sábado, 15 de maio de 2010

Fim de incidente ou risco de crise ?

No passado dia 9/5/10, escrevi aqui um texto intitulado "Esquerda Socialista-incidente", ao qual replicou Rómulo Machado com um outro intitulado "Esquerda Socialista Plural", tendo eu respondido com "Esquerda Socialista- o incidente continua" e ele replicado com "O Pluralismo Continua". Todos estes textos estão disponíveis no site da Esquerda Socialista, bem visível neste blog, mesmo aqui ao lado. É nesta cadeia de argumentação que este meu texto de hoje se insere.

1. O Rómulo Machado acha que eu não devia achar algo que de facto achei sobre o Henrique Neto. Parece-me que todos esses achamentos somados não chegam a ter uma importância suficiente para que se gaste tempo a esmiuçá-los.

Talvez por isso, as palavras trocadas a propósito do incidente em causa não me parecem suficientes para que possamos falar de um debate e muito menos para que nos entusiasmemos com essa troca de ideias tão simples. Claro que exercemos um direito ao trocá-las, mas não há razão para que nos entusiasmemos demasiado com isso. Aconteceu, não temos de que nos arrepender nem de que nos orgulhar.

Pela minha parte, não fui mais explícito quanto às posições de Henrique Neto de que discordava, por não querer exagerar a importância do acontecido nem crispar desnecessariamente o tom em que a elas me referisse.

Chegados aqui, sou forçado a dizer que não me sobra tempo para diletantes esgrimas de pequenas palavras, demasiado presas à trivialidade daquilo que as ocupa. Por isso, para mim a esgrima acabou.


2. Mas o mesmo não pode acontecer com o incidente comentado em si próprio e com tudo o que se lhe seguiu. De facto, foi tudo isso que accionou alguns dos meus mecanismos de alerta.

Estou hoje convencido, na esteira de tudo isso, que a nossa corrente tem que abrir, quanto antes, um processo de debate interno, para que se apure se por detrás de aparentes discordâncias de fundo apenas se perfilam alguns equívocos conceptuais ou de linguagem, ou se realmente, no seio da COES coexistem posições políticas radicalmente distintas e entre si bem distantes.

Ora, se num partido como o PS a heterogeneidade ideológico-politica é, em si própria , uma riqueza que deve ser organizada e aproveitada e não abafada, numa corrente de opinião interna como a ES a falta de coesão ideológica e de consonância política podem paralisá-la e roubar-lhe qualquer fecundidade .

Não está em causa arregimentar dois ou três bandos ideológicos para que lutem entre si até haver um vencedor. Está em causa apurarmos se tem sentido continuarmos politicamente juntos ou se devemos separar-nos, para que cada uma das novas correntes assim surgidas, adquirindo uma nova homogeneidade, possa travar um combate político mais eficaz dentro do PS, continuando e potenciando o que até agora a Margem Esquerda e a Esquerda Socialista conseguiram.

Sem essa clarificação arriscamo-nos a deixar que cresça uma atmosfera de pequenas crispações, de desconfianças, de mal-entendidos, que acabarão por nos paralisar politicamente e por fazer degradar as nossas relações pessoais. Uma atmosfera que provavelmente irá ficando mais e mais carregada, até nos fazer explodir sem glória.


Rui Namorado

15-05-2010

sexta-feira, 14 de maio de 2010

O turbilhão

Com autorização do autor, vou transcrever mais um texto de J.L.Pio Abreu sobre o Estranho quotidiano que nos envolve. A crónica intitula-se O turbilhão, tendo sido publicada hoje no Destak. Ei-la:



O turbilhão

O último fim de semana foi histórico neste mundo global. O capital circulava à volta do globo e fazia turbilhões mais rápidos do que aqueles que a atmosfera engendra. Na Europa, num dia se perderam milhões, no outro dia tudo estaria perdido se ela continuasse a dormir. Melhor: se os nossos políticos não se soubessem entender a uma velocidade compatível com a dos cliques electrónicos.

Não era caso para menos. Por bem ou por mal, vivemos hoje dependentes dos fluxos de dinheiro que circulam pelos discos duros dos computadores. Aos políticos eleitos cabe governar dos povos que os elegeram. Mas eles deixaram-se adormecer quando acreditaram nas virtualidades da livre circulação do dinheiro transaccionado nos mercados. Enquanto os governos antigos se entregavam nas mãos de Deus ou da Glória Nacional, os governos actuais iam-se entregando nas mãos do Mercado.

