quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Uma lição alemã ?



O resultado das eleições que recentemente tiveram lugar no Estado Alemão do Hesse, deve ser objecto de reflexão para os partidos que representam as várias áreas da esquerda em Portugal.

Note-se que o Hesse é um Estado importante, com mais de seis milhões de habitantes e cerca de 21000 quilómetros quadrados.

Estas eleições foram neste mês de Janeiro, uma vez que das anteriores eleições, ocorridas no ano passado, resultou uma relação de forças no parlamento estadual que, conjugada com as posições assumidas pelo SPD (socialismo democrático) e pela Esquerda (Die Linke), não permitiu que se constituisse uma maioria de governo.
De facto, no ano passado, o SPD, reflectindo um grande reforço eleitoral ( 7,6%), ficou então apenas a uma décima da CDU, que nessa eleição sofreu um apreciável recúo (12, 1%), ficando ambos os partidos, no entanto, com o mesmo número de deputados. Assim, a CDU não conseguiu apoio para formar governo, dado que a soma dos seus votos com os liberais (FPD), seus aliados tradicionais, não era suficiente. Já o SPD poderia ter liderado um governo com apoio maioritário, se tivesse tido o apoio dos Verdes(Die Grünen) e da Esquerda ( Die Linke). Mas as divergências dentro do SPD, quanto à aceitação do apoio da Esquerda ( Die Linke), impediram que se tivesse conseguido instituir um governo estável, obrigando a novas eleições. Se o SPD tivesse feito uma aliança com a Esquerda (Die Linke) ( ou se tivesse, pelo menos, aceitado o seu apoio parlamentar) isso não teria acontecido. Dividido internamente, quanto a essa hipótese, acabou por não a poder pôr em prática. Em virtude disso, as eleições tiveram que ser repetidas agora, em Janeiro de 2009.


O pouco tempo decorrido entre as duas eleições não impediu uma enorme diferença nos resultados eleitorais. Resultados esses que reflectiram uma pesada derrota do SPD. De facto, agora o partido mais votado passou a ser o da actual chanceler federal, a SrªMerkel, a CDU(democracia-cristã), com 37,2 % dos votos. Progrediu apenas 0,4 %, mas isso foi suficiente para poder formar governo, coligando-se com um aliado tradicional, o FDP (liberal), que subiu mais de 6,8 %, atingindo os 15,9% dos votos. Subida idêntica,(6,2) tiveram-na os Verdes (Die Grünen), que atingiram os 14%.

Por seu lado, o SPD, grande derrotado, ficou-se pelos 23,7%, tendo perdido 13% dos votos, de um ano para o outro. Mas deste desmoronamento eleitoral não tirou qualquer proveito A Esquerda (Die Linke) que pouco subiu (0,3), ficando com 5,4%. E, assim, o não entendimento entre estes dois partidos, que, neste caso, resultou mais directamente do facto de o SPD recusar alianças com A Esquerda (Die Linke), tendo punido o primeiro, em nada beneficiou o segundo.

Uma outra leitura, radicada num olhar para o conjunto do país, acentua a ideia de qua a grande coligação CDU/SPD, que partilha o poder no conjunto da Alemanha, e que só existe em virtude da mesma recusa do SPD em envolver A Esquerda (Die Linke) numa maioria federal, pode traduzir-se numa severa punição do SPD e numa ascensão do centro político que beneficiará por tabela a CDU, dando-lhe o poder, mas que em nada aproveitará à Esquerda (Die Linke).

Este exemplo, deveria fazer com que as actuais lideranças do PS, do BE e do PCP reflectissem muito cuidadosamente sobre o modo como se relacionam. E o que parece certo é que a diabolização do outro e angelização de si próprio revelam um tipo de atitude política que muito provavelmente levará ao desastre.

8 comentários:

André Pereira disse...

Caro RN: a minha interpretação é exactamente a oposta, como pode ler aqui
http://ponteeuropa.blogspot.com/2009/01/derrota-histrica-do-spd-em-hessen.html

Por outro lado quem ganhou em 2008 foi a CDU:
Landtagswahl 2008 bekannt:
CDU 36,8% (-12%)
SPD 36,7% (+7,6%)
FDP 9,4% (+1,5%)
Grüne 7,5% (-2.6%)
Linke 5,1% (vorher nicht vertreten)

Ora tendo a CDU convidado o SPD para formar Governo, este embrenhou-se nessa disputa interna, tentando formar um Governo contra o Partido que ganhara, por pouco,é verdade, mas ganhara. Ora, o povo agora em 2009 disse ao SPD o que pensa: quem ganha governa e trazer a "Die Linke" para o Governo, não obrigado.
Um abraço.

Anónimo disse...

