quarta-feira, 24 de novembro de 2010

A GREVE, O SAPO E O ESCORPIÃO


1. Fiz greve. Como professor universitário tinha razões para o fazer: o Processo de Bolonha vai continuando o seu trabalho de corrosão das universidades públicas e uma austeridade desenhada e imposta pela irracionalidade neoliberal vai agravando a deriva.Além disso, cumpri a decisão do meu sindicato.

2. As esquerdas parecem epicamente condenadas a degladiarem-se entre si. As direitas navegam em águas aparentemente mais tranquilas. Abaixam-se para ver se a tempestade lhes passa por cima e se no fim ficam mais fortes e as esquerdas mais fracas.

3. O sector dominante da esquerda institucional resmunga oficiosamente uma imagem de fracasso da greve que a realidade teimosamente desmente. Os sectores dominantes das esquerdas sociais desenham um cenário demolidor que, se tivesse a dimensão afixada, já teria varrido qualquer governo. Esgrimem entre si números como se o peso da greve não fosse o resultado de um balanço sócio-politico, mas um hipotético apuramento impessoal de uma luta entre números.

4. O primeiro parece acreditar que, se fizer os sindicatos morder o pó, poderá navegar tranquilamente numa imaginária harmonia, gerida pelos generosos e altruístas senhores do dinheiro, que lhes continuarão a deixar movimentar as alavancas do poder. Os segundos parecem acreditar que se destroçarem o sector dominante da esquerda institucional verão abrir-se as portas de um outro poder político, onde os interesses que defendem tenham verdadeiro eco.

Mas se os trabalhadores forem vencidos e os sindicatos aniquilados, na constância do capitalismo, nenhum governo de esquerda respirará sequer cinco minutos de poder institucional. E se a esquerda institucional dominante for desmoronada, seguir-se-ão governos de direita, cuja novidade será o agravamento brutal de tudo aquilo que fez com que os sectores dominantes das esquerdas sociais combatessem o sector dominante da esquerda institucional.

Por isso, esta greve teve também uma dimensão trágica. Ela fez-me recordar aquela história do sapo que para ajudar um escorpião a atravessar um ribeiro o transportou no seu dorso. Contudo, a meio da travessia o escorpião espetou o seu ferrão venenoso no sapo. E ferido mortalmente o sapo perguntou. "Porque me matas, sabendo que se eu morrer também tu morres". E o escorpião respondeu: "É da minha própria natureza". E morreram os dois.

Mas neste caso, é como se a história envolvesse dois pares de sapos e de escorpiões. Num deles é a esquerda institucional que faz de sapo; no outro, são as esquerdas sociais. O desenlace é o desaparecimento de todos, seja qual for o papel que desempenharam.

5. Há uma subtil ironia, impregnando tudo isto. Embora pareçam desconhecê-lo, para cada uma das partes, os problemas da outra são afinal também seus. E cada uma delas precisa da força da outra para que, a prazo, não fique irremediavelmente enfraquecida.

Reconheço que a probabilidade de isto ser entendido por qualquer das partes, é escassa. Possivelmente, cada um dos lados continuará a incensar a sua própria santidade e a construir infernos onde gostaria de ver o outro; a construir minuciosamente a culpa do outro e a inocência própria.

Mas quem conseguir despir o seu olhar, por um momento, da neblina das aparências mais prementes, facilmente verá que, se ambos os lados continuarem a intercambiar sucessivamente entre si os papeis de sapo e de escorpião, acabarão por se afundar.

Este não é um resultado que qualquer das partes vá imputar à greve de hoje, mas foi uma reflexão que ela em mim, irresistivelmente, desencadeou. Não é entusiasmante. Mas poderemos passar-lhe por cima, ignorando-a, só pelo facto de nos incomodar ?

terça-feira, 23 de novembro de 2010

INDISPENSÁVEL LER !

Indispensável ler de João Silva “ERA PRECISO
QUE O PS SE LEVANTASSE DO CHÃO…” escrito
no seu blog
"BOM DIA MONDEGO"



segunda-feira, 22 de novembro de 2010

O MISTERIOSO SR. MERCADO


Quando se fala no Sr. Mercado, como a sombra que paira sobre a Europa, não se está a dizer o seu nome completo. Dever-se-ia dizer o Sr. Mercado de Capitais. Mas ainda assim, se fosse desta maneira que ele fosse referido, não se estaria a dizer tudo.

De facto, o Sr. Mercado de Capitais é uma maneira discreta de designar uma neblina, por detrás da qual se escondem, certamente por modéstia, pessoas e entidades. São pessoas e entidades muito diferentes entre si. Mas que têm uma característica comum: dispõem de capitais que precisam de investir. E como é que se chamam as pessoas e as entidades que dispõem de capitais e os querem investir? Capitalistas, diria eu se quisesse chamar as coisas pelo seu nome mais apropriado.

E agora, que já disse isso, talvez ouse pensar que não será só por modéstia que essas pessoas e entidades não se assumem tal como são e aceitam andar escondidas por detrás da cortina representada por uma alegada existência de um imaginário Sr. Mercado, sujeito volátil e imprevisível..

Imaginem o que aconteceria se nas primeiras páginas dos jornais e nas aberturas dos noticiários televisivos, em vez de se dizer que o Sr. Mercado especula com as dívidas dos estados, que o Sr. Mercado se prepara para atacar especulativamente o euro, que por causa do Sr. Mercado perderam emprego e entraram na pobreza milhões de europeus, se dissesse que por causa de alguns capitalistas, vários países europeus se aproximavam do colapso e milhões de seres humanos viam as suas vidas desfeitas.

