quinta-feira, 20 de maio de 2010

Respiração brasileira - Mercadante

O senador Aloizio Mercadante, um dos mais destacados dirigentes do PT, é candidato ao Governo de S.Paulo nas próximas eleições, tendo sido até há pouco líder da bancada que apoiava o Governo no Senado. O jornalista Celso Marcondes entrevistou-o para a importante revista brasileira de grande circulação CartaCapital . Permitimo-nos transcrever alguns extractos da longa entrevista que aí foi publicada.
Recorde-se, entretanto, que no Estado de S.Paulo , o PT é oposição, ao Governador cessante do PSDB, José Serra, que é o candidato da direita às próximas eleições presidenciais brasileiras.

A entrevista é assim apresentada num pequeno texto introdutório: “O senador Aloizio Mercadante, pré-candidato ao governo de São Paulo pelo PT, deu uma longa entrevista à CartaCapital dia 10 de maio último. Criticou duramente a gestão tucana no Estado, avaliou a conjuntura nacional, as chances de Dilma Rousseff e as realizações do governo Lula. Comemorou as articulações para ampliar a frente partidária que lhe dará suporte e falou sobre os principais pontos de seu futuro plano de governo” .

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CartaCapital : Vamos falar um pouco de programa de governo. Na convenção do PSDB que lançou o Alckmin, o discurso dele e do Fernando Henrique em particular, foram destoantes da linha que o Serra ameaça desenvolver na eleição presidencial, digamos, menos beligerante. Serra tinha falado até em governar todo mundo junto, chamar o PT e o PV para governar...
AM: Eu acho que na convenção eles falaram de improviso. Não foi o marketing que escreveu o discurso. E de improviso eles falaram o que sempre foram. Na verdade, o PSDB sempre foi contra o Lula, fez de tudo para não existir o governo Lula, e ainda repete uma parte do discurso do Fernando Henrique, novamente tentando dizer que se a Dilma ganhar a eleição pode ser um desastre, disse “que Deus nos socorra”, algo como tentando retomar uma retórica do medo, que eu achei que já estava totalmente ultrapassada, porque eles foram derrotados com essa retórica, a esperança venceu o medo. E também porque o governo Lula teve um êxito inquestionável. É o presidente mais popular da história do Brasil, talvez a personalidade com mais prestígio internacional da história do país internacionalmente. Recebeu prêmio do El País, da Espanha, do Le Monde Diplomatique, da revista Time dos EUA, do Fórum Econômico Global, agora da ONU como campeão mundial de combate à fome, um prestígio, uma liderança, que é impressionante. O País hoje tem inflação menor que a do governo do Fernando Henrique Cardoso, a economia cresce duas vezes mais do que crescia nos 25 anos anteriores a ele. No IBGE, que tem sessenta anos de história, foi a maior redução da pobreza, 23 milhões de pessoas deixaram à linha da pobreza, com a ampliação da classe média, mais de 32 milhões de pessoas. Da história documentada do IBGE, o índice Coeficiente de Gini que é um índice inquestionável, é o melhor evolução que nos tivemos. Os mais pobres tiveram um ritmo de crescimento, no governo Lula um ritmo chinês em torno de 9% ao ano, isso em 7 anos. O salário mínimo cresceu 74%, o Bolsa Família atinge dois milhões de famílias, o crédito consignado massificou o consumo popular. O Minha Casa Minha Vida já tem 410 mil casas sendo construídas e contratadas. O Prouni atinge 726 mil famílias que estão sendo beneficiadas.
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CC: Mas o senhor acha que a identificação da Dilma com o Lula já está clara para a maioria da população?
AM: A minha visão, é que essas coisas só vão ficar claras a partir de agosto, quando a televisão for para o ar. A Dilma vai ter quase metade do tempo de televisão da campanha, nunca tivemos isso. Em 2002 nós tínhamos 21% e o Serra tinha 47% do tempo de televisão, agora vai inverter, ele vai ter em torno de 26%, 27% e a Dilma deve ter em torno de 50% do tempo de televisão. Nós vamos poder mostrar uma coisa que o Brasil sente. 75% dos brasileiros apoia o governo Lula, porque o País cresce, tem estabilidade, foi precavido em relação à crise; nós somos hoje o segundo maior produtor e exportador de alimentos do mundo, a safra agrícola é recorde este ano, com149 milhões de toneladas, o pré-sal aponta uma perspectiva fantástica para a economia brasileira. Nós criamos um mercado interno de massa, que é o que faz o Brasil crescer hoje, porque a Europa está mal, o Japão e os EUA continuam com dificuldades e o Brasil retomou um crescimento de mais de 7% nesse primeiro trimestre. Então, meu livro vai contar isso detalhadamente, é um balanço do governo, o prefácio é do Lula. Chama-se “O Brasil, a Construção Retomada”. Acho que vai ser um bom momento para o debate político. Eu usei a “construção retomada” dialogando com “o Brasil construção interrompida”, do Celso Furtado. Eu publico uma carta em que ele me mandou em 2002, aonde ele dizia a angústia que sentia em relação ao período neoliberal, as dificuldades do país, ele achava que ia ser muito difícil dar um salto histórico, mas achava que era possível, que as nossas propostas caminhavam nesta direção. Ele não viveu para ver, mas a gente retomou a construção da nação.

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CC: E dá para adiantar para nós a questão central que aborda no livro?
AM: Eu acho que vai dar uma bela discussão, falo sobre como foi colocar o social como eixo estruturante do econômico e criar um mercado de consumo de massa, que era nosso projeto desde a origem. Porque nós fizemos a “Carta ao Povo Brasileiro” para fazer uma transição, na medida em que nossa margem de manobra era muito pequena quando nós chegamos. A crise cambial, a taxa de juros estava em torno de 27,5%, a inflação estava em 17%, então se precisava de uma política de transição, para criar condições, acúmulo de forças, governabilidade, para implantar um modelo onde o social fosse o eixo estruturante do econômico, porque esse que é o novo desenvolvimentismo que o Lula trouxe: o protagonismo internacional do Brasil, a liderança dos países em desenvolvimento, a integração regional da América do Sul. Foi um trabalho que me deu muito orgulho de ter participado como líder do governo. Esse balanço do governo Lula é muito importante para a disputa em São Paulo. Eles estão aqui no governo há 27 anos, 16 anos com o PSDB, o Alckmin foi governador por 12 anos, seis anos governador, seis anos vice-governador, e mais um ano e quatro meses como secretário de governo. Então, eu não posso comparar um governo que eu não fiz com um governo em que eles estão tanto tempo se alternando. Eu posso comparar o governo que nós fizemos no Brasil, com o governo que eles fizeram no Brasil e posso destacar o que do governo Lula nós fizemos em São Paulo.
CC: No debate do Sérgio Guerra com o José Eduardo Dutra (presidentes do PSDB e do PT) Guerra insistiu que o governo Lula era uma continuação da política econômica e dos programas sociais do governo Fernando Henrique, que Lula não fez outra coisa senão adaptar tanto a política econômica quanto os programas sociais.
AM: Evidente que, primeiro, a política externa é outra. O Serra disse que acha o Mercosul um desastre e nós investimos muito na integração. Nossas exportações para o Mercosul cresceram duas vezes mais, que as nossas exportações para o resto da economia mundial. Investimos na integração regional, isso ajudou no protagonismo internacional do país. Investimos em sair da ALCA, por uma política de articular os países em desenvolvimento e recolocá-los em uma agenda global. Não nos acomodamos com o papel subalterno, secundário em relação ao G-20, nós implodimos o G-8 e criamos o G- 20.Nessa crise o Brasil presidiu o G-20 no momento da sua constituição, nós tivemos uma liderança inquestionável em Copenhague na agenda ambiental. E o presidente Lula é o presidente que mais vezes viajou à África, à Ásia, que mais viajou para a América Latina. Nós construímos realmente uma grande liderança internacional, que o mundo hoje aplaude e reconhece. Diferente da agenda de uma inserção subalterna que era o projeto deles. O Cavallo (Domingo Cavallo, ex-ministro da Economia da Argentina nos governos Menem e Fernando de la Rúa) também dizia que o Mercosul era um projeto que tinha que ter uma relação carnal com os EUA e nós fizemos uma outra construção histórica cujo resultado, na balança comercial e nas contas externas do país, foi exuberante.
CC: E quais as diferenças sobre o papel do Estado, tema que deve também ocupar um espaço importante na campanha?
AM: Nós retomamos o estado planejador, o estado protagonista, nós fortalecemos as empresas estatais. Eles venderam quase todo o patrimônio. Se você pegar a revista Exame em 2006, eles diziam temos que vender a Petrobras e o Banco do Brasil. Na crise o que nós fizemos? O Banco do Brasil empresta mais hoje do que todos os bancos públicos emprestavam em 2002. O BNDES hoje é maior que o Banco Mundial. Na Caixa Econômica Federal só de crédito imobiliário são 47 bilhões de reais, tem 410 mil casas sendo construídas na faixa de 0 a 3 salários mínimos e esse programa foi lançado no auge da crise. Uma política que nunca foi feita no passado. O que eles fizeram na crise? O Serra, vendeu a Nossa Caixa. No auge da crise, quanto estávamos usando os bancos públicos para fazer uma política de crédito em um grave cenário de crise de liquidez, eles estavam vendendo a Nossa Caixa. Aumentaram os impostos na capital, o IPTU, fizeram um programa de distribuição tributária em São Paulo que aumentou a carga tributária do estado, enquanto nós estávamos desonerando o setor estratégico, dando liquidez e colocando nos bancos públicos.
CC: Mas o Brasil tem ainda sérios entraves nas áreas de energia e infraestrutura, não é?
AM: Vamos começar pela Petrobras: eles venderam um terço por 5 bilhões de dólares. A Petrobras hoje vale 208 bilhões de dólares e é a 18ª maior empresa do mundo na bolsa, segunda maior empresa de petróleo do mundo. Isso e a descoberta do pré-sal mostram a força da Petrobras ao substituir importações na cadeia produtiva de petróleo. O Lula acabou de inaugurar o primeiro navio construído em Pernambuco, no estaleiro, que é uma coisa que foi construída nesse governo. A Ferrovia Norte-Sul está com 7 mil pessoas trabalhando, com uma velocidade fantástica, estava parada há 20 anos.E o que eles fizeram em ferrovias? Em 16 anos que eles governaram o estado de São Paulo? Venderam a FEPASA e privatizaram todo o setor ferroviário nacional, abandonaram qualquer planejamento de projeto estruturante sobre trilho. O modelo de estado era outro, a política externa era outra, a política econômica foi outra. Nós fizemos uma política econômica de um perfil keynesiano, inclusive na crise, anti cíclico, para retomar a capacidade de investimento e formulação de políticas públicas. O PAC é a reconstrução da capacidade de planejamento estratégico de projetos estruturantes de investimentos do estado, em parceria com a iniciativa privada, que o Brasil tinha perdido a ideia de planejamento, projeto estruturante, papel protagonista do estado no impulso de seu desenvolvimento. Nós somos, na realidade, o que um novo desenvolvimentismo e a marca fundamental desse novo desenvolvimentismo é o social como eixo estruturante do econômico. A ideia força desse governo foi criar um mercado de consumo de massa, eles diziam que se o salário mínimo crescesse a inflação voltava. Teve um crescimento de 74% do salário mínimo, eles jamais pensaram em um programa como o Prouni. Nunca existiu um Prouni antes, ele colocou 726 mil alunos na universidade com bolsa de estudos.
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CC: Mas, senador, apesar de tudo isso, como é que se explica essa distância tão grande do Alckmin nas pesquisas hoje em relação à sua candidatura?
AM: Quem foi governador e vice-governador doze anos e mais um ano e quatro meses como secretário, quem disputou a presidência da República e acaba de disputar a eleição para a Prefeitura, é natural que com essa exposição e essa presença, e com a mesma equipe se alternando no governo há vinte e sete anos, tenha esse posicionamento nas pesquisas. Agora se isso fosse uma intenção de voto consolidada, como é que se explica que ele (Geraldo Alckmin) saiu com 45% para a prefeitura (em 2008) e terminou com 22%, nem para o segundo turno foi há um ano atrás? A intenção de voto que ele tinha para a prefeitura é a mesma que ele tem hoje para o governo do Estado, só que nem chegou ao segundo turno. Eu acho que não é consistente e à medida que o debate avançar à medida que nós tivermos acesso à televisão e rádio para poder fazer esse debate aprofundado, nós vamos crescer. Na hora em que o Lula começar a se despedir do povo brasileiro definitivamente, eu acho que vai ter uma grande emoção e São Paulo, que durante tanto tempo, não acreditou que o Lula poderia ser presidente, um bom presidente e hoje aplaude, eu acho que pode votar no Mercadante e acreditar que é possível fazer em São Paulo o que nós já fizemos no Brasil. Um governo muito melhor do que o do PSDB.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Nunca renunciar a um horizonte socialista


