sexta-feira, 24 de agosto de 2012

ASSALTO À RTP - o capataz de luxo e o licenciado rápido


1. O assessor Borges e o seu  auxiliar, com título de ministro, Relvas, já anunciaram a privatização da RTP. Estes dois qualificados personagens, conhecidos pelo seu desinteressado empenho pela causa pública, apenas vieram ilustrar com uma expressividade maior o enorme descaramento que se apossou do PSD, como propulsor do actual governo. A troika é cada vez mais um álibi distante, para tentar anestesiar a revolta contra algumas das medidas governamentais. Em muitos casos, tende até a converter-se  numa simples baliza que os novos cavaleiros andantes do neoliberalismo ultrapassam fogosa e irresponsavelmente.

Mas neste ataque à RTP pública não é apenas o perfume da negociata que se faz sentir, associado à pilhagem desregrada do património público, ainda que  embrulhada na generosa intenção de poupar. Intenção essa que, aliás, não nos poupa  de continuarmos a pagar uma taxa que envolve a televisão, mas que agora passa a ser canalizada para os futuros senhores da RTP, como se fossem candidatos a um especial rendimento de inserção social. Neste ataque á RTP pública é também um profundo golpe na democracia que se está a preparar, através do qual  se garante, a cem por cento, o domínio da televisão em Portugal por capitalistas privados ou por Estados estrangeiros através das sua empresas públicas.O patriotismo da nossa direita governamental termina mesmo nos bolsos dos seus  patrões.

É pois um salto qualitativo no nível de malfeitorias deste governo que um seu assessor, que se suspeita ser uma espécie de ministro na sombra, despudoradamente anunciou publicamente  com intolerável pesporrência. Relvas, o sacristão, estranhamente veio resmungar publicamente a sua concordância com Borges, o sacerdote. Estranha igreja. Realmente, estamos perante uma dupla explosiva entre o inefável  Borges, antigo capataz desse monumento ético da banca mundial que é o Banco Goldman Sachs, e o estudioso Relvas, esse licenciado relâmpago cuja sede de conhecimento o mundo se habituou a venerar.

2. Espera-se pois que o PS diga com clareza  qual é a sua posição perante este assalto a um dos  pressupostos da decência democrática em Portugal,  que, ainda por cima, parece vir embrulhado na insalubre sombra de possíveis negociatas lesivas do interesse público.

Desde logo, não é possível que o Governo peça  ao PS compreensão para com as medidas suscitadas pelo memorando de entendimento, ao mesmo tempo que agrava o significado negativo delas, tomando outras profundamente agressivas das sua posições. Na verdade, ao provocar desta maneira o PS, Governo deixa de poder esperar qualquer complacência para qualquer aspecto da sua política, ao qual o PS  frontalmente se oponha. De facto, nenhuma medida vale politicamente apenas por si própria; outras, que eventualmente a acompanhem, podem mudar-lhe o sentido. Por isso, se já é  discutível se, perante as ultrapassagens da troika perpetradas pelo actual Governo,ainda resta alguma obrigação política ao PS de ser complacente para com ele, perante agressões como esta  não parece haver dúvidas . Isto é um corte, uma declaração de guerra implícita ao povo de esquerda feita pelo governo. Se o PS se agachasse perante isto, podia correr o risco de  que as vítimas desta governação, que são muitas, o passassem a ver  como uma espécie de capacho do actual  Governo. Por tudo isto, talvez fosse politicamente pedagógico e acertado que, com serenidade e firmeza, o PS fizesse publicamente um aviso solene. O aviso de que,  logo que volte a ser Governo, reverterá a privatização da RTP, colocando tudo como estava antes do golpe que este Governo está a preparar. Os custos dessa reversão só podem, por tudo o que se disse, ser imputados  moral e politicamente ao actual Governo.

Reforçando o que escrevi, pergunto: se a direita se sente sempre legitimada para desfazer , quando chega ao Governo,  algumas das coisas boas que os governos do PS fizeram, por que razão estará o PS impedido de remediar os dislates por ela cometidos quando lhe suceda  no Governo?

3 comentários:

Anónimo disse...

Ora aí está uma questão para o interior do PS, já que milhares, senão milhões de portugueses se interrogam por isso mesmo, há muito.

Penso que o Partido Socialista se enfeudou em demasia com o capital em detrimento de quem produz, O Trabalho. Certo!
Bem sei que essa de estar com o trabalho em oposição e em governação parecer estar com o capital não é fácil de operar,contudo não tem desculpa.
Uma unidade anti capital é necessária, mas não com a pratica politica do PS.

É por aqui que tudo ou quase tudo tem de passar, Sem PS nada feito, muito bem, mas sem os partidos do trabalho o mesmo acontece.
Com o respeito devido de "O Catraio"

André Pereira disse...

O PS tem que cortar com este regime. 2011 vai longe, o Pacto com a Troika nada tem a ver com esta governação fraca e antipatriótica. André

JGama disse...

O espaço das ideias, para muitos portugueses nos quais me incluo, está a ser ocupado por sensações estranhas, difíceis de classificar, quando assistimos a uma governação que inclui pessoas como o ministro Relvas e a eminência parda Borges. Que diabo se passa com Portugal? Dentro em breve não beberemos um litro de leite português; é mais um episódio da nossa desgraça. Em determinados momentos históricos fomos humilhados por poderes estrangeiros. Atualmente sinto que estamos a ser humilhados pelos próprios governantes ou seus assessores. Dói ainda mais.