Imaginem o que aconteceria. E estejam certos de que esses senhores já imaginaram. E é precisamente por isso que passaram a chamar-se Sr. Mercado de Capitais, e a serem familiarmente conhecidos por Mercado.

sábado, 20 de novembro de 2010

O GRANDE CIRCO DA NATO


Milhares de pessoas confluem em Lisboa. São pessoas graves, circunspectas, levando penosamente às costas o peso do mundo. Cada político arrasta consigo a sapiência lisa de muitos peritos. Mesmo nos almoços, surpreendem-se conversas densas, jogos complexos de misteriosos desígnios. Cá fora, milhares de polícias construem a imagem pura de um perigo imaginário. Vestindo as alvas roupagens da paz, uma mistura de jovens e de menos jovens esbraceja ao longe slogans épicos e desagradáveis contra a NATO. Uma pedra perdida voa numa ambição de estilhaço, um polícia num automatismo sereno dá uma cacetetada. Donas de casa espantadas, reformados ociosos e criaturas simplesmente curiosas surpreendem deleitados ao longe a sombra fugidia de Obama. A chuva num toque melancólico desce pela tarde. Sábios jornalistas , ágeis de muitas guerras, experimentados em todos os labirintos do poder, aguardam tensos a chegada das palavras ditas. Nos meios de comunicação social domésticos, espraia-se o enciclopedismo dos naftalínicos da política; os carimbados com os novos saberes, sobre qualquer coisa que seja internacional, falam com a superficialidade de manuais vivos, sobre os alegadamente grandes deste mundo.

Navios, tanques, aviões, carros de combate, jovens armados como felinos da morte, generais mortíferos como milhafres, mísseis fatais como maldições, aguardam impacientes a palavra arguta dos estrategas, o desígnio histórico dos políticos de horizonte.

E as palavras chegam: medidas, plenas de uma exactidão sem mácula, subtis como serpentes, ópios dissimulados em alusões de esperança. Os jornalistas mais experientes observam-nas com o microscópio das rotinas instituídas, percorrem o seu interior com uma paciência sem limites, pesquisam as entrelinhas com a curiosidade dos detectives. Mas, em vez de serem possuídos por um sobressalto de espanto, pela novidade que cega, descem melancolicamente das suas curiosidades, reclinam-se cépticos ao longo das conclusões proclamadas e experimentam, mais uma vez, a náusea suprema do já visto.

E é essa suprema náusea que verdadeiramente resume o alvoroço destes dias, afinal vazios. Um vago estudante de Relações Internacionais, nos primeiros passos de caloiro, a quem um professor optimista pedisse o bocejo de um texto simples, sobre a geo-estratégia das desgraças e das guerras, à porta das quais se ajoelham a Europa e a América, não criaria um produto textual mais plano, mais previsível e mais inócuo.

Em seus fatos escuros, em seus vestidos cinzento-choque, os grandes e as grandes deste mundo saíram repetidamente de grandes carros pretos, almoçaram-se discretamente, uma e outra vez, num sussurro de conversas cifradas, cujos códigos parecem ter esquecido. Grande representação de um novo teatro do absurdo, em que todos parecem caminhar apressadamente para lado nenhum.

Exaustos, recolherão a suas casas, como se tivessem mudado o mundo de sítio, mas afinal a luz que verdadeiramente se acende, no mais íntimo das suas profundidades, é a volúpia indizível de terem deixado tudo na mesma.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

O MISTÉRIO DA MULTIDÃO PERDIDA


Uma multidão entusiástica, vinda de todos os recantos da Europa, da América do Norte, do Iraque e do Afeganistão, juntou-se a várias centenas de milhares de portugueses numa enorme manifestação popular de regozijo pela realização de mais uma cimeira da NATO, desta vez realizada em Lisboa.

Os diversos líderes políticos, aplaudidos e acarinhados pelo povo, deram muitos autógrafos e deixaram-se fotografar inúmeras vezes ao lado de manifestantes empolgados e agradecidos.

As janelas das casas das ruas vizinhas estavam engalanadas com flores e bandeiras; e repletas de cidaddãos calorosos e entusiastas que não se cansavam de aplaudir as notabilidades presentes.

PERFUMES SECRETOS

Uma das mais secréticas figuras da cena secreta portuguesa demitiu-se. As trombetas da comunicação social doméstica rugiram entusiasticamente a notícia. Graves figuras de Estado sussurraram publicamente alegações descansatórias.

Pela minha parte, olhei com cautela, para um e outro lado, e atrevi-me a pensar , embora em segredo:


"É estranho! Então a demissão de uma figura secrética não tem que ser por natureza secreta ?"

LIGEIRA ALJUBARROTA


Portugal, enquanto claque, lavou ontem a alma batendo a Espanha por 4 a 0 no jogo de futebol realizado em Lisboa. Bater a Espanha tem sempre um sabor a Aljubarrota, mesmo quando se trata de um jogo amigável. Estava fresca a memória da derrota sofrida na África do Sul, a nossa selecção estava a sair de uma fase difícil. Afinal, Portugal arrasou.

Passei os olhos pela imprensa estrangeira, de onde respiguei 15 reacções ao desfecho do jogo acima citado. Utilizei jornais brasileiros, espanhóis, franceses, italianos, ingleses, mexicanos e argentinos. Eis as quinze alusões seleccionadas:


1. Portugal surpreende e aplica 4 a 0 na campeã Espanha

2.
Portugal faz barba, cabelo e bigode contra a Espanha: 4 a 0

3.
Portugal goleia a Espanha em clássico-
portugueses estragaram a festa espanhola em jogo que promovia Copa conjunta dos dois países

4. Nuevo papelón del campeón del mundo en un amistoso

5. Humilla Portugal 4-0 a España

6. Portugal vapulea a la campeona

7. España derrocha prestigio

8. Portugal golea a España liderada por Nani y el madridista y retrata a una campeona del mundo que se arrastró en Lisboa.

