quinta-feira, 15 de agosto de 2013

PENSAR A POLÍTICA

Eis uma entrevista de Marilena Chauí, que transcrevo da página web  da CartaCapital, a qual remete para o blog de Cynara de Menezes, Socialista Morena.Não é a primeira vez que dou voz  neste blog a esta importante filósofa política brasileira. Aliás, já foi possível ouvi-la em pessoa, mais do que uma vez, em Coimbra  em iniciativas do CES.

Neste tempo, em que um mediatismo em aceleração paroxísitca tenta cretinizar os cidadãos, impedindo-os de pensar politicamente a política, é um exercício mental muito salutar seguir a reflexão de quem olha para os grandes problemas do nosso tempo, sem concessões às vulgatas e sem complacência para com  o unidimensionalismo neoliberal. Mesmo quando não se concorda com ele , por completo, o seu pensamento exigente e caloroso estimula-nos e desafia-nos.

Por isso, da fonte acima mencionada, transcrevo uma notícia sobre um episódio em que Marilena Chauí foi protagonista e uma entrevista. 
1.
“Eu odeio a classe média!”, bradou a filósofa e professora da USP Marilena Chauí em uma palestra em maio, causando furor na direita e perplexidade em parte da esquerda. “A classe média é uma abominação política porque é fascista; é uma abominação ética porque é violenta; e é uma abominação cognitiva porque é ignorante. Fim”, completou. Confesso que eu mesma fiquei confusa com a afirmação. Não somos todos nós, progressistas, também classe média? Não seria uma generalização? Ou é apenas uma provocação?
O leitor João Paulo Martins, estudante de jornalismo na Cásper Líbero, fez uma entrevista com Marilena onde ela fala das manifestações pelo país, de Espinoza, do ENEM e também explica a que classe média se referia em sua diatribe. E diz mais: para Chaui, a tal “nova” classe média não é classe média coisa nenhuma, mas sim “uma nova classe trabalhadora”.
Eu ainda tô na dúvida. Concordo quando ela diz que “ideologicamente, vitoriosa é a classe média”, porque se refere a uma determinada linha de pensamento que, desafortunadamente, vem ganhando espaço no País –inclusive nesse “nova” classe ascendente que a filósofa diz que é a “trabalhadora”. Mas continuo achando que há várias classes médias e não apenas uma. Me digam o que vocês pensam.
***
2. 
[entrevista feita por João Paulo Martins]

Como a senhora analisa as manifestações que estão acontecendo pelo Brasil?
Marilena Chauí: Embora pareçam vários movimentos sociais dispersos, o importante é perceber que há alguns elementos unificadores. Existe um tema que eu denomino inferno urbano. O inferno urbano, em sua totalidade, significa a verticalização dos condomínios e shopping centers, o aumento demográfico e a expulsão dos moradores das regiões de exploração imobiliária para as periferias cada vez mais distantes. Complementando o inferno urbano, você tem o problema do transporte coletivo que é indecente, indigno e mortífero, além de a cidade ser construída privilegiando o veículo individual. Os culpados por este inferno urbano são as montadoras com a produção de carros, as empreiteiras responsáveis pela explosão imobiliária e os cartéis de transporte urbano que contribuíram para sua ineficácia. Disto tudo, podemos ver a luta pela moradia, pelo aluguel, pelo sistema viário da cidade, pela educação e pela saúde. Todas estas causas formam um movimento unificado contra a produção do inferno urbano.
Em contrapartida a este panorama, venho percebendo declarações de muitos jovens em defesa do apartidarismo e com um posicionamento radical contra a política. Eles acabaram aderindo à ideologia neoliberal das empresas de comunicação que desqualificam os partidos políticos porque querem ocupar o espaço público em seus lugares. Ver alguns segmentos de manifestantes se pronunciarem desta forma me preocupa muito, pois a situação dos partidos políticos minoritários no Brasil é a pior possível. Vivemos em uma sociedade conservadora que transformou os partidos políticos em clubes privados que operam por clientela, tutela e cooptação. Ainda de quebra, há o pacote Abril do general Golbery que monta o sistema partidário brasileiro e força a justiça eleitoral com um entulho autoritário através de campanhas de coalizão. Vejo todas estas questões como pautas de reformas políticas e motivos para manifestações populares. Ainda assim, apesar de dispersos, os movimentos têm tudo para se organizarem em um tema unificador. Sem isto, perde-se o saldo organizativo, fazendo com que eles se enfraqueçam.

Uma característica comum a estes movimentos é  a organização sem uma liderança específica. A senhora considera isto positivo?
M.C.: Sim. Você não precisa ter a forma tradicional de divisão entre lideranças e liderados. Esta hierarquia não precisa aparecer. Eu mesma participei de inúmeros movimentos sociais onde a forma  de organização era a autogestão. Operando desta maneira, você consegue um movimento muito mais libertário, sem a introdução de nenhuma diferença entre os participantes. É um equívoco pensar que a verticalização hierárquica traz eficácia aos movimentos. Em toda minha vida, os movimentos que vi chegarem mais longe e conseguirem mudanças importantes para suas épocas foram os organizados desta maneira, sem eleger uma liderança específica, o que democratiza a opinião dos integrantes.

Como a senhora analisa o posicionamento da mídia em relação às manifestações no Brasil?
M.C.: A atitude da mídia foi a esperada. No primeiro instante, ela criminalizou os movimentos pelo fato de terem sido oriundos da esquerda. Quando os movimentos passaram a ser divulgados pelas redes sociais, se tornaram de massa e o caráter de esquerda foi se diluindo entre as reivindicações populares. Então, ela passou a celebrar as manifestações e levá-las para o lado mais conservador e reacionário dentro da sociedade. A mídia detém quase um monopólio político em termos mundiais, exercendo o controle econômico de muitos setores através da propaganda. Sendo bem direta, eu diria: nada de novo no front.

Como a senhora analisa o panorama geral da educação brasileira nos últimos dez anos?
M.C.: Eu pontuaria como positivo do ponto de vista da democratização do acesso e da revalorização da escola pública em todos os níveis, mas problemática na questão das estruturas básicas educacionais. E isto não é por falta de recursos, mas sim por inabilidade em usá-los da maneira correta. Recuperar esta estrutura educacional após 20 anos de ditadura e 20 anos de políticas neoliberais não é uma tarefa fácil para o governo.

