domingo, 20 de setembro de 2009

Asfixia democrática ou asfixiados pela democracia?


1. Ontem, em Coimbra, à entrada do comício do PS um pequeno grupo de manifestantes rodeava dois cartazes hostis ao PS, radicados nas reivindicações dos enfermeiros. É um facto lamentável, com alguns precedentes, embora raros. Durante muitos anos, após a estabilização da democracia, funcionou uma regra de conduta cívica por todos respeitada, que não permitia que se perturbassem comícios ou quaisquer actividades políticas públicas de qualquer partido, com manifestações hostis. É uma regra de elementar deontologia democrática e um afloramento mínimo de uma ética de convivência cívica. Não pretendo aqui sequer discutir a legalidade dessas realizações sem prévia autorização, porque entendo que este problema tem muito maior relevância ético-política do que jurídica.

Confesso que me irritei. Provavelmente com muitos dos inúmeros socialistas que estavam próximos da pequena manifestação aconteceu o mesmo. Continuo a considerar uma lamentável provocação qualquer manifestação deste tipo, junto de eventos politico-partidários.


Mas não posso deixar de sublinhar que durante as horas em que ali estiveram, rodeados de socialistas, ninguém correu com o pequeno grupo ou o molestou. Que eu tivesse conhecimento nada lhes aconteceu, enquanto ali estiveram. A comunicação social nem considerou isso notícia. E, desta vez, acho que teve razão. Todos acham natural que junto a um comício do PS, mesmo uma manifestação ética e deontologicamente questionável possa decorrer sem que os socialistas exerçam qualquer tentativa de correr com os provocadores. Também acho isso natural e reconheço que os meus camaradas com naturalidade projectaram assim com clareza uma das características identificadoras do PS, a tolerância e o respeito pelos que não pensam como nós.


Provavelmente, os manifestantes não eram mais do que apoiantes de outros partidos tentando perturbar a actividade legítima de um outro, embrulhados de uma circunstância profissional assim instrumentalizada. Mas, nem isso fez com que os socialistas perdessem a cabeça.

É a este partido que os pajens políticos continentais do trauliteiro das ilhas acusam de ser o autor perverso de uma asfixia democrática.

2. É também curioso que esses, que agora se fingem preocupados com um fantasma que eles próprios inventaram, se tenham sentido desasfixiados, durante o salazarismo. Realmente, não os encontrámos do lado dos que então resistiram à asfixia democrática, realmente existente, quando garrotava o povo português, talvez porque faziam parte da quadrilha dos seus fautores ou com ela se conformavam.

Arautos hipócritas de uma verdade imaginada, acabaram por apostar na sistemática mentira como estratégia aflita de quem se sente perdido num naufrágio de ideias, para onde se deixaram arrastar pela sofreguidão do poder.

É o regresso da direita caceteira, no fundo, alérgica à democracia, cujo código genético mais fundo repousa na memória do Sr. Dom Miguel e do seu afilhado do século seguinte, o Doutor Salazar. É a sombra do que há de pior no nosso passado colectivo que ameaça, uma vez mais, cair sobre nós. Ou menos dramaticamente, é a desorientação da direita a fazê-la esquecer o verniz da sua alegada modernidade, para a precipitar na arca sombria da sua mais funda identidade histórica.

3. Aliás, se por um momento concedêssemos ao fantasma da asfixia democrática o estatuto de um juízo discutível, facilmente poderíamos demonstrar o seu absurdo.
De facto, vivendo nós num Estado de Direito sob a égide de uma Constituição que todos aceitam como garante explícita de todos os direitos humanos, qualquer comportamento do Estado que configure agressão dos direitos políticos, cívicos, sociais e económicos dos cidadãos há-de encontrar pela frente uma norma ou um mecanismo que o sancione. Por isso, qualquer órgão do poder político, que pretenda asfixiar qualquer cidadão ou qualquer entidade, estará, desde logo, sob a alçada dos mecanismos de defesa da legalidade democrática.

Ora, não se conhecem processos visando o Governo que invoquem a existência dos pressupostos de facto de uma asfixia democrática verdadeiramente palpável. Quando muito podem citar-se eventos dispersos trazidos ao combate político, cuja discussão evidenciou , precisamente, o contrário de qualquer asfixia.

Aliás, MFL não cita como asfixiados as centenas de milhar de portugueses que o sistema capitalista pela sua própria natureza atirou para a pobreza e a exclusão, mas não se esquece de trovejar em nome de dois ou três ricaços que se queixam de que o Estado não lhes deu as benesses que almejavam; ou em nome de dois ou três militantes laranja que se julgavam com direito a eternizar-se nos lugares em que o compadrio laranja os colocou. Mas mesmo no caso dos militantes laranja furiosos com os privilégios perdidos, ou dos empresários indignados pelos subsídios que não alcançaram, é sempre possível recorrer aos tribunais, se realmente por parte do Estado houver práticas ilegais que configurariam uma asfixia democrática se de facto existissem. Tudo balelas para construir uma teia de invenções que desse base a um possível nominalismo de campanha que trouxesse para o palco mediático o fantasma de uma asfixia democrática.

4. De facto, para a direita que MFL, paradigmaticamente
representa, o que a asfixia é a democracia, principalmente quando ela dita o seu afastamento do poder. Essa direita majestática e parasitária considera-se detentora de um direito divino ao exercício do poder. Quando fica muito longe dele começa a faltar-lhe o ar, quando sente que esse afastamento se pode prolongar muito sente-se asfixiada.

Por isso, subliminarmente, quando julga praticar a manhosa exploração de uma propaganda insultuosa a Dr.ª Ferreira Leite está afinal a exprimir o que no mais fundo da alma lhe provoca falta de ar: a democracia. Assim , por detrás do tosco ataque ao PS o que é real é esse incómodo profundo da direita por não ser poder, essa alergia atávica à democracia que apenas tende a suportar como um ónus, mas com a qual enche a boca para ocultar o pouco caso que realmente faz dela.

Pois é sentem-se asfixiados com a democracia? São alérgicos aos cravos de Abril ? Sonham com o poder eterno? Paciência. Mas estejam descansados a nossa democracia é tanto para ser fruída por nós como por vós. Não exclui ninguém Não esperem, no entanto, que vos peçam desculpa por sentirem falta de ar numa democracia.

Habituem-se.

3 comentários:

Anónimo disse...

Rui Namorado estás de parabéns, mais uma vez, pela lucidez e pedagogia do teu pensamento e pela clareza e firmeza das tuas palavras.

Considero o teu Blogg um dos melhores a nível nacional.
jrga

José Gama disse...

Não poderias lançar uma seta mais certeira, Rui! "Asfixiados pela democracia" deveria ser considerada a frase da campanha, neste momento. A própria MFL a confirmou nas intervenções que fez quando se deslocou à Madeira onde, diz ela, não há asfixia democrática. Pudera!
Este teu exercício analítico dispensou a técnica psicalítica do divã para desvendar as ideias mais "profundas" (do inconsciente)dos dirigentes do PSD neste momento.

André Pereira disse...

Sem ideias, sem propostas. Ou melhor, com medo e vergonha de as revelarem, os senhores da direita vão-se entretendo em teorias da conspiração e da asfixia.
Ficou mal o ataque a Conselheiros do Conselho Superior de Magistratura. Uma forma clara de pressão sobre pessoas cuja idoneidade e dignidade, pelo cargo que desempenham, deve ser respeitada e garantida.