Mas os mercados são feitos e dirigidos por homens. Não homens como nós, que nos vemos face a face, vivemos uns para os outros e aceitamos alguma frugalidade em troca da sã convivência, mas homens vidrados nos computadores e cegos para tudo o que não seja a sua ganância. E estes são implacáveis. Seriam capazes de destruir milhões de pessoas em troca de ganhos chorudos. Foi o que esteve quase a acontecer.

Neste fim de semana, os políticos europeus subverteram a lógica dos mercados ao criarem uma barreira de dinheiro fora da livre circulação. Assumiram a sua responsabilidade perante quem os elegeu, e demonstraram que a inteligência pode vencer a irracionalidade predadora.
[J. L. Pio Abreu]

quinta-feira, 13 de maio de 2010

A via tresmalhada


A derrota trabalhista nas recentes eleições britânicas teve finalmente o seu epílogo com a resignação de Brown e a instituição de um governo de coligação das antigas oposições. Reduzi-la a um simples revés eleitoral, para o qual terá contribuído a aspereza da conjuntura económico-financeira e o défice de carisma de Brown, seria renunciar a um urgente reexame do nascimento, apogeu e declínio da terceira via.
Surgida pela batuta vistosa e astuta de Blair, apostado em libertar os trabalhistas do calvário de uma oposição que parecia interminável, essa terceira via, ao invés de libertar verdadeiramente o trabalhismo britânico de uma exaustão cinzenta, acabou por se limitar a reconduzi-lo ao ponto de partida, desqualificando-o assim como força transformadora da sociedade. Talvez tenham ganho os galões de gestores críveis do tipo de sociedade que temos, mas estiveram sempre longe de se revelarem como antecipadores de um horizonte alternativo. Ganharam algumas eleições sucessivas, mas no essencial deixaram o país tal como o encontraram. A terceira via na Grã-Bretanha não conseguiu ser mais do que um tónico eleitoral passageiro que acabou por se esgotar, revelando-se não como autêntica via de comunicação com o futuro, mas como simples atalho para lado nenhum.
No plano internacional, a sua influência foi mais insidiosa do que explícita, mas cometeu a proeza de ficar ligada a uma das mais degradantes derivas guerreiras das últimas décadas, quando Blair se assumiu como fiel escudeiro de Bush nas tropelias com que a partir do Afeganistão e do Iraque assombrou o mundo, abrindo feridas que estão ainda longe de sarar.
No seio da Internacional Socialista e no Partido Socialista Europeu, a terceira via teve um efeito paralisante. Surgida quando a IS e o PSE penavam num limbo de hesitação política, incapazes de assumirem uma nova atitude histórica que correspondesse adequadamente ao que havia de novo no tempo pós-soviético, a terceira via agravou a sua paralisia. Os que se apaixonaram pela sua novidade superficial não tiveram força para superar as resistências e as desconfianças dos que a olharam com reserva. Mas os que se distanciaram dela não tiveram força ou capacidade para abrirem um caminho claramente distinto.
Deve, no entanto, recordar-se, para que se possam enquadrar devidamente algumas posições cometidas por inesperados pensadores da renovação da IS, que houve uma ambição da terceira via que acabou por se esboroar, não sem que antes tivesse reduzido a escombros a esquerda italiana. Trata-se da diluição da Internacional Socialista num conjunto que a transcendesse, misturando-a principalmente com o Partido Democrático dos USA, numa espécie de conúbio entre Clinton e Blair, que se poderia estender a outras famílias políticas centristas, num ou noutro país. Como disse, só na Itália se enveredou por um tão ínvio caminho, com resultados que estão à vista e cujo último episódio é a ameaça de cisão surgida dentro do jovem Partido Democrático, feita pelo sector internamente vencido, no qual predominam os ex-democratas cristãos de esquerda.
Mas a partilha das posições “blairistas”, ou a sua proximidade, foram também fatais para os partidos polaco e húngaro da IS, para não falar na longa decadência eleitoral por que têm vindo a passar os partidos holandês e dinamarquês dessa mesma IS. Se nos lembrarmos das dificuldades políticas que fizeram sair do poder os partidos sueco, alemão e francês . Se , por fim, recordarmos o que se tem passado com três países em que o governo está entregue a partidos socialistas ( Portugal, Espanha e Grécia), perceberemos que a anemia política da Internacional Socialista e do PSE é realmente grave. Neste último caso, mostrando bem o seu real papel nos destinos da Europa, a IS e o PSE não tiveram sequer um leve vagido audível , em defesa dos seus partidos, colocados debaixo de fogo pela sofreguidão selvagem dos especuladores e pelo conservadorismo tacanho e egoísta dos agentes do PPE nas várias instâncias do poder europeu.
Se os socialistas europeus acordarem, por força deste forte abanão, e se estiverem dispostos a criar condições político-ideológicas, para virem a ter voz activa no contexto europeu, as dificuldades que atravessam podem ser criadoras e estimulantes. Mas se não souberem ir além de umas paradas internacionais de circunstância, temperadas pelos previsíveis “narizes de cera” sobre a crise que atravessamos e enfeitadas por umas tantas pitadas de um modesto assistencialismo, pode acontecer que rapidamente se atolem numa irreversível insignificância política, contribuindo decisivamente para que a Europa venha a cair num pântano de desesperança. Seria um enterro triste, mas dificilmente glorioso.