Sobre o ENEM, por que a senhora acha que a USP não aderiu ao exame até hoje?
M.C.: A decisão sobre a adesão ou não ao ENEM é tomada pelo conselho universitário da reitoria, que é majoritariamente ligada ao PSDB. Então, eu não diria que é uma ação imediata e direta do governo estadual para contrapor a proposta de democratização do ensino feita pelo governo federal, mas sim uma ação indireta de PSDBistas ligados à reitoria da USP, um fato deplorável no meu ponto de vista. Esta resistência por parte da USP me entristece muito. Sou muito cautelosa ao concordar que somos a vanguarda do ensino. Podemos até ser em algumas áreas, porém em outras eu diria que somos a pior retaguarda de todas, principalmente nas questões políticas que dizem respeito à democratização dos direitos humanos.

O Brasil conseguiu avanços significativos do ponto de vista econômico e social nestes últimos anos. De que maneira a senhora enxerga termos estes avanços por um lado, mas por outro observarmos uma intensa retração nos direitos humanos, como a liderança do deputado Marco Feliciano na Comissão de Direitos Humanos da Câmara e a presença massiva da bancada evangélica no Congresso?
M.C.: Isto acontece porque o governo conseguiu a hegemonia do ponto de vista das políticas sociais e dos movimentos sociais, mas não do ponto de vista ideológico. Ideologicamente, o que nós temos vitoriosa é a classe média. Do lado pentecostal, temos a Teologia da Prosperidade, e no que se relaciona ao conservadorismo típico, temos a ideologia do empreendedorismo. Isso significa uma visão da sociedade individualista, competitiva e sem as relações de solidariedade e cooperação. Fatos que estão ligados ao núcleo do pensamento da classe média: a ordem e a segurança. Em uma sociedade onde se deseja um progresso no sentido ideológico, a presença forte desta ideologia regressista é um empecilho tremendo. Por isto, ainda observamos estes absurdos como o projeto de “cura gay” e outros insultos aos direitos humanos. O entrave está aí: a hegemonia progressista não é total, e a ideologia prevalecente é a conservadora, que impede termos uma sociedade mais justa, solidária e humanitária, principalmente com as minorias sociais.

A senhora criou enorme polêmica ao atacar a classe média. Algumas críticas vieram inclusive de teóricos da própria esquerda. Gostaria que deixasse claro a qual classe média seus ataques se referiam: a que já era estabelecida como classe social ou a que entrou em ascensão após o governo do PT?
M.C.: Não acredito que os programas sociais do governo tenham criado uma nova classe média no Brasil. O que eles criaram foi uma nova classe trabalhadora. Ela é nova, pois foi criada nos quadros do neoliberalismo. A classe trabalhadora clássica no Brasil se tornou minoritária com o tempo. Isto tudo se deu pela fragmentação e precarização de seus serviços, juntamente à desarticulação de suas formas de identidade, resistência e luta. Então, as políticas governamentais originaram uma nova classe trabalhadora heterogênea, desorganizada e precária no sentido de não possuir um ideário pelo qual lutar. Esta nova classe trabalhadora é que absorve a ideologia da classe média: o individualismo, a competição, o sucesso a qualquer preço, o isolamento e o consumo. Sendo assim, não é que exista uma nova classe média, mas sim uma nova classe trabalhadora que é sugada pelos valores da classe média já estabelecida. A classe média estabelecida é a que sempre existiu. O que há de novo é o fato de ela ter crescido quantitativamente e do ponto de vista econômico, ou seja, ela vai mais vezes a Miami e à Disney por ter se tornado mais abonada. É justamente esta classe média estabelecida e poderosa que eu ataco, e não a nova classe trabalhadora criada nos quadros sociais do neoliberalismo.
O que distingue uma classe social da outra não é a renda ou a escolaridade. O que distingue uma classe social da outra é a maneira de ela se inserir no modo social de produção. Se você se insere como proprietário privado dos meios sociais de produção, você é capitalista. Se você é assalariado que vende sua força aos proprietários privados dos meios sociais de produção, você é proletário. Quando não se é nenhum dos dois, ocupando uma posição intermediária da pequena propriedade comercial, agrícola e das profissões liberais, você constitui a classe média. Esta classe média já estabelecida que é petulante, arrogante, ignorante e fascista. Ela é movida por um sonho de se tornar a burguesia detentora dos meios sociais de produção e possui um pavor de se tornar parte da classe trabalhadora. Porém, ela nunca se tornará esta burguesia, pois não entende o processo social para se tornar burguês, mas sustenta seu sonho através da ordem, da repressão e da segurança. Realmente a tal classe média é uma flor que não se cheira.

Analisando o panorama de mudanças sociais e políticas no mundo hoje, a senhora ainda concorda com a afirmativa de Espinoza de que a paz é uma virtude e, portanto, a guerra é um vício?
M.C.: A guerra não é um vício. A guerra é o que acontece quando você não tem a paz. Espinoza diz o seguinte: ‘A finalidade da vida política é fazer com que não haja nas pessoas medo nem insegurança’. Nós temos medo e insegurança porque não sabemos o que será do futuro. Mas quando eu tenho medo, este medo vem sempre acompanhado de esperança. Este jogo de medo do mal e esperança pelo bem faz com que Espinoza afirme sobre a finalidade da vida política em assegurar ao indivíduo a inexistência de receios para o futuro. E a política faz isto através do direito, do sistema de leis e instituições que me permitem acordar sabendo que se houver uma tragédia não ficarei desamparada. A guerra, por outro lado, é a reintrodução do medo. Ela repõe o medo como forma das relações sociais e destrói aquilo que é o núcleo da vida social e política. Eu diria que ela ainda é um vício desde este ponto de vista.

Em contrapartida, Espinoza diz o seguinte sobre a paz: ‘A paz é diferente da ausência de guerra’. A ausência de guerra não significa que você tem paz, significa que não estão explicitados conflitos violentos que poderão surgir a qualquer momento. A paz, portanto, é a afirmação de que a qualidade das instituições, direitos e leis garantem que estes conflitos podem existir sem que se destrua o corpo político da sociedade. Eles podem ser trabalhados, pois a paz –diferentemente da guerra–, não criminaliza os conflitos. Neste panorama que ainda permeia nossa sociedade, estou de acordo com esta afirmação, ainda que muitas instituições componentes do corpo político do Brasil e do mundo não assegurem necessariamente a paz às pessoas.

domingo, 4 de agosto de 2013

HOJE - um poema especial num dia especial


                                                                [ João de Deus ]

Dia de Anos

Com que então caiu na asneira
De fazer na quinta-feira
Vinte e seis anos! Que tolo!
Ainda se os desfizesse…
Mas fazê-los não parece
De quem tem muito miolo!

