sábado, 21 de maio de 2011

CONTRACAPA DA VÉRTICE PROIBIDA PELA CENSURA - 3

Eis a terceira da série de frases, destinadas à Contracapa da revista Vértice, cuja publicação a censura salazarista proibiu.


VÉRTICE - Nº 289 - Outubro de 1967
"Pois, embora os usurpadores tomem as rédeas do governo por algum tempo, os céus são justos e o tempo suprime as iniquidades."


SHAKESPEARE

quinta-feira, 19 de maio de 2011

OS PEXISTOTÉMICOS EXISTEM !



Li há pouco, no site de um jornal diário, referências a uma tomada de posição de alguns crânios da SEDES, entre os quais se encontram verdadeiras criaturas de almanaque, que se notabilizam pelo tremendismo mais bacoco e por um ódio surdo a tudo o que, de perto ou de longe, lhes recorde sequer o PS. Apenas me deixa perplexo que alguém com a credibilidade e o mérito de João Ferreira do Amaral tenha deixado que o metessem nesta tropa fandanga.

Não vem aqui ao caso o que dizem sobre o presente. No grupo há uma densidade suficiente de pregadores de dislates para que nem valha a pena ler o que nos pretendam dizer sobre o momento presente.

Mas inebriados pela largueza do seu rasgo, eles quiseram trazer a história para o presente, dando assim luminosidade ofuscante à sua visão da nossa humilde trajectória portuguesa. Nesse registo, segundo transcrição do referido jornal, eles acham que o que está a acontecer entre nós "recorda a miopia dos partidos da I República, que abriram portas à ditadura e a quase meio século de partido único".

Ou seja, os verdadeiros culpados do salazarismo não foram os salazaristas, foram os partidos democráticos da 1ª República, as vítimas do salazarismo. Ora, realmente, quem arrombou as portas da democracia para fazer entrar a ditadura, não foram os que sofreram o salazarismo, mas os que o praticaram.

Os inefáveis personagens em causa censuram “ a miopia dos partidos da I República”, como se eles fossem os culpados pela existência em Portugal de uma direita que aceitou ser ditadura durante quase meio século. Assim, em vez de distribuírem conselhos, mais ou menos óbvios, mais ou menos tontos, não lhes ficava mal ganharem a modesta porção de vergonha necessária para os impedir de enxovalharem os republicanos que governavam em democracia e de branquearem indirectamente os fascistas, que acabaram com a imperfeição democrática para oferecerem aos portugueses a perfeição ditatorial. Em suma, exige-se a estes pexistotémicos: um pouco mais de vergonha , um pouco menos de burrice.

CONTRACAPA DA VÉRTICE PROIBIDA PELA CENSURA - 2

Eis a segunda da série de frases, destinadas à Contracapa da revista Vértice, cuja publicação a Censura na altura proibiu.


Vértice - Nº 267 – Dezembro de 1965
"Uma sociedade onde a paz não tem outras bases senão a inércia dos súbditos – que se deixam levar como carneiros e se não exercitam senão na escravidão – não é uma sociedade, é uma solidão."


Espinosa

quarta-feira, 18 de maio de 2011

CONTRACAPA DA VÉRTICE PROIBIDA PELA CENSURA - 1

Vou publicar hoje, de novo, o segundo dos dois textos que desapareceram inexplicavelmente do meu blog, na passada semana. Suponho não ter sido uma avaria privativa do GZ. Embora ambos os textos tenham parcialmente sobrevivido no Facebook, não sobreviveram completos. Por isso, resolvi publicá-los uma segunda vez.



1. No dia 6 de Fevereiro de 2010, iniciei a publicação neste blog das frases que, em cada número, mês após mês, surgiam na contracapa da revista de cultura crítica, "Vértice", cuja primeira série se editou em Coimbra, entre Maio 1942 e Dezembro de 1986. A segunda série iniciou-se em Lisboa em Abril de 1988, sob a responsabilidade da Editorial Caminho, e ainda hoje está em curso.De início quase publiquei uma por dia. Depois, a frequência de publicação dessas frases foi diminuindo. A mais recente, a quinquagésima, foi publicada em Dezembro passado.



Recordo alguns extractos do que então escrevi neste blog : "Fiz parte da Redacção da revista "Vértice", entre 1964 e [Dezembro de ]1974. (...) Durante dez anos, (...) integrei a redacção que se reunia na sede da revista na Rua das Fangas. As reuniões eram dirigidas por Joaquim Namorado, director de facto, que coordenava toda a vida da revista. (...) Durante cerca de ano e meio, cheguei mesmo a ser secretário da redacção da revista, como antes o haviam sido, entre outros, José Carlos de Vasconcelos e Fernando António de Almeida, e depois, viriam a sê-lo Carlos Fraião, Fernando Moura e João Seiça Neves.