Inquisidores

Com a expressa anuência do autor, vou transcrever mais um reflexo do Estranho quotidiano através do qual J.L.Pio Abreu nos conduz, materializado numa crónica intitulada Inquisidores, publicada na semana passada no Destak. Ei-la:


Nalguns lagos da Europa, durante a idade média, quando uma mulher era suspeita de ter um pacto com o diabo, atiravam-na à água. Se flutuasse, era culpada e sentenciada. Se fosse ao fundo, coitada, era inocente. Aliás, a inquisição sempre funcionou assim. Os acusados eram torturados até à morte, ou até se considerarem culpados. Neste caso, cessava a tortura e celebrava-se a execução.

Os inquisidores, apoiados pelo público que apreciava o espectáculo, convenciam-se de que estavam a fazer um trabalho meritório. Eles eram feitos da mesma massa que nós, e não tenho dúvidas de que, se olharemos à nossa volta, encontraremos pessoas dispostas a desempenhar o mesmo papel.

Aliás, nem é preciso olhar à volta, basta ligar a televisão. Os nossos parlamentares, transformados em comissão de inquérito, dão-nos uma imagem do que poderia ser a inquisição moderna. Os seus objectivos – descobrir quem sabia de um negócio que não chegou a existir – são tão imaginários como os pactos com o diabo. Os seus métodos, com desprezo pelo contraditório, servem apenas para justificar as suspeições.

Além disso, boa parte do público aplaude. De facto, ele sente-se aliviado porque pode dirigir a sua zanga contra os bodes expiatórios apresentados como responsáveis por todas os males. A única coisa que falta é o espectáculo da fogueira. Não porque muitos o não desejassem. O problema é que a notícia correria mundo, e o mundo civilizado não deixaria que isso acontecesse na Europa de hoje. [J.L.Pio Abreu]

quarta-feira, 12 de maio de 2010

O oculto sabor das laranjas


O PSD acha que se devem reduzir em 2,9 % os salários dos políticos e dos gestores públicos.

Não recebo qualquer salário como político, nem como gestor, pelo que poderia em tese respirar fundo e aplaudir freneticamente.

Não aplaudo. Cheira-me a cortina de fumo para ocultar algo de realmente gravoso para milhões de portugueses e que os lordes laranja se devem estar a preparar para defender .

Não aplaudo. Estamos perante um descarado afago do que há-de mais rasteiro no discurso justicialista de ódio aos políticos e a tudo o que tenha o mais ligeiro perfume público.

Receio que o PS e os outros partidos europeus da IS se estejam a deixar conduzir docilmente para um inútil sacrifício político no altar da defesa de um sistema injusto e sem futuro.

Não seria melhor concentrarmo-nos na correcção da injusta distribuição de rendimentos entre capital e trabalho?

Ou vamos limitar-nos a dançar mansamente ao som da música dos especuladores, blindados pelas ordens e directivas dadas pelos grandes senhores do dinheiro e fielmente executadas pelos seus mandatários do PPE ?

terça-feira, 11 de maio de 2010

Eleições num estado alemão

No domingo passado, no mais populoso estado alemão, a Renânia do Norte-Westefália ( com cerca de 18 milhões de habitantes), decorreram as eleições regionais que a Srª Merkl receava. Neste momento, não se sabe ainda, com completa certeza, que tipo de governo vai ser formado.