Não sei quem foi que me disse
Que fez  a mesma tolice
Aqui o ano passado…
Agora o que vem, aposto,
Como lhe tomou o gosto,
Que faz o mesmo? Coitado!

Não faça tal; porque os anos
Que nos trazem? Desenganos
Que fazem a gente velho:
Faça outra coisa; que em suma
Não fazer coisa nenhuma,
Também lhe não aconselho.

Mas anos, não caia nessa!
Olhe que a gente começa
Às vezes por brincadeira,
Mas depois se se habitua,
Já não tem vontade sua,
E fá-los, queira ou não queira!

 [ João de Deus ]

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

LARANJODUTO



Foi-lhe atribuído o papel de protagonista impoluto, a ele um pré-cavaquista que já liderou o PSD. Naquele jardim relvado, cheio de portas, portinhas e portinholas, deveria ser o ministro grave que faria esquecer os álvaros e os alvaríssimo, a tempestade albuquérquica e todas as outras sombras de gaspar que teimassem em persistir. Passearia pelos corredores solenes da Europa a sua patine americana, adquirida na Fundação adequada. Deixaria escapar subtilmente a sua pertença a um governo do bloco central, na penumbra dos últimos tempos do século passado. Enfim, por entre as prováveis traquinices da miudagem, passearia agora um senhor.

Mas, apesar das suas sombras, a luz crua do mediatismo não foge de algumas virtudes. Rapidamente, lançou o odor ácido da sua “podridão” sobre as navegações financeiras do vulto.
Alegou-se, num primeiro momento, uma vaga inocência, pontuada de altaneiros silêncios e refugiada na penumbra discreta do mundo dos negócios. Mas o demónio dos factos incómodos regressou no bojo da referida ”podridão” tão incrivelmente apostada em divulgar acontecimentos pouco recomendáveis. 







quinta-feira, 1 de agosto de 2013

RAPOSAS, RAPOSINHAS E RAPOSÕES

Uma deputada do BE, Ana Drago, usou a feliz metáfora de uma raposa numa capoeira, para se insurgir contra a nomeação para o actual Governo de um secretário de estado, que ao serviço da banca tentara vender, sem êxito,  swaps altamente tóxicos ao governo anterior.

Ele seria uma verdadeira raposa na capoeira dos dinheiros públicos. A sua conexão com a ministra albuquerca apenas nos obrigaria a ficar ainda mais alerta.

Fui pensando espantadamente  com os meus botões, porque razão os nossos iluminados três estarolas teriam deixado a galguista-mor do "reino" ser acompanhada de  tão amatreirada predadora.A resposta chegou com a súbita luz da evidência. Não foi por distracção ou incúria, que deixaram entrar uma raposa nos seus domínios. Realmente, todos eles, governo e presidência, são em si próprios uma autêntica  raposa, o arquétipo da raposa, o espírito da raposa.

 Em suma, estamos envolvidos numa autêntica uma raposada a que, para nosso mal, pouco pode já acrescentar um especialista em vender swaps. Ou seja, uma simples gota de raposice dificilmente pode agravar um  farto raposal. 

Pobre galinheiro!!

quarta-feira, 31 de julho de 2013

A MENTIRA TEM PERNA CURTA.

A ministra albuquerca recitou ontem na Assembleia da República um guião argumentativo cuidadosamente preparado por especialistas. O essencial da táctica seguida foi ocultar sob uma catadupa de considerações e informações técnicas o que estava realmente em causa. E o que estava realmente em causa, neste caso, quanto à ministra,  só indirectamente tinha a ver como a tarefa central da  Comissão Parlamentar. O que estava em causa no imediato era saber se a ministra tinha ou não mentido, sendo para esse efeito meramente instrumental o conteúdo do que disse.

Estava pois em causa  uma afirmação sua prestada na Comissão, através da qual expressamente disse que o anterior Governo não tinha dado qualquer informação sobre contratos "swaps” ao actual governo. Não foi uma afirmação desvalorizadora do tipo de informação recebida foi uma explícita alegação da sua completa ausência.

 Ora os próprios elementos factuais usados pela ministra na sua intervenção desmentem a veracidade dessa ausência. Ela adjectivou depreciativamente as informações recebidas, mas ao fazê-lo reconheceu implícita mas inequivocamente que as tinha recebido Tentar modular negativamente a qualidade da informação recebida, desvalorizando-a é, em si, um reconhecimento tácito de que, quando a ministra  alegou ausência de informação por parte do anterior governo, mentiu. Portanto, a alegadamente feliz prestação da ministra albuquerca na Comissão Parlamentar de ontem realmente não foi mais do que uma confissão, quiçá involuntária, de que realmente mentira aos deputados numa sessão anterior.


Aliás, se assim não fosse, não teria feito sentido um comunicado do ex-Ministro  Gaspar no qual, na sequência da mentira da ministra, se viu obrigado a vir a público desdizê-la, ao afirmar expressamente que ele próprio havia recebido informações sobre o assunto do anterior governo.

Apesar da grande lavagem mediática, sofregamente posta em prática pela máquina de propaganda do governo e pelos seus lacaios comunicacionais, ficou claro que na verdade a ministra mentiu. Todo o circo montado e toda a estratégia de ocultação desenvolvida servem para sublinhar o facto de não estarmos perante um deslize circunstancial próprio da inexperiência política de quem nele incorreu, mas perante uma mentira propositadamente dita para desacreditar falsamente um outro governo. Mostrando quão volátil é a sua ética, uma vez descoberta a albuquerca fugiu para diante, recusando-se a admitir a verdade da sua mentira e insistindo arrogantemente nas suas diatribes. O primeiro-ministro declarou-lhe apoio , mostrando assim quão hipócrita é o seu estender de mão ao PS, na conjuntura que atravessamos. De facto, estender melifluamente a mão a um partido e apoiar contra ele um comportamento tão rasteiro como o que a albuquerca teve não é uma linha política é uma hipocrisia militante. 

terça-feira, 30 de julho de 2013

PALHAÇOS ?


Um grupo de cidadãos, como acima se pode ver [entre os quais identifico um velho amigo], resolveu assistir a um debate  na Assembleia da República. Alguns deles, por misteriosas razões, resolveram reforçar o respectivo nariz com uma bola vermelha, semelhante às que alguns palhaços usam, por vezes, quando se divertem e nos divertem.