2. Há uns dias atrás, tive oportunidade de visitar em Vila Franca de Xira, o Museu do Neo-Realismo, uma preciosa instituição cultural que honra o município que a acolheu e ilustra o acerto da decisão de ter sido escolhido este local como sede. Uma parceria feliz entre a associação que é a alma do Museu e a Câmara Municipal que soube incorporá-lo e acarinhá-lo. Uma parceria que oferece à cultura portuguesa um precioso instrumento, perpetuando muito justamente a memória de um dos mais importantes movimentos culturais do século XX português, o movimento neo-realista.



Como não podia deixar de ser, é neste Museu que está o espólio documental correspondente à primeira série da revista "Vértice". Espólio que a Fernanda foi consultar. Tendo-a acompanhado, na sua peregrinação documental, acabei por encontrar uma série de frases da contracapa que foram cortadas pela censura. Encontrei cerca de uma dezena. Resolvi publicá-las aqui no GZ, numa série autónoma a que hoje dou início. Os números a que se vão referir são os que constam das provas censuradas, sendo por isso natural que na série das frases realmente publicadas surjam menções de números que repetem os que nesta série são referidos. A publicação desta nova lista não exclui que vá dando continuidade à lista de frases da contracapa efectivamente publicadas na Vértice, das quais já divulguei cinquenta e cuja numeração própria naturalmente respeitarei.




3. Eis a primeira da série de frases, destinadas à Contracapa da Vértice, cuja publicação a Censura na altura proibiu.




Vértice - Nº 341 – Junho de 1972

"São as classes chamadas superiores que têm perdido Portugal, serão as classes trabalhadoras, as mais humildes, mas as mais úteis e activas, as de maior fé e de maior dedicação, as que contribuirão para o salvar".



Afonso Costa (discurso parlamentar de 06/02/1907)

segunda-feira, 16 de maio de 2011

FANTASMAS

Os fantasmas do cavaquismo tardio assombram de novo o nosso dia a dia. Um deles, regressado já há alguns meses, tem vindo a ilustrar a variante rasca do surrealismo político. Outro, ergueu-se das profundezas do esquecimento e tentou esconjurar especificamente o Dr. Portas, aproveitando a oportunidade para dirigir a Sócrates uma leve sugestão depreciativa. Talvez, demasiado embrulhado na sua confortável e rentável vidinha pessoal, não tenha dado conta que as nogueiras velhas dão nozes chochas.


Dizem que, por seu lado, o fantasma de todos os fantasmas arrasta dia após dia pelos corredores do palácio os intoleráveis grilhões da sua quase irrelevância.

O PINTELHO MÁGICO

Vou publicar hoje, de novo, um dos dois textos que desapareceram inexplicavelmente do meu blog na passada semana. Não foi o único; mas o outro texto, não perdendo actualidade, pode esperar. O desaparecimento total desses dois textos, penso eu que foi acompanhado por eventos idênticos noutros blogs. Suponho ter sido uma avaria não privativa do GZ. Embora ambos tenham parcialmente sobrevivido no Facebook, não sobreviveram completos. Por isso, resolvi republicá-los: agora um, noutra ocasião, o outro.


São conhecidos os imensos sacrifícios que tantos destacados expoentes da direita portuguesa têm assumido, para lutarem contra a crise que a todos atormenta. Não têm fugido a essa regra os próprios partidos políticos que a representam. E nisso merece especial destaque o PSD, que aliás até tem sido, de algum modo, prejudicado com isso. De facto, obrigado a poupar na propaganda dos cartazes, teve que libertar de quaisquer constrangimentos o verbo, já de si solto, de alguns dos seus responsáveis. Mas não se limitou a isso: libertou-lhes também a imaginação.

E foi assim que um dos seus mais ancestrais e irrequietos ministeriáveis teve uma ideia verdadeiramente luminosa (eu diria mesmo pirilâmpica!), dirigida à venda pública de um objecto simbólico que, ao mesmo tempo que valorizava uma frase política de gabarito, rendia algum preciosos dinheiro destinado á campanha eleitoral.

E foi assim que um dos fantasmas do cavaquismo tardio, lançou a avassaladora campanha do “pintelho mágico”.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

ELEIÇÕES : SONDAGENS E EMBOSCADAS

Esta infogravura traduz os resultados de uma sondagem da Intercampus difundidos pelo jornal "Público". O PS com 36,8% seria o partido mais votado, se os eleitores votassem assim no dia das eleições. A uma distância de 2,9 %, ficaria o PSD com 33,9% das intenções de voto. O CDS progrediria bastante, conseguindo com 13, 4% reunir tantas intenções de voto como o PCP (7,4 %) e o BE (6%) somados.



Conjugando-se esta sondagem, com outras recentemente divulgadas, percebe-se uma grande incerteza quanto aos resultados das próximas eleições legislativas: quer quanto a sabermos qual será o partido mais votado, quer quanto a sabermos se os dois partidos parlamentares da direita alcançarão uma maioria parlamentar.


Vários combates se travam num mesmo tabuleiro. O mais ostensivo é o que todos os outros partidos travam contra o PS. Sem dúvida, que lhe provoca um grande desgaste político, havendo um risco de esse desgaste se agudizar, no decurso do curto período que nos separa das eleições. Mas o desastre eleitoral, que parecia ser certo para o PS, quando caiu o Governo, a fazer fé nas sondagens, é agora apenas um risco, que o passar dos dias tem vindo a reduzir.