O texto que se segue integrou o documento político fundador do clube político Margem Esquerda (ME), instituído no PS pouco depois da viragem de século. No âmbito da auto-reflexão permanente que, julgo eu, está inscrita no código genético da Corrente de Opinião Esquerda Socialista (COES), merece que o recordemos para reapreciar ou aprofundar o seu conteúdo, para calibrarmos com mais rigor as ideias expressas, para as tornarmos mais claras. E o texto que se segue, é tanto mais importante, quanto constitui o cerne da nossa identidade político-ideológica, no seio da constelação socialista. Uma identidade que deu sentido à existência do referido clube e, na minha perspectiva, está na base da criação da COES, na medida em que marcou o sentido estratégico mais fundo da moção”Mudar para Mudar”.

Falo em reapreciar e aprofundar o seu conteúdo, melhorando-o, uma vez que sendo este texto de grande amplitude conceptual, faz sempre sentido procurar melhorá-lo. Melhorá-lo, mas não esquecê-lo ou passar a recusá-lo como matriz da nossa identidade, pois se assim acontecesse seria esta que estaríamos a mudar e não apenas um texto.

Ora, uma mudança tão essencial teria exigido um processo explícito de reexame, que nunca ocorreu. E, é claro, que nem me passa pela cabeça, que se deva sequer pôr a hipótese de que essa possível mutação tivesse ocorrido sem que o tivéssemos querido ou sem que disso nos tivéssemos apercebido.

E, sublinho, isto vale tanto para a Margem Esquerda como para a Esquerda Socialista, já que a nossa corrente surgiu assumindo a continuidade política com o clube. Ora, se ela tivesse querido romper com a identidade referida, essa continuidade teria desaparecido e haveria de ter sido ao menos mencionada se, facto, tivesse ocorrido. Não foi isso que aconteceu. E, falando por mim, eu nunca teria aderido à ES se ela não tivesse sido a continuidade da ME.

Por isso, parece-me que será este território conceptual o primeiro que devemos percorrer para tornarmos ainda mais claros e inequívocos os alicerces político-ideológicos da COES. Eis o texto:




Nunca renunciar a um horizonte socialista


Mais de dois séculos decorreram desde a Revolução Francesa. Não foram, contudo, suficientes para apagar muitas das chagas sociais e humanas que continuam a desafiar o mundo.
A aceleração do tempo histórico e do progresso tecnológico, com a dinâmica de mudança que implica, tornou-se um factor social de uma importância decisiva, surgindo como um desafio que tem que ser enfrentado com uma eficácia muito maior do que aquela que até agora tem sido conseguida. Mas não podemos confundir o relevo da aceleração da mudança com uma certa retórica ilusionista da modernidade, que ignora a complexidade das sociedades actuais, encarando-as numa perspectiva redutora, de índole economicista e anti-humanista, que, em larga medida, se destina a servir de cortina de fumo para ocultar alguns dos problemas mais graves do mundo de hoje.
Se o socialismo se quer afirmar como a juventude do mundo, não pode ficar preso a um passado que já não existe, isto é, tem de saber compreender as novas tendências de mudança das sociedades actuais. Mas, sob pena de perder a alma, de deixar de ser ele próprio, tem de aprender a reencontrar-se mais profundamente com os seus valores históricos. Não pode alhear-se dos flagelos sociais que estão na raiz da sua existência e que se mantêm ou se agravaram. Não pode ficar indiferente aos problemas e às angústias dos traba­lhadores, bem como de todos os que sofram exclusão, exploração ou opressão.
Muitos serão os problemas e os temas dignos de atenção que elegeremos como objectos de reflexão e debate. Queremos, no entanto, desde já destacar duas áreas de incerteza, entre as várias que podiam ser escolhidas, que merecem ser exploradas, para que possamos compreender melhor tudo o que com elas se relaciona.
A primeira diz respeito à fluidez do conceito actual de socialismo, ao carácter discutível do que significa um horizonte socialista como objectivo e como possibilidade histórica que se mantém em aberto.
A segunda diz respeito à dificuldade em aferir com precisão em que medida as grandes linhas de orientação política por que optamos, bem como os objectivos políticos genéricos que assumimos conjun-turalmente em termos programáticos, nos aproximam ou nos afastam de um horizonte socialista. E essa dificuldade aumenta, quando estão em causa medidas políticas pontuais de significado limitado.
Os socialistas têm que ser capazes de fazer sempre uma dupla ava­liação das suas orientações e das medidas políticas que preconizam. Têm de saber em que medida elas perturbam ou melhoram o fun­cionamento corrente da sociedade, em que medida elas são harmo­nizáveis ou contraditórias com a procura de um horizonte socialista e com a trajectória a percorrer para dele nos aproximarmos.
Isso nunca foi fácil, mas o desmoronamento do modelo soviético tornou possível uma consciência mais aguda da sua dificuldade. Não porque ele tenha atingido directamente os partidos da Internacional Socialista, mas porque tornou evidente que o problema da alternativa ao capitalismo deveria ser colocado em termos mais complexos do que até então.
De facto, mesmo não tendo inscrito no seu código genético o sonho
do assalto a um Palácio de Inverno como acto fundador e purificador, era dominante na Internacional Socialista a valorização da ideia de uma espécie de "grande noite eleitoral", que abrisse abruptamente um novo tempo, em que os socialistas, a partir do governo de um único país, aí construíssem democraticamente uma sociedade dife­rente.
A Internacional Socialista recusava-se a caminhar para o socialismo, sacrificando a democracia. Na sua identidade era central a ideia de que só em democracia era possível alcançá-lo. No entanto, ainda que difusamente, encarava a falta de democracia como o problema essencial do modelo soviético,
Com o seu desmoronamento, todavia, ficou claro que o modelo soviético não foi um simples atalho histórico, penalizado apenas por ter escolhido uma rota que sacrificou a democracia para atingir mais depressa uma sociedade justa. Foi, sim, um colectivismo produtivista de Estado, globalmente diferente do socialismo, que em vez de con­duzir rapidamente ao um futuro libertador, deixou milhões de seres humanos divididos entre uma miragem que afinal nunca existiu e um passado a que é impossível voltar.
Hoje, é mais fácil perceber que não será o simples exercício do poder político num determinado Estado que, por si só, nos aproximará deci­sivamente de um horizonte socialista.
Hoje, é mais fácil perceber que a actualidade da ideia socialista se radica na possibilidade do socialismo ser um horizonte qualificante da democracia e da civilização humana, para o qual a sociedade no seu todo caminhará ou não, com naturais sobressaltos e retrocessos, no quadro de um processo prolongado, ainda distante do seu termo. Horizonte que não deve confundir-se com um destino pré-defenido, já
que é antes uma referência que sustenta uma ambição reformadora radical, fundada num projecto aberto sempre em evolução. Uma ambição guiada pelos valores do socialismo, em permanente cons­trução crítica no quadro de uma atitude prospectiva, realista e incon­formada, que não aceita que o capitalismo seja o fim da história.
Renunciar a esse horizonte é perder a identidade socialista. Valori­zá-lo é uma opção que está longe de estar balizada e caracterizada, podendo dizer-se que estamos perante um espaço problemático e não perante um conjunto de orientações reflectidas e testadas.
Está em causa um processo de amadurecimento social que deve contar com um importante protagonismo do Estado, mas que está muito longe de lhe ficar circunscrito. A evolução do tecido social terá de conjugar-se com o exercício do poder político, numa sinergia vir­tuosa. A valorização do Estado como expressão plena da política é uma prioridade que implica uma renovada atenção sobre as suas crescentes responsabilidades reguladoras e uma rigorosa dinâmica reformadora da administração pública. Mas não pode dispensá-lo também de um novo tipo de relacionamento com as dinâmicas soci­ais de base, que constituem uma vertente insubstituível do desen­volvimento social, assumindo-se como instância de permanente encorajamento e de apoio crítico às suas iniciativas.
Neste contexto, percebe-se que a estatização dos meios de produção não seja encarada como etapa necessária de uma evolução socia­lista. Ficou mais nítido o seu carácter instrumental, bem como os riscos de, por si só, poder não conduzir aos objectivos que a justifi­cavam, ou contribuir mesmo para nos afastar deles.
No entanto, também não parece sustentável querer substituir um fundamentalismo económico de pendor estatizante, por um funda-
mentalismo privatizador, radicado no neo-liberalismo como numa ver­dadeira religião do mercado.
Na época da globalização, em que é visível o seu carácter contra­ditório, temos de assumir a incomodidade de um pensamento crítico. Um pensamento capaz de combater as ideias feitas, mediaticamente inculcadas peio aparelho ideológico-cultural dominante, como se re­presentasse a verdade definitiva. Um pensamento crítico que nos impeça de confundir a realidade com aquilo que gostaríamos que ela fosse, mas que esteja longe de aceitar aquilo que existe.
Por isso, em cada conjuntura, devemos procurar perceber sempre qua! é a força propulsora principal, qual é o obstáculo mais difícil. Estarão estes aspectos devidamente ponderados nas questões que ocupam a ribalta das nossas ideias? E estarão estas irremediavel­mente ancoradas na nossa experiência histórica, correspondendo, por isso, a uma sociedade que já é passado? Por que outras vias de­veremos prosseguir? Com base em que novas referências? Alguma vez transformaram os homens a sociedade, a não ser a partir da va­lorização das questões que lhes ocorreram? Se não devemos va­lorizar as questões que refiectidamente nos ocorrerem, que questões devemos, então, valorizar?
Sem nunca renunciarmos a uma atitude anti-dogmática, poderemos orientar-nos melhor nesta multiplicidade de interrogações, se con­frontarmos sempre o presente com o horizonte socialista que nos identifica e que ambicionamos como futuro.
É, por isso, preciso que estejamos atentos às transformações do ca­pitalismo, sabendo que elas podem, eventualmente, conduzir a pro­fundas alterações da própria natureza da luta política, sem nunca cairmos na ilusão de que o capitalismo se extinguiu.
Seria de facto a suprema ironia que os socialistas renunciassem a combatê-lo, com a alegação de que já não existe, precisamente num tempo em que os seus arautos decretaram a sua irreversível vitória histórica.
Isto não significa que encaremos o capitalismo numa óptica simplista e redutora, que menospreze a sua complexidade, os seus aspectos ambivalentes, as suas virtualidades de dinamização económica. Significa antes, que o consideramos incapaz de eliminar a pobreza e a marginalidade, de suscitar a felicidade humana e a melhoria da qualidade de vida das pessoas, generalizada e sustentadamente, dado o facto de ser predominantemente predatório e desumanizante. Nesta medida, é decisiva a nossa capacidade para revitalizar os va­lores socialistas da liberdade, da justiça, da igualdade, da frater­nidade, da solidariedade, do respeito pela natureza, da cooperativi-dade, da criatividade cultural, da inovação organizacional, subme­tendo-os a uma permanente reactualização crítica, que os complete e enriqueça. No fundo, será talvez um caminho para encarar o socia­lismo como um humanismo que possa aproximar o mundo de hoje da felicidade, livrando-o dos pesadelos colectivos que continuam a povoá-lo.
Por tudo isto, o território conceptual assinalado pelo leque de hipóte­ses e de interrogações que acabamos de percorrer constituirá um dos principais objectos da nossa atenção e da nossa actividade.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Frasquíssimo