Uma revoada de polícias desabou de imediato sobre eles, arrancando-lhes os referidos apêndices. Apreciei a diligência dos "cívicos". Mas fiquei a pensar para com os meus botões.

Em que lei se basearam as policiais criaturas para tão celeremente arrancarem os suplementos de nariz a pacatos cidadãos ? Haverá nos parágrafos mais escondidos do regulamento da AR um preceito que proíba suplementos de nariz ? Todos os narizes, ou só os vermelhos? Só nas galerias ou também na sala do Plenário da AR ? Em caso afirmativo, a proibição estende-se ao Governo, ou apenas abrange os deputados ? Todo o Governo ou só os ministros mais histriónicos?

Interroguei-me também sobre o impulso enérgico que animou os polícias. Considerariam eles que uma tão inovadora forma de expressão só podia ser uma tentativa  de agressão ao Governo, o qual  para os policiais era o único  destinatário óbvio da imputação de palhaços?

É o que pode chamar efeito "boomerang", em termos simbólicos: ao atropelarem os direitos civis dos cidadãos com nariz vermelho, para defesa do Governo, os polícias mostraram que os únicos palhaços verosímeis presentes na AR eram os membros do Governo.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

PIXORDICES 30 - a falsa desmentira


O PAPA VISTO POR LEONARDO BOFF.


“Este é o papa da ruptura” : é o título de uma entrevista feita a Leonardo Boff teólogo brasileiro e um dos mais altos expoentes da teologia da libertação. Foi publicado no site da Deutsche Welle /Brasil . Foi feita antes da ida do papa ao Brasil, publicada no passado dia 22 de julho, podendo agora ser confrontada com o modo como a visita  decorreu. A entrevista é mais um elemento para nos ajudar a compreender se há algo de potencialmente novo na Igreja Católica na esteira deste Papa. No caso português, apesar da marca conservadora predominante na hierarquia católica, não se pode deixar de valorizar tudo o que lhe diga respeito, tão significativa é a percentagem de portugueses que são católicos.  Se o novo Papa conduzir realmente a Igreja Católica para dentro dos explorados e oprimidos, se a tornar amiga dos pobres e realmente inimiga da pobreza, muita coisa poderá mudar na paisagem político-social do nosso país.
 Num pequeno texto que antecede a entrevista, Boff  é apresentado como , “um dos principais críticos do conservadorismo católico”, referindo-se que ele  “elogia Francisco, afirmando que ele começou uma reforma do papado e pode dar início a uma dinastia de papas de países do Terceiro Mundo.”
E prossegue : O papa Francisco vai inaugurar uma nova era para a Igreja Católica durante a Jornada Mundial da Juventude, no Rio de Janeiro. Essa é a convicção do teólogo Leonardo Boff, que em 1992 deixou todos os cargos na igreja, após ser censurado pelo Vaticano”.
E o texto de apresentação continua : Em entrevista à DW Brasil na sua casa em Petrópolis (RJ), o teólogo elogiou Francisco, afirmando que ele é o papa da ruptura. "Essa é a palavra que Bento 16 e João Paulo 2º mais temiam. Eles acreditavam que a igreja tinha que ter continuidade", avaliou Boff.
O teólogo, um dos expoentes da Teologia da Libertação, disse acreditar que Francisco vai falar sobre os recentes protestos no Brasil. "Ele fez uma declaração corajosa em Roma, dizendo que os políticos têm que escutar os jovens na rua; que a causa dos jovens é legítima, justa e que estaria em conformidade com o evangelho."