O PSD, num primeiro momento, pareceu estar apenas perante o desafio de conquistar uma maioria absoluta, já que a vitória relativa não parecia poder fugir-lhe. Redimensionar fortemente o PS, deixando-o a bem mais do que dez pontos de distância, e reconduzir o grupo parlamentar do CDS a um ou dois "táxis", pareciam objectivos ao seu alcance. Estava então na ofensiva, em duas frentes.


O cenário, porém, alterou-se e o PSD vê-se agora forçado a enfrentar duas contra-ofensivas, que o colocam dentro de uma tenaz: dum lado, o PS aproximou-se dele dramaticamente, chegando a superá-lo nalgumas sondagens; do outro lado, o CDS conquistou um espaço político mais autónomo, reaproximando-se dos seus máximos históricos. O PSD passou a correr o risco de não ser o partido mais votado, ao mesmo tempo que via o CDS ganhar uma robustez nova, que lhe permitirá ter uma influência muito mais relevante, no âmbito de um governo de direita. Isto, para não referir o risco, que o PSD corre, de ficar perante um xadrez político complexo, em que o PS possa fazer maioria quer com ele próprio, quer com o CDS; o que significaria uma forte desvalorização da sua importância política no novo contexto parlamentar.


Quanto ao PCP e ao BE, passa-se com ambos um fenómeno estranho. Pareciam destinados a beneficiar de um forte vento de descontentamento popular contra o Governo, que os poderia impulsionar para resultados eleitorais históricos,mas , ainda segundo as sondagens, parecem agora penar para não recuarem, por comparação às eleições anteriores, embora essas dificuldades sejam maiores para o BE do que para o PCP. O facto de nesta sondagem a soma de ambos se equiparar ao resultado do CDS é um autêntico sinal de alarme.


Talvez isso reflicta, afinal, a inconsistência estratégica da orientação política que têm seguido. De facto, ao fazerem coro com a direita na recusa de qualquer acordo com o PS, refugiando-se nuns confusos apelos a imaginários governos de esquerda sem o PS, acabam por se reduzir a si próprios a simples batedores políticos da direita, no combate que ela trava contra o PS. Na verdade, querer combater a política das agências internacionais do neoliberalismo, metendo PS e a direita num mesmo saco, dizendo que são iguais e tanto fazem uns como outros, pode ser uma adequada justificação implícita da sua linha política, mas afasta qualquer hipótese de resistir com êxito a essas agências.


Efectivamente, o próprio modo como o BE e o PCP se opuseram à vinda da "troika", reduzindo o arco de governação mais lógico aos outros três partidos parlamentares, torna ainda mais óbvio que quanto mais enfraquecido institucionalmente sair o PS das próximas eleições, mais forte sairá a direita. Se tão forte que venha a ser maioritária, é o que se verá.


A inabilidade e radicalismo neoliberal do PSD têm tornado mais nítida a diferença entre o que viria a ser um governo de Passos Coelho, em comparação com os governos de Sócrates. Uma parte dos eleitores do BE e do PCP já deram conta disso. Nada garante que muitos outros não venham a ter a mesma perplexidade. Chegarão até ao ponto de votarem no PS, para evitarem o programado festim neoliberal , já agendado, em caso de vitória de direita? Ou, para já, apenas se absterão ? Seria de uma imensa ironia objectiva que a direita ganhasse as eleições, não porque o PS perdesse muitos votos, mas pelo facto de os perderem o BE e o PCP.


Há ainda um outro ponto esquisito na actual campanha. Sócrates (o alegadamente intratável), na qualidade de Secretário-Geral do PS, tem repetidamente publicitado a sua disponibilidade para negociar, com os outros partidos, acordos de governo, tal como parecem desejar as instâncias internacionais e umas tantas legiões de notáveis deste país (a maior parte dos quais nada têm a ver com o PS). Pelo contrário, quer o PSD quer o CDS (alegadamente tratáveis) recusaram publicamente qualquer cooperação governamental com o PS, ignorando os apelos de muitas figuras nacionais das respectivas áreas políticas, bem como as instâncias internacionais e as europeias, estas aliás dominadas pelo Partido Popular Europeu ao qual ambos pertencem. O alegadamente intransigente, Sócrates mostra-se afinal capaz de transigir, quando acha que a isso aconselha o interesse de Portugal. Os retóricos do interesse nacional, na sua versão de direita, são afinal incapazes de secundarizar, por pouco que seja, as suas conveniências partidárias, em face do que tanto dizem respeitar.


