sábado, 6 de novembro de 2010

JUSTIÇA DE PASSOS


Diz a comunicação social, com grande estrondo, que Passos Coelho exigiu ontem à noite que fossem responsabilizados civil e criminalmente os decisores políticos cujo exercício conduzisse a maus resultados. Sem prejuízo de essa afirmação poder ser entendida como não se circunscrevendo apenas a eles, deixaria de fazer sentido se não os abrangesse.
Também não faria sentido que se trovejasse com tanta pompa em defesa do que é uma banalidade em qualquer Estado de Direito: todos os cidadãos que cometam crimes ou incorram em ilegalidades, mesmo que sejam políticos designados democrática e legitimamente, ficam sujeitos às sanções previamente cominadas para o respectivo tipo de infracções.

Portanto, Passos Coelho só pode ter querido defender a criminalização e a responsabilização civil por actos políticos. Talvez, num plano subjectivo, apenas tivesse querido sublinhar a crença sem limites que tem na infalibilidade das suas ideias e das suas propostas e o repúdio visceral que lhe merecem as ideias dos outros, em especial as do actual governo. Talvez tenha apenas querido dar mais uma pincelada na sua imagem de político com sangue na guelra; ou excitado pelo ruído dos talheres dos militantes laranja, atacando ferozmente o lombo assado, tivesse subido um pouco alto demais na parede da sua imaginação. Não importa. Se foi fruto de reflexão o tipo de ferocidade demonstrado é significativo, mas se apenas reflectiu, num automatismo de circunstância, as camadas profundas das opções políticas de Passos Coelho, também não deixa de o ser.


E o que se projecta dessas camadas profundas da ideologia “passista” carece do mínimo de salubridade democrática. Se o adversário político não é apenas alguém que está errado, que representa preferências políticas diferentes das nossas, que exprime interesses sociais radicados em posições distintas no seio da pirâmide social, passando a ser um prevaricador, um criminoso que é preciso castigar, isso só pode significar que está de regresso o modo totalitário de olhar para a política. Numa lógica idêntica, outros, nos seu tempo, transformaram os seus adversários em traidores à Pátria, perseguindo-os; outros consideraram que quem fosse seu adversário só podia estar louco e meteram-nos em manicómios. Pela nossa parte, vivemos em Portugal, uma boa parte do século XX, sob um regime que olhava para os seus opositores como criminosos. Era então que se falava em crimes políticos, que afinal eram apenas comportamentos que reflectiam opiniões políticas distintas das que o salazarismo considerava como as únicas verdadeiras e legítimas, as suas.


É esta a genealogia das posições assumidas por Passos Coelho. Podemos pois, parafraseando com alguma liberdade um clássico da nossa literatura, dizer quanto a elas: “ sob o manto estéril do neoliberalismo, no plano económico, o rigor forte do autoritarismo, no plano político”.


A direita portuguesa não esquece nem desiste. Sob a camada de um verniz democrático, mesmo que para muitos psicologicamente sincero no plano individual, nas camadas ideológicas mais profundas continua estruturalmente em hibernação a permanente saudade dos tempos em que conduzia o poder sem o incómodo da democracia.
Foi isso que Passos Coelho revelou, mostrando também que, mesmo que possa ser um perigoso predador no plano superficial do teatro político-mediático, no plano mais fundo da sua estrutura ideológico-política, não passa ainda de um garnisé.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

CARTEL DE URUBUS


Um cartel de detentores de capital com capacidade de investimento especula com as necessidades de crédito de Portugal e de outros países. A manobra mais recente foi a notícia de que Portugal caminhava para o colapso económico e por isso os juros da dívida pública subiam. Mas se eles estivessem realmente convencidos de que havia um risco real de incumprimento não faziam subir os juros. Pura e simplesmente, não emprestavam.

Dizer que o cartel de investidores só nos ataca porque somos economicamente frágeis, absolvendo-o assim da perversidade do ataque, é admitir que é legítimo um tipo de sociedade em que o forte esmaga o fraco, imputando a este a culpa pela sua fraqueza e ignorando a maldade do forte que perpetrou o ataque. É inviável que uma sociedade que pactue com isso possa sobreviver em democracia. A União Europeia não permite que um dos seus membros, por militarmente fraco que seja, possa ser atacado por uma potência exterior. Porque admite um ataque de banqueiros e outros investidores que pode deixar sequelas mais duradouras do que uma invasão militar?

Se a União Europeia não é suficiente forte, ou suficientemente solidária, para impedir isso, não merece existir. E se, mesmo assim, sobreviver, acabará por sofrer nos seus países mais poderosos aquilo que cobardemente consentiu que fosse feito aos seus membros mais desprotegidos.

De facto, quando o próprio FMI reconhece que não há base objectiva, a não ser um cálculo especulativo, para agravar a taxa de juro cobrada a Portugal, mas continua a encarar o nosso país como se ele tivesse uma culpa que o próprio FMI reconhece que ele não tem, está a passar a si próprio um certificado de cinismo do mais alto grau.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

MEMÓRIAS PRESTIGIANTES


O Sr. Presidente da República do alto pedestal da sua virtude, ofereceu-nos a sua preocupação profunda pela perda de credibilidade dos políticos portugueses. Só temos que agradecer, retribuindo-lhe o cuidado. E assim não posso deixar de recordar algumas fotografias de arquivo, onde se podem ver José de Oliveira e Costa e Manuel Dias Loureiro, duas figuras públicas que como se sabe prestigiaram muito a classe política portuguesa.


quarta-feira, 3 de novembro de 2010

BRASIL - relação de forças após as eleições


Dilma Roussef foi eleita Presidente da República do Brasil com uma margem de 12% de votos. Derrotou José Serra, apoiado por uma coligação que, apesar de heterogénea, era uma expressão política clara da direita brasileira. Dilma, pelo contrário, embora apoiada por uma coligação também heterogénea, exprimia, nesta disputa eleitoral, também claramente, o principal protagonismo da esquerda brasileira, claramente hegemónica nessa coligação.

Dilma Roussef foi eleita à segunda volta com 56% dos votos (contra 44% do candidato José Serra). A direita brasileira falhou, assim, uma vez mais, a tentativa de ganhar uma eleição presidencial com o auxílio de uma enorme maré de calúnias, mentiras, meias-verdades, arremessada contra o candidato da esquerda. O complexo mediático dos grandes órgãos de comunicação social, as hierarquias mais conservadores da igreja católica e de outras igrejas cristãs protestantes, os partidos apoiantes da candidatura de Serra, ajudados por segmentos conservadores do aparelho judicial e das polícias, montaram uma enorme operação de propaganda suja, que teve os seus pontos mais altos, no período imediatamente anterior à 1ª volta das eleições presidenciais e durante as semanas que decorreram entre as duas voltas. Com o precioso auxílio da candidatura ambígua de Marina Silva, ainda conseguiram evitar uma vitória de Dilma na 1ª volta, mas já não conseguiram suster a maré na segunda.