Frasquíssimo é um guia para daltónicos. É ele que lhes diz aquele cão é azul, aquela gato é verde, aquela galinha é lilás.

Dois daltónicos diferentes perguntaram-lhe: de que cor é aquele estranho animal que olha tão fixamente para o infinito.

-“É negro como a noite.” - disse para um deles.
-“É branco como a neve” - disse ao outro.

Um deles foi enganado, concluiria qualquer jornalista inteligente.

Concordo, mas eu ainda perguntaria: “Não terá dito a ambos o que cada um queria ouvir”?

Talvez, [responderia um observador experimentado], mas se assim for, ele não é bem um guia para daltónicos. Parece ser simplesmente a voz do dono, de um dono, dois donos, três, quatro. Enfim, quantos vierem. Depois, no recato de um banco, a continha lá se encarregará de engordar.


E assim se continua sem saber qual é a cor do estranho animal.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

O Sol espreita em Coimbra


O Sol espreita em Coimbra


o Sol é esta tarde sem cuidados

e Antero descansa sem angústias

sonhando liberdade e horizonte


domingo luz aberta pela relva

pessoas que se perdem nas conversas

sem as rugas do tempo sem temores

sem ódios e sem sonhos sem fronteiras


e o Mondego respira com saudade

nesta tarde plana exacta limpa


Rui Namorado
17 de Maio de 2010











domingo, 16 de maio de 2010

Giddens e a terceira via

No passado dia 13 de Maio, escrevi aqui no GZ um pequeno texto sobre a terceira via britânica do qual transparece com clareza o que penso dela.

Li hoje no site do jornal francês " Le Monde", datado do dia 16, um texto de Anthony Giddens que, sem prejuízo de estar muito distante dessa minha posição, me pareceu dever ser facultado aos leitores deste blog. O referido texto foi originalmente publicado em "The New Statesman", tendo sido traduzido para francês por Gilles Berton. De facto, para além do interesse intrínseco do que nos diz, é um documento relevante, já que exprime uma apreciação geral do trajecto da "3ª via"feito pelo seu ideólogo de referência. Merece ser lido com toda a atenção.

Na minha opinião, o próprio modo como A. Giddens analisa o "new labour" ilustra as limitações da perspectiva ideológica que o estruturou, ou seja, os limites por ele próprio assumidos como balizas do "blairismo". De facto, como poderão ver, A. Giddens conclui o seu texto, afirmando que o Labour deve fazer todos os esforços para se renovar e sublinhado que :" esses esforços ainda tímidos devem ser prosseguidos e colocados ao serviço da construção de uma forma responsável de capitalismo, associado a uma abordagem subtil dos problemas de durabilidade". "Uma forma responsável de capitalismo " é, na verdade, um objectivo modesto que, aliás, qualquer partido integrado no Partido Popular Europeu poderia inscrever com naturalidade entre os seus objectivos.

Mas vejamos como o principal ideólogo da "terceira via" faz o balanço da vida da sua própria criatura. O texto é longo, mas pareceu-me óbvio que não deveria ser truncado.

New Labour : de l'ascension à la chute

Anthony Giddens

LEMONDE.FR 15.05.10 13h01 • Mis à jour le 16.05.10 08h52



L'ère de l'hégémonie du New Labour est révolue. Quel bilan en tirer ? Beaucoup aujourd'hui ont tendance à décrier l'action du New Labour au cours des treize années où il a été aux affaires. Même des observateurs bien disposés conviennent que peu de résultats substantiels ont été atteints. Pour les critiques les plus déterminés, le Labour au pouvoir – c'est-à-dire le Labour mué en New Labour – a généré plus qu'une déception ; ce fut un vrai désastre. Le parti a grignoté les libertés civiques, trahi les idéaux de gauche, n'a en rien réduit les inégalités et, le pire de tout, s'est lancé dans une guerre calamiteuse en Irak. Alors que le New Labour avait promis une "aube nouvelle", beaucoup se sont sentis floués.

"LE 'NEW LABOUR' N'EST PAS UNE SIMPLE FORMULE"

J'admets certaines de ces critiques. Mais on peut aussi leur opposer une défense solide de beaucoup des politiques de fond menées par les travaillistes. Et il est nécessaire de dresser un bilan équilibré si l'on souhaite que ce parti se fixe une orientation efficace pour l'avenir. Un point de départ réaliste pour y parvenir est de comparer l'action du Labour au cours de la période où il a été au pouvoir à celle de partis frères dans d'autres pays à peu près à la même époque –
Bill Clinton et les démocrates aux Etats-Unis, les socialistes de Lionel Jospin en France et le SPD allemand dirigé par Gerhard Schröder.
Le Labour a réussi à rester au pouvoir plus longtemps qu'eux, plus longtemps même, en vérité, que tout autre parti de gauche dans la période récente, y compris les partis scandinaves. Les changements idéologiques qui ont motivé l'adoption du terme "New Labour" expliquent en grande partie ce succès électoral. Car l'appellation "New Labour" n'était pas une simple formule conçue pour masquer un vide politique.
Dès le départ, les architectes du New Labour ont procédé à un diagnostic convainquant des raisons pour lesquelles la politique de centre-gauche avait besoin d'innovation, et ils ont, sur cette base, défini un agenda politique clair. En gros, ce diagnostic établissait les points suivants : les valeurs de la gauche – la solidarité, la volonté de réduire les inégalités et de protéger les plus vulnérables, la croyance au rôle actif du gouvernement – demeuraient intactes, mais les politiques conçues pour atteindre ces objectifs devaient être radicalement redéfinies en raison des profonds changements que connaissait le monde. Ces changements étaient provoqués entre autres par l'accélération de la mondialisation, par le développement d'une économie post-industrielle ou de services et, à l'ère de l'information, par l'émergence d'une opinion publique qui s'exprime plus, qui est plus combative et qui marque moins de déférence qu'autrefois à l'égard des représentants de l'autorité (un processus que l'apparition d'Internet n'a fait qu'accentuer).
La plupart des propositions politiques du Labour ont procédé de cette analyse. L'époque de la gestion keynésienne de la demande, couplée à la mainmise étatique sur l'entrepreneuriat économique, était révolue. Une nouvelle relation entre l'Etat et les entreprises devait être établie, qui reconnaisse le rôle vital de l'entreprise dans la création de la richesse et admette les limites du pouvoir étatique. Aucun pays, aussi vaste et puissant soit-il, ne peut contrôler ce marché : d'où l'"offensive des cocktails de crevettes" que le Labour lança au milieu des années 1990 pour courtiser la
City de Londres.