O BE e o PCP juntaram-se ultimamente a este coro, rejeitando qualquer acordo com o PS. É claro, que uns e outros falam por vezes expressamente no PS de Sócrates, ou no PS enquanto Sócrates o liderar, como se lhes coubesse a eles decidirem quem deve estar à frente do PS. Mas isso seria apenas uma imbecilidade, se não fosse um afloramento de uma enorme má-fé política. De facto, que Partido sobreviveria à enorme indignidade ética, à imensa cobardia de mudar de Secretário-Geral para obedecer a cominações externas, vindas ou não de outros partidos? Eu, que nunca votei em Sócrates internamente para Secretário-Geral do PS, afirmo sem hesitação que consideraria uma miserável traição admitir sequer discutir com focos de poder externos ao PS a sua substituição ( ou de qualquer outro Secretário- Geral), para fazer a vontade aos outros partidos. Podem não querer acordos com o PS, mas não podem decidir quem deve ou não deve liderá-lo.


Por tudo isto, vai chegando à superfície o significado político profundo da conjugação das estratégias eleitorais dos actuais partidos da oposição. Se todos convergem na rejeição de acordos com o PS, contraem a obrigação moral de se conjugarem numa solução alternativa. Não podem é insultar rasteiramente o PS, dia após dia, e virem depois pedir-lhe apoios ou complacências. Involuntariamente, talvez tenham tornado tudo mais claro: ou há uma maioria absoluta do PS e o PS tem a responsabilidade de encontrar uma solução; ou há uma maioria das actuais oposições e é delas a responsabilidade de encontrarem uma solução governamental.


E se as oposições de esquerda não se sentirem capazes de colaborar numa solução dessas, talvez devam então interrogar-se sobre a razão porque isso acontece. E talvez então percebam que se essa resistência estiver certa, só pode estar errada a linha política que têm vindo a seguir.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

NAUFRÁGIO EM SECO

Era uma vez um coelho muito bem guisado que ofereceu um pacote de leite desnatado ao seu avô cantigas. Enquanto o coelho esperava pelo tempero, o leite desnatado azedou e o avô cantigas desafinou.


A canção tinha a ver com o iva, o que levou o avô cantigas a insultar um vizinho. O leite desnatado continuou azedo e também insultou um cavalheiro que ia a passar. O coelho guisado garantiu que, quando chegarem as batatas, ele é que manda. E também ele cuspiu num sujeito que passou por perto. Foi então que o leite se verteu nas barbas do avô,deixando o coelho em apuros.


A confusão era grande. O avô dava pequenos guinchos apropósito do iva, o leite parecia querer azedar de vez, o coelho cheirava cada vez mais a esturro. Num assomo de imaginação, imaginaram-se os três dentro de um barco. Os ventos do destino sopraram então com toda a força. E naufragaram.


É este o primeiro caso conhecido de um naufrágio em seco, ocorrido mesmo antes de a própria viagem começar.

RESPIREM AGORA.

Uma fuga de informação do círculo íntimo de Passos Coelho deu a saber que este incerto estadista tem um trunfo que considera ser a sua marca de identificação política. Guardou a sua divulgação para o fim da campanha eleitoral e está convencido que assinalará definitivamente a sua imagem: a privatização do ar.


De facto, como muito bem disse o avô político do referido estadista, os portugueses têm respirado muito acima do que deviam.



Por isso, vos recomendo. Respirem fundo, respirem já, mesmo com sofreguidão. Quando o Passos Coelho mandar vão ter que cortar na respiração.

COMPROMISSO EMBARAÇOSO

Compromisso Histórico? , interroga-se Medeiros Ferreira no seu Córtex Frontal, em duas linhas contidas, mas muito incisivas. Duas linhas :


"Muito interessante este debate na TVI entre Passos Coelho e Jerónimo de Sousa.Pouparam-se tanto entre si quanto bateram no PS. Deixaram um cheirinho a «Compromisso Histórico» à italiana. ".


Essas duas linhas têm a carga simbólica do triste futuro desse compromisso, que afinal nem chegou a existir.


Por mim, não pude deixar de pensar no Brasil , onde o PPS, que continua a ter como ícone Luìs Carlos Prestes, tal como já se aliara à direita brasileira contra a reeleição de Lula, foi recentemente um dos partidos da coligação formal de direita que se contrapôs a Dilma.

domingo, 8 de maio de 2011

HOMENAGEM A PAULO QUINTELA

O acaso da peregrinação por revistas de outro tempo levou-me a uma Vértice de 1967, ao número 282/283, que correspondeu ao 25º aniversário dessa revista, então editada em Coimbra. Um número publicado dentro dos dez anos ( 1964/1974 ) em que pertenci ao Conselho de Redacção dessa revista. Ao passar os olhos pelo respectivo índice, deparei com seis poemas de Paulo Quintela.



Com o tempo a memória torna-se injusta. Frequento, de quando em vez, as traduções magistrais da autoria de Paulo Quintela, especialmente de poemas de Brecht. Mas não tinha memória de poemas da autoria do próprio Paulo Quintela. Percorri-os com curiosidade; e fiquei com um sentimento mais fundo de mágoa pelas injustiças em que a nossa memória tantas vezes incorre.




