quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Inimigos de si próprios


Há os que sustentam a existência de um cabalístico arco constitucional, dentro do qual colocam o PS, o PSD e o PP, para a partir dessa visão esotérica da política, defenderem o imperativo nacional de transformar o PS num servo venerador e obrigado da direita.


Há os que imaginam o PS como parte da direita, para daí retirarem sentido à necessidade de o terem como parceiro na luta contra a direita realmente existente, ou seja, PSD e PP.


Os primeiros procuram atrair o PS, por intermédio de uma operação de verdadeira bruxaria política que lhes convém, para o seu próprio pântano político.


Os segundos procuram empurrar o PS de modo a que se afaste tanto deles que torne impossível a cooperação.


Percebo os primeiros: que a direita siga uma estratégia que a beneficia é algo que se revela como lógico.


Espantam-me os segundos: que uma parte da esquerda empurre a outra parte para longe de si, é algo que apenas reforça a direita e dificulta a cooperação entre as esquerdas.

15 comentários:

Xavier Brandão disse...

O P"S" é de esquerda? O P"S" não será, na verdade, um entrave à afirmação de uma verdadeira opção de esquerda no nosso país? Não terá sido o P"S" que, pelas suas políticas de direita, afastou os partidos à sua esquerda para tão longe quanto possível? Perguntar é responder e aquilo que eu sinceramente espero, para bem da esquerda, é o desaparecimento de um partido que dá mau nome aos princípios da esquerda e que, por arrasto, faz todo o serviço à direita. Com que credibilidade fica a esquerda (a verdadeira) depois de ter visto o seu nome lançado na lama pelo seu P"S"?

Rui Namorado disse...

1- Seria interessante conhecer a sua opinião sobre a razão que tem levado o PS, que exclui do âmbito da sua esquerda,a ter tido durante décadas em Portugla, um maior apoio eleitoral do que as outras esquerdas. Bem como confirmar se considera que em Portugal a esquerda se reduz a 20% do eleitorado.

2.Também gostaria de lhe perguntar quais são os partidos que considera de esquerda em Portugal. Apenas o BE ? Apenas o PCP? Apenas o MRPP? Apenas o POUS? A soma de todos eles? Alguns deles ?

3. Supondo que a sua esquerda consegue o poder em Portugal, quais os partidos irmãos com se poderá conjugar na Europa e no Mundo ?

Tribuna Socialista disse...

O PS não é uma única realidade. O PS não é só a sua direcção sócratica. Nem só o seu governo. Mas, infelizmente,o que é uma realidade é o silenciamento totalitário interno de qualquer opinião contrária, que a direcção de Sócrates conseguiu ao longo dos últimos anos, para que a política governamental pró-liberal seguisse o seu caminho sem contestação interna. E para esse silenciamento, muito contribuiu a apatia das esquerdas que existem no PS. Por exemplo, aquela a que o Rui Namorado pertence e a outra afecta ao Manuel Alegre. Parece que só existem na blogosfera, nas intevenções na Comissão Nacional do PS e muito pouco mais. Não têm uma intervenção sistemática dentro de toda a estrutura partidária (núcleos, secções, federações), como acontece em França no respectivo PS, por exemplo, com a corrente "Democratie & Socialisme".
As esquerdas do PS, nos momentos decisivos, acabam por fazer uma defesa algo acritica de José Sócrates, como se Sócrates fosse uma alternativa à direita. Uma coisa é o PS e a sua base social e militante e a outra é a direcção do PS responsável pelas políticas desenvolvidas nos últimos quatro anos.
No PS há esquerda ... há sim senhor! Precisa-se é de mais actividade, mais acção alternativa, mais diferenciação relativamente às políticas de Sócrates e à conduta da sua direcção.
A esquerda em Portugal, que é o PS, que é o BE, que é o PCP, que é uma imensidão de pessoas fartas das politicas que nada mudam, precisa de convergencias ... mas convergencias que não signifiquem só soma de votos e de deputados, mas outras políticas de sentido democrático e socialista, que ponham fim ao neo-liberalismo!

Jota Mavia disse...

