quinta-feira, 23 de agosto de 2012

CONTRA A LETARGIA ESTRATÉGICA



1. Se as sondagens tornadas públicas espelharem com uma fidelidade razoável as disponibilidades de voto do eleitorado português, elas são uma razão forte para que os partidos de esquerda em Portugal se preocupem com o que parecem reflectir.

O governo de direita impulsionado pelo neoliberalismo estrutural e primário da “troika” caiu numa deriva fundamentalista, cujo absurdo só tem par no desprezo total pelos dados que a realidade desesperadamente lhe transmite, dia após dia. E apesar disso os eleitores parecem estar a dar um generoso benefício da dúvida ao manhoso CDS e a castigarem ligeira, embora crescentemente, o PSD. As últimas sondagens apontam para uma possível perda de maioria por parte da direita, mas não a mostram inapelavelmente condenada a uma derrota.

Na oposição, o PCP e o BE em conjunto, embora cada um deles com ligeiras oscilações, continuam a rondar os 15 %, o que, tornando essa área politicamente incontornável, não lhe abre consistentemente a hipótese de uma mudança qualitativa de papel. O PS, tendo passado a barreira simbólica dos 30%, não conseguiu ainda alcançar o PSD, embora se tenha vindo a aproximar dele, estando agora a pouco mais de 1%. A este ritmo muito dificilmente o PS chegará ao patamar de uma maioria absoluta e mantém-se viva a possibilidade de, perante circunstâncias conjunturais novas, se reeditar uma maioria de direita. A hipótese de uma concertação do PS com as outras esquerdas permanece envolvida numa forte neblina de improbabilidade.

Tudo isto significa que o profundo descontentamento popular contra este governo e que o enorme desprestígio que o atinge não conduziram, até agora, a uma atitude de confiança e de esperança no que representam os actuais partidos de esquerda, quer um por um, quer como um todo politicamente fragmentado. Sobre eles, em termos genéricos, talvez se possa dizer que, embora algo agitados no plano táctico, parecem mergulhados numa profunda letargia estratégica. E, no entanto, uma reflexão simples sobre o modo como, em Portugal, nos últimos anos, evoluiu a relação de forças, no plano político institucional, mostra com clareza como é imprudente para todas as esquerdas , mas principalmente para o PS como partido potencialmente hegemónico em qualquer solução de alternativa à direita, manterem-se acantonadas nas suas rotinas.

Esta combinação explosiva, entre a desconfiança de uma parte do povo de esquerda nos seus actuais partidos políticos e a paralisia estratégica que parece tê-los atingido, é um terreno fértil para aventuras e equívocos. Aventuras que podem  traduzir-se na criação de mais um partido de esquerda; equívocos aventureiros que podem resultar da tentativa  de se atrair uma parte do povo de esquerda a iniciativas populistas, cuja marca de direita facilmente se percebe, se compararmos o que nos dizem os seus mais visíveis oráculos e o que nos diziam os chefes do populismo de direita no pós-guerra (por exemplo, na Itália com o “qualunquismo”, na França com o “poujadismo”). É claro, que como qualquer iniciativa direitista encapotada, esses projectos ambíguos proclamam sempre bem alto que já não há esquerda nem direita; ou que, pelo menos eles, nem são uma coisa nem outra. Se algum se concretizar, principalmente dentro dos que correspondem a este último tipo, não se estará a abrir a porta a um tempo mais auspicioso, mas a tornar ainda mais difícil alcançá-lo.

No entanto, o facto de ser negativo que alguma iniciativa deste tipo se materialize não quer dizer que ela não possa consumar-se. Não tenho uma receita para minorar o risco de que isso aconteça, mas estou certo de que ele aumentará com o imobilismo estratégico dos partidos de esquerda. Também me parece indispensável distinguir com nitidez as inquietações que movem muitos dos cidadãos que se envolvem nesse tipo de dinâmicas e o mérito geral dessas iniciativas, em si próprias. Na verdade, apesar das críticas que acabo de formular, creio que muitas das motivações, que animam muitos dos envolvidos nesses movimentos, são legítimas e reflectem problemas e deficiências reais, quer do tipo de sociedade em que vivemos, quer do funcionamento das instituições. Uma vez mais, a letargia estratégica dos partidos existentes dificulta estruturalmente as respostas que devem ser dadas a este tipo de problemas, as quais passam necessariamente por uma atenção profunda aos sinais que, por si próprias, essas iniciativas dão.