Por isso, o mínimo que tenho obrigação de fazer é prestar homenagem a Paulo Quintela: ao que ele deu à cultura portuguesa, à Univerisdade de Coimbra e a sucessivas gerações de estudantes, através do Teatro de Estudantes da Universidade de Coimbra (TEUC). E não posso aqui também esquecer o apoio generoso ( e tão importante) que deu ao punhado de socialistas, oriundos do PS e com outras origens, que com Lopes Cardoso iniciaram em 1978 a aventura da UEDS (União da Esquerda para a Democracia Socialista). E não posso esquecer, porque era um deles. Não se filiou, mas encorajou-nos e apoiou-nos publicamente.



E nada mais apropriado, nesta circunstância, para sublinhar o calor dessa homenagem do que transcrever um dos seis poemas acima referidos.




CONTRIBUIÇÃO PARA UM FUTURO RETRATO

Valeu a pena o desgaste, a erosão
Do tempo no meu rosto
─ As rugas da angústia e da meditação
E do desgosto;
Os traços verticais da cólera entre os cenhos;
Os desenhos
Que as lágrimas abriram com seu sal;
O amargo vale
A emoldurar a boca arrepanhada
De sarcasmo brutal
Ou de azeda ironia,
Quase sempre cerrada.
Raro aberta de inata bonomia;
Os olhos fatigados.
Mas ainda e sempre apaixonados
Da beleza do mundo ─ ;

Valeu a pena ter descido ao fundo
Da dor e da paixão;
Ter dado amor e amizade
Pra receber traição;
Ter sofrido o desterro e a saudade
Na própria terra em que nasci ─ ;

Valeu a pena ao declinar da idade
Poder dizer «amei, sofri ─ vivi» ─ ;

Valeu a pena tudo retratar
Em carne viva e dura
Nesta face cansada ─

Pra tu poderes passar a mão alada
De ternura
E estudar, decorar
A geografia complicada
Da humana criatura ─ ;

Ouvir dizer que gostavas de a guardar
Na memória amorosa dos teus dedos...

[ Paulo Quintela ]

quinta-feira, 5 de maio de 2011

LAMPIÔES APAGADOS




Lampiões apagados, águias depenadas.


Ai, Jesus!!

SOB O VERNIZ



Dia após dia, vão-se acumulando indícios de que Passos Coelho é um simples verniz político. Reveste-se de cores garridas, para chamar à atenção, procura tonalidades que sugiram profundidade, mas as suas propostas vêm demasiadas vezes eivadas de uma superficialidade chocante, quando não reflectem uma forte contaminação demagógica.

Ontem, a fazer fé na imprensa, ofereceu-nos mais uma das suas pérolas. Incluiu na sua carta de intenções programáticas a enérgica descida do número de deputados para 181.

Não trago aqui à colação de momento o mérito substancial da proposta, embora seja estranho que se esqueça que Portugal, entre os países membros da União Europeia, é um dos que têm um número menor de deputados em termos relativos, isto é, comparando a população com o número de deputados. Embora alguns pavões ignorantes continuem a insistir no contrário, há informação, estudos e até teses de doutoramento, onde se podiam esclarecer. Por outro lado, uma diminuição do número de deputados pode enfraquecer em demasia a representação parlamentar directa de algumas áreas do território nacional. Por último, sabe-se que em virtude da geografia eleitoral portuguesa há uma vantagem relativa importante do PSD em face do PS: o PSD precisa de uma percentagem de votos menor do que a do PS para atingir a maioria absoluta dos deputados. Dir-se-á: é um detalhe sem grande importância. Mas se nos lembrarmos que se tivesse sido o PSD a ter tido os votos que teve o PS de Guterres, teria tido duas maiorias absolutas, e o PS não as teve, não seremos tão displicentes. Ora, a diminuição do número de deputados alarga essa diferença, beneficiando sempre por si só o PSD em detrimento do PS. E se é certo que as leis eleitorais devem ser neutras, não se podem ignorar os favorecimentos e os prejuízos que suscitem as suas alterações.Estas considerações bastariam, por si sós, para fazer com que se pensasse duas vezes antes de seguir o salazarento preconceito anti-parlamentar que induz uma estranha cólera popular contra tudo o que é eleito, mas principalmente contra os deputados. Foi desse insalubre preconceito anti-democrático que Passos Coelho não hesitou em procurar aproveitar-se.

Acresce a tudo isso, a necessidade de uma maioria de dois terços para se fazerem as alterações que Passos Coelho prometeu como se dependessem da sua vontade, da vontade de uma simples maioria parlamentar. Lançar propostas destas numa campanha, num tom de pressão e demarcação do partido sem cujos votos tais medidas não serão aprovadas, não parece por isso o caminho mais inteligente, para quem queira realmente ver essas medidas aprovadas.

Por isso, das duas uma: ou Passo Coelho inscreveu nas suas intenções programáticas uma medida que não depende de uma eventual maioria que alcance, sendo indispensável o apoio de um partido do qual ele se pretende distinguir precisamente através dessa medida ( e assim, se estiver s ser sincero é imprudente, porque não tem condições para, sem o apoio do PS), atingir esse objectivo; ou apenas está a fazer chicana política, usando um tema político do maior relevo como arma de propaganda.