Caro André:

1. Em primeiro lugar, quero agradecer-lhe a correcção que me fez. Na verdade, eu dizia no meu texto que o SPD ganhara as eleições em 2008 e, na verdade, ficou, como mostra, em segundo lugar, embora apenas a um décimo e com o mesmo número de lugares.
2. Como se pode verificar pelo meu texto, depois de reformulado, isso não altera o essencial do meu argumento, que assenta na recusa do SPD em se aliar a Die Linke; e na crispação entre ambos que isso alimenta e reflecte.
3.Mas não fiquei convencido com a interpretação que dá à derrota do SPD.
Em primeiro lugar, quem ganha com uma maioria relativa ( e neste caso até sem diferença quanto ao número de deputados) tem o ónus de conseguir os apoios necessários para viabilizar o respectivo governo.À partida a CDU só conseguiu o apoio do FDP, o que era insuficiente. O SPD, pelo contrário,podia pôr a hipótese de alacnçar uma maioria SPD/Verdes/Esquerda. E tê-la-ia conseguido se não a tivesseminviabilizado votos desfavoráveis vindos do seu interior.
Portanto, não vejo qualquer distorção da ética democrática no facto de um partido se recusar a apoiar outro, por achar que, em coerência com a sua identidade, é isso que deve fazer.
Por outro lado, se tivesse sido essa recusa, em apoair o partido vitorioso, embora só em votos, que não em lugares, a causa da derrota do SPD, não se compreenderia por que razão teria o eleitorado penalizado o SPD, ao mesmo tempo que beneficiava um outro partido que também recusara dar esse apoio. E tendo-o recusado fora também causa da não viabilidade deum governo CDU. Estou a referir-me a Die Grünen, que subiram apreciavelmente.

Deste modo, parece-me que a sua interpretação dos resultados, nem tem lógica, nem tem sustentação nos factos, ou seja, nos resultados eleitorais lidos no seu todo.

Mas , repito, a sua crítica foi decisiva para me levar a corrigir o que estava errado no meu texto, sendo por isso credor dos meus agradecimentos.

Cordiais saudações do

Rui Namorado.

André Pereira disse...

Em Portugal, seria bom que o BE olhasse com mais inteleigência o trajecto do partido "Os Verdes".
Quanto ao PS de 2009: acho que deve apostar na maioria absoluta, abrindo o espectro, sendo mais plural.

Anónimo disse...

O partido da nova esquerda alemã de Lafontaine e Grysi só serviu para levar a CDU ao poder em coligaçãpo com o SPD.
Lafontaine foi o Manuel Alegre do SPD e sofre com a sua ligação aos comunistas que governaram em ditadura na RDA com a tenebrosa Stasi a matar a torto e a direito.
Recorde-se que se descobriram agora grandes valas comuns de milhões de alemães mortos após a guerra para limpar etnicamente os territórios entregues à URSS e Polónia como a Prússia Oriental, a Silésia e outros.
Há muito se falava que havia problemas de contagem de populações alemãs. Faltavam alguns milhões.
É certo que os alemães cometeram grandes crimes na II. G.M., mas quem os não cometeu que julgue e parece que é difícil encontrar esses "quem". Por outro lado, a Alemanha tem sido uma das nações mais pacíficas e democráticas do Mundo, além do Japão, nos últimos 63 anos.
DD

Anónimo disse...

O SPD só fez coligação com a CDU e não com Die Linke por decisão própria. Culpar Die Linke pelas decisões do SPD, parece um pouco estranho.

André Pereira disse...

Saiu hoje uma sondagem sobre a opinião dos alemães sobre qual a coligação que preferem. Perguntados sobre a possibilidade SPD+Verdes*Linke, disseram sim... 17%!
Pelo contrário SPD + Verdes - cerca de 40%.
O mais cego é o que não quer ver, diz o povo.

Anónimo disse...

Passando por cima do que nos diz que diz o povo, não percebo como intromete essa informação na questão em debate.

Se o SPD conseguir maioria sózinho, é natural que não faça coligações. Se alcançar essa maioria, somando-se ao seu aliado tradicional, Os Verdes,bastará que se coligue com eles.
Mas se não conseguir essa maioria,de pouco lhe valem os desejos do eleitorado, voltando a estar confrontado com a partilha do poder com a direita, ou com o risco de ver a CDU envolver os Verdes numa outra solução governativa.

Por isso, o relevo das preferências do eleitorado quanto a possíveis coligações pouco conta se não se exprimir também nos votos que reproduzam essas preferências.

Rui Namorado

André Pereira disse...

O SPD e o PS têm o problema de terem sempre os dois flancos "apertados". Se viram um pouquinho à direita perdem à esquerda, se viram (ou aparentam) virar um pouquinho à esquerda, perdem à direita. Perante esta perplexidade temos que perguntar: quem à esquerda votaria a favor do Tratado de Lisboa? a favor de enviar tropas para o Afeganistão; a favor de manter um défice orçamental moderado? de não aumentar (ainda mais) a carga fiscal? de promover uma reforma da administração pública? reforma do sistema de ensino? reforma do sistema de saúde?