"TONY BLAIR, LOIN D'ÊTRE UN TRAVAILLISTE PUR SUCRE"

L'expansion de l'économie de services eut pour conséquence une forte diminution de la classe ouvrière, bastion historique des travaillistes. C'est pourquoi, pour gagner les élections, un parti de centre-gauche devait s'adresser à une catégorie beaucoup plus large d'électeurs, y compris parmi ceux qui n'avaient jamais voté travailliste jusque-là. Le Labour ne pouvait plus se contenter de ne représenter que des intérêts de classe particuliers. En
Tony Blair – qui était loin d'être un travailliste pur sucre – le parti sembla avoir trouvé le leader parfait pour atteindre ce but.
La politique du Labour a évolué au cours de ses années au gouvernement. Certaines idées fondamentales, pourtant, sont restées les mêmes. La prospérité économique, dans un marché mondialisé, devait prendre la première place comme condition préalable à une politique sociale efficace. Une économie de plus en plus prospère générerait des ressources permettant de financer l'investissement public tout en évitant d'avoir à instaurer de nouveaux impôts. Le Labour chercha à rompre avec sa vieille tendance à "taxer pour dépenser". "Prudence" fut le maître-mot de
Gordon Brown lorsqu'il était ministre des finances. Une gestion économique prudente était essentielle si l'on voulait augmenter les dépenses sociales et améliorer la justice sociale.
Dans ce domaine, le Labour dut affronter l'héritage désastreux des années Thatcher. L'inégalité avait plus fortement augmenté au Royaume-Uni au cours de ces années-là que dans tout autre pays industrialisé à l'exception de la Nouvelle-Zélande (laquelle avait également mené une politique thatchérienne). Le système de prestations sociales étant exsangue, l'investissement dans les services publics, accompagné de réformes visant à les rendre plus souples et plus adaptés aux besoins de leurs utilisateurs, devint le principe directeur de l'action des travaillistes. Le Labour ne serait pas le parti du "plus d'Etat", mais le parti de l'Etat intelligent.
Une autre caractéristique importante de la politique du New Labour fut son refus de laisser la droite s'approprier certains problèmes, et de leur apporter à chaque fois des solutions de centre-gauche. Cette stratégie, qui fut attaquée par certains au motif qu'elle mettait en danger les libertés civiques, fut un élément essentiel de la longévité du Labour au pouvoir. Dans d'autres pays, les sociaux-démocrates ont perdu le pouvoir en raison de leur incapacité à faire la même chose. Au lieu d'affronter directement les questions liées à la criminalité, au désordre social, à l'immigration et à l'identité culturelle, la gauche avait jusqu'ici voulu leur trouver des explications et les avait en fait esquivées – comme si les inquiétudes éprouvées par les citoyens étaient déplacées ou injustifiées. On partait par exemple du principe que la plupart des comportements criminels provenaient des inégalités et, donc, qu'une fois ces inégalités réduites, la délinquance diminuerait automatiquement. Sans nier le lien, le Labour adopta une autre attitude. Quand Tony Blair, dans le manifeste qu'il publia en 1997, s'engagea à se montrer "dur envers la criminalité et dur envers les causes de la criminalité", il ne s'agissait pas d'un simple slogan ; c'était un principe d'action qui fut effectivement mis en œuvre.


UNE POLITIQUE ÉTRANGÈRE ACTIVISTE

Evoquer à présent l'importance accordée par le Labour à la mise en œuvre d'une politique étrangère activiste pourrait sembler éloigné des préoccupations précédentes. Il n'en est rien. En raison de la mondialisation, politiques nationale et étrangère se superposent désormais beaucoup plus que par le passé. Même s'il est clair que la Grande-Bretagne n'est pas menacée d'invasion, elle doit être prête à jouer un rôle actif dans le monde. L'interventionnisme devient une doctrine nécessaire lorsque la souveraineté nationale a perdu une grande partie de son sens et que les préoccupations humanitaires universelles l'emportent sur les intérêts locaux. Le terrorisme transnational, lui-même généré par la mondialisation, constitue une menace bien plus grande que les formes localisées de terrorisme qui prévalaient autrefois.

Dans quelle mesure ces stratégies et politiques ont-elles porté leurs fruits ? S'il est évident que le bilan travailliste est imparfait, il serait pourtant difficile de nier que le Labour a eu un impact beaucoup plus fort que n'importe lequel des gouvernements de centre-gauche précédemment mentionnés. Le Royaume-Uni a connu dix années d'une croissance économique ininterrompue qu'on ne peut écarter d'un revers de manche en affirmant qu'elle n'était due qu'aux bulles de l'immobilier et du crédit. Cette croissance est intervenue alors qu'était instauré un salaire minimum national. Des investissements de grande ampleur ont été réalisés dans les services publics et des réformes importantes conduites dans les domaines de l'éducation et de la santé.
L'inégalité entre salaires et revenus a été contenue, même si elle n'a pas été réduite de manière significative. La condition des plus pauvres s'est toutefois nettement améliorée. Les objectifs de réduction de la pauvreté des enfants n'ont pas été atteints, mais avant la récession, 600 000 enfants ont été extraits d'une relative misère ; par rapport à une norme absolue, ce nombre peut être quasiment doublé.
Les programmes du
New Deal et du Sure Start ainsi que les politiques de crédit d'impôt ont certes connu des difficultés, mais ils ont en général prouvé leur utilité. Même la PFI (Private Finance Initiative) tant décriée a fonctionné, surtout quand on la compare aux systèmes de financement public. La dévolution de pouvoir à l'Ecosse et au Pays de Galles a été pour l'essentiel une réussite, et une paix durable semble avoir été établie en Irlande du Nord. Les chiffres de la criminalité ont substantiellement baissé dans l'ensemble du Royaume-Uni et la Grande-Bretagne a réussi de manière plus féconde que la plupart des autres pays européens à s'adapter à une diversité culturelle croissante.
Venant d'un parti si souvent considéré comme antilibéral et autoritaire, ce sont là des réalisations appréciables dans la direction opposée. Le Labour a souscrit au Chapitre social de l'Union européenne ainsi qu'à la Convention européenne des droits de l'homme, adopté une loi sur la liberté d'information et instauré un partenariat civil pour les couples homosexuels. La Grande-Bretagne est devenue une société plus libérale et plus tolérante qu'avant, et les politiques du Labour ont incontestablement joué un rôle dans cette évolution. En matière de politique étrangère, l'aide à l'étranger a été portée à des niveaux bien supérieurs à tout ce qu'avaient fait jusque-là les gouvernements conservateurs.


DÉCISION CALAMITEUSE À PROPOS DE L'IRAK

Les interventions militaires en Bosnie, au Kosovo – où Blair a joué un rôle crucial pour inciter les Américains à envisager de déployer des forces terrestres – et en
Sierra Leone ont été largement considérées comme des succès. Si seulement Tony Blair s'en était tenu là ! Rien n'a entaché plus fortement sa réputation que sa calamiteuse décision de devenir le principal partenaire de George Bush dans l'invasion de l'Irak.
D'autres erreurs graves ont été commises. Les expérimentations dans le domaine de l'image et de la gestion des médias au cours des premières années du gouvernement travailliste ont eu l'effet inverse de celui escompté et ont donné l'impression que le
New Labour était plus préoccupé de communication que de politique. Blair a échoué à mieux intégrer la Grande-Bretagne dans l'Union européenne, et certaines relations étroites qu'il entretenait avec d'autres dirigeants européens – notamment avec le premier ministre italien Silvio Berlusconi – ne manquaient pas de surprendre.
Il était juste d'affirmer que le Labour devait améliorer son rapport au monde des affaires, et il était également juste de reconnaître l'importance de la City pour l'économie britannique. Mais ce fut une erreur fondamentale d'autoriser "l'offensive des cocktails de crevettes" à sombrer dans une dépendance servile, ce qui eut pour résultat de transformer le Royaume-Uni en une sorte de gigantesque paradis fiscal. L'idée selon laquelle le Labour devrait avoir "l'esprit absolument tranquille à l'égard des gens qui s'enrichissent de manière éhontée" n'a pas seulement exacerbé les inégalités au sommet de l'échelle sociale, mais a contribué à l'émergence d'une culture de l'irresponsabilité. Les patrons se protégeaient des risques qu'ils demandaient à leurs employés d'endosser.


BLAIRISME DIFFÉRENT DU THATCHÉRISME

Je n'accepte pas l'idée simpliste qui voudrait que le blairisme soit la simple prolongation du thatchérisme. La politique travailliste s'est traduite par une large intervention gouvernementale dans la vie économique – même si cela s'est produit surtout au niveau de l'offre. Et elle entendait sincèrement améliorer la justice sociale - une notion totalement étrangère à
Margaret Thatcher, Keith Joseph et à leur gourou Milton Friedman. Pourtant Blair et Brown auraient dû affirmer beaucoup plus clairement qu'ils ne l'ont fait que reconnaître les vertus du marché ne veut pas dire se prosterner devant lui. Le fanatisme du marché aurait dû être plus explicitement critiqué et ses limites clairement dénoncées. Quant à la représentation proportionnelle et autres réformes constitutionnelles, le Labour aurait dû en faire une question de principe, et non donner l'impression de les défendre par opportunisme.
Les autres partis ont dû se repositionner par rapport à l'agenda fixé par le
New Labour. Les conservateurs défendent aujourd'hui les droits des homosexuels, acceptent la nécessité de réduire la pauvreté, soutiennent les lois sur le changement climatique et l'énergie que le Labour a initiées, et poursuivront la plupart des réformes du marché du travail qui ont été mises en route. En défendant leur idée de "grande société", les conservateurs entendent s'inspirer des mêmes traditions communautaires que Tony Blair a en son temps défendues. Bien entendu, ils pourraient revenir sur ces engagements, mais pour l'instant ils paraissent sincères.