DW Brasil: No Rio de Janeiro, mais de um milhão de fiéis católicos vão se reunir e celebrar a fé durante a Jornada Mundial da Juventude. No século 21, o cristianismo ainda precisa da figura de um papa?
Leonardo Boff: Fundamentalmente não precisaria de um papa. A igreja poderia se organizar numa vasta rede de comunidades. Mas, à medida em que a igreja foi se transformando numa instituição e assumindo uma função política no Império Romano, ela assumiu também os símbolos do poder: o próprio nome "papa", que era exclusivo dos imperadores, e aquela capinha cheia de ouro, que só os imperadores podiam usar, mas que os papas todos usavam. Então, esse curso de uma igreja que tem uma função política dentro do Império Romano em decadência obrigava a igreja a ter um centro de referência. Francisco, quando ofereceram a ele aquela capinha, disse "O carnaval acabou, não quero isso".
Então, esse papa chegou para mudar?
Eu acho que esse é o papa da ruptura. Essa é a palavra que Bento 16 e João Paulo 2º mais temiam. Eles acreditavam que a igreja tinha que ter continuidade, portanto o Concílio Vaticano Segundo não poderia significar ruptura com o Primeiro. Mas não, agora há uma ruptura, a figura do papa não é mais a clássica, é outra. Francisco não começou com a reforma da cúria, começou com a reforma do papado.
O que você quer dizer com "reforma do papado"?
Na Europa vivem só 24% dos católicos. Na América Latina são 62%, e o restante está na África e na Ásia. Então hoje, o cristianismo é uma religião do Terceiro Mundo, que um dia teve origem no Primeiro Mundo. Acho que o papa Francisco vai criar uma dinastia de papas do Terceiro Mundo. Além disso, as nossas igrejas já não são mais igrejas de espelho, imitando as europeias; são igrejas fonte, criaram suas tradições, têm os seus mártires, seus mestres, suas formas de celebrar, têm suas teologias e profetas e figuras importantes, como dom Hélder Câmara e Óscar Romero. Essas igrejas estão dando vitalidade ao cristianismo.
Por que o senhor está tão otimista? Os problemas da Igreja Católica continuam: a exclusão dos divorciados, a discriminação dos homossexuais, a proibição de mulheres-sacerdotes...
O papa deu um exemplo claro. Ele soube que um pároco em Roma negou o batismo ao filho de uma mulher solteira. E o papa disse: "Esse padre está errado, porque não existe mãe solteira. Existe mãe e filho. E ela tem o direito de ver o filho batizado, porque a igreja tem que ter as portas abertas, pouco importa a condição moral da pessoa". E ele foi mais fundo ao dizer que não se pode inventar um oitavo sacramento, proibindo os fiéis que não se enquadrem na disciplina eclesiástica de participar da vida da igreja e dos sacramentos. Até agora, os temas de moral sexual, de moral familiar, de celibato e de homossexualidade eram proibidos de serem discutidos. Se um teólogo ou um padre discutisse esse assunto, era logo censurado. Agora, ele vai permitir a discussão.
No Brasil, nas últimas semanas, milhares de jovens foram às ruas protestar contra os políticos corruptos e os altos investimentos nos estádios de futebol. Qual é o recado que o papa vai dar aos jovens?
Ele fez uma declaração corajosa em Roma, dizendo que os políticos têm que escutar os jovens na rua; que a causa dos jovens é legítima, justa e que estaria em conformidade com o evangelho. Eu acho que ele vai fazer uma convocação crítica aos políticos, para que eles não sejam mais corruptos e passem a servir mais ao povo. E vai fazer um desafio aos jovens de continuar a transformação da sociedade, mas sem violência. E aí exclui todos esses vândalos que nos últimos dias mostraram uma violência absolutamente injustificável e estúpida.
O senhor disse que os programas sociais no Brasil "incluíram uma Argentina inteira na sociedade brasileira". Por que então as pessoas protestam contra o governo brasileiro?
Curiosamente, elas não são contra o PT, a Dilma ou o Lula. Elas mostram uma insatisfação geral com o Brasil que temos, que é um país com profundas desigualdades. São 5.000 famílias brasileiras que controlam 43% de toda a riqueza nacional. Além disso, o próprio PT atingiu o seu teto. Ou ele muda e refaz a sua relação orgânica com os movimentos sociais, ou ele se transforma num partido como os demais, que buscam o poder e acabam se corrompendo.
A classe média brasileira parece não estar gostando tanto dos programas de inclusão social do governo brasileiro. Ela foi deixada de lado?
Com Lula, os ricos ficaram mais ricos, e os pobres saíram da pobreza. Todo mundo ganhou. Eu creio que o governo do PT não fez só uma distribuição de renda, favorecendo os pobres, mas também fez uma redistribuição. Tirando de quem tem e passando para quem não tem. Só que ele não aplicou isso às grandes fortunas. Ele tirou da classe média, que ficou mais pobre.
O senhor acredita que os políticos vão atender ao recado do papa na Jornada Mundial da Juventude?
Eu acho que ele vai ser muito importante para a América Latina, porque o modo de ser dele vai reforçar as novas democracias, que nasceram na resistência aos militares e estão fazendo boas políticas sociais para os pobres, com inclusão. Então, ele tem uma função política importante. A Cristina Kirchner, que vivia em polêmica com ele, entendeu a lição e fez as pazes. Mas por quê? Porque o papa move multidões. Talvez ninguém no mundo hoje possa reunir um milhão de pessoas. Político nenhum, nem mesmo o Obama.
Mas a Igreja Católica perdeu poder e influência?
Institucionalmente, a igreja no Brasil está numa profunda crise. Pelo número de católicos, deveríamos ter 100 mil padres. Temos 17 mil. Criou-se um vazio, pelo qual entraram as igrejas pentecostais. E com razão. Como o povo é religioso, quem vem falar de Deus, ele [o povo] adere, porque indo para Deus, podemos somar sempre. Para batismo, casamento e enterro, é a Igreja Católica. Para saber o outro lado do mundo, ele vai para o espiritismo. Para as questões de sorte e amor, ele vai num centro de macumba. O povo não tem uma visão doutrinária, tem uma visão prática. É um supermercado religioso, com muitos produtos, e o povo vai se servindo.
Com Francisco, a Teologia da Libertação vai voltar?
Com este papa, ela vai ganhar visibilidade. Antes se dizia que a Teologia da Libertação era uma teologia marxista. Agora se diz que ela é uma teologia católica. Isso muda a atmosfera da igreja.
[Autoria: Astrid Prange, do Rio de Janeiro
Edição: Alexandre Schossler ]


sábado, 27 de julho de 2013

DUAS PERGUNTAS SIMPLES

Uns estão determinados a destruir-nos, outros acham que não há outra solução que não seja a nos destruir. Os primeiros estão certos que só eles são rigorosos nessa lúgubre coragem. Os segundos consideram-se longe da malvadez dos primeiros, cobertos de generosidade e estão convencidos que não são cúmplices da destruição.


1. Se houvesse banco de réus para o julgamento deste crime só lá tinham lugar os primeiros?

2. Porque razão há-de o PS vergar-se perante aqueles  o querem destruir, para poderem destruir o país mais tranquilamente ?

quarta-feira, 3 de julho de 2013

O IMBECILÉRIO CONTRA A BOLÍVIA.


É preciso determinar com especificação púbica quem foi o imbecil que fez  juntar o nome de Portugal ao lamentável episódio internacional de servilismo aos USA, dirigido contra o Presidente da República da Bolívia.
Não está em causa a consistência  das motivações  invocadas, evidentemente fúteis e alheias ao interesse nacional, dado que são inequivocamente insuficientes para justificarem a proibição de sobrevoo  de Portugal pelo avião presidencial boliviano. Esconder o servilismo político em face dos USA numa alegação de vagas e indetetáveis “razões técnicas” é apenas um agravamento da rasteirice cometida, pelo cobardia política que revela.
Sendo uma das raras áreas da politica externa portuguesa  que o governo PSD/CDS não  destroçou , a valorização da amizade ibero-americana, especialmente importante na atual conjuntura de crise, foi varrida num momento de excesso de zelo gratuito e idiota. É uma metáfora sugestiva da ligeireza política “portocoelhista” que tem assombrado Portugal.
Que tudo isso tenha sucedido à notícia de que os USA espiavam a União Europeia é apenas  um acréscimo de ridículo.
Que um governo francês de esquerda tenha alinhado  no dislate em causa é mais um motivo de melancolia.

Ficamos com vontade de dizer: sejam gente ! Dêem  pelo menos a  impressão de alguma verticalidade.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

SUBTRAÍRAM O GASPAR !