As perdas dos democrata-cristãos (CDU) foram severas, tendo excedido os 10% de votos e tendo atingido um quarto dos deputados de que antes dispunham. Mesmo assim, ficou com mais 0,1% de votos do que os sociais-democratas (SPD) e com o mesmo número de deputados. Na verdade, o SPD recuperou da hecatombe das últimas legislativas, mas ainda ficou 2,6% abaixo dos maus resultados que tinha tido neste Estado nas anteriores eleições regionais. Os liberais (FDP) aliados dos democrata-cristãos no governo do Estado (aliás, o mesmo acontece no Governo federal), subiram meio ponto percentual e conquistaram mais um deputado. Ficaram, pois, muito longe de compensar a derrota dos seus aliados. Em contrapartida, os Verdes (Die Grünen), subiram quase 4% dos votos [deve dizer-se que há uma discrepância entre as duas infogravuras usadas neste texto, já que uma atribui-lhes 10,1 % e a outra 12,1%] e quase duplicaram o número de deputados, passando de 12 para 23. O Partido das Esquerdas (Die Linke), com 5,6% de votos, entrou pela primeira vez neste parlamento estadual , tendo ficado com 11 deputados.

Uma coligação SPD/Verdes ficaria à beira da maioria absoluta, mas não a atingiria. Assim, só obteria maioria absoluta, ou uma grande coligação ou uma coligação com os três partidos de esquerda. Ou seja, o SPD continua assombrado pelo espectro de que tem procurado fugir desde 2005, quando no início de uma nova legislatura federal renunciou a uma coligação de esquerda a três ( SPD, Verdes, A Esquerda), por si liderada, para ser o partido secundário, numa grande coligação CDU/CSU- SPD liderada pela SrªMerkl. Na verdade, A Esquerda parece não ser um fenómeno conjuntural, pelo que ignorá-lo tende a envolver um risco crescente de se fazer com que a direita se perpetue no poder.

E deste modo a tentativa de manter A Esquerda como um actor político exterior a qualquer protagonismo institucional parece estar destinada ao fracasso. E o SPD continua a arrastar-se numa lenta recuperação que não tem sido suficiente para que se possa dizer que verdadeiramente de novo levantou voo. O preço pela deriva moderada de Gerhard Schröder contiunua a ser cobrado pelos eleitores.

Poderá o SPD recuperar a força perdida, mantendo uma quase docilidade complacente, perante a dogmática finaceirista dos neo-liberais ?

domingo, 9 de maio de 2010

Esquerda Socialista - incidente.


Ontem, a corrente de opinião do PS, Esquerda Socialista, reuniu-se em plenário nacional, em Santarém. Uma parte do que dela resultou é conhecida. Espero, num dos próximos dias, escrever um comentário político a tudo o que lá ocorreu. Hoje, venho apenas dar conta da minha reacção a um infeliz efeito colateral produzido indirectamente pela reunião. Eis uma carta que enviei hoje para os membros ou simpatizante da corrente ES, de cujos endereços dispunha:


Caros camaradas:

Pelo menos na TSF, em notícias difundidas no decorrer do dia de hoje, Henrique Neto surgiu objectivamente como porta-voz da Esquerda Socialista, a nossa corrente de opinião dentro do PS, difundindo as posições tomadas na Reunião Nacional, realizada no passado dia 8 em Santarém.

Como membro da respectiva Comissão Coordenadora e como participante na reunião de Santarém, tenho que recordar que Henrique Neto não tem qualquer mandato para falar em nome da Esquerda Socialista. Aliás, foi esta a primeira reunião nacional em que participou e, que eu saiba, só muito recentemente aderiu à ES.

Embora tenha subscrito a nossa moção apresentada no mais recente congresso do PS, não desempenhou qualquer papel na sua elaboração, nem teve um papel activo nos trabalhos inerentes a esse Congresso, onde a Moção Mudar para Mudar foi apresentada. Continuou fora dos trabalhos da ES, até há pouco tempo atrás.

Não tem pois qualquer legitimidade formal ou substancial para ser porta-voz da ES ou para falar em nome da corrente, seja em que circunstância for. Por isso, o que Henrique Neto tenha dito ou venha a dizer em quaisquer circunstâncias públicas só a ele o responsabiliza.