9.
Vendetta Portogallo: 4-0 alla Spagna

10. Spagna, clamorosa debacle.

11.
Le Portugal corrige les champions du monde espagnols

12.
Une sacrée revanche

13.
Le Portugal écrase les champions espagnols 4-0.


14. Spain suffered defeat by Portugal in Lisbon, their heaviest loss since Scotland beat them 6-2 in 1963

15. Portugal eventually beat the World Cup holders 4-0, but the game was goalless when Ronaldo turned Gerard Pique inside out and dinked a glorious shot over Iker Casillas.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

DIAS CINZENTOS


Ser Ministro exige competências técnicas, competências políticas, densidade cultural e, nos dias que correm , sangue frio mediático.

E quanto mais complexa é a conjuntura que se atravessa, mais importante é medir as palavras que se dizem, calibrar cada frase com rigor milimétrico, falar numa linguagem lisa e desprovida de qualquer neblina que suscite equívocos. A qualquer cidadão é exigível que encare a luta política como um combate, onde não há lugar para duplicidades nem traições. Nem neste nem noutro qualquer plano se pode exigir menos a um Ministro.

Ora, nestes últimos dias, foi possível ver um Ministro afundar-se num inesperado resmungo laudatório sobre coligações governamentais, um outro emaranhar-se em "fe-em-is"numa entrevista a uma revista estrangeira e um terceiro subir para o "tgv" e descer dele , uma e outra vez, no decurso de um debate parlamentar.


Travem ! Falem contidamente, calem-se apropriadamente. Sejam simples e directos. Não tentem ser geniais ou infalíveis. Estejam certos de que se não procurarem ser mais do que cidadãos comuns e desse modo sujeitos a errar umas vezes e a acertar outras, tudo será mais fácil e natural.

domingo, 14 de novembro de 2010

COLIGAÇÕES E EMBOSCADAS


Há hoje um governo do PS sem apoio parlamentar maioritário na Assembleia da República por duas razões cumulativas. A primeira radica-se no facto de o PS ser o partido com um maior número de deputados eleitos; a segunda resulta da incapacidade de o conjunto dos partidos de todas as actuais oposições se entenderem para a viabilização de um governo que os envolvesse a todos.

Há uma conjuntura nacional difícil para a qual contribuíram fortemente factores internacionais. Há um período de alguns meses durante o qual não é constitucionalmente possível a realização de eleições. Tudo isso abriu a porta a um estado de quase-necessidade que contribuiu muito para tornar possível um entendimento entre o Governo e o PSD para a viabilização do orçamento, que tudo indica que venha a conduzir à sua aprovação.

Alguns dos expoentes politico-reflexivos mais ocos que se espraiam pelo espaço mediático, fazendo coro com a direita mais radical, têm advogado um governo de salvação nacional que,excluindo o PCP e o BE, significaria que o PS se associaria à direita, passando a ser uma minoria no novo governo. A direita ganharia, por força de uma política de corredores, o que os eleitores atempadamente lhe negaram. Outros, mais modestos, advogam um prosaico bloco central que abrangesse apenas o PS e o PSD. Outros falam apenas numa coligação sem lhe assinalarem os limites. Não me parece que qualquer desses caminhos nos salve, por si só, seja do que for, mas acho natural que o debate político se trave nesse terreno.

Já me parece uma insuportável intromissão na esfera soberana do PS a desfaçatez com que vozes que lhe são exteriores advogam a substituição de Sócrates, como condição para que se materialize o caminho que eles próprios sugerem. Ou estão de má-fé, usando essa proposta de coligação para empurrarem para cima do PS uma hipotética culpa pela sua recusa, que sabem tanto mais inevitável quanto a fazem preceder por uma condição impossível; ou ignoram a mais elementar tabuada de qualquer negociação política, que exclui naturalmente que cada um dos parceiros pretenda decidir quem representa os outros, e nesse caso são politicamente incompetentes.

Não vêem que se , por absurdo, o PS aceitasse tão intolerável cominação, se estaria a condenar a uma quase certa implosão ? Implosão essa que, sendo a devastação de uma área política nuclear da nossa democracia, não deixaria também de a ferir muito profundamente. O PS deve ter a noção(e julgo que a tem ) que, embora com graus de importância distintos, nenhum dos partidos das oposições parlamentares é politicamente dispensável na actual conjuntura. Mas a recíproca não é menos verdadeira: as oposições devem perceber o que representaria de dramático para democracia portuguesa, na conjuntura actual, o esvaziamento do PS.

Seria , por isso, um bom contributo para a decência do debate político que cada um defendesse o que lhe aprouvesse quanto a acordos e coligações, mas que deixasse de se sentir ungido pelo estranho poder de mandar em casa alheia.

É que, não o esqueçamos, só não há uma alternativa imediata ao Governo PS, porque as oposições, que em conjunto detêm uma maioria de deputados na Assembleia da República, não são capazes de (ou não querem ) ser a base de um governo que a todas representasse. É, por isso mesmo, ainda mais estranho que alguém pretenda fazer impender sobre o PS a responsabilidade pela solução de um problema que , verdadeiramente, só existe pela incapacidade ou pela vontade conjugada de todos os partidos da oposição.

sábado, 13 de novembro de 2010

VIVA O SACRIFICADO- GERAL !


Há momentos na História dos povos em que todas as luzes que orientam os caminhos parecem apagar-se. E as trevas descem então sobre os mortais como estranha maldição. Mas de súbito, é a própria História que se espreguiça, indo buscar às suas arcas mais fundas uma estrela, que a todos nos oferece depois, generosa e materna.