A Albuquerca, uma shuopa de eleição, foi erguida até ao cume do inefável colectivo que tem no governo arcado com a pesada tarefa de destruir Portugal. O Zé Povo, teimoso,  e o fantasma do Dom Afonso, de toledana em punho, têm resistido, tornando as coisas ainda mais  difíceis e o mérito  do actual ingoverno  desportuguês mais inquestionável . Reconheçamos que a perda do mais rápido licenciado da história portuguesa, o apressado Relvas, veio tornar mais frágil a artilharia mediática dos referidos “muchachos”. Substituíram-no por um brilhante currículo ambulante, a abarrotar de títulos autênticos e certificados, autor de afirmações de transcendente profundidade, conquanto feridas pelo ligeiro senão de nenhum mortal lhes descobrir uma qualquer importância, ainda que ligeira. Por isso, quando o autómato Gaspar cometeu a desequação  de se demitir do ingoverno desportuguês um perigoso sopro lírico assombrou a serenidade numérica da Gasparlândia. Por uma vez na vida, o homem tão habituado a subtrair-nos o nosso dinheiro subtraiu-se a si próprio da arena pública. Consta que vai ocupar num grande banco internacional a chefia do departamento dos modelos errados,  mas com forte aptidão de gerar lucros aos banqueiros à custa dos cidadãos.
Vozes inconvenientes já disseram que a Albuquerca, coberta de condecorações  por negócios ruinosos, não conseguiu chegar tão alto como  o bichano Gaspar. Ele e mais ninguém roubou ao versátil Portas o lugar mais junto de Coelho. A Albuquerca ficará com a pasta das finanças mas um enorme degrau abaixo de Portas.Tragédias no copo de água que alegadamente nos governa.

Por mim, tudo isto vai fazendo com que  o atual ingoverno desportuguês  vá deixando de ser um tema de política, mesmo quando baixa, para se transformar num filme de humor. Porém,
 atendendo aos estragos que faz na vida das pessoas: de humor negro.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

ADEUS, OSVALDO.

Esta homenagem ao Osvaldo Castro é como dar-lhe um abraço. Agora que isso já não é possível. Mas é também uma saudade funda dos futuros que imaginámos, quando nos sentámos numa  e noutra "república" a tecer os improváveis fios de resistência que estavam ao nosso alcance. Foi desde Janeiro de de 1968. Semana após semana, ao longo de muitos meses. Como se podem esquecer as horas sem fim em que os argumentos se esgrimiam com energia mas sem acrimónia, com subtileza e alegria. Tu e eu, mais o Jorge Aguiar que te precedeu na viagem, o Celso Cruzeiro, o Jorge Strecht, o Carlos Baptista, o Pio Abreu. As estruturas democráticas dos estudantes encarregaram essa  Comissão (CPE) de liderar a conquista de eleições na Associação Académica. Conseguiu-se.Logo a seguir, tu e o Celso,integraram a direcção que liderou a Academia de Coimbra no decorrer da crise de 1969. Esse passado sempre se inscreveu poderosamente no nosso futuro, mesmo que cada um de nós o interpretasse à sua maneira. De algum modo, deixas agora uma parte dos teus sonhos nas nossas mãos. Cada um de nós encontrará o seu modo pessoal de te ser fiel. No coração dos teus, a tua saudade renascerá todos os dias.O mesmo acontecerá com todos nós, não só os da CPE, mas também todos aqueles que nesses anos de luta te sentiram sempre como incansável fonte de energia que empurrava para diante; discreto, sereno, sem descanso.


ADEUS, OSVALDO.

O tempo desabou sobre o teu nome
e o passado ocupou-te rudemente.

Um violento nó foi apertado
no coração mais triste da memória.

A tua ausência rasga-nos por dentro
como se toda a lembrança fosse dor.

Agora és a semente libertada
nas avenidas lentas do futuro.

Não chega !

É todo  o teu presente que nos falta
o sabermos que estavas nalgum lado.

Essa espera tranquila que sabia
ir ouvir-te de novo e abraçar-te.

É nova esta saudade e já sem fim,
fica agora connosco o teu futuro.

[Rui  Namorado]

sexta-feira, 14 de junho de 2013

SE ISTO NÃO É UM ROUBO, O QUE É?

O Governo ameaça cortar retroativamente parte daquilo que recebem os aposentados da CGA, em termos definitivos. Os senhores da troika incitam-nos a isso. Todos eles e os respetivos “cães de guarda” que os apoiam dissertam solenemente sobre o evento como se tudo não passasse de um ajustamento de números objetivamente necessário; e, ainda por cima, coincidente com uma vaga equidade, sempre alegada e nunca demonstrada. Na realidade, essa fria operação económica é a máscara de um simples roubo, tão real como o seria  se alguém entrasse em nossa casa e nos furtasse uma soma de dinheiro vivo de uma gaveta.
Na verdade, em cada mês, quando recebíamos o nosso salário, ele não nos era pago por completo, já que  uma parte dele era retida para que mais tarde recebêssemos  uma pensão de reforma. Poderíamos ter recebido o salário completo e afetar uma parte dele a esse objetivo , por exemplo através de uma mutualidade, mas não foi assim. Foi-nos imposto que as coisas se passassem nos termos em que se passaram. Não nos foi dada outra opção.
Deve, no entanto, recordar-se que, quando acordámos prestar o nosso trabalho, tendo o Estado como patrão, fizemo-lo dentro de regras previamente conhecidas, que aliás foram por ele fixadas. Esse contrato de trabalho público implicou que cada um de nós assumiu um conjunto de obrigações laborais com a contrapartida de um salário. Salário esse desdobrado entre o que se recebia e o que se deixava à guarda do Estado, no pressuposto de que nos era garantida uma pensão de reforma calculada, de acordo com regras objetivamente determinadas e desde logo conhecidas. Aceitámos prestar um determinado trabalho ao Estado no pressuposto de que a contrapartida seria a que referi: uma  parte em salários diretos, outra parte em salários diferidos , traduzidos num certo tipo de direito a uma pensão e a outras regalias sociais menores ,expressamente consignadas. Se as contrapartidas fossem outras, mais fracas, talvez tivéssemos  optado por outro caminho, não tendo sido funcionários públicos, ou não tendo  ficado em Portugal.
Portanto, qualquer corte retroativo nas pensões de reforma dos funcionários públicos é um grosseiro rompimento de um contrato protagonizado por uma entidade, que no âmbito de outras funções suas, é também garante da legalidade e, portanto, do cumprimento dos contratos livremente celebrados, como foi o caso. Assim, no plano da moral e de uma ética republicana (a ética republicana impõe-se, naturalmente, em primeiro lugar às instituições da República), um corte retroativo em pensões de reforma, seja de trabalhadores do setor público ou do setor privado, é completamente ilegítimo. Simplesmente, enquanto no setor privado o Estado atua como um terceiro, teoricamente imparcial, que, podendo errar, não decide em causa própria, no setor público assume uma dupla veste que lhe dá um poder de disposição absoluto, podendo torná-lo  beneficiário direto de alguns dos seus próprios erros, como é o caso.
O esbulho em causa não é essencialmente diferente de uma hipotética ocorrência que se traduzisse na possibilidade de um vendedor de um prédio vir exigir, dez anos depois da venda, um paghamento de mais dez por cento, além do que já tinha recebido, em virtude de uma qualquer conveniência sua; ou de um patrão vir exigir a um seu antigo trabalhador a devolução de dez por cento dos salários que lhe havia pago há dez anos atrás. Hipóteses escandalosamente eivadas de arbítrio, reflexos  de uma autêntica barbárie social.
Mas esta realidade é algo que não gostam que se perceba, pelo que procuram ocultá-la com algumas  cortinsa jurídicas, mais ou menos sofisticadas, cbem como com algumas carradas de propaganda economicista travestida de ciência. Temos que desocultá-la para que seja completamente claro o grau de indecência que a impregna.
Como é ao Estado que compete a tipificação criminal, estas proezas não são tipificadas como crimes em termos inequívocos. Os almofadinhas da troika não são perseguidos por formação de quadrilha, nem são tratados como delegados de uma qualquer internacional mafiosa. Mas do ponto de vista moral estão muito mais  próximos  das associações de malfeitores do que da ética republicana.
Por isso, as razões para um alarme democrático crescem, de dia para dia. Resiste a zona nobre da legalidade democrática que nem os alucinados governantes nem os mastins internacionais podem destruir, a Constituição da República. Por isso, as hostes sombrias do conservadorismo capitalista mais retrógrado tanto se assanham contra ela.
Há, no entanto, que dizer que o caminho seguido, quando se tentam esbulhos como os que estamos a referir, além de ofender claramente, pelo menos, os valores políticos e éticos plasmados no texto constitucional, atinge o cerne do Estado democrático e desce abaixo dos limiares menos exigentes da moralidade pública.
E para tornar tudo isto mais absurdo e mais grave, insiste-se num caminho cuja viabilidade objetiva já começou a ser  recusada por muitos dos seus arautos de ontem; caminho, cujo acerto ninguém consegue já sustentar sem correr o risco de cair no ridículo.Ou seja, insistem em consumar um assalto, que faz parte de uma estratégia que até os próprios já reconhecem como errada.
Por isso, é  legítimo que se receie que o poder político nacional e europeu, para além de reacionário e retrógrado, verdadeiro caniche do grande capital financeiro, seja também um poder desbussolado  que se aproxima perigosamente do cretinismo próprio dos pobres de espírito.