De facto, a última coisa a que, pela minha parte, estarei disposto é a que me possam confundir com os apoiantes de algumas das infelizes posições e opiniões que Henrique Neto tem exprimido publicamente, nos últimos tempos. E embora eu possa achar estranho que tenha aderido à nossa Moção e se sinta bem dentro da ES quem sustente tais opiniões, enquanto elas forem expressas a título pessoal situam-se dentro de um normal exercício da liberdade de opinião e nada tenho a ver com elas nem a opor-lhes, mas se quem as tiver proferido for porta-voz formal ou informal de uma corrente política a que eu pertença, aí o caso muda de figura: não posso pactuar com situações dúbias.

Lamento que quem nada teve a ver com o esforço paciente de anos que precedeu o ponto a que chegámos, tenha objectivamente assumido um papel tão contraproducente.

É pena que eu tenha sido obrigado a tomar esta posição formal, mas não me foi deixada alternativa.

Coimbra, 9 de Maio de 2010

Rui Namorado

A crise e os seus inimigos


Il Manifesto pode ser hoje principalmente uma publicação editada em Itália , oriunda de uma esquerda crítica , radical e estimulante. Mas não é possível desconhecer a aventura política que lhe esteve na raiz, protagonizada por um pequeno grupo de militantes intectuais do PCI que dele se separaram , tendo fundado essa histórica revista , plataforma crítica que ainda hoje sobrevive como jornal. Talvez, me separem hoje do Il Manifesto algumas opiniões e algumas posições , como possivelmente sempre me terão separado, mas mantém-se incólume a minha admiração e o meu respeito por uma tão importante aventura política e intelectual.
Vem isto a propósito de uma pequena mas esclarecedora entrevista, hoje difundida por esta publicação italiana. O entrevistado é o economista português José Reis, Professor Catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra da qual é actualmente o Director. A entrevista, feita a partir de Bruxelas, é da responsabilidade do jornalista italiano Alberto D'Argenzio. Com a devida vénia permito-me transcrevê-la. Se a lermos com atenção, ficaremos a compreender melhor o que se está a passar em Portugal e na Europa.

«La speculazione attacca ma l'Europa non c'è»
Parla l'economista portoghese Reis.
Direttore della facoltà di economia all'Università di Coimbra, José Reis è uno degli economisti più importanti del Portogallo, prossima vittima designata dei mercati finanziari.
La crisi, dice, si può fermare limitando l'azione dei fondi, dando protagonismo a Bce e Ue e con tanta volontà politica, che però manca.
Com'è la situazione nel suo paese?
La situazione è difficile, ma è il frutto di una deriva. Finché lasciamo che il finanziamento dei paesi sia in mano a mercati senza alcun controllo, esisterà il rischio che i paesi finiscano sotto attacco, non per una reale situazione economica compromessa, ma per puri interessi speculativi. L'attacco non dipende dalla situazione reale, ma dal potere incredibile dato a determinati soggetti finanziari.

È vero che il Portogallo non è la Grecia, ma è pur vero che il suo debito privato sommato a quello pubblico è uguale se non superiore a quello greco. Sono problemi reali.
Sommando i due debiti, l'indebitamento è effettivamente elevato e oltretutto cresce, ma è una situazione sopportabile se i soggetti economici e politici si mettono d'accordo. Abbiamo un problema finanziario e abbiamo una crisi economica che colpisce il deficit e fa crescere il debito, ma se in questo quadro lasciamo tutto in mano ai fondi speculativi, non ne usciremo mai. Se invece la Bce si decidesse a finanziare il debito pubblico, comprando i titoli statali, il quadro cambierebbe. Sarebbe comunque difficile, ma non così grave.

Ci vorrebbe più Europa?
Siamo arrivati fin qui perché l'Europa è inesistente. La Bce non finanzia gli Stati direttamente, ma accetta buoni statali dalle banche e dalle entità finanziarie, come collaterali. Così facendo alimenta la speculazione, invece di limitarla. E la Ue non è capace di lanciare un grande programma di riconversione economica che integri maggiormente le periferie, come la Grecia e la penisola iberica. Per farlo ci vorrebbe un bilancio comunitario più grande dell'1% del Pil dei 27, ma c'è troppo egoismo in giro.