O mais recente fenómeno dessa natureza manifestou-se através do Ministro Amado, quando ele nos mostrou, com a simplicidade dos luminosos e a disponibilidade para o sacrifício dos estóicos, o caminho salvador da coligação, como remédio certo para as maleitas do Governo a que pertence e para as desgraças que se abatem sobre o povo que somos.

Uma coligação entre o partido do governo e o maior partido da oposição, com Paulo Portas à porta, chorando diatribes. Uma coligação PS/PSD, plana, previsível, pronta a vestir, para que a política institucional seja anestesiada e o Sr. Professor Mercado nos possa dar a sua benção. Só então a Europa, austera e distante, nos dará o resto dos rebuçados que nos prometeu. O Pedrinho tirará os seus calções de menino traquina e entrará em S. Bento com toda a pompa necessária na circunstância. Tudo ficará na santa paz do senhor, o povo com um furo mais no aperto do cinto e suas eminências biblicamente preocupadas com os pobrezinhos, sem caírem no exagero da excomunhão dos ricos. Mas o Ministro Amado não se embaraça com detalhes. Ele apenas convive com os grandes desígnios.

Acontece que eu, talvez empolgado pela visão felina do alumiado Ministro, acho que se deve ir mais longe. E dentro desse mesmo espírito, o PS e o PSD têm que se fundir, numa vontade única de ferro, numa organização simbiótica, que todos os Professores Mercado deste mundo, aplaudirão, estou seguro, olimpicamente e de pé.

E, quando esse transcendente objectivo for atingido, quem estará mais bem colocado do que o Ministro Amado para aspirar ao posto supremo da nova organização: o lugar de Sacrificado-Geral .

O MISTÉRIO DOS BICHANOS QUE RUGEM

Foram bichanos ronronantes, enquanto lhes pareceu que Sócrates era forte. Quando, no mais recente Congresso Nacional do PS, apresentámos uma moção alternativa no plano político, foram como cordeiros a balir, no seio da corrente dominante, sem estados de alma a toldar-lhes a decidida fidelidade.

As dificuldades por que passam o Governo e o PS parecem ter-lhes aberto o apetite. E já se imaginam vistosos tigres a rugir ferozmente sonoridades audíveis pela comunicação social. Megafones de jornalices banais afixam poses que julgam ser a de “homens de Estado”. Transcendentemente, afixam uma coligação hoje, uma remodelação amanhã, como quem oferece ao espanto dos mortais, ideias dignas de um oráculo.

Estarão possuídos pela miragem que os coloca à mercê dos nossos adversários como instrumentos seus. Talvez involuntariamente transformam-se em janelas de esperança para aqueles que, de fora do PS, se sentem autorizados a dizer quem deve ser o nosso secretário-geral, quem devemos indicar para a liderança dos governos que o voto dos portugueses nos encarregar de constituir.

Com a autoridade de quem pertence ao pequeno quadrado dos que contrapuseram uma moção de orientação própria à de Sócrates, sublinho que é ao PS que cabe decidir quem o lidera ou a quem delega a sua representação política externa. Não é um qualquer brilhante cabeça de abóbora que irá ditar em nossa casa aquilo que gostaria de fazer na dele.

Aos bichanos que acordaram do seu longo remanso de veneração a Sócrates para darem pequenos sinais de que não concordam com ele neste ou naquele detalhe, apenas se lhes pode pedir um pouco de verticalidade. Aos socialistas que há muito não escondem divergências que não são de pormenor nem de circunstância, deve apelar-se para que assinalem com profundidade as suas diferenças estratégicas, para que a diversidade entre socialistas se evidencie no plano das ideias mais amplas e dos vectores de profundidade da evolução social, se for esse o caso, deixando para a voracidade mediática e para a rafeiragem que erra pela vida política as urgências e os dramas das agendas efémeras.

A todos os socialistas é tempo de pedir que valorizem as clivagens que implicam caminhos diferenciados dentro do espaço socialista e esqueçam os reflexos de bando, as fidelidades a pessoas, os cálculos de carreiras. É tempo de assumir, rumo a um próximo congresso, alternativas políticas claras e de proscrever uivos mediáticos de circunstância com sabor a punhaladas nas costas seja de quem for.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

SOMBRAS DO PASSADO


Que não haja ambiguidades! A criminalização da política é um sintoma inequívoco de qualquer regime ditatorial. Não se trata de uma opinião discutível que se possa questionar com bonomia. Trata-se de um sinal de alarme que se tem que denunciar com vigor.


Seja o sindicalista Palma ou o político Passos, é quando o ovo da serpente ainda não foi chocado, que as vozes se têm que erguer.

E, já agora, não esqueçamos também essa cambada de idiotas que anda para aí a cuspir fins de regime como se falasse em rosas, quando afinal apenas se está a acolher à pestilenta sombra do fascismo.

Mastigaram fins da história, quando caiu o muro, democratas de olhos em alvo reconciliados com um futuro que se esqueceu de acontecer. Apelam agora ao "duce" de Santa Comba para que os salve da democracia.

É certo que só os mais estúpidos, e assaz raramente, dizem realmente ao que vêm. Mas na algaraviada economicista, que infesta o espaço mediático de uma sofreguidão neoliberal, é essa sombra política que realmente paira.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

PERGUNTEM AO VIEIRA.

Assinalável feito do Benfica, liderado pelo mui subtil Vieira: decorrida a 10ª Jornada do Campeonato, está em segundo lugar, a dez pontos do primeiro classificado, o F. C. Porto, e a dez pontos do décimo quarto ( 1º acima da linha de água), o Portimonense.

domingo, 7 de novembro de 2010

TOTALITARISMO DO MERCADO


O diário espanhol El País publica hoje uma entrevista que Juan José Millás fez a Felipe González. Entre as muitas perguntas, destaco duas, com as respectivas respostas:

-¿Estamos viviendo un totalitarismo del mercado?