Um novo tempo se abre. Certamente marcado pela continuidade, relativamenete aos dois mandatos do Presidente Lula. Novo tempo, já que a novidade é precisamente o facto de ser possível essa continuidade. Há um ano, era legítimo duvidar-se da possibilidade de Dilma recuperar da imensa desvantagem que lhe era atribuída nas sondagens, sobre as intenções de voto nas presidenciais brasileiras, relativamente a José Serra. No campo "lulista", perfilavam-se outros candidatos potenciais. Dilma foi a preferida por Lula, antes de ser a opção do PT. Mas este partido acabou por escolhê-la formalmente como a sua candidata. Foi, depois, possível evitar que Ciro Gomes se candidatasse pelo PSB, dividindo a base de apoio do governo de Lula. Também foi evitada a apresentação de um candidato próprio pelo PMDB, partido que viria a indicar o vice-presidente na chapa de Dilma , convertendo-se numa importante peça do bloco eleitoral que veio a ser vencedor. Não se evitou a candidatura de Marina que saiu do PT e aderiu ao PV para poder vir a candidatar-se.
Depois das eleições de domingo passado (e das que decorreram no início de Outubro, para Governadores dos 27 Estados Brasileiros, para parte dos 81 lugares do Senado e para os 513 deputados federais da Câmara de Deputados), pode dizer-se que há uma nova relação de forças no Brasil, talvez mais favorável ao Governo de Dilma do que a actual era ao Governo de Lula.

Podemos verificá-lo, fazendo um breve percurso através dos governadores eleitos, do actual conjunto de senadores e dos deputados federais eleitos. Consideraremos apenas os partidos que integraram formalmente qualquer das coligações eleitorais, cujo candidato presidencial tenha obtido mais do que 0,50% dos votos, ou que, não pertencendo a nenhuma delas, disponha, pelo menos, de um eleito entre os governadores, os senadores ou os deputados federais. Faremos fé na listagem oficial dos partidos pertencentes a cada coligação presidencial, a qual sempre indica um partido liderante quando dispuser do apoio de vários. Marina Silva era apenas apoiada pelo PV; Plínio A. Sampaio, pelo PSOL; José Serra, por uma coligação liderada pelo PSDB; Dilma, por uma coligação liderada pelo PT. Vamos pressupor que cada partido se inclina sempre na totalidade para o mesmo lado, mantendo a posição oficial, embora saibamos que há excepções, algumas das quais já conhecidas. Vamos valorizar a pertença de cada eleito ao seu partido, desconsiderando o facto de muitos deles terem sido apoiados por coligações, algumas das quais claramente atípicas. Vamos também passar por cima da relatividade da disciplina partidária e da frequente mudança de partido corrente na vida política brasileira. Vamos apenas considerar os alinhamentos da primeira volta.

Com este enquadramento, vamos distinguir quatro blocos políticos: 1) partidos que apoiaram Dilma;2)partidos que apoiaram Serra; 3) partidos que apoiaram outros candidatos;4) partidos que não apoiaram oficialmente nenhum candidato presidencial na primeira volta.
Olhando para este quadro, estamos a olhar para o essencial da base do governo de Dilma. Fica claro que ela dispõe de dois esteios principais, com um peso político aproximado: PT e PMDB. Num patamar próximo, surge o PSB, que, embora num segundo plano quanto a senadores e a deputados federais, é o partido que neste bloco elegeu mais governadores. No patamar seguinte, podemos colocar, sem ignorar algumas diferenças de peso político: o PDT, o PSC, o PR e o PC do B. Como se vê, este bloco de partidos tem 16 governos estaduais em 27, dispondo de maioria absoluta , quer no Senado, quer na Câmara de Deputados. Se, com algum simplismo, sabendo que cada partido é, ele próprio, heterogéneo e,talvez, sem um grande significado prático, procurarmos identificar dentro dele uma ala esquerda e uma ala direita, podíamos com prudência incluir na primeira: PT, PSB, PDT e PC do B. Esta ala ficaria em clara vantagem quanto ao número de Governadores, com alguma vantagem entre os Deputados Federais e com uma pequena desvantagem entre o Senadores. E não podemos ignorar o facto de a ela pertencer o partido liderante da coligação, ao qual aliás pertence a própria candidata eleita.
Olhando agora para o quadro dos partidos que apoiaram José Serra, que certamente irão constituir a oposição mais consistente e mais relevante ao governo de Dilma, verificamos que neste bloco há um partido claramente dominante, o PSDB, o qual tendo tido uma quebra quer no Senado quer na Câmara de Deputados, conseguiu ser o partido com um maior múmero de governadores eleitos, tendo continuado à frente de S. Paulo e de Minas Gerais. E, também aqui, há que salientar que é o partido liderante da coligação e que dele faz parte o candidato deste bloco partidário. Os Democratas (antigo PFL, oriundo da ala moderada dos apoiantes da ditadura militar) sofreram um sério revés, sendo agora um parceiro enfraquecido do PSDB. Surge depois o desacreditado PTB, com alguma expressão; e depois o estranho PPS (correspondente à facção maioritária do velho Partido Comunista Brasileiro que, como se vê, não só mudou de nome, como parece ter perdido, por completo, a própria identidade), que saiu destas eleições com uma expressão reduzida. O PMN tem o relevo de ter um Governo estadual. Falta saber se, o ex-Governador de Minas Gerais e actual Senador, Aécio Neves ( neto de Tancredo Neves )vai sair do PDSB e formar um novo partido; ou se o PSDB consegue albergar sem rupturas a luta pela sua liderança interna, entre paulistas e mineiros. A derrota de Serra foi um revés para os paulistas, mas eles ainda são governo em S.Paulo.