La
crise financière mondiale, dont rares ont été ceux qui l'ont vue venir, semble avoir signé la fin du monde qui avait contribué à façonner le New Labour. Tout s'est brusquement inversé : le keynésianisme et l'intervention gouvernementale dans l'économie sont de retour. Plus personne ne nie la nécessité de trouver un moyen de réguler les marchés financiers qui semblaient autrefois omnipotents. Une taxe sur les transactions financières mondiales, jusqu'ici jugée totalement irréaliste, est de nouveau sur la table. Il est, somme toute, possible d'augmenter le taux d'imposition des plus riches.
Pendant ce temps, les principaux partis discutent d'un retour à une politique industrielle active et d'une renaissance de l'industrie manufacturière. Le changement climatique et d'autres menaces environnementales, dont le Labour ne s'est préoccupé que très tardivement, sont aujourd'hui au cœur des préoccupations politiques de tous. La planification, reléguée aux oubliettes depuis des années, est de nouveau d'actualité, tout comme les coupes sévères dans les dépenses publiques – l'exact contraire de l'audacieux et massif investissement social sur lequel était fondée la politique du New Labour. La prudence budgétaire a cédé la place à d'énormes emprunts et à une gigantesque dette cumulée.


LE NEW LABOUR EST MORT

Le New Labour en tant que tel est mort, et il est temps d'abandonner le terme lui-même. Pourtant certaines des évolutions sociales et économiques auxquelles il apportait une réponse sont toujours en cours, et des pans significatifs de son cadre de travail politique restent valables. Le Labour devra continuer demain à séduire des électeurs traditionnels et aisés, au sein d'une culture politique changeante dans laquelle les médias électroniques joueront un rôle de plus en plus important. Même s'il apparaît éminemment sensé de vouloir réduire la domination du secteur financier dans l'économie et encourager une renaissance de l'industrie manufacturière, le Royaume-Uni restera une économie post-industrielle dans laquelle les activités fondées sur les services et la connaissance resteront prédominantes.
La réforme des prestations sociales constituera un problème toujours aussi épineux, surtout lorsque l'efficacité des dépenses sera devenue une priorité. Mener une politique progressiste sur l'immigration et le multiculturalisme sans se couper de l'électorat demeurera une question délicate, tout comme celle de trouver une façon d'apaiser les peurs de la population à l'égard de la criminalité. Problématique, également, sera la manière de trouver un juste équilibre entre les libertés civiques d'une part, la protection du pays contre la menace du terrorisme international d'autre part. Keynes est redevenu à la mode, mais il ne peut y avoir de retour à une gestion keynésienne de la demande telle qu'elle a été pratiquée entre 1945 et 1979. Le défi auquel nous devrons répondre sera de préserver et d'améliorer la flexibilité et la créativité qu'engendrent les marchés tout en orientant ces qualités vers des objectifs à long terme socialement souhaitables.
Une révision fondamentale de la pensée est nécessaire et de nouvelles politiques doivent être définies. Le principal problème du Labour dans l'opposition sera de contenir les querelles intestines qui affectent tant de partis, surtout à gauche, au lendemain d'une défaite politique. La reconstruction idéologique pourrait jouer là un rôle décisif. Son point de départ pourrait être la redéfinition du rôle de la sphère publique.
Les "blairistes", pourrait-on dire, penchaient plus vers le marché que les "brownistes", plus attachés à l'Etat. La sphère publique doit toutefois être distincte à la fois des marchés et de l'Etat, et peut être utilisée comme un tremplin pour reconstruire les uns et l'autre. Si l'on en croit ses tentatives, à la suite de la crise financière, de réintroduire dans le débat politique la notion de mutualisme, il semble que le Labour tâtonne dans cette direction. Ces efforts encore timides doivent être poursuivis et mis au service de la construction d'une forme responsable de capitalisme, associée à une approche subtile des problèmes de durabilité.

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Anthony Giddens est professeur de sociologie à l'Université de Cambridge et ancien directeur de la London School of Economics (1997-2003). Il a été le concepteur de la "troisième voie", socle de la refondation du Parti travailliste par Tony Blair, dont il fut l'un des principaux conseillers. Anobli en 2004, il siège à la Chambre des Lords.

sábado, 15 de maio de 2010

Fim de incidente ou risco de crise ?

No passado dia 9/5/10, escrevi aqui um texto intitulado "Esquerda Socialista-incidente", ao qual replicou Rómulo Machado com um outro intitulado "Esquerda Socialista Plural", tendo eu respondido com "Esquerda Socialista- o incidente continua" e ele replicado com "O Pluralismo Continua". Todos estes textos estão disponíveis no site da Esquerda Socialista, bem visível neste blog, mesmo aqui ao lado. É nesta cadeia de argumentação que este meu texto de hoje se insere.

1. O Rómulo Machado acha que eu não devia achar algo que de facto achei sobre o Henrique Neto. Parece-me que todos esses achamentos somados não chegam a ter uma importância suficiente para que se gaste tempo a esmiuçá-los.

Talvez por isso, as palavras trocadas a propósito do incidente em causa não me parecem suficientes para que possamos falar de um debate e muito menos para que nos entusiasmemos com essa troca de ideias tão simples. Claro que exercemos um direito ao trocá-las, mas não há razão para que nos entusiasmemos demasiado com isso. Aconteceu, não temos de que nos arrepender nem de que nos orgulhar.

Pela minha parte, não fui mais explícito quanto às posições de Henrique Neto de que discordava, por não querer exagerar a importância do acontecido nem crispar desnecessariamente o tom em que a elas me referisse.

Chegados aqui, sou forçado a dizer que não me sobra tempo para diletantes esgrimas de pequenas palavras, demasiado presas à trivialidade daquilo que as ocupa. Por isso, para mim a esgrima acabou.


2. Mas o mesmo não pode acontecer com o incidente comentado em si próprio e com tudo o que se lhe seguiu. De facto, foi tudo isso que accionou alguns dos meus mecanismos de alerta.

Estou hoje convencido, na esteira de tudo isso, que a nossa corrente tem que abrir, quanto antes, um processo de debate interno, para que se apure se por detrás de aparentes discordâncias de fundo apenas se perfilam alguns equívocos conceptuais ou de linguagem, ou se realmente, no seio da COES coexistem posições políticas radicalmente distintas e entre si bem distantes.

Ora, se num partido como o PS a heterogeneidade ideológico-politica é, em si própria , uma riqueza que deve ser organizada e aproveitada e não abafada, numa corrente de opinião interna como a ES a falta de coesão ideológica e de consonância política podem paralisá-la e roubar-lhe qualquer fecundidade .

Não está em causa arregimentar dois ou três bandos ideológicos para que lutem entre si até haver um vencedor. Está em causa apurarmos se tem sentido continuarmos politicamente juntos ou se devemos separar-nos, para que cada uma das novas correntes assim surgidas, adquirindo uma nova homogeneidade, possa travar um combate político mais eficaz dentro do PS, continuando e potenciando o que até agora a Margem Esquerda e a Esquerda Socialista conseguiram.

Sem essa clarificação arriscamo-nos a deixar que cresça uma atmosfera de pequenas crispações, de desconfianças, de mal-entendidos, que acabarão por nos paralisar politicamente e por fazer degradar as nossas relações pessoais. Uma atmosfera que provavelmente irá ficando mais e mais carregada, até nos fazer explodir sem glória.


Rui Namorado

15-05-2010

sexta-feira, 14 de maio de 2010

O turbilhão

Com autorização do autor, vou transcrever mais um texto de J.L.Pio Abreu sobre o Estranho quotidiano que nos envolve. A crónica intitula-se O turbilhão, tendo sido publicada hoje no Destak. Ei-la:



O turbilhão

O último fim de semana foi histórico neste mundo global. O capital circulava à volta do globo e fazia turbilhões mais rápidos do que aqueles que a atmosfera engendra. Na Europa, num dia se perderam milhões, no outro dia tudo estaria perdido se ela continuasse a dormir. Melhor: se os nossos políticos não se soubessem entender a uma velocidade compatível com a dos cliques electrónicos.

Não era caso para menos. Por bem ou por mal, vivemos hoje dependentes dos fluxos de dinheiro que circulam pelos discos duros dos computadores. Aos políticos eleitos cabe governar dos povos que os elegeram. Mas eles deixaram-se adormecer quando acreditaram nas virtualidades da livre circulação do dinheiro transaccionado nos mercados. Enquanto os governos antigos se entregavam nas mãos de Deus ou da Glória Nacional, os governos actuais iam-se entregando nas mãos do Mercado.

Mas os mercados são feitos e dirigidos por homens. Não homens como nós, que nos vemos face a face, vivemos uns para os outros e aceitamos alguma frugalidade em troca da sã convivência, mas homens vidrados nos computadores e cegos para tudo o que não seja a sua ganância. E estes são implacáveis. Seriam capazes de destruir milhões de pessoas em troca de ganhos chorudos. Foi o que esteve quase a acontecer.