Come uscire da questa situazione, se c'è un modo?
I mercati non sono irrazionali, sono razionali per il loro obiettivo, che è la speculazione. Identificano zone difficili, giocano con le economie più fragili, come Portogallo e Spagna, ma non si può parlare di contagio, perché questa è un'iniezione volontaria di un virus. Il Regno unito sta peggio di Portogallo e Grecia, ma non viene attaccato, perché la finanza parla britannico e non guarda ai dati oggettivi. Ma se le economie del secolo XXI finiscono totalmente in mano ai mercati, alla fine gli Stati verranno cannibalizzati. La soluzione è tornare a delle economie miste, come negli Usa degli anni 50-60, in modo che tutti i problemi di sostenibilità economica siano protetti almeno in parte dall'azione dei mercati. Dobbiamo togliere il predominio dell'azione speculativa dall'economia. Il problema è che l'Europa non è all'altezza, è rappresentata da Barroso che è scomparso in battaglia, senza nemmeno apparire, o da una Merkel che pensa ai suoi elettori. Abbiamo bisogno di istituzioni federali, di una nuova Bce, di una Ue che integri le periferie.

Parla di federalismo, ma siamo tornati al nazionalismo più duro: il salvataggio di Grecia, Portogallo e Spagna pesa meno delle elezioni tedesche in Nord Renania-Westfalia. Fino a dove si arriverà per ottenere una reazione?
Temo che si arriverà ad una instabilità sociale e politica molto, molto forte. La democrazia difficilmente potrà resistere a una forte contrazione del Pil e della ricchezza, tutto ciò si paga socialmente e politicamente. Forse allora si inizierà a ragionare in maniera diversa.
Parlando di instabilità sociale, com'è la situazione in Portogallo?
La situazione non è ancora critica e incontrollabile, come in Grecia. C'è una grande conflittualità, ma al momento è tra le élite, c'è un dibattito economico intenso tra chi vuole imporre tagli alle spese pubbliche, sociali ed agli investimenti, come il presidente Cavaco Silva, e chi sostiene che invece l'investimento pubblico è necessario, come parte del Partito socialista, il Bloque de Esquerra, il Partito comunista ed i sindacati. Il dibattito è aperto anche se va tenuto conto che l'Europa chiede tagli, vuole sangue. E mentre si discute, la situazione sta diventando sempre più difficile, non solo per il lavoro, ma anche per gli imprenditori. Ci sono ingenti linee di credito, già approvate, che non vengono erogate perché nel paese c'è paura di investire. Questo acuisce inevitabilmente la crisi.


sábado, 8 de maio de 2010

Resultados das eleições britânicas


Neste momento, não há notícia de fumo branco nas negociações entre Conservadores e Liberais para uma possível coligação de governo entre uns e outros. Solução há décadas não experimentada. Se falhar, os Conservadores pretendem governar sozinhos, mesmo em minoria. Mas não é seguro que, perante esse eventual falhanço, os Trabalhistas não tenham uma nova oportunidade, se conseguirem um acordo com os Liberais. Tudo isto, reflecte uma vitória mitigada e algo amarga dos Conservadores.

De facto, como se pode ver, pelo quadro acima publicado, os Conservadores atingiram 36,1%, tendo conseguido eleger 305 deputados, o que os deixou 21 lugares abaixo da maioria absoluta. Pelo seu lado, os Liberais, esvaziaram-se como surpresa positiva, em termos absolutos, uma vez que, embora apenas tenham conseguido a modesta progressão de 0,9 %, ao atingirem os 23 %, perderam cinco deputados. Isso não os impede de, perante o conjunto de resultados verificados, terem conseguido a posição, estrategicamente muito vantajosa, de fieis da balança. Os Trabalhistas sofreram perdas severas, mas não passaram por uma derrocada. Ficaram-se pelos 29,1%, o que significou um recuo de 6,2%. Com 258 deputados, os Trabalhistas ficaram a cerca de 50 lugares de distância dos Conservadores.

Quanto aos outros partidos, no seu todo, passaram de 10,3% para 11,9% dos votos, mas perderam dois deputados: de 30 desceram para 28. Neste campo, a grande novidade foi a primeira eleição de um deputado representando os Verdes. Manteve-se, com relevo para a Escócia, uma presença significativa de partidos regionais, oriundos dela, do País de Gales e da Irlanda do Norte.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

As eleições britânicas


Aproxima-se o dia das eleições parlamentares britânicas que vão ter lugar no dia 6 de Maio. As infogravuras, acima reproduzidas, foram extraídas do site do jornal inglês The Guardian.