-Exacto, no quería ser tan duro, pero así es. En lugar de dictar tú la norma para que el mercado funcione, el mercado te impone la norma para sobrevivir (que, por cierto, es la ausencia de norma). Y eso es lo peor, porque el mercado sin reglas te pide hoy lo contrario de lo que te va a pedir mañana. O de lo que te pidieron ayer, que era que rescataras la mano invisible del mercado de la propia catástrofe que había generado. Esto es, que hagas intervencionismo del más descarado a costa del contribuyente o del ahorrador, para rescatar al mercado. Sitúate en la piel de Obama: debo poner primero setecientos mil millones, después ochocientos ochenta mil, total, dos billones de dólares solo para salir de esa catástrofe provocada por el sistema financiero sin reglas. Muy bien. Y una vez que pongo ese dinero, puro erario público, puro endeudamiento, y usted ya está rescatado, ahora me exige que reduzca dramáticamente el déficit y el endeudamiento al que he llegado para rescatarlo. Me pide que me endeude y después me exige que me desendeude o me penaliza. Esto es lo incomprensible de la situación que estamos viviendo. Si se tuviera poder y decisión para regular el funcionamiento del sistema financiero, no volvería a ocurrir lo que ha ocurrido y devolverían el dinero público que se les ha entregado.



-Está muy claro, se está pagando con nuestros impuestos una crisis que no hemos provocado nosotros. ¿No es como para tomar las armas?

-Sí, sí, produce una revuelta... Estamos incubando la siguiente crisis financiera y la diferencia con esta será que los ciudadanos ya no tolerarán que haya centenares de miles de millones de dólares para rescatar a los banqueros de sus propios errores. Probablemente, estamos ante la última oportunidad de una reforma seria del funcionamiento del sistema.

O BE, A CHINA E O SOCIALISMO DEMOCRÀTICO



Há duas almas, uma sombra e muitos espíritos, na raiz do Bloco de Esquerda. Uma alma trotskista, uma alma maoista, uma sombra do fantasma de um MDP desaparecido e muitos espíritos generosos e inquietos à procura de uma esquerda perdida, ou talvez apenas transviada. Há depois a complicação de um eleitorado excessivo, hesitante entre o simples castigo contra o sítio de onde veio e a vertigem de assentar arraiais num terreno novo aparentemente movediço.

As duas almas têm vindo a digerir-se com apreciável êxito. Nem a memória da morte trágica de Trotsky às mãos de um simples núncio de uma das mais sólidas referências dos maoistas parece perturbar uma tão suave harmonia.

Um episódio da actualidade política abriu-me, no entanto, uma janela de espanto. Perante a visita de Hu Jintao, Presidente da República Popular da China ao nosso país, foi tornado público que o BE não estará presente no Parlamento uma vez que o regime chinês é «uma ditadura com créditos firmados na violação dos Direitos Humanos». Sublinhando um dos seus dirigentes, que : «A nossa posição tem a ver com uma avaliação muito crítica que fazemos do Estado em causa, uma ditadura que tem créditos firmados na violação de Direitos Humanos, de direitos individuais e sindicais». Ele compreendia «que o Estado português tenha relações diplomáticas com a China e que haja momentos de discussão formal dessas relações». Mas não podia deixar de sublinhar :
«Entendemos, contudo, que na Assembleia da República, que é a casa mãe da Democracia devemos dar um sinal de distanciamento relativamente a regimes como o da República Popular da China».

Será que a alma maoista do BE abandonou o seu código genético e se conformou com o imperativo de renegar as suas raízes ? Ou terá sido afinal submersa por uma inesperada vaga de socialismo democrático, transportada para o seu seio no bojo oculto da alma trotskista ou nas almas simples dos seus eleitores?

Incrédulo quanto ao milagre de uma tal conversão, deambulei pela internet e chegando a Alcanena tive uma surpresa, quando li , num escrito oficial do BE aquando da inauguração de uma sede, o seguinte naco de discurso:
“ Baseando-se no Socialismo Democrático, o Bloco de Esquerda tem sido sempre activo na defesa dos valores da verdadeira Democracia, e propõe-se continuar essa luta.”

Era pois verdade, todas as almas e todas as inquietações fundadouras do BE estavam agora fundidas no Socialismo Democrático. Como militante do PS, só posso congratular-me com a chegada ao socialismo democrático de mais um partido político. É certo que em muitos aspectos do seu dia a dia político ele ainda não parece adequadamente integrado na área a que diz pertencer, mas para tudo há um caminho e para percorrer qualquer caminho há um tempo a gastar.

sábado, 6 de novembro de 2010

AINDA A CRIMINALIZAÇÃO DA POLÍTICA


1. O Horta Pinto, velho amigo que tem a amabilidade de fazer com frequência comentários neste blog, num que fez ao texto que aqui escrevi sobre a estranha concepção de Passos Coelho quanto à mistura da justiça com a política, deu a conhecer um dos seus mestres, o Delegado Palma, Presidente do Sindicato dos Mag. do Min. Público, velejador confesso e alegado latifundiário alentejano, que teve que desmentir Ângelo Correia, quando este o identificou publicamente como militante alentejano do PSD.


O texto é um arrazoado onde são visíveis as marcas de um pensamento reaccionário, que termina com a pérola seguinte: "É urgente que a democracia se salve e fortaleça, invertendo o rumo de descrédito acentuado, e se evite o recurso a homens providenciais. São necessários novos mecanismos de responsabilização dos titulares de cargos públicos. A começar pelos membros do Governo. Se o Primeiro-ministro e o Ministro das Finanças são pródigos nos gastos públicos, se fazem uma gestão ruinosa do país e dos impostos pagos pelos portugueses, concebe-se que continuem civil e criminalmente impunes? ".