Nem uma nem outra hipótese são lisonjeiras, sendo ambas indícios preocupantes da superficialidade política do seu autor. Por isso, cada vez é mais legítimo desconfiar-se que por debaixo do verniz mediático que reveste Passos Coelho exista apenas um imenso vazio.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

LEITORES INJUSTOS


Extracto de um texto retirado há pouco da página do Correio da Manhã :


"O diário ‘Público’ vendeu uma média de 24 821 exemplares em Janeiro e Fevereiro, o que significou uma diminuição de 4,2%. Bem maior foi a quebra do semanário ‘Sol’, que diminuiu as suas vendas em 60,3%, para os 23 480 exemplares.
A fechar a tabela está o ‘Diário de Notícias’, também da Global Notícias, que vendeu menos 38% do que nos mesmos meses do ano passado, baixando para uma média de 18 398 exemplares.
Referência ainda para o diário ‘i’, que fechou este período com uma média de vendas em banca de 4289 exemplares, uma quebra de 46,1% em relação aos mesmos meses do ano transacto."


Os leitores são muito injustos. Então eles esforçaram-se tanto por demolir o governo e destroçar o PS e perderam leitores ?


Não desistam! Continuem com determinação. Com um pouco de sorte ainda conseguem perder mais leitores.

O AVÔ E O COELHO


- Pedrinho, não sejas maroto. Sai já debaixo da mesa. Não deixes o avô sozinho.


- Não. Não e não.


- Vá lá ! Queres que venha o lobo mau e faça mal ao avô ?

terça-feira, 3 de maio de 2011

SOB INTENSO NEVOEIRO



A comunicação de Sócrates deixou as oposições sob intenso nevoeiro. É certo que não tirou coelhos ( salvo seja!) da cartola, nem sugeriu paraísos ao virar da esquina. Não anunciou o gesto brusco que nos libertasse do garrote da finança internacional. Limitou-se a mostrar que os gilós de seviço exageravam largamentre, quando prometiam infernos como único futuro ao alcance dos portugueses.


Já ouvi a reacção do último fantasma vivo do cavaquismo, ressuscitado para tomar conta do Passos. Avaliou o resultado anunciado das conversações com a troika, sem conseguir deixar de dizer que era um bom acordo. Mas teve que tartamudear um esconso autoelogio do PSD, sem estar muito certo se estava virado para o sul, para o norte, ou simplesmente do avesso. É a linha tarã-tã-tã; embora conste que está em preparação uma nova carta com todas as perguntas que já foram respondidas, para saber se as respostas são as mesmas.


Quanto ao mano Portas que é Paulo, comentou com grande sentido de Estado a comunicção de Sócrates: "Isso não tem importância nenhuma. O importante é que eu quero ser o próximo primeiro-ministro". Os lusitanos exultaram e uma brisa de contentamento inaudito soprou nas altas mesas dos "pecebes" da nossa sociedade.


As esquerdas notarialmente reconhecidas como as únicas autênticas ( é certo que cada uma à sua maneira) têm uma posição simples, directa e clara: bum! Arrasam o Sócrates, o FMI, o BCE e a União Europeia. Se pudessem agarravam na terra e deitavam-na fora.


Pela minha parte, afasto-me pé ante pé, antes que leve alguma cabeçada. A coisa está preta. Os tempos estão difícieis; os milhafres da finança internacional pairam. Mas talvez o Zé Povinho lhes faça o "manguito". E principalmente: talvez não seja ainda desta vez que a coelhada vá ao pote.


E para cúmulo, alguns soldados americanos mataram o Bin Laden em legítima defesa, falta apenas um simples milagre para um ex-Santo Padre ser realmente Santo, o barcelona amansou os madrids versão mourinho e os "andrades" esperam ansiosamente os "lampiões" para os tosquiarem de vez. E mais do que isto vai começar a queima e coimbra vai apanhar uma das que só passam com amoníaco. O Sócrates pode ficar descansado: a troika vai pescar para o alqueva, o último fantasma do cavaquismo só lhe vai escrever mais três cartas, o Portas de direita vai ter o apoio entusiasta da mamã para ser primeiro-ministro, quanto mais não seja, quando for grande; e as oposições à esquerda são contra como lhes compete.


Não me afastei como devia: levei mesmo uma cabeçada! Desculpem!

BANALIDADES ÚTEIS

1. Um diagnóstico político-social tão implacavelmente rigoroso que suscitasse como certeza a impossibilidade de superar a crise para que serviria? Para fundamentar o desespero? Mesmo que subjectivamente espelhasse uma recusa radical da sociedade que temos, objectivamente só poderia ser um precioso auxiliar da conservação dessa sociedade.

2. Combater com toda a energia para superar uma conjuntura desfavorável, com base em ideias toscas e superficiais, aprisionadas nas simples aparências e distantes de uma perspectiva analítica que permita uma compreensão adequado da realidade, é correr o risco de se desperdiçarem esforços, lutando-se contra o que se queria defender.

3. Passar a vida combatendo miragens, enquanto os palácios do nosso descontentamento continuam a coberto da nossa atenção e desse modo protegidos dos nossos golpes, é o que mais agradará aos nossos inimigos.