Confesso que já não consigo levar a sério os militantes socialistas que, afirmando a sua vocação de homens e mulheres de esquerda, apoiam as políticas do PS.
O argumento de que o PS tem tido, nas últimas décadas, um maior apoio eleitoral "do que as outras esquerdas" é, no mínimo, intelectualmente desonesto.
A fronteira entre a esquerda e a direita está claramente definida para uma parte do povo. Para estes, a opção é clara: ou votam CDS/PSD ou votam PCP/BE. Outra parte desse mesmo povo vota PS reconhecendo-lhe a matriz de uma direita liberal e outra, ainda, continua a votar PS por mera esperança de que as promessas de cariz socialista venham a ser cumpridas.
Só é preciso dar tempo ao tempo para que, estes últimos, reconheçam o logro traiçoeiro em que as direcções do PS os têm feito cair.
Claro que é preciso tempo!
Argumentações, em defesa do PS, como aquela que aqui encontro que chega ao desplante de misturar MRPP com políticas de esquerda, só ajudam a que o tempo seja mais lento...
Talvez seja essa a intenção. Paciência.

Rui Namorado disse...

1. O que é intelectualmente pobre é qualificar como argumento desonesto a invocação de um facto. Só é desonesto invocar-se falsamente um facto. Não pode sê-lo, invocá-lo com verdade.

2. Pela minha parte tenho, neste blog, bem como noutras ocasiões públicas, tomado posições críticas em face da política do PS.Sou dirigente nacional do PS com base no apoio dos militantes que votaram numa moção de orientação política alternativa à do secretário-geral. Tudo isso não é um certificado de razoabiidade para aquilo que diga e pense, mas é um sinal de que não me calo quando devia falar. Como eu há muitos dentro do PS. E certamente como eu há muitos, fora do PS. Mas gostaria que nas áreas do PCP e do BE houvesse um menor seguidismo em face das respectivas direcções políticas.

3. Tenho apontado como um risco inerente à linha política seguida pelos partidos europeus da Internacional Socialista o seu desmoronamento e a consequente perda da qualidade de expressões institucionais do povo de esquerda, com hipótese de assumirem funções de governo. Essa possível catástrofe política está mais próxima noutros países do que em Portugal. E o que a torna mais dramática é o facto de, no seio na esquerda, em nenhum caso se desenhar um bloco alternativo que possa ocupar um lugar equivalente ao que corre o risco de ser perdido pelos partidos da Internacional Socialista.
Aliás, é conhecido na Europa um único caso em que a posição eleitoralmente hegemónica no seio da esquerda conduziu a responsabilidades de governo um partido político que, embora tivesse vindo a aderir a essa Internacional, era originariamente oriundo de outra área dentro da esuqerda.É o caso italiano, cujo Partido Comunista se transformou no PDS, para depois se limitar a ser um vago DS, desembocando mais recentemente num Partido Democrático, onde se misturou com a ala esquerda da antiga Democracia Cristã.Um desastre, portanto. Ou seja, não é seguro que um eventual colapso da IIªInternacional suscite a emergência de uma outra hegemonia institucionalmente relevante no seio da esquerda. E é praticamente certo de que isso nunca ocorrerá num curto prazo. E esse hiato será duramente pago pela base social, pelos interesses sociais da base eleitoral do conjunto das esquerdas europeias.

Mas se isto é assim à escala europeia, mais o é no caso português. De facto, a crispação entre o PS e o resto da esquerda e o PS pode dificultar muito qualquer solução governamental radicada neste partido, mas certamente não abrirá as portas a qualquer outro protagonismo do conunto da esquerda que implique uma conjungação entre o PS e o resto da esquerda.

Distribuir culpas e aplausos, com base nas preferências pessoais de cada um, pode ser emocinalmente gratificante, mas, em termos práticos, é politicamente estéril.

Tribuna Socialista disse...

A esquerda não precisa de "purismos", nem de "esquerdas mais à esquerda que a esquerda" ... mas a esquerda precisa de se diferenciar de coisas que parecem hoje "imutáveis" ou até "sem alternativa" ! Como por exemplo: a economia de mercado, uma concepção de Europa onde converge Durão Barroso, Sócrates, M Ferreira Leite e toda a tralha neo-liberal, a NATO como hipotética aliança "de defesa", uma certa ideia de que basta votar PS para se barrar o caminho à direita, "não importando" quais as políticas futuras ... sem purismos, sem vanguardismos, tudo isto é IMPRESCINDÍVEL discutir à esquerda!
Rui Namorado é um dirigente da "Esquerda Socialista" do PS. É indiscutivelmente um militante de esquerda de longa data. Mas a sua "Esquerda Socialista", tirando Coimbra e as intervenções na CN do PS, o que faz mais? Promove listas alternativas às afectas à direcção do PS, sempre que há eleições em núcleos, secções e federações? Organiza debates políticos públicos e/ou internos? Tem algum blogue, algum periódico, algo onde expresse permanentemente a sua visão alternativa à direcção do seu partido? É que se não faz nada disto, então não promove qualquer diferenciação, nem se assume como alternativa a Sócrates.
É claro que não concordo com a fronteira entre esquerda e direita definida por "Jota Mavia". É que se assim fosse , quantas vezes é que poderiamos falar em maioria de esquerda na A.R. ou em maioria social de esquerda? Repito o que já opinei: o PS não é uma coutada de Sócrates e da sua direcção ...
JOÃO PEDRO FREIRE