Como se pode ver, a primeira corresponde a um gráfico comparativo da evolução das intenções de voto reveladas por uma série de sondagens nos últimos meses. Fica clara a continuada supremacia dos conservadores, bem como a brusca recuperação dos liberais na sequência da boa impressão deixada pelo seu líder, aquando do primeiro debate televisivo desta campanha ( aliás, novidade absoluta em campanhas eleitorais britânicas) entre os dirigentes máximos dos três principais partidos. Também se constata a relativa estabilidade das intenções de voto nos trabalhistas. No termo do gráfico, as posições relativas dos três principais partidos era: Conservadores- 35,67%; Trabalhistas-29%; Liberais - 26 % [ o conjunto dos pequenos chegava aos 9,33%].



A segunda infogravura mostra o resultado de sucessivas sondagens, com indicação do número de lugares de deputado conquistados pelos diversos partidos, em cada uma das hipóteses. A primeira sondagem, tendo valores próximos dos que correspondem ao termo do percurso do gráfico e tendo tradução gráfica própria, pode-nos ajudar a formar uma ideia sobre o que é mais provável que ocorra na Grã-Bretanha.


Pode constatar-se que os conservadores dificilmente não serão os mais votados, podendo, contudo, não conseguirem ter o maior número de deputados. Os liberais podem ter um resultado brilhante, em percentagem nacional de votantes, mas não chegarão a ter cem deputados. Pelo contrário, os trabalhistas, que nunca conseguiram ser o partido com melhores expectativas de voto, caindo numa ou noutra sondagem na terceira posição, ficarão, na pior das hipóteses, acima dos duzentos deputados.


Aliás, aos trabalhistas é, por vezes, atribuída a vitória, em termos de número de deputados, outras vezes um inesperado terceiro lugar, em número de votos. Aos conservadores é quase sempre atribuída uma vitória relativa, sendo certo que, na fase final da campanha, parece ter despontado a hipótese de um maioria absoluta , ou seja, 326 deputados.

[ Se clicarem sobre cada uma das infogravuras, ela aumenta de dimensão.]

domingo, 2 de maio de 2010

As hienas de "rating"

As agências de "rating" desempenharam um papel de claro agravamento, quanto ao modo e ao grau como as consequências da crise do capitalismo mundial se têm feito sentir sobre a Grécia. Disso, hoje, ninguém duvida.

Também parece claro que o risco de se fazerem sentir esses efeitos com intensidade semelhante, em países como Espanha, Irlanda, Portugal, além de outros, deriva, quase por completo, de se admitir que essas agências se venham a comportar para com esses países como se comportaram com a Grécia. Aliás, elas deram já nesse sentido os primeiros passos.

Elas podem ter agido por simples incompetência, podem ter actuado sob o impulso de preconceitos ideológicos ou, simplesmente, como agentes participantes em complexos processos de fraude, planeados e concertados em articulação com os seus beneficiários. Mas essas manobras fraudulentas, ou simplesmente levianas, vieram a repercutir-se na vida de milhões de pessoas, de muitas e muitas empresas, de vários países.
Por fraudes menos graves e por serem causadores de um leque de infelicidades muito mais modesto, são julgadas e condenadas, todos os dias, em todo o mundo, pessoas e responsabilizadas organizações. Como aspecto normal da vida das instâncias políticas democráticas, em muitos casos, os resultados eleitorais penalizaram fortemente forças partidárias responsáveis por erros e prejuízos muito menores do que aqueles que foram causados pelas referidas agências.


E, no entanto, ninguém parece disposto a incomodá-las, acontecendo até que a superfície mais ostensiva de muitos discursos políticos oficiais deixa transparecer com frequência, implicitamente, a quase completa absolvição das agências de "rating", pela sua participação fraudulenta na crise. Pelo contrário, ao mesmo tempo, parece condenar exclusivamente um, outro e outro povo, pelas políticas que foram seguidas pelos respectivos governos. Isto, apesar de, na grande maioria dos casos, esses governos terem estado, no essencial, em consonância com as principais recomendações das instâncias internacionais públicas de controle económico. Instâncias que, aliás, hoje mais ou menos claramente, parecem querer admoestá-los. Tudo isto sem falar no ridículo que é o de se dizer que o país A ou B vive, viveu ou quer viver, acima das suas possibilidades, como se em todos eles não houvesse ricos nem pobres, mas apenas uma hipotética seara de pessoas iguais. E sem falar no escândalo de, para corrigir o país "gastador", se pretender cortar no pouco pão dos que têm menos, deixando-se à solta o desperdício dos que têm demais.