terça-feira, 4 de junho de 2013

DESIGUALDADE E CRESCIMENTO



A bárbara agressão,  contra os trabalhadores, a classe média e os excluídos, perpetrada pelo neoliberalismo,  por intermédio do capital financeiro e dos seus sequazes, tem procurado buscar alguma legitimidade, alegando estar a seguir os ditames de uma infalível ciência económica, objectiva e neutra. Obedecer ao que é de facto um verdadeiro esoterismo numerológico seria afinal garantir, a longo prazo, a melhor solução; que, pela sua exclusiva conformidade com a ciência, seria afinal a única possível. O breve texto que a seguir transcrevo contribui muito para desmontar  essa mistificação. Por isso, as instâncias  de poder do capitalismo financeiro internacional podem ainda reproduzir como autómatos as vulgatas ideológicas do neoliberalismo; mas fazem-no já como espectros de uma ideologia que a realidade tornou  obsoleta. 

Desta vez, achei que devia traduzir o referido texto, para que todos o possam ler sem serem embaraçados pela  barreira da língua. O texto foi publicado no jornal italiano  Repubblica (31 de  maio de 2013), sendo seu autor o jornalista Roberto Petrini . Trata-se de um comentário a uma recente descoberta do economista norte-americano Joseph Stiglitz, nome sobejamente conhecido que se tem imposto pelo rigor e desassombro crítico. O título alerta-nos desde logo :"A desigualdade mata o crescimento: eis a demonstração de Stiglitz". E acrescenta-se  de imediato:
"Com o teorema de Stiglitz foi infligido outro duro golpe à ortodoxia neoliberal dominante nos tempos da grande crise: se o índice de Gini ( ou seja, o indicador que mede a desigualdade) aumenta, o “multiplicador” dos investimentos diminui e assim o PIB abranda. Eis porque razão".
Segue-se depois o texto:


"É a desigualdade o verdadeiro “killer” do PIB. Nos países onde os ricos são cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres o produto interno bruto marca passo e às vezes cai. Nas nações onde existe uma grande “middle class” , pelo contrário, a prosperidade aumenta. O Prémio Nobel Joseph Stiglitz rompe com as demoras  e formaliza num verdadeiro teorema, como ele próprio o define, a síntese dos estudos que dirige há anos.

A ocasião para serem apresentados os extraordinários resultados da investigação de Stiglitz, numa espécie de antestreia mundial, é a convenção organizada em roma pela SIEDS ( la Società italiana di economia, demografia e statistica), iniciado ontem (30 de maio de 2103), onde o Prémio Nobel enviará as considerações conclusivas, escritas a quatro mãos com o seu próximo colaborador italiano da Università Politecnica delle Marche, Mauro Gallegati.
Assim o “mainstream” é posto a um canto. O teorema é claro e luminoso como uma fórmula química ou um relação física: se índice de Gini ( ou seja, o indicador de desigualdade inventado por um economista italiano, Corrado Gini) aumenta, logo aumenta a desigualdade, o “multiplicador” dos investimentos diminui e portanto o PIB trava.
A equação de Stiglitz arrisca-se a ser o terceiro golpe nas posições da teoria económica dominante agora vacilante. O primeiro, dado há alguns meses, foi aquele que pôs em causa o 2dogma2da austeridade: o FMI na verdade calculou que o corte do deficit num ponto percentual reduz o PIB em dois e não apenas  ̶  como se cria até hoje  ̶  em meio ponto percentual. O outro golpe desajeitado foi aquele que desmontou, desmascarando um erro “Excel”, a teoria da dívida de Rogoff e Reinhard, segundo a qual para além dos 90 por cento na sua relação com o PIB ela levaria inevitavelmente à recessão.


