reflexão de que necessita o cidadão-militante, para fazer coincidir, o mais possível, o resultado da sua acção com o horizonte que o motiva. Uma pequena parte que se tem que completar com o conhecimento aplicado à acção, o qual se dela afinal se alimenta, tornando-a mais racional e mais eficaz.


Tem, com tudo isto, uma grande proximidade a diferença entre o modo como devem estruturar-se e agir os partidos de esquerda e o modo como é natural que se comportem os outros partidos.
Neste mesmo registo, sem esquecer essa pertença estruturante à esquerda, pode-se compreender que haja particularidades, dentro deste conjunto, próprias, por uma lado, de um partido de governo; compreensiveis, por outro lado, num partido de esquerda com ambições de exercício do poder, que almeja conseguir e manter um apoio eleitoral muito vasto (nunca menos de 40 % do eleitorado votante) .

E se falamos de um partido de esquerda, eleitoralmente forte, com expectativas fundadas de chegar ao poder institucional, estamos necessariamente a falar num partido reformista. São muitos os aspectos a valorizar na construção, ou no fortalecimento de um partido reformista. O primeiro é, seguramente, o de assumir uma verdadeira identidade reformista, o que o tem que levar para bem longe de qualquer contra-reforma que lhe usurpe o nome, bem como do rendilhado das pequenas transformações aprisionadas no esquecimento da grande transformação.

Igualmente, se pode compreender que numa perspectiva reformista, apostada numa sociedade diferente, onde se viva em liberdade e com justiça, numa atmosfera solidária de criatividade individual, seja decisivo valorizar aquilo que cada povo conseguiu de bom na sua saga colectiva, à custa do seu próprio sofrimento, sem escamotear o que continua mal, o que se tenha vindo a tornar difícil de suportar. Insisto, criar a ideia de que tudo está por fazer é o mais eficaz antídoto da esperança. Sem uma convicção firme de que vale a pena lutar, de que vale a pena resistir a prepotências e injustiças, dificilmente se lutará durante muito tempo.

E não é exagerado dizer que, num certo sentido, o pessimismo nacional (ou regional, ou local) é mais uma temível arma de conservação social, de anquilosamento cultural e de reforço de privilégios, do que uma alavanca de progresso.

Sendo militante do Partido Socialista, projecto, naturalmente, estas reflexões no caminho que ele tem para percorrer. Muitos são os vectores e os objectivos políticos que justificam reexame, ponderação e debate. E eu espero que se abra um processo ambicioso de debate interno, nos meses que precedem o próximo Congresso Nacional do PS.
Mas tudo isso deve ser pensado num contexto, onde estejam presentes várias ideias estruturantes, entre as quais poderei destacar algumas das que me parecem mais relevantes, com alguma conexão com o que atrás se disse.

-A realidade política é complexa e contraditória, mostrando-se muitas vezes como aquilo que não é, tendo-se por isso tornado crucial a luta ideológica.

- A política é uma luta democrática, pelo que os adversários nem podem ser demonizados como inimigos, nem angelizados como irmãos.


- Ser de esquerda está longe de ser uma jornada por um carimbo gasto, que perdeu a razão de ser. Pelo contrário, é a mais consistente intimidade com o futuro, a assunção do contraponto das sociedades actuais, que continuam a ofender e a pôr em risco a liberdade, a justiça, a solidariedade prática, a criatividade individual, a humanidade e a sua sobrevivência. Ser de esquerda faz compreender que o lado esquerdo é o lado dos injustiçados que não se conformam com a injustiça, dos oprimidos que não renunciam á liberdade. Faz com que esteja com naturalidade e sem reservas ao lado deles.

- Ser socialista é não cair no logro do fim da história, um logro que nos quer fazer crer que o capitalismo é eterno. E, assim, contribuir para que o pós-capitalismo se reforce no seio do capitalismo, e reforçando-se vá antecipando uma nova hegemonia.
-Ser socialista é, naturalmente, procurar contribuir para que o pós-capitalismo seja socialista, ao materializar numa sinergia virtuosa a concretização dos grandes valores humanistas que estruturaram o movimento socialista moderno, como sucessor de todas as lutas emancipatórias e de todas as práticas solidárias que foram acontecendo, ao longo da história.

- Agir como socialista, hoje, em Portugal é ser cidadão do mundo com a preocupação central de ajudar os portugueses a serem, na civilização humana, um parceiro activo. E é bom valorizar o ponto a que já chegámos como povo, para que possamos construir o resto do caminho com a confiança adquirida, por aquilo que percorremos.

- Estas e outras ideias gerais devem ser passadas pelo crivo da reflexão e do debate, para darem robustez aos aspectos programáticos da identidade do PS. De facto, só um rearmamento ideológico nos dará a necessária consistência para podermos ser uma força transformadora, nesta sociedade que, numa espiral mediática, nos procura confiscar o futuro, arrastando-nos par um pessimismo histórico, que, por mais coadjuvante, que possa parecer dos interesses dos poderosos do momento, apenas verdadeiramente aumenta o risco de futuras catástrofes sociais.

3 comentários:

horta pinto disse...

Em suma, se bem percebi: ao PS não pode bastar ser "melhor"(?!) que o PSD; tem de ser DIFERENTE, isto é, tem de ser um partido de esquerda, e não um partido unicamente preocupado com as estatísticas do défice e do PIB. E há muito, em Portugal, a fazer nesse sentido:mais justa repartição dos rendimentos; mais justa incidência dos impostos; etc.

Anónimo disse...

Os teus elaborados teóricos são perfeitos mas tem o pecdo da perfeição. Sabes, como eu, que o ideal é paralítico, e sabes que a praxis política a soluções rudimentares. O eleitor, lamentavelmente, só entende o pão,pão; queijo, queijo.
Vamos tentar emendar esta politica desastrada do PS. Claro que não há alternativas: mas pode haver um pais perdido....

Anónimo disse...

RN em diálogo:

1. Mesmo que houvesse escritos verdadeiramente perfeitos, este nunca seria um deles.

2. Só uma teoria que não seja simplista permite agir com simplicidade. Com uma simplicidade verdadeiramente eficaz.

3. Uma política que não consiga também mudar os eleitores, tornando-os também cidadãos, poderá conservar a realidade tal como ela existe, mas dificilmente a tornará melhor.

4.Não digo que não haja alternativas potenciais, mas parece-me evidente que se o PS se desmoronasse como expressão institucional dominante do bloco social em que está enraizado, seriam necessários vários anos, até que outra expressão política o subsittuisse. E esses anos seriam suficientes para destruir o país, ou a democracia no país, ou ambos.