Se olharmos agora para a força de que passaram a dispor os partidos que apoiaram outros candidatos, verificamos que três deles têm representantes eleitos. O Partido Verde (PV) deixou de ter qualquer Senador, continuou sem qualquer Governo estadual e dispõe apenas de 15 deputados federais, apesar de a candidata de que era o único partido apoiante, ter ultrapassado os 19% de votos na primeira volta. Parece claro que Marina tem um peso bem maior do que o partido que a apoia. O PSOL, resultante de uma cisão de esquerda do PT, não conseguiu que o seu prestigiado candidato Plínio Arruda Sampaio chegasse sequer a 1% dos votos. Saiu enfraquecido da contenda eleitoral e apesar de ter apenas 3 deputados federais tem ainda dois senadores.O candidato do PRTB integra o conjunto dos partidos que apoiaram candidatos que se ficaram por resultados irrelevantes , mas conseguiu dois deputados federais.
Dos quatro partidos que, não tendo apoiado oficialmente qualquer candidato, tiveram representantes eleitos, apenas tem um peso relativo com alguma importância o PP( oriundo do sector mais conservador dos antigos apoiantes da ditadura militar).

Se somarmos os três conjuntos de partidos que não apoiaram Dilma na 1ª volta das presidenciais, verificamos que no seu todo elegeram 11 governdores, 32 Senadores e 202 Deputados Federais. Como vimos acima, mesmo juntos, ficam ainda longe dos 16 Governadores, dos 49 Senadores e dos 311 Deputados Federais, pertencentes aos partidos que integraram ofcialmente a coligação apoiante de Dilma , logo na primeira volta.
Este breve panorama é apenas um dado político entre outros, mas ilustra bem a complexidade do xadrez político que Dilma vai ter que enfrentar.

domingo, 31 de outubro de 2010

CONTRACAPA DA VÉRTICE - 48


Vértice - nº 315 - 316 - Abril -Maio de 1970


" O produto do trabalho é hoje distribuído na razão inversa do trabalho: a maior parte cabe àqueles que nunca trabalham."


JOHN STUART MILL

sábado, 30 de outubro de 2010

EMBUSTE DE CANDIDATO ?


Ontem assistimos a uma dramática tentativa presidencial de disfarçar um enorme flop político com um embuste, nem sabemos se ingénuo, se desesperado.

De facto, o Presidente da República, sentindo pulsar em si ímpetos de candidato, resolveu fazer um número com o Conselho de Estado, desde logo inquinado por ter suscitado uma estranha ambiguidade: estávamos perante uma sede de aconselhamento por parte de Cavaco que seria satisfeita por tão circunspecto órgão ou perante uma grosseira tentativa de pressão política, mesmo que de generosos objectivos?

Se estávamos perante um pedido de conselho, qual era ele? Se estávamos perante uma tentativa de pressão, em que preceito constitucional se outorga ao Conselho de Estado uma tal competência, uma tal legitimidade?

Mas tudo isto se esvaziou como um balão furado, quando, ainda em plena reunião do Conselho de Estado, foi difundido por uma estação televisiva que o Governo e o PSD tinham chegado a acordo para a viabilização do orçamento. E em vez de engolir civilizadamente o flop, congratulando-se com o êxito das conversações, o Presidente, certamente impelido pela sua costela de candidato já declarado, fingiu que ainda não havia qualquer acordo quanto ao orçamento e apelou num palavreado entaramelado para que governo e PSD chegassem a um acordo até quarta-feira, quando não podia ignorar que esse acordo já fora alcançado.

Enfim, uma reunião de legitimidade duvidosa transformada num flop político, que se tentou disfarçar através de um embuste, desesperadamente destinado a transformar numa grande vitória aquilo que afinal não passou de uma enorme escorregadela.

BRASIL - últimas sondagens


Será talvez a última ronda de sondagens quanto às intenções de voto nas eleições presidenciais brasileiras que vão de correr amanhã. As infografias que acima se reproduzem , foram retiradas do site do jornal "O Estado de S.Paulo".

Mostram uma evolução favorável a Dilma . A miserável campanha feita contra ela, pela grande imprensa e pelos grandes grupos de comunicação social, em conluio com a direita, com os sectores obscurantistas das igrejas e com o bloco partidário que apoia Serra, parece não ter dado os resultados almejados.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

AVISO SUBLINHADO


Foi difundida, hoje, uma nova sondagem da responsabilidade do CESOP da Universidade Católica.
Os resultados são muito próximos dos divulgados pela Marktest, que já hoje comentei neste blog, no texto anterior. Tal como fiz com os da Marktest, integrei os do CESOP num pequeno quadro comparativo, com resultados de sondagens anteriores, levadas a cabo pela mesma entidade.
Todavia, apesar de próximos, os referidos resultados não são iguais aos da Marktest. O PSD tem aqui menos 2 % e a CDU menos 0,3%; o PS tem mais 1%, o BE mais 2% e o CDS também mais 1% também. No seu todo, a direita ( PSD+ CDS) atinge os 47%; e as esquerdas (PS + BE + CDU) chegan aos 46%. Provavelmente, a direita chegaria à maioria parlamentar e poderia formar governo.
No quadro acima apresentado, vê-se que o PS tem vindo a seguir uma trajectória negativa, o mesmo com ocorrendo com o CDS , conquanto em grau menor. Pelo contrário, o PSD tem percorrido uma trajectória ascendente, o mesmo se passando com o BE. Embora oscilando, a CDU tem conhecido uma certa estabilidade.
Comparando as actuais intenções de voto com as apuradas em Junho passado, constata-se que a direita no seu todo passou dos 43% para os 47%, enquanto as esquerdas, no seu todo, desceram dos 50% para os 46%. Ou seja, embora com valores diferentes , estamos perante uma evolução do mesmo tipo da que foi indicada pelos resultados da Marktest. Também neste caso, o PS perde votos, na mesma percentagem para a oposição de direita ( 4%) e para a oposição de esquerda (4%). Simplesmente, neste caso, à esquerda, só o BE beneficia dessa perda, bem como, aliás, de mais 2% perdidos pela CDU.
A paisagem política é, portanto, semelhante à mostrada pela outra sondagem: a direita fica perto do regresso a uma maioria e as oposições de esquerda, embora alcancem os 20% em conjunto, continuam longe de poderem, por si sós, serem suficientemente fortes para servirem de base a um governo só delas.
A semelhança dos resultados das duas sondagens, bem como o padrão de evolução destacado nos quadros comparativos elaborados, torna mais provável que estejamos perante uma relação de forças com alguma estabilidade. Por isso, a urgência de um sobressalto estratégico, no seio do povo de esquerda e dos partidos que se consideram a si príprios de esquerda, aumenta.
Sublinhe-se que não está em causa a perda de identidade, seja de quem for, nem a cedência perante pressões alheias, mas apenas a procura de novas dinâmicas congregadoras e inovadoras, capazes de, com naturalidade, fundirem, num grande movimento social com pontencial institucional, todas as aspirações históricas do povo de esquerda. Deixar tudo entregue a previsíveis rotinas, numa deriva modorrenta, é uma temeridade , uma imprudência, cada vez maior.