Neste fim de semana, os políticos europeus subverteram a lógica dos mercados ao criarem uma barreira de dinheiro fora da livre circulação. Assumiram a sua responsabilidade perante quem os elegeu, e demonstraram que a inteligência pode vencer a irracionalidade predadora.
[J. L. Pio Abreu]

quinta-feira, 13 de maio de 2010

A via tresmalhada


A derrota trabalhista nas recentes eleições britânicas teve finalmente o seu epílogo com a resignação de Brown e a instituição de um governo de coligação das antigas oposições. Reduzi-la a um simples revés eleitoral, para o qual terá contribuído a aspereza da conjuntura económico-financeira e o défice de carisma de Brown, seria renunciar a um urgente reexame do nascimento, apogeu e declínio da terceira via.
Surgida pela batuta vistosa e astuta de Blair, apostado em libertar os trabalhistas do calvário de uma oposição que parecia interminável, essa terceira via, ao invés de libertar verdadeiramente o trabalhismo britânico de uma exaustão cinzenta, acabou por se limitar a reconduzi-lo ao ponto de partida, desqualificando-o assim como força transformadora da sociedade. Talvez tenham ganho os galões de gestores críveis do tipo de sociedade que temos, mas estiveram sempre longe de se revelarem como antecipadores de um horizonte alternativo. Ganharam algumas eleições sucessivas, mas no essencial deixaram o país tal como o encontraram. A terceira via na Grã-Bretanha não conseguiu ser mais do que um tónico eleitoral passageiro que acabou por se esgotar, revelando-se não como autêntica via de comunicação com o futuro, mas como simples atalho para lado nenhum.
No plano internacional, a sua influência foi mais insidiosa do que explícita, mas cometeu a proeza de ficar ligada a uma das mais degradantes derivas guerreiras das últimas décadas, quando Blair se assumiu como fiel escudeiro de Bush nas tropelias com que a partir do Afeganistão e do Iraque assombrou o mundo, abrindo feridas que estão ainda longe de sarar.
No seio da Internacional Socialista e no Partido Socialista Europeu, a terceira via teve um efeito paralisante. Surgida quando a IS e o PSE penavam num limbo de hesitação política, incapazes de assumirem uma nova atitude histórica que correspondesse adequadamente ao que havia de novo no tempo pós-soviético, a terceira via agravou a sua paralisia. Os que se apaixonaram pela sua novidade superficial não tiveram força para superar as resistências e as desconfianças dos que a olharam com reserva. Mas os que se distanciaram dela não tiveram força ou capacidade para abrirem um caminho claramente distinto.
Deve, no entanto, recordar-se, para que se possam enquadrar devidamente algumas posições cometidas por inesperados pensadores da renovação da IS, que houve uma ambição da terceira via que acabou por se esboroar, não sem que antes tivesse reduzido a escombros a esquerda italiana. Trata-se da diluição da Internacional Socialista num conjunto que a transcendesse, misturando-a principalmente com o Partido Democrático dos USA, numa espécie de conúbio entre Clinton e Blair, que se poderia estender a outras famílias políticas centristas, num ou noutro país. Como disse, só na Itália se enveredou por um tão ínvio caminho, com resultados que estão à vista e cujo último episódio é a ameaça de cisão surgida dentro do jovem Partido Democrático, feita pelo sector internamente vencido, no qual predominam os ex-democratas cristãos de esquerda.
Mas a partilha das posições “blairistas”, ou a sua proximidade, foram também fatais para os partidos polaco e húngaro da IS, para não falar na longa decadência eleitoral por que têm vindo a passar os partidos holandês e dinamarquês dessa mesma IS. Se nos lembrarmos das dificuldades políticas que fizeram sair do poder os partidos sueco, alemão e francês . Se , por fim, recordarmos o que se tem passado com três países em que o governo está entregue a partidos socialistas ( Portugal, Espanha e Grécia), perceberemos que a anemia política da Internacional Socialista e do PSE é realmente grave. Neste último caso, mostrando bem o seu real papel nos destinos da Europa, a IS e o PSE não tiveram sequer um leve vagido audível , em defesa dos seus partidos, colocados debaixo de fogo pela sofreguidão selvagem dos especuladores e pelo conservadorismo tacanho e egoísta dos agentes do PPE nas várias instâncias do poder europeu.
Se os socialistas europeus acordarem, por força deste forte abanão, e se estiverem dispostos a criar condições político-ideológicas, para virem a ter voz activa no contexto europeu, as dificuldades que atravessam podem ser criadoras e estimulantes. Mas se não souberem ir além de umas paradas internacionais de circunstância, temperadas pelos previsíveis “narizes de cera” sobre a crise que atravessamos e enfeitadas por umas tantas pitadas de um modesto assistencialismo, pode acontecer que rapidamente se atolem numa irreversível insignificância política, contribuindo decisivamente para que a Europa venha a cair num pântano de desesperança. Seria um enterro triste, mas dificilmente glorioso.

Inquisidores

Com a expressa anuência do autor, vou transcrever mais um reflexo do Estranho quotidiano através do qual J.L.Pio Abreu nos conduz, materializado numa crónica intitulada Inquisidores, publicada na semana passada no Destak. Ei-la:


Nalguns lagos da Europa, durante a idade média, quando uma mulher era suspeita de ter um pacto com o diabo, atiravam-na à água. Se flutuasse, era culpada e sentenciada. Se fosse ao fundo, coitada, era inocente. Aliás, a inquisição sempre funcionou assim. Os acusados eram torturados até à morte, ou até se considerarem culpados. Neste caso, cessava a tortura e celebrava-se a execução.

Os inquisidores, apoiados pelo público que apreciava o espectáculo, convenciam-se de que estavam a fazer um trabalho meritório. Eles eram feitos da mesma massa que nós, e não tenho dúvidas de que, se olharemos à nossa volta, encontraremos pessoas dispostas a desempenhar o mesmo papel.

Aliás, nem é preciso olhar à volta, basta ligar a televisão. Os nossos parlamentares, transformados em comissão de inquérito, dão-nos uma imagem do que poderia ser a inquisição moderna. Os seus objectivos – descobrir quem sabia de um negócio que não chegou a existir – são tão imaginários como os pactos com o diabo. Os seus métodos, com desprezo pelo contraditório, servem apenas para justificar as suspeições.

Além disso, boa parte do público aplaude. De facto, ele sente-se aliviado porque pode dirigir a sua zanga contra os bodes expiatórios apresentados como responsáveis por todas os males. A única coisa que falta é o espectáculo da fogueira. Não porque muitos o não desejassem. O problema é que a notícia correria mundo, e o mundo civilizado não deixaria que isso acontecesse na Europa de hoje. [J.L.Pio Abreu]

quarta-feira, 12 de maio de 2010

O oculto sabor das laranjas


O PSD acha que se devem reduzir em 2,9 % os salários dos políticos e dos gestores públicos.

Não recebo qualquer salário como político, nem como gestor, pelo que poderia em tese respirar fundo e aplaudir freneticamente.

Não aplaudo. Cheira-me a cortina de fumo para ocultar algo de realmente gravoso para milhões de portugueses e que os lordes laranja se devem estar a preparar para defender .

Não aplaudo. Estamos perante um descarado afago do que há-de mais rasteiro no discurso justicialista de ódio aos políticos e a tudo o que tenha o mais ligeiro perfume público.

Receio que o PS e os outros partidos europeus da IS se estejam a deixar conduzir docilmente para um inútil sacrifício político no altar da defesa de um sistema injusto e sem futuro.

Não seria melhor concentrarmo-nos na correcção da injusta distribuição de rendimentos entre capital e trabalho?

Ou vamos limitar-nos a dançar mansamente ao som da música dos especuladores, blindados pelas ordens e directivas dadas pelos grandes senhores do dinheiro e fielmente executadas pelos seus mandatários do PPE ?

terça-feira, 11 de maio de 2010

Eleições num estado alemão

No domingo passado, no mais populoso estado alemão, a Renânia do Norte-Westefália ( com cerca de 18 milhões de habitantes), decorreram as eleições regionais que a Srª Merkl receava. Neste momento, não se sabe ainda, com completa certeza, que tipo de governo vai ser formado.

As perdas dos democrata-cristãos (CDU) foram severas, tendo excedido os 10% de votos e tendo atingido um quarto dos deputados de que antes dispunham. Mesmo assim, ficou com mais 0,1% de votos do que os sociais-democratas (SPD) e com o mesmo número de deputados. Na verdade, o SPD recuperou da hecatombe das últimas legislativas, mas ainda ficou 2,6% abaixo dos maus resultados que tinha tido neste Estado nas anteriores eleições regionais. Os liberais (FDP) aliados dos democrata-cristãos no governo do Estado (aliás, o mesmo acontece no Governo federal), subiram meio ponto percentual e conquistaram mais um deputado. Ficaram, pois, muito longe de compensar a derrota dos seus aliados. Em contrapartida, os Verdes (Die Grünen), subiram quase 4% dos votos [deve dizer-se que há uma discrepância entre as duas infogravuras usadas neste texto, já que uma atribui-lhes 10,1 % e a outra 12,1%] e quase duplicaram o número de deputados, passando de 12 para 23. O Partido das Esquerdas (Die Linke), com 5,6% de votos, entrou pela primeira vez neste parlamento estadual , tendo ficado com 11 deputados.

Uma coligação SPD/Verdes ficaria à beira da maioria absoluta, mas não a atingiria. Assim, só obteria maioria absoluta, ou uma grande coligação ou uma coligação com os três partidos de esquerda. Ou seja, o SPD continua assombrado pelo espectro de que tem procurado fugir desde 2005, quando no início de uma nova legislatura federal renunciou a uma coligação de esquerda a três ( SPD, Verdes, A Esquerda), por si liderada, para ser o partido secundário, numa grande coligação CDU/CSU- SPD liderada pela SrªMerkl. Na verdade, A Esquerda parece não ser um fenómeno conjuntural, pelo que ignorá-lo tende a envolver um risco crescente de se fazer com que a direita se perpetue no poder.

E deste modo a tentativa de manter A Esquerda como um actor político exterior a qualquer protagonismo institucional parece estar destinada ao fracasso. E o SPD continua a arrastar-se numa lenta recuperação que não tem sido suficiente para que se possa dizer que verdadeiramente de novo levantou voo. O preço pela deriva moderada de Gerhard Schröder contiunua a ser cobrado pelos eleitores.

