domingo, 13 de dezembro de 2009

Perguntas à esquerda.

A via soviética de ruptura com o capitalismo revelou-se como um atalho para lado nenhum, a via revolucionária da tomada do poder pela violência armada por uma minoria decidida e organizada, para a partir dele extinguir o capitalismo, tem vindo a ser abandonada como alternativa assumida. Talvez por enfrentar o bloqueio, aparentemente intransponível, advindo da extrema vulnerabilidade de qualquer solução limitada a um único país, que não seja acolhida como legítima pela comunidade internacional.

O “blairismo”, como corolário lógico da deriva gestionária do sector dominante da Internacional Socialista, inscreveu-se já na história como apêndice estranho do guerreirismo “bushista” e ostenta no seu passivo a sua completa irrelevância como factor capaz de esconjurar as crises do capitalismo, sem ter mostrado quaisquer virtualidades no conseguimento de uma sociedade mais justa ou de democracias mais perfeitas. Mas, se a crise para onde o neoliberalismo empurrou o sistema capitalista continua a fazer vítimas, mesmo quando se sugere como estando a perder virulência, os partidos da Internacional Socialista parecem ainda não ter escapado, por completo, ao buraco negro da terceira via. É certo que eles reassumiram já, no plano do discurso, a irredutibilidade da sua diferença em face do neoliberalismo dominante, impregnaram mais profundamente a sua voz de um timbre de preocupação pelo social. No entanto, parecem continuar tolhidos pelo economicismo neoliberal, consentindo que, na arena das instâncias internacionais, os agentes, que foram os responsáveis visíveis pela crise que nos sufoca, regressem do silêncio onde tinham caído, para tentarem voltar a transformar em lei as suas ladainhas suicidas. E no quadro da Europa em geral e da União Europeia em particular, tudo isto é tanto mais grave quanto poderia ser diferente sem necessidade de qualquer ruptura dramática.

Que os arautos saudosos de um futuro já desaparecido e os que se recusam a si próprios nas complacências que cultivam se digladiem entre si, num exacerbamento do quotidiano político, como se o longo prazo fosse um campo reservado aos amanuenses da história, na sua cumplicidade estrutural com os numerólogos da política, é algo que podendo compreender-se não se pode aceitar.

Por isso, em Portugal e na União Europeia, devendo estar atentas ao resto do mundo, é tempo de as várias esquerdas assumirem com nitidez uma posição quanto ao sistema capitalista.



Aceitam-no ou recusam-no? Reconhecem-se, por completo, nas sociedades por eles geradas, ou almejam sociedades diferentes, mais livres, mais justas, mais fraternas? Se reconhecem o capitalismo como o fim da história o que é que os distingue essencialmente da direita ? Se consideram como hipótese possível , provável e desejável a emergência de um pós-capitalismo, como pensam contribuir para que ele chegue mais depressa num trajecto auspicioso ? Advogam a via revolucionária da tomada do poder pela violência armada? Em caso, afirmativo: num só país? Num só Continente? Ou optam pela via reformista, num gradual aprofundamento da democracia , numa gradual construção da liberdade, da igualdade e da fraternidade, solidariamente, com justiça? Em caso, afirmativo: apenas a partir do Estado, ou numa interacção entre a a acção política pública e as dinâmicas sociais e culturais, vividas pela sociedade civil ?

É urgente responder a estas perguntas. É urgente que todos os quadrantes da esquerda respondam a estas perguntas, que todos os partidos de esquerda respondam a estas perguntas. Não se esperem respostas rápidas, se as pretendermos reflectidas e autênticas. Mas façamos votos para que comecem rapidamente a preparar-se os processos de reflexão colectiva que possam levar a respostas a essas e a outras possíveis perguntas da mesma natureza, que se identifiquem como estruturantes.

Está na nebulosidade e nos equívocos que subsistem, quanto a estas e a outras questões de fundo, uma boa parte das causas da crispação que, em Portugal e nalguns outros países da Europa, impede as esquerdas de cooperarem entre si no plano institucional. Em Portugal, aliás, a presente conjuntura sublinha, com particular nitidez, a relevância desses factores.

Não espero que uma clarificação completa das questões sugeridas conduza , por si só, ao degelo das relações no seio da esquerda portuguesa, mas penso que o diálogo passará a ser mais fácil. De facto, é sempre mais fácil negociar e cooperar com o outro, sem receio de nos estarmos a descaracterizar, se estivermos completamente seguros da nossa identidade e se ela for também evidente para o exterior.

5 comentários:

petit paysan disse...

a este propósito, excerto de um texto mais do que esclarecedor de Jean Baudrillard ( em 1981! )

http://holderlinswalk.blogspot.com/2009/12/real-challenge.html

cumprimentos,

Anónimo disse...

Caro Rui Namorado,

Um tema muito interessante e uma proposta que pode trazer um bom debate à esquerda.

Ainda ontem, a propósito da tomada do poder de forma violenta ou não, chegou de Itália um exemplo caricato mas interessante. Um italiano desconhecido, farto das tropelias populistas e neo-fascistas de Berlusconni, perdeu a paciência, e espetou-lhe com uma miniatura de uma catedral no trombil, pondo-o a sangrar ...

A violência, muitas vezes na História, assumiu também esta vertente: a descarga da raiva individual sobre os ditadores/capitalistas/exploradores ...

A violência individual teve entre algumas correntes anarquistas muitos seguidores que descobriam na rapidez da bomba e do explosivo, maior eficácia que anos e anos a convencer a maioria social da força que a democracia lhes dava para mudarem o poder!