AVISO DE TEMPESTADE


Pode ver-se acima um quadro comparativo das sondagens da Marktest difundidas nos últimos meses. Ele pode contribuir para que se fique com uma ideia mais clara do significado político da sondagem hoje divulgada, cujos trabalhos de campo foram feitos entre 19 e 24 de outubro.
Ela mostra um PSD com 42%, ou seja, com 17 % de vantagem sobre o PS no que diz respeito a inteções de voto. Um PSD que juntamente com o CDS poderia constituir uma folgada maioria parlamentar de direita, se as eleições tivessem sido no passado dia 24. O PS está abaixo do desastroso nível atingido nas eleições europeias de 2009, ao ficar-se pelos 25 % das inteções de voto. O BE é terceira força com 10%; a CDU e o CDS estão praticamente empatados com 8,3% e 8%, respectivamente.
Se forem comparados os resultados desta sondagem com os de uma anterior da mesma agência ( trabalhos de campo de 14 a 17 de Setembro ), verifica-se que o PS desceu quase 11%, tendo os partidos de direita subido em conjunto 5,3 % ( 4% vindos do PSD; 1,3% do CDS) e os outros partidos de esquerda também 5,3 % ( 3,5% vindos do BE e 1,8 % da CDU ).
A comparação destas quatro sondagens durante um período fértil em acontecimentos, com aguda conflitualidade política, crescente mal-estar social e dramática instabilidade económica mostra alguma flutuação no nível de desgaste eleitoral do PS, sendo certo que ela existe e apenas incerto o seu grau. Na sondagem mais antiga e na mais recente, a direita teria maioria parlamentar, chegando o PSD, por si só, à maioria absoluta na primeira e aproximando-se dela na mais recente. O conjunto da oposição de esquerda atinge nesta sondagem os 18,3 % ( 10 % do BE e 8,3% da CDU).
Ou seja, o PS perde eleitorado para a direita e para a esquerda, mas o que perde para a direita é suficiente para esta chegar à maioria; o que perde para a oposição de esquerda não é suficiente para que esta se aproxime sequer da possibilidade de se constituir, por si só, como alternativa de Governo.
Será prudente não esquecer as flutuações de resultados ao longo destes últimos meses nos sondagens da Marktest e lembrar que as outras empresas de sondagens costumam apresentar resultados menos desfavoráveis ao PS do que os dela. No entanto, seria pura cegueira política desconsiderar a sondagem ontem saída. Ela sublinha o risco de uma futura hecatombe eleitoral para o PS, de uma cisão entre o PS e uma parte do seu eleitorado que pode ser duradoura.
O contexto sócio-económico nacional e internacional, a anemia política dos partidos europeus da Internacional Socialista, a sofreguidão com que os poderes fácticos dominantes e a direita política europeia sugam a riqueza produzida pelos povos que dominam, tornam a luta política cada vez mais árdua. E fazem-no em tal grau que vai ficando claro que, sem mudanças estratégicas radicais , sem um sobressalto de unidade e de inteligência colectiva do povo de esquerda e dos partidos que nele têm raízes, corremos o risco de uma prolongada agonia política sob a égide institucional dos autómatos neoliberais que os poderes financeiros internacionais irão teleguiar com bonomia e cinismo.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

BRASIL - intenções de voto


As duas infogravuras, acima reproduzidas a partir da imprensa brasileira, mostram a evolução, desde a primeira volta, das intenções de voto nas eleições presidenciais, que vão decorrer no próximo dia 31 de Outubro no Brasil. Elas reflectem os números difundidos pelas principais empresas de sondagens brasileiras ( Datafolha, Ibope, Sensus e Vox Populi ). As intenções de voto em Dilma Roussef correspondem ao que está a vermelho; as intenções de voto em José Serra correspondem ao que está a azul. No quadro de cima, integram-se os resultados de todas as sondagens publicadas, por esses quatro institutos; no quadro de baixo, pode ver-se a evolução das médias sucessivas das diversas sondagens.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

UM CANDIDATO TRISTE


1. O Presidente Cavaco vai recandidatar-se à Presidência da República. O mais conhecido oráculo da direita portuguesa tinha já anunciado o dia e a hora da revelação, quando ambos ainda eram secretos. Mas nem mesmo ele se lembrou de inventar, como novidade, aquilo que toda a gente sabia: Cavaco queria suceder a Cavaco.

Foi em Lisboa, no Centro Cultural de Belém. Bem vestida, num reluzir de jóias e gravatas, uma plateia solene e sonolenta, ouviu um rosário de palavras previsíveis, com a distância aquiescente de quem está seguro da sua importância. Entusiasmo, era uma discreta ausência. Os aplausos quase melancólicos. Ali, reinou apenas a naftalina da esperança.

2.
O novo candidato, no entanto, assegurou ser honesto e trabalhador. Registamos, embora algo espantados por ele ter sentido necessidade de o dizer.

O novo candidato vai poupar nos gastos de campanha, não ultrapassando metade do montante que a lei autoriza. Numa voz de quase soluço, alega o respeito pelas dificuldades que vivemos como a sua motivação. Aplaudiríamos com todas as mãos, se esse candidato não ocupasse o lugar que ocupa, beneficiando assim de uma exposição mediática que torna insignificante o papel de uns tantos cartazes espalhados pelo país. Um perfume de cinismo ou de hipocrisia pareceu pairar.
O novo candidato tem um único partido: Portugal. E quem não é do mesmo partido que ele, apoiando, por exemplo, um outro candidato, poderá ainda ser considerado como português? Pergunta-se --- com o incómodo de quem surpreende, de novo, a pairar sobre nós, os milhafres do nacionalismo mais reaccionário e a nuvem negra do patrioteirismo mais hipócrita.

O novo candidato fala verdade, não mente. E não mente porquê? Porque, diz ele que foge como o diabo da cruz de ilusões e utopias. Utopias, sim. Foi isso que ele disse. E, talvez sem querer, ele mostrou desse modo o cerne da sua identidade mais funda:
ele é o candidato anti-utópico.