2. Neste contexto, a abordagem das próximas eleições autárquicas pelo PS tem que mudar radicalmente, sob pena de as podermos perder numericamente de maneira clara, ou de as podermos perder politicamente, mesmo que as ganhemos numericamente. A última coisa que devemos fazer é renunciar a uma imagem política forte de um projecto autárquico para o conjunto do país, que em si próprio seja um primeiro contributo para um salto em frente no desenvolvimento do país. Um projecto de verdadeira mudança social que imprima a nossa identidade socialista  ao conjunto das nossas candidaturas, mas que seja suficientemente flexível para poder incorporar com naturalidade, num primeiro plano, as especificidades inerentes ao tipo de cada território abrangido, num segundo plano, a identidade própria de cada autarquia.

E se é decisiva a afirmação substancial de um projecto próprio, não pode também ser descurada a maneira de envolver nele o eleitorado. Simplificando muito: quando cresce o prestígio da ideia dos orçamentos participativos como eixos da política autárquica, aposte-se agora na ideia de uma campanha eleitoral participativa, onde se envolvam realmente os cidadãos, antecipando-se assim a vontade de os envolver depois, no dia a dia da gestão autárquica.

Na verdade, se o PS fizer da campanha eleitoral para as autarquias uma afirmação de renovação da sua maneira de fazer política e do seu modo de exprimir  a sua natureza de partido político de uma esquerda popular, tem garantida a vitória política nas eleições e vê aumentarem  as hipóteses de as vencer também numericamente. E se as vencer politicamente, estará a beneficiar muito a sua participação nos processos eleitorais subsequentes; se as vencer também numericamente estará a reforçar a importância da vitória política.

Em contrapartida, à luz do que acabo de dizer, pode verificar-se como tem sido rotineira e pobre a  simples esgrima de nomes, a implícita subordinação ao que nos possam dizer as sondagens, o arremesso cruzado de acusações que reflecte mais o confronto entre grupos quase-tribais do que e qualquer diferença ideológica. Também se pode compreender melhor como as primárias abertas na escolha dos nossos candidatos potenciariam o significado de um projecto global e de uma campanha participativa, na qual aliás se poderiam considerar incluídas. E também se percebe como as pseudo-primárias que foram consentidas e o acotovelar de nomes como processo de escolha se inscrevem nesse caminho político estreito, que o PS teima percorrer numa estranha pulsão politicamente suicidária.

Em conclusão, o PS pode aproveitar as eleições autárquicas para as abordar através de um novo tipo de campanha,  que por si própria seria não só uma importante movimentação estratégica, mas também um instrumento adequado para vencer essas eleições e para fazer dessa vitória um impulso decisivo para eleições futuras e um reforço decisivo do seu peso político e social. Também pode deixar correr o marfim da previsibilidade, entregando-se nos braços da sorte à espera de ser premiado. Pode, mas o meu pessimismo não é suficiente para admitir que isso aconteça.

7 comentários:

António Horta Pinto disse...

No meu modesto entendimento, o mal está em o PS não se assumir claramente como principal partido de oposição e porta-voz do descontentamento popular, deixando essa função a outros partidos pouco credíveis em matéria de capacidade para governar o País.
Como já disse noutro blog, é certo que o PS está vinculado ao memorando de entendimento com a famigerada troyka; mas não está vinculado a "ir além da troyka", como o governo se gaba de fazer.
Nem muito menos está vinculado a ficar calado perante medidas eivadas de manifesta incompetência,como por exemplo a de aumentar de tal forma as taxas dos impostos que a receita fiscal, em vez de aumentar, diminui.
Ora o PS, em vez de se manifestar alto e bom som contra os inadmissíveis abusos em que o governo é fértil, fica mudo ou fala tão baixinho que não se ouve.

Rui Namorado disse...

Rui Namorado disse...
Concordo contigo.

Mas na minha opinião, pior do que isso, por até nada ter a ver directamente com a troika, é o facto de o PS não ocupar um espaço de intervenção social até agora vago, que é indispensável para que no futuro os governos do PS possam ter bases sólidas, no plano do apoio social, que lhe permitam resistir com eficácia aos seus inimigos e vencer com mais facilidade os obstáculos que colocarem ás suas políticas.

André Pereira disse...