Poderá o SPD recuperar a força perdida, mantendo uma quase docilidade complacente, perante a dogmática finaceirista dos neo-liberais ?

domingo, 9 de maio de 2010

Esquerda Socialista - incidente.


Ontem, a corrente de opinião do PS, Esquerda Socialista, reuniu-se em plenário nacional, em Santarém. Uma parte do que dela resultou é conhecida. Espero, num dos próximos dias, escrever um comentário político a tudo o que lá ocorreu. Hoje, venho apenas dar conta da minha reacção a um infeliz efeito colateral produzido indirectamente pela reunião. Eis uma carta que enviei hoje para os membros ou simpatizante da corrente ES, de cujos endereços dispunha:


Caros camaradas:

Pelo menos na TSF, em notícias difundidas no decorrer do dia de hoje, Henrique Neto surgiu objectivamente como porta-voz da Esquerda Socialista, a nossa corrente de opinião dentro do PS, difundindo as posições tomadas na Reunião Nacional, realizada no passado dia 8 em Santarém.

Como membro da respectiva Comissão Coordenadora e como participante na reunião de Santarém, tenho que recordar que Henrique Neto não tem qualquer mandato para falar em nome da Esquerda Socialista. Aliás, foi esta a primeira reunião nacional em que participou e, que eu saiba, só muito recentemente aderiu à ES.

Embora tenha subscrito a nossa moção apresentada no mais recente congresso do PS, não desempenhou qualquer papel na sua elaboração, nem teve um papel activo nos trabalhos inerentes a esse Congresso, onde a Moção Mudar para Mudar foi apresentada. Continuou fora dos trabalhos da ES, até há pouco tempo atrás.

Não tem pois qualquer legitimidade formal ou substancial para ser porta-voz da ES ou para falar em nome da corrente, seja em que circunstância for. Por isso, o que Henrique Neto tenha dito ou venha a dizer em quaisquer circunstâncias públicas só a ele o responsabiliza.

De facto, a última coisa a que, pela minha parte, estarei disposto é a que me possam confundir com os apoiantes de algumas das infelizes posições e opiniões que Henrique Neto tem exprimido publicamente, nos últimos tempos. E embora eu possa achar estranho que tenha aderido à nossa Moção e se sinta bem dentro da ES quem sustente tais opiniões, enquanto elas forem expressas a título pessoal situam-se dentro de um normal exercício da liberdade de opinião e nada tenho a ver com elas nem a opor-lhes, mas se quem as tiver proferido for porta-voz formal ou informal de uma corrente política a que eu pertença, aí o caso muda de figura: não posso pactuar com situações dúbias.

Lamento que quem nada teve a ver com o esforço paciente de anos que precedeu o ponto a que chegámos, tenha objectivamente assumido um papel tão contraproducente.

É pena que eu tenha sido obrigado a tomar esta posição formal, mas não me foi deixada alternativa.

Coimbra, 9 de Maio de 2010

Rui Namorado

A crise e os seus inimigos


Il Manifesto pode ser hoje principalmente uma publicação editada em Itália , oriunda de uma esquerda crítica , radical e estimulante. Mas não é possível desconhecer a aventura política que lhe esteve na raiz, protagonizada por um pequeno grupo de militantes intectuais do PCI que dele se separaram , tendo fundado essa histórica revista , plataforma crítica que ainda hoje sobrevive como jornal. Talvez, me separem hoje do Il Manifesto algumas opiniões e algumas posições , como possivelmente sempre me terão separado, mas mantém-se incólume a minha admiração e o meu respeito por uma tão importante aventura política e intelectual.
Vem isto a propósito de uma pequena mas esclarecedora entrevista, hoje difundida por esta publicação italiana. O entrevistado é o economista português José Reis, Professor Catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra da qual é actualmente o Director. A entrevista, feita a partir de Bruxelas, é da responsabilidade do jornalista italiano Alberto D'Argenzio. Com a devida vénia permito-me transcrevê-la. Se a lermos com atenção, ficaremos a compreender melhor o que se está a passar em Portugal e na Europa.

«La speculazione attacca ma l'Europa non c'è»
Parla l'economista portoghese Reis.
Direttore della facoltà di economia all'Università di Coimbra, José Reis è uno degli economisti più importanti del Portogallo, prossima vittima designata dei mercati finanziari.
La crisi, dice, si può fermare limitando l'azione dei fondi, dando protagonismo a Bce e Ue e con tanta volontà politica, che però manca.
Com'è la situazione nel suo paese?
La situazione è difficile, ma è il frutto di una deriva. Finché lasciamo che il finanziamento dei paesi sia in mano a mercati senza alcun controllo, esisterà il rischio che i paesi finiscano sotto attacco, non per una reale situazione economica compromessa, ma per puri interessi speculativi. L'attacco non dipende dalla situazione reale, ma dal potere incredibile dato a determinati soggetti finanziari.

È vero che il Portogallo non è la Grecia, ma è pur vero che il suo debito privato sommato a quello pubblico è uguale se non superiore a quello greco. Sono problemi reali.
Sommando i due debiti, l'indebitamento è effettivamente elevato e oltretutto cresce, ma è una situazione sopportabile se i soggetti economici e politici si mettono d'accordo. Abbiamo un problema finanziario e abbiamo una crisi economica che colpisce il deficit e fa crescere il debito, ma se in questo quadro lasciamo tutto in mano ai fondi speculativi, non ne usciremo mai. Se invece la Bce si decidesse a finanziare il debito pubblico, comprando i titoli statali, il quadro cambierebbe. Sarebbe comunque difficile, ma non così grave.

Ci vorrebbe più Europa?
Siamo arrivati fin qui perché l'Europa è inesistente. La Bce non finanzia gli Stati direttamente, ma accetta buoni statali dalle banche e dalle entità finanziarie, come collaterali. Così facendo alimenta la speculazione, invece di limitarla. E la Ue non è capace di lanciare un grande programma di riconversione economica che integri maggiormente le periferie, come la Grecia e la penisola iberica. Per farlo ci vorrebbe un bilancio comunitario più grande dell'1% del Pil dei 27, ma c'è troppo egoismo in giro.

Come uscire da questa situazione, se c'è un modo?
I mercati non sono irrazionali, sono razionali per il loro obiettivo, che è la speculazione. Identificano zone difficili, giocano con le economie più fragili, come Portogallo e Spagna, ma non si può parlare di contagio, perché questa è un'iniezione volontaria di un virus. Il Regno unito sta peggio di Portogallo e Grecia, ma non viene attaccato, perché la finanza parla britannico e non guarda ai dati oggettivi. Ma se le economie del secolo XXI finiscono totalmente in mano ai mercati, alla fine gli Stati verranno cannibalizzati. La soluzione è tornare a delle economie miste, come negli Usa degli anni 50-60, in modo che tutti i problemi di sostenibilità economica siano protetti almeno in parte dall'azione dei mercati. Dobbiamo togliere il predominio dell'azione speculativa dall'economia. Il problema è che l'Europa non è all'altezza, è rappresentata da Barroso che è scomparso in battaglia, senza nemmeno apparire, o da una Merkel che pensa ai suoi elettori. Abbiamo bisogno di istituzioni federali, di una nuova Bce, di una Ue che integri le periferie.

Parla di federalismo, ma siamo tornati al nazionalismo più duro: il salvataggio di Grecia, Portogallo e Spagna pesa meno delle elezioni tedesche in Nord Renania-Westfalia. Fino a dove si arriverà per ottenere una reazione?
Temo che si arriverà ad una instabilità sociale e politica molto, molto forte. La democrazia difficilmente potrà resistere a una forte contrazione del Pil e della ricchezza, tutto ciò si paga socialmente e politicamente. Forse allora si inizierà a ragionare in maniera diversa.
Parlando di instabilità sociale, com'è la situazione in Portogallo?
La situazione non è ancora critica e incontrollabile, come in Grecia. C'è una grande conflittualità, ma al momento è tra le élite, c'è un dibattito economico intenso tra chi vuole imporre tagli alle spese pubbliche, sociali ed agli investimenti, come il presidente Cavaco Silva, e chi sostiene che invece l'investimento pubblico è necessario, come parte del Partito socialista, il Bloque de Esquerra, il Partito comunista ed i sindacati. Il dibattito è aperto anche se va tenuto conto che l'Europa chiede tagli, vuole sangue. E mentre si discute, la situazione sta diventando sempre più difficile, non solo per il lavoro, ma anche per gli imprenditori. Ci sono ingenti linee di credito, già approvate, che non vengono erogate perché nel paese c'è paura di investire. Questo acuisce inevitabilmente la crisi.


sábado, 8 de maio de 2010

Resultados das eleições britânicas


Neste momento, não há notícia de fumo branco nas negociações entre Conservadores e Liberais para uma possível coligação de governo entre uns e outros. Solução há décadas não experimentada. Se falhar, os Conservadores pretendem governar sozinhos, mesmo em minoria. Mas não é seguro que, perante esse eventual falhanço, os Trabalhistas não tenham uma nova oportunidade, se conseguirem um acordo com os Liberais. Tudo isto, reflecte uma vitória mitigada e algo amarga dos Conservadores.

De facto, como se pode ver, pelo quadro acima publicado, os Conservadores atingiram 36,1%, tendo conseguido eleger 305 deputados, o que os deixou 21 lugares abaixo da maioria absoluta. Pelo seu lado, os Liberais, esvaziaram-se como surpresa positiva, em termos absolutos, uma vez que, embora apenas tenham conseguido a modesta progressão de 0,9 %, ao atingirem os 23 %, perderam cinco deputados. Isso não os impede de, perante o conjunto de resultados verificados, terem conseguido a posição, estrategicamente muito vantajosa, de fieis da balança. Os Trabalhistas sofreram perdas severas, mas não passaram por uma derrocada. Ficaram-se pelos 29,1%, o que significou um recuo de 6,2%. Com 258 deputados, os Trabalhistas ficaram a cerca de 50 lugares de distância dos Conservadores.