Xavier Brandão disse...

1- Não percebo bem onde quer chegar com a primeira pergunta ("Seria
interessante conhecer a sua opinião sobre a razão que tem levado o PS (...)
a ter tido durante décadas em Portugal, um maior apoio eleitoral do que as
outras esquerdas") e, de qualquer modo, não pretendo ter à minha disposição
os instrumentos que mo permitam fazê-lo de maneira satisfatória. No entanto,
posso tentar a hipótese do logro em que caem os eleitores a cada eleição com
as promessas nunca cumpridas de que agora sim vamos cumprir com a nossa
palavra e ser socialistas e não ceder à tentação do business as usual e a
esperança que põem as pessoas de que finalmente, desta vez, as coisas possam
ser diferentes; a tentação do voto útil (que acaba por se revelar bem
inútil) para apenas escolher o menor dos males - coisa extraodinária, o PS
não tem muito mais a oferecer do que isto. Quanto à segunda parte da sua
pergunta ("Bem como confirmar se considera que em Portugal a esquerda se
reduz a 20% do eleitorado."), não vejo nada de mais falacioso: o facto de eu
não considerar o PS de esquerda, não invalida que pessoas que sejam de
esquerda votem no PS, pelas razões que mediocremente tentei explicar.

2- A segunda pergunta também não faz muito sentido: é que para já ainda
não vesti nenhuma camisola e, ao contrário do que possa ter dado a entender,
não pretendo ser o juiz de quem é "realmente" de esquerda e de quem não o é.
Apenas considero que há um conjunto de princípios elementares que permitem
qualificar um indivíduo ou um colectivo como sendo de esquerda e que o PS
não obedece a nenhum deles. E, repetindo-me, o PS neste momento é um entrave
a uma opção de esquerda neste país. E não sei qual a solução a este
problema, mas acredito cada vez mais que ela não depende de partidos, nem
de propostas vindas de cima para baixo, mas antes, ao inverso, de um
programa estabelecido e executado directamente pelos trabalhadores e pelo
povo.

3- Não vou estar à espera dos outros para lutar por novas formas de
organização da sociedade. Os portugueses não têm de estar à espera que os
outros façam a história por eles, mas antes tomar o seu destino nas suas
mãos. E os "partidos" com que Portugal se poderá conjugar na Europa e no
Mundo são os povos da Europa e do Mundo - não me interessam as classes
tecnocráticas que decidem pelos outros em proveito próprio e para o mal
daqueles que elas governam.

Xavier Brandão disse...

Correcção:

Onde se lê:
"(...)mas antes, ao inverso, de um
programa estabelecido e executado directamente pelos trabalhadores e pelo povo.",

leia-se:
""(...)mas, ao inverso, de um
programa estabelecido e executado directamente pelos trabalhadores, desempregados, precários e pelo povo.",

Rui Namorado disse...

Numa parede do meu quarto na república onde vivi em Coimbra na minha juventude, estava escrita uma frase de Bossuet de que nunca me esqueci: " Não há pior desregramento do espírito do que tomar como realidade aquilo que gostaríamos que ela fosse"

Xavier disse...

Não há pior desregramento de um partido socialista do que tornar-se num partido de direita.

Rui Namorado disse...

Suponhamos que XB dispunha do mágico poder de tornar realidade tudo aquilo que afirmasse, passando o PS a ser, dessa maneira, um "partido de direita".

Que virtualidades práticas abriria para a esquerda portuguesa a certificação dessa qualidade do PS ?

Que benefícios teriam todos aqueles para quem o tipo de sociedade existente é um prejuízo permanente ?

Tribuna Socialista disse...