3. Enfim, lá se foi ouvindo uma mistura triste de todos os artefactos ideológicos da direita portuguesa, consubstanciados na aspiração a repetir um mandato, que revelou que o único desígnio prático relevante do candidato, era o de evitar que esteja à frente do Estado português um Presidente da República oriundo da esquerda. Se a relação de forças política lho permitir sem risco, certamente que fará mais, que fará o que puder para conforto da direita. Se assim não for, pelo menos, continuará a fazer o que já fez. E se achar ter chegado um novo momento de conspiração contra o PS, semelhante à intentona das escutas a Belém, terá talvez mais cuidado ou mais engenho; ou talvez apenas mais cuidado na escolha dos artistas que mande para o terreno.

A direita portuguesa e os poderes de facto já salivam abundantemente, atrás de uma aliciante cenoura com que o destino lhes parece acenar: uma maioria, um Governo e um Presidente. Eis o que é um sonho para alguns, mas um pesadelo para o país.
Por isso, o melhor é jogar pelo seguro, evitando desde já que Cavaco seja reeleito, o que só se evita, vencendo-o.

domingo, 24 de outubro de 2010

CONTRACAPA DA VÉRTICE - 47


Vértice nº333- Outubro de 1971

"Há na humanidade forças que a impelem numa direcção determinada, forças que às vezes parece que adormecem, que recuam, que sossobram, mas que como esses rios que se escondem por algum tempo debaixo da terra, para rebentarem de novo mais opulentos d'águas, mais soberbos e mais velozes, assim reaparecem quando se supunham mortos, quebrando todas as resistências, destruindo até se fazer pó, tudo que se lhes opõe."
JOSÉ FREDERICO LARANJO

ERRAR



Não deixes que os teus dedos
se percam
nas harpas da tristeza
como folhas de outono


Dá-lhes o calor dos teus erros
a pele azul do sonho
o sabor tão relativo
das tuas verdades


Engana-te generosamente
a favor de um mundo melhor
tropeça na realidade sem inibições
colhe o impossível sem pudor


Nas arcas do sofrimento
não cultives as lágrimas
no exílio da alegria
não cedas ao desespero


Se a revolta subir
ao longo dos teus braços
dá-lhe todas as asas
vai com ela


Que nas cidades justas
do futuro
entre os que enfim
se olharem inteiros e libertos
alguém possa dizer sobre ti:


enganou-se
mas era nosso irmão



[RUI NAMORADO]

FAVORES



Na colecção que fez época, "Antologia do Conto Moderno", publicada pela editora de Coimbra, Atlântida, saiu em 1947, em tradução de José Borrego e Victor Palla, uma colectânea de contos do escritor norte-americano de origem arménia William Saroyan (1908-1981). Lembre-se, aliás, que este conjunto de textos incluiu uma pequena preciosidade que atingiu uma enorme notoriedade: " O rapaz do trapézio voador". Mas hoje não é dele que se trata. Vamos antes transcrever um brevíssimo texto incluído na referida colectânea, pleno de humor e de autenticidade. Actual.


"Primeira história arménia"


"O padre voltou-se para o homem que o apunhalara nas costas, examinou-lhe cuidadosamente a cara, e, morrendo, disse:

- Porque me matas? Nunca te fiz nenhum favor."

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

O AVESSO DAS ESQUERDAS


As direitas, às vezes quando lhes é útil e sempre quando lhes é indispensável, lá se vão entendendo.


As esquerdas, sempre de olho vivo, vigiando-se umas às outras com extrema eficácia, raramente se entendem, a não ser sobre bagatelas. Por uma lado, a que se reconhece na Internacional Socialista, pelo outro, as que se reconhecem nas sombras do sovietismo desaparecido e no pós-esquerdismo, vão-se combatendo animadas por excelentes razões e por motivos que todos compreendem. Se forem perguntadas não se confessam inimigas, mas não resistem a apontar as enormes mazelas da outra parte.


Pode não parecer, mas se olharmos com atenção, todas elas ainda estão afinal possuídas pelo espírito da velha máxima estalinista, nos primórdios da ascensão de Hitler: " Enterrar o nazismo sobre o cadáver da social-democracia". Como sabemos, a história não foi meiga: enterrou socialistas e comunistas no mesmo buraco, e foram precisos milhões de mortos para a Europa voltar a ser normal.


Hoje, parece que as várias esquerdas estão ainda hipnotizadas pela velha máxima estalinista . Cada uma quer vencer a outra, ao mesmo tempo que derrota a direita. Mas a realidade é teimosa, a relação de forças não se altera por magia de um dia para o outro.


Enquanto as coisas continuarem assim, as direitas podem dormir tranquilas no governo ou na oposição. As esquerdas velarão ciosamente as suas verdades parcelares, evitando metodicamente ganharem a força que naturalmente teriam, se não estivessem ocupadas em continuar a guerra civil histórica de que não conseguem fugir.


E infelizmente, falando de Portugal, não estou só a falar de Portugal.

Bolinha na careca!


Ontem, com grande destaque, as estações televisivas portuguesas fizeram eco de uma agressão ao candidato presidencial às eleições brasileiras José Serra, por apoiantes da candidata Dilma Rooussef. Afinal, como se pode verificar pelo texto elaborado pela Redacção da revista brasileira CartaCapital, que abaixo se transcreve, do que se tratou foi de um miserável embuste. Aliás, um video do YouTube, a que se pode aceder através do site da Revista, mostra tudo o que se diz no texto. Vi-o, pelo que posso testemunhar. Se também quiserem ver, cliquem, por favor, em [ http://www.cartacapital.com.br/destaques_carta_capital/serra-foi-atingido-por-bolinha-de-papel-mostra-o-sbt ] . Depois, no fim da notícia que vou transcrever, cliquem de novo sobre a imagem e vejam.