2. Sem querer, o homem revela o cerne da sua posição ideológica, ao considerar como um recurso cogitável, para resolver problemas criados em democracia, o poder de um homem providencial, aliás um eufemismo para designar a imposição de uma ditadura. Subliminarmente paira aqui um dos fantasmas mais reaccionários da direita : os desgraçados ditadores são uns pobres sacrificados que só têm que ser ditadores porque as malvadas das democracias criam problemas que só se podem resolver em ditadura.


Nesse mesmo registo, o Delegado Palma sustenta a responsabilização criminal e civil de um órgão de soberania , cuja legitimidade democrática se radica nos deputados eleitos pelos portugueses, aos quais cabe em última instância julgar o mérito das políticas praticadas e sancionar com o seu voto o que lhes parecer mal. Um ex-Secretário -Geral de um Sindicato para cuja presidência foi eleito numa lista sem concorrentes por uns imensos 426 votos, dotado dessa enorme representatividade corporativa, arvora-se assim em distribuidor de receitas de duvidoso carácter democrático. Não é a primeira vez que a figura se esmera em afirmações de agressão trauliteira ao governo democrático, estando, pela tacanhez de algumas delas, a sua credibilidade abaixo de zero. No entanto, é chocante que um Sindicato dos Magistrados do Ministério Público tenha à sua frente sem oposição uma figura com uma marca ideológica tão reaccionária e com uma ausência de senso tão profunda. Aos deputados e aos governos, no máximo só temos que os suportar quatro anos se partilharmos uma eventual rejeição com a maioria do eleitorado, mas ao Delegado Palma do Minstério Público, que nenhum de nós escolheu somos obrigados a suportá-lo nessa função toda a vida. E, ainda por cima, o referido agente do MP usa um megafone sindical para expressar os seus juízos políticos pessoais contra o actual Governo e o PS. Megafone esse, que aliás só lhe foi dado, porque o Partido que apoia o Governo que ele tão visceralmente odeia, reconheceu aos magistrados do MP o direito de disporem de sindicatos.


3. Mostrando que o que já hoje escrevi sobre Passos Coelho não é uma trovoada sobre um erro fortuito de um líder inexperiente, a referida figura já hoje insistiu na mesma tecla da criminalização da política.


Tudo isto, talvez possa a ajudar a esquerda a compreender que há uma direita histórica que existe e se mantém latente com saudades dos bons velhos tempos. E os seus bons velhos tempos são tempos de pesadelo, para todos nós. Por isso, embora ache natural e até positivo o debate político entre as esquerdas, quando sustentem posições distintas, acho suicida para todas elas que não aprendam a distinguir entre o confronto entre a esquerda e a direita e os confrontos dentro da esquerda. De facto, o cúmulo do fracasso estratégico, de qualquer linha política de cada uma das esquerdas, é a sua conversão em instrumento utilizável pela direita, para se beneficiar a si própria.

JUSTIÇA DE PASSOS


Diz a comunicação social, com grande estrondo, que Passos Coelho exigiu ontem à noite que fossem responsabilizados civil e criminalmente os decisores políticos cujo exercício conduzisse a maus resultados. Sem prejuízo de essa afirmação poder ser entendida como não se circunscrevendo apenas a eles, deixaria de fazer sentido se não os abrangesse.
Também não faria sentido que se trovejasse com tanta pompa em defesa do que é uma banalidade em qualquer Estado de Direito: todos os cidadãos que cometam crimes ou incorram em ilegalidades, mesmo que sejam políticos designados democrática e legitimamente, ficam sujeitos às sanções previamente cominadas para o respectivo tipo de infracções.

Portanto, Passos Coelho só pode ter querido defender a criminalização e a responsabilização civil por actos políticos. Talvez, num plano subjectivo, apenas tivesse querido sublinhar a crença sem limites que tem na infalibilidade das suas ideias e das suas propostas e o repúdio visceral que lhe merecem as ideias dos outros, em especial as do actual governo. Talvez tenha apenas querido dar mais uma pincelada na sua imagem de político com sangue na guelra; ou excitado pelo ruído dos talheres dos militantes laranja, atacando ferozmente o lombo assado, tivesse subido um pouco alto demais na parede da sua imaginação. Não importa. Se foi fruto de reflexão o tipo de ferocidade demonstrado é significativo, mas se apenas reflectiu, num automatismo de circunstância, as camadas profundas das opções políticas de Passos Coelho, também não deixa de o ser.


E o que se projecta dessas camadas profundas da ideologia “passista” carece do mínimo de salubridade democrática. Se o adversário político não é apenas alguém que está errado, que representa preferências políticas diferentes das nossas, que exprime interesses sociais radicados em posições distintas no seio da pirâmide social, passando a ser um prevaricador, um criminoso que é preciso castigar, isso só pode significar que está de regresso o modo totalitário de olhar para a política. Numa lógica idêntica, outros, nos seu tempo, transformaram os seus adversários em traidores à Pátria, perseguindo-os; outros consideraram que quem fosse seu adversário só podia estar louco e meteram-nos em manicómios. Pela nossa parte, vivemos em Portugal, uma boa parte do século XX, sob um regime que olhava para os seus opositores como criminosos. Era então que se falava em crimes políticos, que afinal eram apenas comportamentos que reflectiam opiniões políticas distintas das que o salazarismo considerava como as únicas verdadeiras e legítimas, as suas.


É esta a genealogia das posições assumidas por Passos Coelho. Podemos pois, parafraseando com alguma liberdade um clássico da nossa literatura, dizer quanto a elas: “ sob o manto estéril do neoliberalismo, no plano económico, o rigor forte do autoritarismo, no plano político”.