Do lado dos marxistas, em especial da corrente luxemburguista, a questão da violência sempre foi vista de acordo com as situações concretas.

As revoluções, particularmente a partir do século XX, não o são, só porque começaram de forma violenta. De forma violenta ou pacifica o que está em causa é sempre a mudança na natureza do poder que se exerce e na capacidade que o poder mudado tem para implementar reformas radicais com apoio social maioritário.

Por exemplo, no Chile de Allende, havia condições para que o governo da Unidade Popular iniciasse um processo de reformas radicais na economia, na organização politica do Estado, assente na mobilização dos trabalhadores, dos jovens, da grande maioria entre os cidadãos. Mas não, o governo da UP ficou por aquilo que Rosa Luxemburgo sempre criticou e que é ficar-se por um pretenso equilibrio ... o que acaba sempre por descambar as coisas para o lado da reacção, como veio a acontecer!

Na sociedade portuguesa, a revolução de Abril também abriu as portas para uma revolução profunda ao nível do poder e do aparelho de Estado. Mas, mais uma vez, a teoria do equilibrio fez descambar as coisas para o lado da restauração de um aparelho capitalista caduco e parasita .

Para já, fico por aqui!
João Pedro Freire
Tribuna Socialista

A.Brandão Guedes disse...

Meu caro Rui Namorado este debate seria prévio e essencial a uma plataforma para uma governação á esquerda...seriam as bases para estabelecer depois um programa para 4 ou oito anos!Mas estão as nossas esquerdas interessadas nessa hipótese?Tudo indica que não.Assim o que esperam as mulheres e homens de esquerda deste país?Os que militam num partido esperam mais uns milhares de votos nas próximas eleições e eventualmente algum lugar na AP e os outros viram-se para o trabalho social, cultural e sindical ou arrumam as botas!
Ora, o trabalho social, cultural e sindical exige uma articulação política, um projecto plural e diverso de transformação que beneficie a maioria e seja obra de uma maioria!Um abraço.BG

Anónimo disse...

A. Brandão Guedes,

Não o conheço, não nos conhecemos. Mas somos seguramente duas pessoas que veriam com muita satisfação a constituição de uma plataforma de esquerda para uma governação à esquerda. Como nós, deverão existir muitissimos mais, até porque este País tem uma base social para isso e que é uma maioria social de esquerda. Essa maioria social precisa de ter expressão política. Ou seja, é preciso partir dessa maioria social para a alternativa politica e não da alternativa politica para a maioria social. Não é uma questão de pormenor, mas a condição para que uma alternativa politica à esquerda não fique refém de meros acordos entre direcções partidárias.
Sou aderente do Bloco de Esquerda e sou de opinião que a discussão proposta pelo Rui Namorado, faz todo o sentido e pode ser um bom ponto de partida para plataformas/pontes/espaços de convergência à esquerda numa perspectiva democrática, socialista e, na minha opinião, inequivocamente anti-capitalista. É que vai sendo tempo do espaço da esquerda socialista assumir capacidade para definir uma alternativa económica à dita economia de mercado, mesmo quando é pintada de "social".
João Pedro Freire

Anónimo disse...

Ao longo dos séculos o homem sempre se transcendeu a si próprio, é da sua natureza!

A sua proposta não é coisa nova, no entanto tem todo o sentido de se aplicar.

Como disse, e bem o eminente professor A. Sedas Nunes em Maio de 1967, um ano antes de Paris em Maio de 1968, " O desenvolvimento lança-nos num mundo novo, trata-se com efeito de um mundo novo, do ponto de vista económico, do ponto de vista social, do ponto de vista
político e do ponto de vista cultural.
Mas também de um futuro que incessantemente se renova, de um mundo onde se operam factores de renovação, de transformação, de elaboração de um futuro diferente"

Essa sociedade desenvolvida para a qual se propõe caminhar, virada à esquerda, terá de se desligar da «sociedade tradicional» que é essencialmente repositório do passado, algo em que se conserva aquilo que se herdou, ou seja: as formas tradicionais de trabalhar, de produzir, de viver, de sentir e de conhecer a própria vida, e uma «sociedade moderna», que é essencialmente laboratório do futuro.

Uma sociedade voltada para o futuro; logo, sociedade que a si mesmo se contesta, a si mesma põe em causa, a si mesma se discute. É bem verdade!
Mas, há sempre um mas para atrapalhar a condução da vida, há algum tempo, neste local de discução democrática, li uma espécie de arrazoamento sobre o porquê de os professores socialistas continuarem sem formar o seu próprio sindicato...permaneceu uma dúvida em mim!

Mas se alguns desejarem intactas as estruturas e formas do poder político, se desejam intactas os aparelhos que dominam a educação, se desejam intactas as máquinas de obstrução á justiça, se desejam intactas as concepções de vida e se uma certa ambiguidade política persiste...Como havemos de nos juntar e repensar de novo a esquerda no poder?

De qualquer forma é uma proposta positiva.

Mas será que esta aventura tem sentido, ou pode tê-la?

Se o tem ou pode tê-lo, tal sentido decerto será o desenvolvimento; não, porém, o de um desenvolvimento só económico, ou só social, ou mesmo económico-social; mas um desenvolvimento do e para o homem. E creio que é a
esse desenvolvimento do homem que devemos, verdadeira e legitimamente, chamar de «Progresso de Esquerda».
De "o Catraio" com respeito