Eis o texto:


Serra foi atingido por bolinha de papel, mostra o SBT


Redação Carta Capital, 21 de outubro de 2010 às 9:20h

Telejornal exibe toda a sequência dos fatos e mostra que Serra só acusou o golpe 20 minutos depois


"O baixo nível da campanha presidencial, antes restrito aos boatos e mentiras divulgados pela internet, às pregações de certas igrejas e ao noticiário de parte da grande mídia – além dos programas eleitorais, é claro – chegou finalmente às ruas. Consequência inevitável.
O tumulto que aconteceu ontem no bairro do Campo Grande, no Rio de Janeiro, entre simpatizantes das candidaturas de Serra e Dilma tem que ser condenado e preocupar as coordenações das duas campanhas, pois pode se repetir e causar maiores danos para ambos. E para o País.
Entretanto, é preciso relatar os fatos como eles aconteceram, e entre os telejornais exibidos na noite desta quarta-feira 20, parece que apenas o SBT Brasil conseguiu mostrar toda sequência dos acontecimentos.
Na matéria fica claro que o objeto que atingiu a cabeça do candidato foi uma simples bolinha de papel. Não foi uma pedra, nem um rolo de papel, nem um rolo de adesivos – versão final comprada pelos jornais do dia – como publicaram ontem os principais portais de notícias.
Pior: segundo a matéria exibida pelo SBT, Serra percebeu que recebera o golpe do objeto e olhou para o chão para identificá-lo. Depois, prosseguiu a atividade em meio ao tumulto sem nenhum dano físico aparentar, com interrupções para entradas e saídas de uma loja e do veículo que o havia conduzido ao local. Passados 20 minutos, segundo o SBT, ele recebeu um telefonema – veja na tela – e imediatamente pôs as mãos à cabeça. Só então decidiu interromper a caminhada.
Em seguida, contou o telejornal, Serra foi levado a um hospital e submetido a uma tomografia. Na tevê, surge o médico que o atendeu, a dizer que não houve ferimento, mas que havia recomendado ao candidato repouso por 24 horas. Ato contínuo, Serra suspendeu o restante da sua agenda do dia
."

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

PS -COIMBRA : uma luta, todos vencidos.


Nas eleições para a Federação de Coimbra do PS gerou-se uma situação de incerteza quanto ao vencedor das eleições para a Presidência da Federação, uma vez que um candidato foi apontado como tendo mais dois votos do que o outro, num universo de cerca de 4500 votantes, mas o segundo impugnou as eleições invocando irregularidades.

As instâncias de jurisdição interna do PS não tomaram ainda uma decisão final, mas o caso já transbordou para a opinião pública com contornos políticos desprestigiantes para o PS. Não sei se a candidatura que obteve os tais dois votos de vantagem também tem vantagem quanto ao número de delegados eleitos para o Congresso. Mas, seja qual for a candidatura, que tenha vantagem nesse aspecto, não a terá por uma grande margem. E não está excluído que o candidato que venha a ser declarado vencedor possa vir a estar em minoria na Comissão de Federação.

Mas do que ninguém pode duvidar é que, seja qual for o resultado das contendas que estalaram na praça pública, há um equilíbrio quase total na relação de forças entre as duas facções que se têm enfrentado. O simples bom senso político aconselharia a que tivesse sido este o ponto de partida óbvio. E se assim fosse, a primeira preocupação de cada um dos lados deveria ter sido a de negociar com o outro lado. Falo de uma negociação política e não de uma partilha de lugares, presentes ou futuros. Uma negociação que desdramatizasse o facto de haver um lado que tem mais dois votos e outro que tem mais dez delegados. Mas que poderia também permitir que fosse pacífica a repetição de eleições nas secções em que isso se justificasse se fosse esse o caso.


De facto, se é objectivo que ninguém ficou esmagado nesta eleição, também não o ficaria se uma eventual repetição de algumas eleições invertesses posições;e, mesmo que essa inversão ocorresse, o novo perdedor continuaria a ter como apoiantes quase metade dos votantes.

Este mútuo reconhecimento teria tornado, objectivamente, muito improvável um tipo de transvase para a praça pública como aquele que ocorreu e teria certamente evitado que se atingissem os níveis de crispação e acrimónia entre militantes do PS que foram atingidos.

Não foi isso que aconteceu. As dúvidas que emergiram do acto eleitoral, em vez de serem analisadas com serenidade, para serem confirmadas ou desfeitas, foram ampliadas politicamente. E chegado o clima de confronto interno aos níveis a que chegou, é muito provável que a querela aberta não se encerre com as decisões dos órgãos de jurisdição interna do PS, transbordando para os tribunais.

E mesmo que as coisas não vão tão longe, o ponto a que chegaram já foi suficiente para lesar gravemente a imagem do partido. E, como já antes disse, se é legítimo esperar-se que não sejam trazidas para a praça pública as questões internas do partido em termos desbragados, não é menos de esperar que não se pratiquem falcatruas nas eleições internas do partido.

Faço votos para que se vá retomando o sangue frio com a celeridade possível, mas não me passa pela cabeça que não se altere por completo o modo como decorrem as eleições internas no PS, no sentido de completa transparência, total igualdade de oportunidades e plena democraticidade. Se isso for conseguido, não teremos tido este grave prejuízo político, em vão. Se assim não for, receio bem que se tenha apossado de nós uma pulsão suicidária.

AMANUENSES DE ABISMOS



Se o que está a ser noticiado sobre a decisão do PSD quanto ao orçamento for verdade, fica a ver-se que as dificuldades causadas à Europa pela via que ele próprio defende e pelas sequelas de um sistema económico, o capitalismo, no qual se revê, por completo, não o comovem.

Não é um partido de direita capaz de se responsabilizar por um co-envolvimento na solução de uma crise, que tem como elemento gerador de uma urgência financeira, a voracidade dos especuladores e as taras de um mercado de capitais predatório e instável. É apenas uma empresa de gestão de carreiras, preocupada em conter os danos colaterais que poderiam ser produzidos na imagem da sua equipa dirigente, pela discrepância entre as farroncas de ontem e os apelos da realidade a que sabe não dever resisitir. Os interesses e as dificuldades do país são uma música distante percebida vagamente para lá do mar de ruídos com que quotidianamente nos brinda.

Os responsáveis do PSD que estão hoje alinhados numa prateleira de esquecimento, cultivam atónitos o espanto de estarem atrelados a uma equipa de notabilidades politicamente tontas que ao invés de filtrarem o possível excesso de fogosidade de um líder inexperiente, a tornam um mal muito menor do que a sua própria obnubilação tosca.

Como crianças irresponsáveis a quem deram um brinquedo que não sabem gerir, os actuais responsáveis do PSD levam o país a passear à beira de um abismo com a tranquilidade de quem assiste a uma missa dominical.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

PS - COIMBRA : luta de ideias


O debate que tem vindo a ser travado, no seio do PS de Coimbra, com transvase para a opinião pública, tem sido muito útil. De facto, ambos os lados da contenda têm expressado com clareza o que pensam sobre a actual conjuntura política, o que os aproxima e o que os separa na avaliação do modo como o Partido tem sido conduzido nos últimos anos.
Particularmente elucidativa, tem sido a diferença que se tem verificado existir pelas ideias que cada um dos lados tem manifestado, quer a propósito da actual fase da vida da União Europeia, quer a propósito do que parece ser uma crise da Internacional Socialista na Europa.
Especialmente interessante foi também a troca de ideias entre as duas partes a propósito da crescem afirmação da economia social no nosso país. E foi quase comovente o apoio caloroso que ambas as partes deram ao projecto de revisão constitucional do PS, que criteriosamente elogiaram.