A direita portuguesa não esquece nem desiste. Sob a camada de um verniz democrático, mesmo que para muitos psicologicamente sincero no plano individual, nas camadas ideológicas mais profundas continua estruturalmente em hibernação a permanente saudade dos tempos em que conduzia o poder sem o incómodo da democracia.
Foi isso que Passos Coelho revelou, mostrando também que, mesmo que possa ser um perigoso predador no plano superficial do teatro político-mediático, no plano mais fundo da sua estrutura ideológico-política, não passa ainda de um garnisé.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

CARTEL DE URUBUS


Um cartel de detentores de capital com capacidade de investimento especula com as necessidades de crédito de Portugal e de outros países. A manobra mais recente foi a notícia de que Portugal caminhava para o colapso económico e por isso os juros da dívida pública subiam. Mas se eles estivessem realmente convencidos de que havia um risco real de incumprimento não faziam subir os juros. Pura e simplesmente, não emprestavam.

Dizer que o cartel de investidores só nos ataca porque somos economicamente frágeis, absolvendo-o assim da perversidade do ataque, é admitir que é legítimo um tipo de sociedade em que o forte esmaga o fraco, imputando a este a culpa pela sua fraqueza e ignorando a maldade do forte que perpetrou o ataque. É inviável que uma sociedade que pactue com isso possa sobreviver em democracia. A União Europeia não permite que um dos seus membros, por militarmente fraco que seja, possa ser atacado por uma potência exterior. Porque admite um ataque de banqueiros e outros investidores que pode deixar sequelas mais duradouras do que uma invasão militar?

Se a União Europeia não é suficiente forte, ou suficientemente solidária, para impedir isso, não merece existir. E se, mesmo assim, sobreviver, acabará por sofrer nos seus países mais poderosos aquilo que cobardemente consentiu que fosse feito aos seus membros mais desprotegidos.

De facto, quando o próprio FMI reconhece que não há base objectiva, a não ser um cálculo especulativo, para agravar a taxa de juro cobrada a Portugal, mas continua a encarar o nosso país como se ele tivesse uma culpa que o próprio FMI reconhece que ele não tem, está a passar a si próprio um certificado de cinismo do mais alto grau.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

MEMÓRIAS PRESTIGIANTES


O Sr. Presidente da República do alto pedestal da sua virtude, ofereceu-nos a sua preocupação profunda pela perda de credibilidade dos políticos portugueses. Só temos que agradecer, retribuindo-lhe o cuidado. E assim não posso deixar de recordar algumas fotografias de arquivo, onde se podem ver José de Oliveira e Costa e Manuel Dias Loureiro, duas figuras públicas que como se sabe prestigiaram muito a classe política portuguesa.


quarta-feira, 3 de novembro de 2010

BRASIL - relação de forças após as eleições


Dilma Roussef foi eleita Presidente da República do Brasil com uma margem de 12% de votos. Derrotou José Serra, apoiado por uma coligação que, apesar de heterogénea, era uma expressão política clara da direita brasileira. Dilma, pelo contrário, embora apoiada por uma coligação também heterogénea, exprimia, nesta disputa eleitoral, também claramente, o principal protagonismo da esquerda brasileira, claramente hegemónica nessa coligação.

Dilma Roussef foi eleita à segunda volta com 56% dos votos (contra 44% do candidato José Serra). A direita brasileira falhou, assim, uma vez mais, a tentativa de ganhar uma eleição presidencial com o auxílio de uma enorme maré de calúnias, mentiras, meias-verdades, arremessada contra o candidato da esquerda. O complexo mediático dos grandes órgãos de comunicação social, as hierarquias mais conservadores da igreja católica e de outras igrejas cristãs protestantes, os partidos apoiantes da candidatura de Serra, ajudados por segmentos conservadores do aparelho judicial e das polícias, montaram uma enorme operação de propaganda suja, que teve os seus pontos mais altos, no período imediatamente anterior à 1ª volta das eleições presidenciais e durante as semanas que decorreram entre as duas voltas. Com o precioso auxílio da candidatura ambígua de Marina Silva, ainda conseguiram evitar uma vitória de Dilma na 1ª volta, mas já não conseguiram suster a maré na segunda.

Um novo tempo se abre. Certamente marcado pela continuidade, relativamenete aos dois mandatos do Presidente Lula. Novo tempo, já que a novidade é precisamente o facto de ser possível essa continuidade. Há um ano, era legítimo duvidar-se da possibilidade de Dilma recuperar da imensa desvantagem que lhe era atribuída nas sondagens, sobre as intenções de voto nas presidenciais brasileiras, relativamente a José Serra. No campo "lulista", perfilavam-se outros candidatos potenciais. Dilma foi a preferida por Lula, antes de ser a opção do PT. Mas este partido acabou por escolhê-la formalmente como a sua candidata. Foi, depois, possível evitar que Ciro Gomes se candidatasse pelo PSB, dividindo a base de apoio do governo de Lula. Também foi evitada a apresentação de um candidato próprio pelo PMDB, partido que viria a indicar o vice-presidente na chapa de Dilma , convertendo-se numa importante peça do bloco eleitoral que veio a ser vencedor. Não se evitou a candidatura de Marina que saiu do PT e aderiu ao PV para poder vir a candidatar-se.
Depois das eleições de domingo passado (e das que decorreram no início de Outubro, para Governadores dos 27 Estados Brasileiros, para parte dos 81 lugares do Senado e para os 513 deputados federais da Câmara de Deputados), pode dizer-se que há uma nova relação de forças no Brasil, talvez mais favorável ao Governo de Dilma do que a actual era ao Governo de Lula.