O PS é, infelizmente, um partido de esquerda com uma direcção claramente de direita com efeito eucalipto ... seca tudo à volta!
A direcção do PS só tem capacidade verbal de esquerda no período das campanhas eleitorais, para, depois, se for governo, voltar tudo ao mesmo do que já conhecemos ao longo de quatro anos!
A opção "Sócrates ou MFL" é falsa e joga a favor das abstenções. É pena que as esquerdas do PS, branqueiem o que se passou nos últimos anos de governo Sócrates e apresentem-no agora como uma "alternativa de esquerda" ... pra melhor, está bem, está bem! Para pior já basta assim!
João Pedro Freire

XB disse...

vou procurar responder às perguntas de Rui Namorado mais tarde. Assim que conseguir obter os instrumentos e material que permitam demonstrar as minhas asserções. Enquanto isso, há um excelente texto por um economista francês, Frédéric Lordon, sobre o PS francês (o link: http://www.mouvements.info/Le-centrisme-erreur.html) que proponho que leia. E acho que muito do que lá está dito é transponível para o nosso caso. Aborda, mais ou menos directamente, aquilo de que falámos até agora.

Rui Namorado disse...

1.Diz o JPF:"A opção "Sócrates ou MFL" é falsa e joga a favor das abstenções."

Então qual é a alternativa verdadeira a essa falsa opção?

2.O conceito de branqueamento em política é um conceito pobre. Será mais útil dizer-se que a esquerda do PS pode não conseguir os seus objectivos; pode dizer-se que não os conseguirá por completo; pode dizer-se que não os conseguirá em tempo útil. E se isso for dito, a discussão será colocada num plano fecundo fecundo. Neste plano, o que se me oferece dizer, neste momento, é que corremos esse risco. Mas como a política é no essencial uma luta, tem inscrita em si própria a possibilidade de falhar os sesu objectivos, uma e outra vez.

Optar pela tese do branqueamento, intelectualmente legítima mas politicamente estéril, seria equivalente a um caminho que não sigo, pelo facto de o considerar politicamente estéril,e que consistiria em acusar os ectores socialistas do BE de branqueamento da identidade maoista-estalinista do sector do BE orinudo da UDP.

Dentro da esquerda, é difícil, mas é necessário, que cada uma das suas componentes, sem renunciar à sua diferença e à sua liberdade crítica,seja capaz de encarar as outras componentes como quem procura de uma outra maneira ou por um outro caminho, objectivos próximos e nunca como perversões irredutivelmente comprometidas com a negação da esquerda.

De facto, é curioso como convergem para um mesmo resultado, que objectivamente convém á direita, os que proclamam que já não há esquerda nem direita e os que empurram, na sua cabeça, para fora da esquerda uma parte dela.

Tribuna Socialista disse...

Caro Rui Namorado,

A alternativa não tem de ser encontrada nos partidos que têm alternado no Governo. A alternativa é também o BE, é também a CDU, é também o CDS ... Ter capacidade para entrar no jogo da alternancia, não significa que se é "a" alternativa.
Numa perspectiva de esquerda, não tenho que ficar pela alternancia, mas posso PERMANENTEMENTE lutar por uma solução de governo, a qual até pode nem ser a pretendida pelas direcções partidárias.
Ainda por cima quando é previsivel que NINGUÉM terá a maioria absoluta, então aqui temos mais uma razão para tentarmos que o movimento social possa influenciar o Parlamento. E tendo os partidos de esquerda - PS, PCP e BE - previsivelmente a maioria na A.R., qual a razão para se lembrar que há uma maioria social que, de certeza, apostaria numa maioria política que tivesse tradução num governo com outras políticas anti-liberais e de sentido democrático e socialista.
Passando ao Bloco. O BE é, de facto, o resultado convergente de várias correntes provenientes da esquerda e da chamada extrema-esquerda. Mas ao longo de 10 anos, o BE conseguiu criar condições de debate (é claro, que nem tudo é perfeito!) e hoje afirma-se claramente como um partido-movimento da esquerda socialista. Houve, há e, de certeza, de continuará a existir confronto de ideias, de vivências e de experiências entre correntes que no BE têm estatutáriamente o direito de se organizarem.
Pessoalmente, como militante socialista com referenciais anti-estalinistas, anti-liberais, marxistas e libertários, há lutas ideológicas das quais não abdico!
Por isso, lutei durante muitos anos no seio do PS e da JS, e, sai quando constatei que o poder da direcção nacional era muito próximo de algo totalitário.
Faria o mesmo no Bloco, se fosse preciso!