Quanto aos outros partidos, no seu todo, passaram de 10,3% para 11,9% dos votos, mas perderam dois deputados: de 30 desceram para 28. Neste campo, a grande novidade foi a primeira eleição de um deputado representando os Verdes. Manteve-se, com relevo para a Escócia, uma presença significativa de partidos regionais, oriundos dela, do País de Gales e da Irlanda do Norte.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

As eleições britânicas


Aproxima-se o dia das eleições parlamentares britânicas que vão ter lugar no dia 6 de Maio. As infogravuras, acima reproduzidas, foram extraídas do site do jornal inglês The Guardian.


Como se pode ver, a primeira corresponde a um gráfico comparativo da evolução das intenções de voto reveladas por uma série de sondagens nos últimos meses. Fica clara a continuada supremacia dos conservadores, bem como a brusca recuperação dos liberais na sequência da boa impressão deixada pelo seu líder, aquando do primeiro debate televisivo desta campanha ( aliás, novidade absoluta em campanhas eleitorais britânicas) entre os dirigentes máximos dos três principais partidos. Também se constata a relativa estabilidade das intenções de voto nos trabalhistas. No termo do gráfico, as posições relativas dos três principais partidos era: Conservadores- 35,67%; Trabalhistas-29%; Liberais - 26 % [ o conjunto dos pequenos chegava aos 9,33%].



A segunda infogravura mostra o resultado de sucessivas sondagens, com indicação do número de lugares de deputado conquistados pelos diversos partidos, em cada uma das hipóteses. A primeira sondagem, tendo valores próximos dos que correspondem ao termo do percurso do gráfico e tendo tradução gráfica própria, pode-nos ajudar a formar uma ideia sobre o que é mais provável que ocorra na Grã-Bretanha.


Pode constatar-se que os conservadores dificilmente não serão os mais votados, podendo, contudo, não conseguirem ter o maior número de deputados. Os liberais podem ter um resultado brilhante, em percentagem nacional de votantes, mas não chegarão a ter cem deputados. Pelo contrário, os trabalhistas, que nunca conseguiram ser o partido com melhores expectativas de voto, caindo numa ou noutra sondagem na terceira posição, ficarão, na pior das hipóteses, acima dos duzentos deputados.


Aliás, aos trabalhistas é, por vezes, atribuída a vitória, em termos de número de deputados, outras vezes um inesperado terceiro lugar, em número de votos. Aos conservadores é quase sempre atribuída uma vitória relativa, sendo certo que, na fase final da campanha, parece ter despontado a hipótese de um maioria absoluta , ou seja, 326 deputados.

[ Se clicarem sobre cada uma das infogravuras, ela aumenta de dimensão.]

domingo, 2 de maio de 2010

As hienas de "rating"

As agências de "rating" desempenharam um papel de claro agravamento, quanto ao modo e ao grau como as consequências da crise do capitalismo mundial se têm feito sentir sobre a Grécia. Disso, hoje, ninguém duvida.

Também parece claro que o risco de se fazerem sentir esses efeitos com intensidade semelhante, em países como Espanha, Irlanda, Portugal, além de outros, deriva, quase por completo, de se admitir que essas agências se venham a comportar para com esses países como se comportaram com a Grécia. Aliás, elas deram já nesse sentido os primeiros passos.

Elas podem ter agido por simples incompetência, podem ter actuado sob o impulso de preconceitos ideológicos ou, simplesmente, como agentes participantes em complexos processos de fraude, planeados e concertados em articulação com os seus beneficiários. Mas essas manobras fraudulentas, ou simplesmente levianas, vieram a repercutir-se na vida de milhões de pessoas, de muitas e muitas empresas, de vários países.
Por fraudes menos graves e por serem causadores de um leque de infelicidades muito mais modesto, são julgadas e condenadas, todos os dias, em todo o mundo, pessoas e responsabilizadas organizações. Como aspecto normal da vida das instâncias políticas democráticas, em muitos casos, os resultados eleitorais penalizaram fortemente forças partidárias responsáveis por erros e prejuízos muito menores do que aqueles que foram causados pelas referidas agências.


E, no entanto, ninguém parece disposto a incomodá-las, acontecendo até que a superfície mais ostensiva de muitos discursos políticos oficiais deixa transparecer com frequência, implicitamente, a quase completa absolvição das agências de "rating", pela sua participação fraudulenta na crise. Pelo contrário, ao mesmo tempo, parece condenar exclusivamente um, outro e outro povo, pelas políticas que foram seguidas pelos respectivos governos. Isto, apesar de, na grande maioria dos casos, esses governos terem estado, no essencial, em consonância com as principais recomendações das instâncias internacionais públicas de controle económico. Instâncias que, aliás, hoje mais ou menos claramente, parecem querer admoestá-los. Tudo isto sem falar no ridículo que é o de se dizer que o país A ou B vive, viveu ou quer viver, acima das suas possibilidades, como se em todos eles não houvesse ricos nem pobres, mas apenas uma hipotética seara de pessoas iguais. E sem falar no escândalo de, para corrigir o país "gastador", se pretender cortar no pouco pão dos que têm menos, deixando-se à solta o desperdício dos que têm demais.

Aliás,em consonância com esses cínicos acordes de um ressequido neoliberalismo, pelo menos em Portugal, alguns políticos de direita, e um ou outro fazedor de opinião, tiveram a desfaçatez de culpar o nosso país, por ter ficado na mira das agências de "rating". Como se a possível fraqueza de uma vítima alguma vez deva ser passível de uma qualquer censura em detrimento da que há-de naturalmente resultar da culpa visível, ostensiva e grosseira do respectivo agressor.

Tudo isto vem a propósito de um esclarecedor texto da autoria da jornalista Pilar Blásquez, publicado ontem, pelo jornal espanhol "Público", intitulado "El castigo a las agencias de 'rating' sigue sin llegar". É esse texto que se transcreve de seguida, para informação dos interessados.

"No detectaron que Lehman Brothers estaba al borde de la quiebra, ni siquiera un día antes de aquel terrible suceso. El fraude de Madoff también se les escapó y fueron agentes activos en la construcción de las innumerables hipotecas basura que hundieron la economía mundial. Todos estos motivos son más que suficiente justificación para que las agencias de calificación de riesgo, Standard & Poor's, Fitch y Moody's se hayan convertido en las malas de la película financiera. Un argumento que nadie discute. Lo que no parece tan fácil de entender es por qué casi dos años después de la caída de Lehman, cada palabra suya sigue sonando a ley divina en los mercados financieros.
Tras el estallido de la burbuja de las subprime, todos pusieron el grito en cielo ante sus aberrantes prácticas. "Hay que acabar con esta tiranía", se dijo en la reunión del G-20, a final de 2008 en Washington. La ley americana que prevé un mayor control de estas empresas y la exigencias de publicar los estudios de riesgo de cada una de las operaciones quedó en el fondo del cajón desde entonces. Obama estaba más interesado en centrase en la reforma sanitaria, que le iba a reportar más votos, aunque ahora parece que va a retomar el tema.
La UE tiene una ley, pero no entrará en vigor hasta diciembre
A este lado del Atlántico, el esfuerzo por controlarlas ha llegado algo más lejos. Sobre el papel, porque en la práctica su reinado sigue intocable. La Comisión Europea tiene diseñada una nueva legislación que las obligará a sacar a luz su particular fórmula de la CocaCola. Es decir, qué criterios utilizan para calcular sus notas. También se les pedirá, entre otras cosas, la lista de sus clientes para controlar incompatibilidades. Además, se prevé que la CESR (la CNMV europea) controle su actividad. El problema es que, incomprensiblemente, la aplicación de esa ley no está prevista hasta diciembre de 2010.
"Si esta nueva normativa ya estuviera en marcha, la operativa de las agencias de rating sobre la deuda griega y el resto de países de estos últimos meses habría sido más moderada", han denunciado fuentes de Unión Europea. Pero no lo está y las continuas rebajas de rating a Grecia y sus bancos, a España, a Portugal... han alimentado el hambre feroz de los especuladores contra estos países.
Los principales escollos con los que se está topando la regulación, más allá del lobby financiero, es la falta de acuerdo de los expertos. Frente a los que abogan por una nueva regulación, están los que piden simplemente más control para que se apliquen las normas que ya existen, pero para esto se necesita mucho más personal y no parece haberlo.
Entre 2000 y 2007 las agencias aumentaron un 53% sus márgenes
En cualquier caso, conviene recordar que el poder casi divino de las agencias se lo otorgó hace décadas la Reserva Federal de EEUU y, más tarde, el resto de bancos centrales del mundo. Estas autoridades decidieron que para realizar transacciones en el mercado de crédito era necesario acreditar la calificación de estas empresas privadas, hasta entonces sin demasiado negocio.
La cumbre del éxito llegó con el último boom inmobliario y el negocio de las aseguradoras. Si antes del 2000 ningún cliente aportaba más del 1% de los ingresos, en esos años el negocio se concentró en las siete mayores aseguradoras del mundo. Entre 2000 y 2007, el margen del negocio de estas agencias se incrementó un 53%, cuando en el mismo período, Microsoft creció un 36%.
La connivencia entre el sector financiero y las agencias a la hora de diseñar las complicadas estructuras financieras de las hipotecas subprime parece cada vez más cerca de desenmascararse. Primero, porque el pasado 23 de abril, la comisión del Senado de EEUU que investiga la crisis, retomó el tema y, sobre todo, porque las demandas privadas por fraude contra las agencias de calificación se están disparando en aquel país. "

sábado, 1 de maio de 2010

Dentro do 1º de Maio



É hoje um dia de palavras longas
Um jardim de palavras excessivas

Há cólera subindo nas palavras
E um enorme silêncio intenso e nu

Trabalho é uma flor desabrochada
No segredo da nossa condição

Caminhamos por dentro do destino
Fio de esperança espada da justiça

Nos olhares que perdemos, descobrimos
O caminho de todos os caminhos

As caveiras do tempo decretaram
A noite do futuro o fim do vento

Mas somos nós o centro deste dia
O vento do futuro o fim da noite

Já vimos de outro tempo sendo deste
Somos raiz por sermos horizonte
[ Rui Namorado]