Podemos verificá-lo, fazendo um breve percurso através dos governadores eleitos, do actual conjunto de senadores e dos deputados federais eleitos. Consideraremos apenas os partidos que integraram formalmente qualquer das coligações eleitorais, cujo candidato presidencial tenha obtido mais do que 0,50% dos votos, ou que, não pertencendo a nenhuma delas, disponha, pelo menos, de um eleito entre os governadores, os senadores ou os deputados federais. Faremos fé na listagem oficial dos partidos pertencentes a cada coligação presidencial, a qual sempre indica um partido liderante quando dispuser do apoio de vários. Marina Silva era apenas apoiada pelo PV; Plínio A. Sampaio, pelo PSOL; José Serra, por uma coligação liderada pelo PSDB; Dilma, por uma coligação liderada pelo PT. Vamos pressupor que cada partido se inclina sempre na totalidade para o mesmo lado, mantendo a posição oficial, embora saibamos que há excepções, algumas das quais já conhecidas. Vamos valorizar a pertença de cada eleito ao seu partido, desconsiderando o facto de muitos deles terem sido apoiados por coligações, algumas das quais claramente atípicas. Vamos também passar por cima da relatividade da disciplina partidária e da frequente mudança de partido corrente na vida política brasileira. Vamos apenas considerar os alinhamentos da primeira volta.

Com este enquadramento, vamos distinguir quatro blocos políticos: 1) partidos que apoiaram Dilma;2)partidos que apoiaram Serra; 3) partidos que apoiaram outros candidatos;4) partidos que não apoiaram oficialmente nenhum candidato presidencial na primeira volta.
Olhando para este quadro, estamos a olhar para o essencial da base do governo de Dilma. Fica claro que ela dispõe de dois esteios principais, com um peso político aproximado: PT e PMDB. Num patamar próximo, surge o PSB, que, embora num segundo plano quanto a senadores e a deputados federais, é o partido que neste bloco elegeu mais governadores. No patamar seguinte, podemos colocar, sem ignorar algumas diferenças de peso político: o PDT, o PSC, o PR e o PC do B. Como se vê, este bloco de partidos tem 16 governos estaduais em 27, dispondo de maioria absoluta , quer no Senado, quer na Câmara de Deputados. Se, com algum simplismo, sabendo que cada partido é, ele próprio, heterogéneo e,talvez, sem um grande significado prático, procurarmos identificar dentro dele uma ala esquerda e uma ala direita, podíamos com prudência incluir na primeira: PT, PSB, PDT e PC do B. Esta ala ficaria em clara vantagem quanto ao número de Governadores, com alguma vantagem entre os Deputados Federais e com uma pequena desvantagem entre o Senadores. E não podemos ignorar o facto de a ela pertencer o partido liderante da coligação, ao qual aliás pertence a própria candidata eleita.
Olhando agora para o quadro dos partidos que apoiaram José Serra, que certamente irão constituir a oposição mais consistente e mais relevante ao governo de Dilma, verificamos que neste bloco há um partido claramente dominante, o PSDB, o qual tendo tido uma quebra quer no Senado quer na Câmara de Deputados, conseguiu ser o partido com um maior múmero de governadores eleitos, tendo continuado à frente de S. Paulo e de Minas Gerais. E, também aqui, há que salientar que é o partido liderante da coligação e que dele faz parte o candidato deste bloco partidário. Os Democratas (antigo PFL, oriundo da ala moderada dos apoiantes da ditadura militar) sofreram um sério revés, sendo agora um parceiro enfraquecido do PSDB. Surge depois o desacreditado PTB, com alguma expressão; e depois o estranho PPS (correspondente à facção maioritária do velho Partido Comunista Brasileiro que, como se vê, não só mudou de nome, como parece ter perdido, por completo, a própria identidade), que saiu destas eleições com uma expressão reduzida. O PMN tem o relevo de ter um Governo estadual. Falta saber se, o ex-Governador de Minas Gerais e actual Senador, Aécio Neves ( neto de Tancredo Neves )vai sair do PDSB e formar um novo partido; ou se o PSDB consegue albergar sem rupturas a luta pela sua liderança interna, entre paulistas e mineiros. A derrota de Serra foi um revés para os paulistas, mas eles ainda são governo em S.Paulo.

Se olharmos agora para a força de que passaram a dispor os partidos que apoiaram outros candidatos, verificamos que três deles têm representantes eleitos. O Partido Verde (PV) deixou de ter qualquer Senador, continuou sem qualquer Governo estadual e dispõe apenas de 15 deputados federais, apesar de a candidata de que era o único partido apoiante, ter ultrapassado os 19% de votos na primeira volta. Parece claro que Marina tem um peso bem maior do que o partido que a apoia. O PSOL, resultante de uma cisão de esquerda do PT, não conseguiu que o seu prestigiado candidato Plínio Arruda Sampaio chegasse sequer a 1% dos votos. Saiu enfraquecido da contenda eleitoral e apesar de ter apenas 3 deputados federais tem ainda dois senadores.O candidato do PRTB integra o conjunto dos partidos que apoiaram candidatos que se ficaram por resultados irrelevantes , mas conseguiu dois deputados federais.
Dos quatro partidos que, não tendo apoiado oficialmente qualquer candidato, tiveram representantes eleitos, apenas tem um peso relativo com alguma importância o PP( oriundo do sector mais conservador dos antigos apoiantes da ditadura militar).

Se somarmos os três conjuntos de partidos que não apoiaram Dilma na 1ª volta das presidenciais, verificamos que no seu todo elegeram 11 governdores, 32 Senadores e 202 Deputados Federais. Como vimos acima, mesmo juntos, ficam ainda longe dos 16 Governadores, dos 49 Senadores e dos 311 Deputados Federais, pertencentes aos partidos que integraram ofcialmente a coligação apoiante de Dilma , logo na primeira volta.
Este breve panorama é apenas um dado político entre outros, mas ilustra bem a complexidade do xadrez político que Dilma vai ter que enfrentar.