4. Sem emoção a política é uma parede de tédio, sem racionalidade é uma roleta russa.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

ESQUERDA SOCIALISTA

Verifiquei que a estrutura de coordenação da corrente de opinião interna do PS, Esquerda Socialista, deu por consumada a desvinculação da corrente dos vinte e um elementos que constituiam o Núcleo de Coimbra, a pedido deles. Considero, por isso, que nada impede agora que seja tornada pública essa desvinculação.

De facto, a seguir ao Congresso do PS, foi enviado por mim em representação dos membros do Núcleo de Coimbra para a Comissão Coordenadora Nacional da COES o seguinte texto:


"Coimbra, 21 de Abril de 2011


À Comissão Coordenadora Nacional da COES,

Caros Camaradas:

1. No mais recente Plenário Nacional da COES, para além de ter sido tomada uma decisão importante e estratégica, que mereceu o desacordo de todos os elementos de Coimbra presentes, ficou clara uma diferença de atitudes políticas em face do partido e da conjuntura que atravessamos.

Nomeadamente, viu-se que a intensidade do nosso cuidado em nunca sermos objectivamente confundíveis com os adversários externos do PS, em nunca deixarmos que possa sequer parecer que somos absorvidos pela agenda política e pelos argumentos da direita, não era partilhada por muitos, nomeadamente, por alguns dos presentes, quer com papel liderante na reunião, quer com apreciável visibilidade mediática.

Paralelamente, foi também nítida a diferença entre o registo ideológico e político da maioria conjuntural, mas muito expressiva, encontrada nesse Plenário (a qual, aliás, marcou o rumo da corrente para os próximos tempos) e o do núcleo de Coimbra, nomeadamente, quanto ao que deverá ser uma estrutura deste tipo dentro do PS.

O que aconteceu desde então não trouxe qualquer dado novo susceptível de atenuar essa distância que, por isso, se conserva bem marcada.

2. Na sequência disso, teve recentemente lugar em Coimbra uma reunião plenária do respectivo núcleo distrital da COES, na qual todos os presentes decidiram desvincular-se dela. Foram individualmente contactados todos os camaradas que não participaram na reunião, para se saber quem assumia a posição tomada.

Foi ainda decidido nessa reunião que, uma vez apurada com segurança a posição de todos os inscritos na COES em Coimbra, ela seria comunicada à Coordenadora Nacional, por mim.

É o que estou a fazer, quando vos digo que se desvincularam da COES os seguintes membros do núcleo distrital de Coimbra, os quais aliás correspondem à totalidade dos vinte e um inscritos:
(..... ..... ....... .......)

3. Em meu nome e em nome deles, peço-vos pois o favor de eliminarem os nomes atrás mencionados dos ficheiros da COES e de os retirarem da listagem dos membros de Coimbra da Esquerda Socialista que consta do vosso site.

Esperamos que o vosso trabalho seja profícuo e possa contribuir para o desenvolvimento do PS. Pela nossa parte, estamos a elaborar um documento político que projecte no presente o que de essencial é a herança ideológica e política da “Margem Esquerda”, para, com base nele, constituirmos um novo clube político ou uma nova corrente de opinião dentro do PS.

Peço-vos o favor de acusarem a recepção desta mensagem, da qual será dado conhecimento a alguns outros camaradas.

Com as mais cordiais saudações
Rui Namorado"

domingo, 1 de maio de 2011

RETRATOS DA DIREITA COMO EMBUSTE



1. “Mais sociedade”, esse conglomerado de engomadinhos, devidamente temperado por um ou outro renegado mais ostensivo, junta-se, fingindo que pensa, apenas para desenrolar com estrondo mediático a lista das conveniências de alguns patrões de luxo, que pretendem aproveitar a presença da troika neoliberal, para imaginarem novas maneiras de levar ainda mais longe a exploração dos trabalhadores e o confisco de bens públicos pela voracidade ilimitada dos barões do capital.

2. Tal como antes as matilhas salazarentas pretendiam perseguir como culpados de um crime de opinião os portugueses que não pensavam como eles, algumas das suas projecções ideológicas actuais, revestidas pelo verniz neoliberal, querem perseguir como culpados de um crime de governação os governantes democraticamente escolhidos pelos portugueses, que não governaram (ou não governem) como eles queriam.


Isto é, se a direita ganha as eleições governa; se ganha o PS, ou governa como a direita governaria se ganhasse ou metem-no em tribunal.



3.O espaço mediático foi invadido por um enxame de comentadores, de jornalistas, de capatazes intelectuais de grandes interesses, de advogados de negócios, de professores de economia falando do estrangeiro, de graves especialistas sociais de inenarráveis banalidades, de inertes politólogos de laboratório. Falando muitas vezes perante verdadeiras obtusidades jornalísticas, vão poluindo os nossos ouvidos com ladainhas previsíveis que traduzem, na sua prosa embrulhada de ideólogos ainda verdes, o jargão neoliberal de antes da actual crise, servido como se continuasse com as mãos limpas, apesar do desastre para onde nos levou.

