quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Discurso, Política e Língua


Uma das causas da dificuldade dos cidadãos comuns em se entusiasmarem com a política estará, certamente, na degradação da qualidade do discurso político. Quer os textos oficiais dos partidos, quer os textos dos comentadores jornalísticos, quer os cometimentos em prosa, alegadamente comunicacional, de muitos pequenos e médios responsáveis dos mais diversos partidos, incorrem com demasiada frequência, ou na vulgaridade mais previsível, em puros atentados à língua portuguesa, ou na simples falta de bom senso.


É claro que ninguém esperaria que o discurso político trouxesse sempre consigo um indisfarçável fulgor queirosiano. Mas, daí a aceitar-se que, tão frequentemente, descambe num amontoado de palavras que se atrapalham umas às outras, vai uma grande distância.


Mas, mesmo quando as palavras, num esforço louvável, se conseguem alinhar com um mínimo de respeito pela mais óbvia gramática, não raramente acabam por cair num entediante rosário de lugares comuns.


E, assim, dia após dia, é posta à prova a resistência dos cidadãos ao império do entaramelamento discursivo, colocando-se à língua portuguesa um verdadeiro desafio de sobrevivência. E, curiosamente, o maior perigo não espreita nas vozes rudes mas coloridas do povo, que acaba por fazer sua a história de uma língua que torna viva, mas no verbo tosco de letrados mal amanhados presos ao cinzento carregado da sua própria monotonia.


Porém, o anémico verbo dos discursos políticos oficiais não se caracteriza apenas, pelo seu ódio profundo à gramática, pela sua alergia aos cânones mais simples da língua portuguesa. É também, cada vez mais, um discurso de ganhar e de perder, de avançar e de recuar, de iludir e de fintar, estruturado pelos mesmos parâmetros seguidos pelos discursos sobre o futebol.


Aliás, há muito que avalio a densidade ideológica de um político pela medida em que o seu discurso se confunde ou se distingue dos discursos dos treinadores de futebol. E são muito poucos os que conseguem romper, em primeiro lugar, a barreira tecida pela sucessão de palavras através das quais sempre procuram dizer-nos como se deve fazer, mas que nunca conseguem mostrar o que se deve fazer; e, em segundo lugar, contornar o pântano de previsibilidade que a quase todos parece assombrar.

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