Por isso, os militantes estão satisfeitos, os eleitores socialistas estão satisfeitos, o povo de esquerda em geral, está confortado com o modo como o PS de Coimbra tem, nestes últimos dias, evidenciado na praça pública a sua grande vitalidade político-ideológica.

De facto, tem-se assistido a um vivo debate de ideias em que cada uma das partes , não escondendo diferenças, soube sempre ouvir com atenção o outro lado, sem que isso significasse renúncia a ser ela própria.

Se conseguirmos manter o nível de debate político dos últimos dias, tendo especialmente em conta o interesse dos temas discutidos, podemos confiar num apoio crescente do povo do distrito de Coimbra às nossas ideias e às nossas propostas.

Não duvidemos : seja qual for o resultado nacional das próximas eleições legislativas, sejam elas quando forem, por este andar, no círculo eleitoral de Coimbra, se não elegermos os deputados todos, seguramente que andaremos lá perto.

sábado, 16 de outubro de 2010

SOMBRAS NO BRASIL


As notícias sobra a segunda volta das próximas eleições presidenciais brasileiras vão chegando até nós filtradas pela malha sombria do sistema mediático mundial. Uma sofreguidão de hostilidade, embora ainda contida, ousa já sair da sombra contra Lula. Muitos dos que pareciam incensá-lo, tiram agora a máscara e num ímpeto de desforço, procuram vingar-se dos seus êxitos, fazendo com que seja derrotada Dilma Roussef , a candidata que ele apoia, a candidata da esquerda brasileira.
Do site da CartaCapital, extraí um texto datado de 15 de Outubor de 2010, da autoria de Juarez Guimarães e intitulado, "O caluniador, figura da barbárie", que nos pode ajudar a compreender o que se está a passar e o que está em jogo no combate político que hoje se trava no Brasil. Eis o referido texto:


" De todas as eleições presidenciais realizadas após a redemocratização, esta é certamente aquela que a calúnia cumpre um papel mais central na definição do voto. Ela foi utilizada em um momento decisivo por Collor contra Lula, compareceu sempre todas as vezes nas quais Lula foi candidato mas agora ela mudou de intensidade e abrangência, tornou-se multiforme e onipresente.
A calúnia foi ao centro da nossa vida democrática. A senhora ao lado no ônibus me diz que recebeu a informação que Dilma desafiou Jesus Cristo em um comício realizado na Praça da Estação, em Belo Horizonte. O motorista de táxi conta que um médico lhe assegurou que um outro médico, seu amigo, diagnosticou gonorréia em Dilma.
Um e-mail recebido traz documento do TSE impugnando a candidatura de Dilma por ter “ficha suja”. Um aluno me diz ter recebido carta em casa da Regional 1 da CNBB, contendo mensagem para não votar em Dilma por ser contra a vida. Um comerciante na papelaria me diz que “não vota em bandida”. Após divulgar o resultado da primeira pesquisa Sensus/CNT para o segundo turno, o sociólogo Ricardo Guedes, afirmou que “nessa eleição, principalmente no final do primeiro turno, temos um fenômeno sociológico de natureza cultural de desconstrução de imagem. O processo de difamação, até certo ponto, pegou.” Quem conhece alguém que não recebeu uma calúnia contra Dilma ?
Houve uma mudança nos meios: a internet permite o anonimato e a profusão da calúnia. A Igreja brasileira, sob a pressão de mais de duas décadas de Ratzinger, tornou-se mais conservadora na sua cúpula e mobiliza hoje uma mensagem de ultra-direita, como não se via desde 1964. A mídia empresarial brasileira, já se sabia, vinha trilhando o seu caminho de partidarização e difamação pública, no qual até o direito de resposta tornou-se um crime contra a liberdade de expressão. Mas tudo isso não havia encontrado ainda o seu ponto de fusão: agora, sim.
O que está ocorrendo aos nossos olhos não pode ser banalizado. O caluniador é uma figura da barbárie, o sinistro que mobiliza o submundo dos preconceitos, dos ódios e dos fanatismos. A calúnia traz a violência para o centro da cena pública, pronunciando a morte pública de uma pessoa, sem direito à defesa. Perante a calúnia não há diálogo, direitos ou tribunais isentos. Na dúvida, contra o “réu”: a suspeição atirada sobre ele, visa torná-lo impotente pois já, de partida, a humanidade lhe foi negada.
Mas quem é o caluniador, essa figura de mil caras e rosto nenhum? É preciso dizer alto e bom som, em público, o seu nome, antes que seja tarde: o nome do caluniador é hoje a candidatura José Serra! Friso a candidatura porque não quero exatamente negar a humanidade de quem calunia. É o que fez, com a coragem que lhe é própria, a companheira Dilma Roussef no primeiro debate do segundo turno, apontando o nome de uma caluniadora – a mulher de Serra – e chamando o próprio de o “homem das mil caras”.
Dia a dia, de forma crescente e orquestrada, a calúnia foi indo ao centro de sua campanha, de sua mensagem, de sua fala, de sua identidade proclamada, de seus aliados midiáticos, de parceiros fanáticos (TFP) ou escabrosos (nazistas de Brasília), de sua estratégia eleitoral e de seu cálculo. “Homem do bem” contra a “candidata do mal”? Homem de uma “palavra só” contra a “mulher de duas caras”? Político “ficha limpa” contra a “candidata ficha suja”? Protetor dos fetos e dos ofendidos (como mostra a imagem na TV) contra aquela que “assassina criancinhas”, como disse publicamente sua mulher? Homem público contra a “mulher das sombras”?
O que está se passando mesmo aqui e agora na jovem democracia brasileira? Que arco é este que vai da TFP a Caetano Veloso, quem , quase em uníssomo ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, chamou o presidente Lula de analfabeto e ignorante já no início deste ano? Afinal, que cruzada é esta e qual a sua força ?
O que está ocorrendo aqui e agora é uma aliança dirigida por um liberal conservador com o fanático religioso e com o proto-fascista. Cada uma dessas figuras – que sustentam o lugar comum da calúnia – precisa ser entendida em sua própria identidade e voz. A democracia brasileira ainda é o lugar da razão, do sentimento e da dignidade do público: por isso, defender a candidatura Dilma Roussef é hoje assumir a causa que não pode ser perdida.
Liberalismo conservador: o criador e sua criatura – Nunca como agora em que esconde ou quase não mostra a imagem de Fernando Henrique Cardoso, Serra foi tão criatura de seu mestre intelectual. É dele que vem o discurso e a narrativa que, ao mesmo tempo, dá a senha e liga toda a cruzada da direita brasileira.
A noção de que o PT e seu governo ameaçam a liberdade dos brasileiros pois instrumentalizam o Estado, fazem reviver a “República sindical”, formam gangues de corrupção e ameaçam a liberdade de expressão não deixa de ser uma evocação da vertente lacerdista da velha UDN. Mas certamente não é uma doutrina local.
A cartilha do liberal-conservador Fernando Henrique Cardoso é um autor chamado Isaiah Berlin, autor de um famoso ensaio “Dois conceitos de liberdade” e do livro “A traição da liberdade. Seis inimigos da liberdade humana”. Neste ensaio e neste livro, define-se a liberdade como “liberdade negativa”, isto é aquele espaço que não é regulado pelas leis ou pelo Estado contraposto à noção de “liberdade positiva”. Quanto menos Estado, mais liberdade; quanto mais Estado, menos liberdade. Ao confundir liberdade com autonomia, ao vincular liberdade aos ideais de justiça ou de interesse comum, republicanos, sociais-democratas, liberais cívicos e, é claro, socialistas, trairiam a própria idéia de liberdade.
É por este conceito e seus desdobramentos que Fernando Henrique mobiliza o clamor midiático contra o PT e o governo Lula. É este conceito que estrutura também o discurso de Serra, que acusa o governo Lula de ser proto-totalitário. É evidente que o conceito não é passado de forma iluminista: a mídia brasileira tornou-se uma verdadeira artista na criação das mediações de opinião, imagem e notícia que se centralizam, em última instância, neste conceito. Daí ele dialoga com o senso comum.
Seja dito em favor de Fernando Henrique Cardoso: é o lado mais sombrio de seu liberalismo que vem à tona agora, na cena agônica, quando o candidato que representa a sua herança ameaça perder pela última vez. Pois este liberalismo sempre foi de viés cosmopolita, atento em seu diálogo com os democratas norte-americanos e aos “filósofos da Terceira Via”, a certos direitos inscritos na pauta, como aqueles da liberdade sexual, do direito ao aborto legal, dos gays, dos negros, da vida cultural. Mas agora para fazer a ponte com o fanatismo religioso, ele resolveu descer aos infernos: nada sobrou de progressista na candidatura Serra, das ameaças à Bolívia à moral sexual de Ratzinger?
O liberal conservador não é o fanático religioso nem o proto-fascista, aquele que julga que a melhor maneira de dissuadir o adversário é simplesmente eliminá-lo. Mas dialoga com eles na causa comum de derrotar os “proto-totalitários” de esquerda”. Como disse bem, Jean Fabien Spitz, autor de “ O conceito de liberdade”, os ensaios de Berlin trazem o sentido e a tonalidade da época da “guerra fria”.
O fanático religioso: os frutos de Ratzinger – Se a social-democracia, o republicanismo e o socialismo são os inimigos de Berlin, a Modernidade em um sentido amplo é o inimigo central do ex-cardeal Ratzinger. O programa político- teológico que veio construindo a ferro e fogo nestas últimas três décadas é centrado na idéia que é preciso restaurar a dogmática da fé contra os efeitos dissolutivos da moral emancipadora, da racionalização científica e da secularização. Este discurso político, que se fecha no fundamentalismo religioso, como bem denunciou Leonardo Boff, é, na verdade, um discurso de poder, de recentramento do poder do Vaticano.
Neste programa, não é apenas a esquerda enquanto topografia política que é o inimigo mas principalmente o processo de emancipação das mulheres. Entre a “Eva pecadora” e a “Maria mãe de Deus” não há outra identidade possível às mulheres.
A dimensão fundamentalista desde discurso não reconhece o direito do pluralismo na política, nem mesmo na linha do “consenso sobreposto” proposto por John Rawls ( a possibilidade de convergências sobre direitos, partido de um pluralismo de fundamentos). Ou se concorda ou se é proscrito, ex-comungado ou desqualificado.
É essa idéia força, que veio ganhando terreno na hierarquia do clero brasileiro a partir das perseguições à Teologia da Libertação, que agora irrompe na política brasileira, difamando Dilma Roussef. A calúnia é conveniente ao fundamentalista religioso: nesta visão de mundo, não há luz e sombra, não há e não pode haver semi-tons: quando Serra proclamou que o “direito ao aborto no Brasil seria uma carnificina”, ele estava dando a senha para a campanha difamatória da direita católica e evangélica.
O proto-fascista e seus privilégios – Todo processo político e social de democratização e de inclusão tão amplo como o que está se vivendo no Brasil provoca reações de resistência e regressão política à sua volta. Mas este também não é um fenômeno apenas brasileiro: observa-se à volta de nós fenômenos e operações muito típicas daquelas que estão sendo promovidas pela direita republicana norte-americana contra Obama ou que percorrem quase todo o continente europeu em torno ao tema dos imigrantes.
O proto-fascista brasileira não veste camisa preta nem usa suástica no braço ( embora, é claro, ninguém duvide, redes simbolicamente ostensivas estão em ação), nem precisa ser sociologicamente configurado como “lumpen proletariado” ou “pequeno burguesia vacilante”, para lembrar as figuras de uma linguagem simplificadora. O proto-fascista brasileiro é aquele que não quer receber em sua casa comum – a democracia brasileira – estes que não que reconhecem mais o seu antigo lugar, os pobres e os negros.
Há uma violência inaudita no ato do jornal liberal “O Estado de São Paulo” em punir com a demissão Maria Rita Kehl, por escrever um artigo em prol da dignidade dos pobres. Esta violência, que está muito distante do proclamado pluralismo mesmo restrito de alguns liberais, cheira a proto-fascismo, este ato que pretende abolir as razões públicas dos pobres simplesmente negando dignidade a eles.
A força da liberdade que hoje mora no coração dos brasileiros, os braços abertos do Cristo Redentor e o que há de imaginação e magnífica pulsão de vida na cultura popular dos brasileiros são os verdadeiros antídotos contra as figuras do ódio do caluniador.Por detrás da sua máscara, o povo brasileiro há de reconhecer os centenários adversários de seus direitos.
Diante do caluniador, somos todos hoje Dilma Roussef!"

[Juarez Guimarães]