Essas carcaças engravatadas, mais ou menos jovens, mais ou menos senatoriais, dividem-se em dois grandes grupos, embora , por vezes se desorientem embrulhando os dois grupos dentro de si próprios.



Num deles alinham os que insultam grosseiramente o PS e o governo, culpando-os da crise financeira internacional desencadeada nos USA, da tendência da banca internacional para ignorar a ética e roçar a fronteira da criminalidade organizada; atirando-lhes para cima as culpas pela especulação nos mercados das dívidas soberanas e pelo estranho mix de conveniências e tecnicidade, que parece guiar as agências de “rating”. São os que acusam o PS e o Governo do essencial das consequências do neoliberalismo ( que afinal defendem ), pretendendo imputar-lhes, como grave responsabilidade, o facto de não serem suficientemente neoliberais. São os que parecem querer mandar o PS e o governo para Peniche, para Caxias, ou quiçá para o próprio Tarrafal. Se pudessem...

No outro grupo, situam-se os que, sem deixarem de atribuir também ao PS e ao Governo todas as culpas que consigam imaginar, determinam que o PS tem que participar numa solução de poder como disciplinado acólito da direita.

Trata-se pois de uma cambada de ideias que se atropelam no espaço mediático, numa imensa operação de propaganda, que, no entanto, não tem um norte que verdadeiramente a oriente. De facto, ora parece querer pôr o PS e o Governo na cadeia, ora parece querer obrigá-lo a partilhar o poder com a direita. É como se tivessem medo que os seus desajeitados intérpretes politico-institucionais excedam a margem de asneira que, da sua própria natureza, esperam. E,por isso, querem dispor de alguns socialistas que impeçam os sesu capatazes de cairem em todos os pequenos abismos que o dia a dia da governação lhes ponha pela frente.



4. Fiquei emocionado. Desta vez a direita colocou-se toda na balança da luta eleitoral. Não estou, no entanto, seguro que essa sofreguidão táctica, não a faça incorrer em sobreriscos estratégicos. De facto, a direita classicamente organiza-se, desdobrando-se em centros de poder dispersos, entre os quais avultam quer os centros de poder económico, que de facto mandam, quer os seus partidos políticos, protagonizados por capatazes profissionais, alguns dos quais necessariamente de luxo. Para potenciar a própria eficácia , a intercomunicação entre as duas esferas é fisiológica e discreta.

Assistimos agora, pelo lado do PSD, à quebra dessa discrição, a uma verdadeira desocultação do que estava escondido. Talvez tenha sido uma precipitação, gerada pela vertigem dos acontecimentos, mas o facto é que se transformou numa verdadeira experiência de um teatro do absurdo. Bem na frente dos nossos olhos, os mandatários fingem mandatar os seus próprios mandantes, para que estes venham, em praça pública, dar-lhes como conselhos as orientações políticas que lhes transmitiram já como ordens nos fisiológicos canais da informalidade.


Eles talvez tenham temido que o descrédito público, que desgastou particularmente os agentes político-partidários da direita, possa ultrapassar o eleitoralmente suportável, julgando poder minorar esse risco com o apadrinhamento público ostensivo de uns tantos agentes dos poderes de facto económicos. Porém, os riscos de fugirem aos rotinados canais normais são grandes. Por exemplo, a provável ausência dos habituais filtros ideológicos, preparados para travarem as medidas mais brutais ou para as envolverem nos sete véus da dissimulação, pode fazer com que os destinatários da propaganda acabem por perceber aquilo que lhes deveria ser ocultado. Ou seja, que aquela gente defende principalmente os seus negócios, a rentabilidade do seu capital, se possível no quadro dos interesses nacionais, se necessário contra eles.


Na verdade, o que realmente entrou em cena não foi um generoso impulso para "mais sociedade", mas um egoístico apego a "mais negócios".

MAIO AUSENTE

Este livro de que sou autor, Maio Ausente, foi publicado em 1970 no Cancioneiro Vértice, colecção em que haviam sido publicados livros de Fernado Assis Pacheco ( Cuidar dos Vivos ), José Carlos de Vasconcelos ( Corpo de Esperança), Manuel Alegre ( Praça da Canção), Joaquim Namorado (A Poesia Necessária) e João José Cochofel ( Quatro Andamentos).

Em homenagem ao 1º de Maio resolvi transcrever aqui o poema integrado nesse livro, O Vinho Necessário, na medida em que foi de um dos seus versos que surgiu o título do livro. Os últimos três versos são aliás premonitórios, tendo sido escritos vários anos antes do 25 de Abril.

O Vinho Necessário

O meu país é um copo vazio
a um canto da Europa gangrenado

Os lábios usuais morreram já
falemos pois do vinho necessário
falemos das sementes e da esperança
da cólera madura repetida
do murro que se abate sobre a mesa

Critico a memória apenas doce
do tempo já perdido
critico os lábios em posição de espera

A sede só por si não é o vinho
e as uvas apodrecem na tristeza
o copo mais vazio e mais antigo

Abril consentido maio ausente
novembro muito triste sempre triste

apenas estar aqui não é viver