Mas o novo assalto de Stiglitz arrisca-se a ser ainda mais perigoso para as teses do “status” económico. A desigualdade, de facto para o Prémio Nobel, fere profundamente o PIB, não só através da queda dos consumos mas também porque o sistema é “ineficiente” se prevalecem rendas e monopólios. “Frequentemente a caça ás rendas  ̶ concluem Stiglitz e Gallegati  ̶  comporta um verdadeiro esbanjamento de recursos que reduz a produtividade e o bem-estar do país”.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

COMPREENDER O NEOLIBERALISMO.

Uma vez mais, recorro ao site da excelente revista brasileira de grande circulação CartaCapital. Hoje, vou transcrever um texto de Luiz Gonzaga Belluzzo, um reputado  economista e universitário brasileiro, que colabora regularmente na revista em causa. O tema é sugestivo : Foucault e o neoliberalismo. Numa curta frase destacada como apoio do título diz-se: “O filósofo francês, um dos pensadores mais fecundos do século XX, não era economista. Talvez por isso entendeu com maior profundidade o neoliberalismo.” Eis o texto:


“O mundo se abriu para o novo milênio dominado por certezas que hoje se desmancham sob a ação demolidora da crise financeira. A ideologia neoliberal, quase sem resistências, tentou demonstrar que, com a queda do Muro de Berlim, o espaço político e econômico tornou-se mais homogêneo, menos conflitivo, com a concordância a respeito das tendências da economia e das sociedades. Não há mais razão, diziam, para se colocar em discussão questões anacrônicas, como a reprodução das desigualdades ou as tendências dos mercados a sair dos trilhos, frequentemente destrambelhados pelos excessos nascidos de suas engrenagens.
Após a crise, os porta-vozes desse quase consenso, economistas e que tais, recolheram-se ao silêncio. Passado o vendaval que ajudaram a semear, já agarrados aos salva-vidas lançados pela famigerada intervenção dos governos, entregaram-se a tortuosas e acrobáticas manobras para justificar suas convicções.
Michel Foucault, um dos pensadores mais fecundos do século XX, não é economista. Talvez por isso tenha compreendido com maior abrangência e profundidade o significado do neoliberalismo. Contrariamente ao que imaginam detratores e adeptos, diz ele, o neoliberalismo é uma “prática de governo” na sociedade contemporânea. O credo neoliberal não pretende suprimir a ação do Estado, mas, sim, “introduzir a regulação do mercado como princípio regulador da sociedade”.
Foucault dá importância secundária à hipótese mais óbvia sobre a arte neoliberal de governar, a que afirma a imposição do predomínio das formas mercantis sobre o conjunto das relações sociais. Para o filósofo, “a sociedade regulada com base no mercado em que pensam os neoliberais é uma sociedade em que o princípio regulador não é tanto a troca de mercadorias quanto os mecanismos da concorrência... Trata-se de fazer do mercado, da concorrência, e, por consequência, da empresa, o que poderímos chamar de ‘poder enformador da sociedade’”.
As transformações ocorridas nas últimas décadas deram origem a fenômenos correlacionados que não se coadunam com os princípios do liberalismo clássico e sua imaginária concorrência perfeita protagonizada por um enxame de pequenas empresas sem poder de mercado.
A nova concorrência louvada pelos neoliberais admite a “centralização” da propriedade e o controle dos blocos de capital. O processo se deu pela escalada dos negócios de fusões e aquisições, alentada pela forte capitalização das bolsas de valores nos anos 80, 90 e 2000, a despeito de episódios de “ajustamento de preços”. A “terceirização” das funções não essenciais à operação do core business aprofundou a divisão social do trabalho e propiciou a especialização e os ganhos de eficiência microeconômica, além de avanços na produtividade social do trabalho.
A grande empresa que se lança às incertezas da concorrência global necessita cada vez mais do apoio de condições institucionais e legais – sobretudo na derrogação das regras de proteção aos trabalhadores – que a habilitem à disputa com os rivais em seu próprio mercado e em outras regiões.
Elas dependem do apoio e da influência política de seus Estados Nacionais para penetrar em terceiros mercados (acordos de garantia de investimentos, patentes etc.), não podem prescindir do financiamento público para exportar nos setores mais dinâmicos, não devem ser oneradas com encargos tributários excessivos e correm o risco de serem deslocadas pela concorrência sem o benefício dos sistemas nacionais de educação e de ciência e tecnologia.
Tanto a “nova ordem mundial” como a sua crise foram construídas e deflagradas no jogo estratégico disputado entre as empresas globais e seus respectivos Estados. Esse fenômeno político-econômico envolveu os protagonistas relevantes da cena global: os Estados Unidos, apoiados em sua liderança financeira e monetária, e a China, ancorada em sua crescente superioridade manufatureira.
A superação da crise atual não depende apenas da ação competente dos Tesouros Nacionais e dos Bancos Centrais, mas supõe um delicado rearranjo das relações políticas e concorrenciais que sustentaram o modelo sino-americano. Parece que não é fácil.


domingo, 2 de junho de 2013

O DENTE




Há um dente que morde no princípio da vida.
É um dente estragado, sem afago nem sonho.

Há um dente que morde nas manhãs mais abertas.
É um dente gerido, lucrativo, manhoso.

Há um dente que morde no trabalho e na esperança.
É um dente cotado, nas mais sólidas bolsas.

Há um dente que morde no longínquo futuro.
É um dente dourado, quase podre de rico.

Há um dente que morde nas palavras mais livres.
É um dente esculpido com rigor na mentira.

Há um dente que morde cada um dos teus filhos.
É um dente sem luz, miserável e lento.

Há um dente que morde no outono das casas,
É um dente sequioso, desbragado, vadio.

Há um dente que morde na mais funda desgraça.
É um dente que cerca , que tritura, que mata.

Há um dente aguçado que mergulha no mundo.
É um dente inventado no ofício mais torpe.

Há um dente que morde a nascente dos sonhos.
É um dente banqueiro, quase ocidental,
que se esconde matreiro na mais funda caverna.

É um dente londrino, quase americano,
Visitante em Berlim, Paris, Singapura.
É um dente de Tóquio, amigo da Sicília,
Passa férias na Suíça ou em Xangai.

É um dente bárbaro que resume a morte,
Um dente que vive por morder.
É um dente tão estranho que ao doer
Dói a quem morde e não a quem o tem.

Olha no espelho da luz que vais perdendo
A marca tão amarga do próprio desespero.

Olha no espelho de toda a tua esperança
A ameaça de inverno em todos nós.
E na página mais branca da justiça,
Escreve imensa a tua própria cólera.

[ Rui  Namorado]