terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Conversando com Teresa Portugal



Quando a política era um risco assumido, sabíamos com o que contávamos. Podíamos sofrer insultos, enxovalhos, agressões vindas das esferas do poder fascista, do verdadeiro do que não precisava de aspas para assim ser chamado. Os seus rafeiros eram pagos para isso: para nos morderem nas canelas. A PIDE podia difundir calúnias a nosso respeito ou até pôr-nos à sombra por tempo indeterminado. Fazer política não era uma carreira, era quando muito um meio seguro de pôr carreiras em perigo.

Em graus diversos, com empenhamentos distintos, com riscos diferenciados, fazer política era estar de pé, ser gente, não baixar a cervical perante a “fascistada”. A acção política colectiva era uma fraternidade cívica , uma comunidade de riscos, um lugar de solidariedade.

Por isso, me repugna ver hoje, até em contextos partidários, soltarem-se ferocidades inesperadas, trovejantes ataques pessoais, vociferações arrasadoras, tudo rasteiro e mesquinho, pequeno, insignificante, nulo. Tempestades de ninharias onde encontrar uma ideia é uma missão impossível. Inesperados ódios que explodem como veneno em palavras sem luz e sem grandeza. São os amanuenses da intriga que se acotovelam sequiosos nas caves dos pequenos e médios poderes, são os tribunos da banalidade gulosos por carreiras e benesses que tardam ou escasseiam.

Por isso, quem hoje cumprir o dever cívico do envolvimento político deve estar preparado para estes incómodos colaterais de que dificilmente conseguirá escapar por completo. Contudo, estar preparado, não significa aceitá-los com resignação, mas enfrentá-los com ironia e firmeza. Com ironia e firmeza , não esquecendo nunca o pequeno poema de Brecht que a seguir transcrevo, na sua versão portuguesa de Paulo Quintela.



Escapei aos tubarões
Abati os tigres
Fui devorado
Pelos percevejos.

2 comentários:

aminhapele disse...

Bom e oportuno texto.

Elísio disse...

Excelente, profundo, oportuno!