As eleições autárquicas de 2013 devem ser o momento de afirmação de uma nova maneira de fazer política no PS. Ganhar câmaras com gente credível, com novos rostos, novos projetos e ideias frescas para catapultar uma maioria absoluta nas legislativas futuras.
Para isso é preciso que todos se empenhem e exijam as primárias e uma discussão séria de projetos autárquicos. André

Anónimo disse...

Ao longo dos anos, mais de um século, o Partido Socialista tem sempre mostrado duas faces! E segundo a terminologia popular, não se pode estar com Deus e com o Diabo ao mesmo tempo,ponto final paragrafo
Todavia, aquelas forças vivas que de vez enquando o PS dialoga nas conversas em familia e nas universidades de verão e de inverno etc e tal só têm servido para algumas opurtunidadesitas (qb)

O PS quanto a mim tem feito o seu papel de força- demistificação
da direita e assim passando na pratica a preservar os desig nios
da direita enquanto partido de esquerda que é.
É o que tenho pensado ATÉ AQUI.

de "O Catraio, respeitosamente

Rui Namorado disse...

Havia uma maneira de pensar o mundo, dentro da qual se inseria uma certa ideia de futuro a partir de uma previsão sobre a evolução do capitalismo e do modelo soviético, à luz da qual os partidos socialistas da segunda internacional eram encarados em termos absolutamente negativos. O desmoronamento da União Soviética mostrou na prática que a visão do mundo que dava a US como antecipação do futuro era uma pura ilusão. Mas há quem continue a usar a mesma lógica, as mesmas categorias mentais e os mesmos juízos valorativos que eram usados antes do colapso soviético pelos que encaravam o sovietismo como um futuro melhor. Como se pode avaliar bem a realidade com um instrumento indutor de erro? Por isso, é tão importante a recosntrução de um pensamento crítico liberto das ilusões que o fim da era soviética tornou caducas. Por isso é tão importante a crítica como a crítica da crítica.

Anónimo disse...

È bem verdade que há gente que pensa assim. Mas não me parece que a humanidade swe deixou levar por isso.

Tenho como principio que tudo, mas tudo, incluindo os impérios geográficos e políticos criados pelos homens são efémeros!

O acidente político, dito de outra meneira,(A revolução de Outubro)na Rússia, foi feita por homens!

E como alguns dizem, foi mais uma tentativa de libertação do homem..!
Errar é humaNO. Dizem. Mas acertar também o é..!
Em que pé ficamos?

Internacionais já MUITAS conhecemos ao longo destes três séculos.

Nós os povos deste mundo desejamos paz, paz e paz dignas de viver.

Tudo que obdeça a chavões matizados de supervidentes, omnipresentes e etc... Quero dizer: Ao culto da personalidade, não vai a lado algum, quanto muito durasrá até que os povos não se apercebam da realidade!

Bem, mas tem que haver uma saída para esta balhana que é a governação que temos actualmente.
E a unidade de toda a humana gente em Portugal passa ou deve passar pelo conhecimento da verdade e da mentira...Sem o qual nada feito.

Leva trempo sim senhor, confirma-se, contudo é melhor esperar estudando,do que às pressas avançar e dar no que deu todas as revoluções até hoje proporcionadas pelos tais homnipresentes, homnicientes e quejandos.
Já vai muita letra. respeitosamente de "O Catraio"

Maltez da Costa disse...

"Na verdade, se o PS fizer da campanha eleitoral para as autarquias uma afirmação de renovação da sua maneira de fazer política e do seu modo de exprimir a sua natureza de partido político de uma esquerda popular, tem garantida a vitória política nas eleições e vê aumentarem as hipóteses de as vencer também numericamente." Caro amigo Rui Namorado,acha que ainda existe Partido Socialista? Ou existem simplesmente alguns tecnocratas que usam o emblema do PS? O que se tem visto nos últimos tempos a ser feito pelo PS na minha terra? Nada. Simplesmente nada. O que faz o PSD? Tudo. Encontros e convívios com a juventude. Encontros e convívios com os Séniores (como eles intitulam os velhotes). Pode-se continuar a ganhar autarquias, mas ganhar a Assembleia da República, mesmo com os roubos que este Governo está fazendo ao povo português, podem tirar daí o sentido. Quantos militantes tem neste momento o PS? São os militantes que levam as familias a votar, sem eles nada se pode fazer.