quinta-feira, 7 de maio de 2009

O Santo brinca com o fogo

Modestamente, a Igreja Católica Italiana, pela voz solene dos seus bispos, reclama do primeiro-ministro italiano Berlusconi discrição.

O inefável estadista, velha raposa da política espectáculo, polvilhou as suas listas eleitorais para o Parlamento Europeu de garotas de calendário, vestindo-as de uma adequada nudez no espaço mediático, na esperança de que, fazendo-as cobiçar gulosamente pelos eleitores verdadeiramente machos e levando-os assim a esquecer a Europa, a crise e todas as outras coisas chatas e desagradáveis, conseguisse arrastá-los para um voto, ainda que concupiscente, na sua direita.

Arrasada por esse impulso “cicciolinniano » , e por mais alguns detalhes que envolviam uma gostosa garota abaixo dos dezoito anos, a esposa do estadista italiano assomou de supetão à boca de cena mediática e pediu o divórcio. A esquerda italiana, liderado pelo estranho Partido Democrático, pareceu acordar da sua modorra sonolenta , tendo suspirado uma comedida indignação. Como alguém que foi apanhado a roubar um rebuçado, o visado, depois de atabalhoadamente reduzir a torrente de beldades que estava a preparar para a alta política, a um pequeno punhado das verdadeiramente excelentes, denunciou com argúcia o dedo maçónico da oposição com uma esbatida foice e martelo, pálidos, ao fundo. Alegou o “velho gaiteiro” que a sua inocente esposa sucumbira às perfídias malévolas de uma oposição sem escrúpulos.

A própria gostosa garota abaixo dos dezoito anos se derramou com leveza pela comunicação social , garantindo que o Berlo era realmente um paizinho para ela. Um paizinho muito querido, mas apenas um paizinho.


Foi então que os piedosos bispos num assomo de cuidado com cada ovelha do rebanho por que são responsáveis, passaram a mão pelo pêlo de tão irrequieto cordeiro e sussurraram uma suave admoestação , esperando que o Berlo fosse doravante mais discreto.

Não vimos os anjos da virtude enlouquecidos ribombando censuras no espaço santo, não vimos o coro dos sacerdotes vigilantes invocando infernos. Vimos um plácido coro de bispos admoestando carinhosamente o irrequieto estadista.

Gostámos dessa distância prudente da política espectáculo, dessa distância salubre do carnaval de um estadista piedoso. Mas não conseguimos deixar de cair na tentação de imaginarmos as tempestades que teriam desencadeado os vigilantes bispos se tivesse sido um incauto primeiro-ministro de esquerda a procurar atrair votos com uma qualquer aposta na indução do pecado. Especialmente, se o pecado se vestisse de uma exuberância de curvas, numa tentação de lábios e de gestos sensuais de beldades de calendário.

2 comentários:

miss red disse...

entre sugar daddy's e a violência sobre o corpo das mulheres (que vende sempre tudo...) - assim vai andando a política mundial... andam, de facto, a gozar connosco... grande texto. parabéns.

Anónimo disse...

RN sublinha talvez superfluamente:

E se posso sublinhar, digo, que nem é toda a política mundial.

É o chefe da direita italiana, ao qual a Igreja Católica tem dado um preciosos apoio político e contra o qual, mesmo perante os mais chocantes atropelos à moral que ela sustenta, não ousa verdadeiramente levantar a voz.

Mas, é claro que, quando é a esquerda que tem escolhas políticas que a afastam da moral católica, esses mesmos sacros sujeitos desabam sobre ela com toda a santa trovoada de que disponham.