Aliás,em consonância com esses cínicos acordes de um ressequido neoliberalismo, pelo menos em Portugal, alguns políticos de direita, e um ou outro fazedor de opinião, tiveram a desfaçatez de culpar o nosso país, por ter ficado na mira das agências de "rating". Como se a possível fraqueza de uma vítima alguma vez deva ser passível de uma qualquer censura em detrimento da que há-de naturalmente resultar da culpa visível, ostensiva e grosseira do respectivo agressor.

Tudo isto vem a propósito de um esclarecedor texto da autoria da jornalista Pilar Blásquez, publicado ontem, pelo jornal espanhol "Público", intitulado "El castigo a las agencias de 'rating' sigue sin llegar". É esse texto que se transcreve de seguida, para informação dos interessados.

"No detectaron que Lehman Brothers estaba al borde de la quiebra, ni siquiera un día antes de aquel terrible suceso. El fraude de Madoff también se les escapó y fueron agentes activos en la construcción de las innumerables hipotecas basura que hundieron la economía mundial. Todos estos motivos son más que suficiente justificación para que las agencias de calificación de riesgo, Standard & Poor's, Fitch y Moody's se hayan convertido en las malas de la película financiera. Un argumento que nadie discute. Lo que no parece tan fácil de entender es por qué casi dos años después de la caída de Lehman, cada palabra suya sigue sonando a ley divina en los mercados financieros.
Tras el estallido de la burbuja de las subprime, todos pusieron el grito en cielo ante sus aberrantes prácticas. "Hay que acabar con esta tiranía", se dijo en la reunión del G-20, a final de 2008 en Washington. La ley americana que prevé un mayor control de estas empresas y la exigencias de publicar los estudios de riesgo de cada una de las operaciones quedó en el fondo del cajón desde entonces. Obama estaba más interesado en centrase en la reforma sanitaria, que le iba a reportar más votos, aunque ahora parece que va a retomar el tema.
La UE tiene una ley, pero no entrará en vigor hasta diciembre
A este lado del Atlántico, el esfuerzo por controlarlas ha llegado algo más lejos. Sobre el papel, porque en la práctica su reinado sigue intocable. La Comisión Europea tiene diseñada una nueva legislación que las obligará a sacar a luz su particular fórmula de la CocaCola. Es decir, qué criterios utilizan para calcular sus notas. También se les pedirá, entre otras cosas, la lista de sus clientes para controlar incompatibilidades. Además, se prevé que la CESR (la CNMV europea) controle su actividad. El problema es que, incomprensiblemente, la aplicación de esa ley no está prevista hasta diciembre de 2010.
"Si esta nueva normativa ya estuviera en marcha, la operativa de las agencias de rating sobre la deuda griega y el resto de países de estos últimos meses habría sido más moderada", han denunciado fuentes de Unión Europea. Pero no lo está y las continuas rebajas de rating a Grecia y sus bancos, a España, a Portugal... han alimentado el hambre feroz de los especuladores contra estos países.
Los principales escollos con los que se está topando la regulación, más allá del lobby financiero, es la falta de acuerdo de los expertos. Frente a los que abogan por una nueva regulación, están los que piden simplemente más control para que se apliquen las normas que ya existen, pero para esto se necesita mucho más personal y no parece haberlo.
Entre 2000 y 2007 las agencias aumentaron un 53% sus márgenes
En cualquier caso, conviene recordar que el poder casi divino de las agencias se lo otorgó hace décadas la Reserva Federal de EEUU y, más tarde, el resto de bancos centrales del mundo. Estas autoridades decidieron que para realizar transacciones en el mercado de crédito era necesario acreditar la calificación de estas empresas privadas, hasta entonces sin demasiado negocio.
La cumbre del éxito llegó con el último boom inmobliario y el negocio de las aseguradoras. Si antes del 2000 ningún cliente aportaba más del 1% de los ingresos, en esos años el negocio se concentró en las siete mayores aseguradoras del mundo. Entre 2000 y 2007, el margen del negocio de estas agencias se incrementó un 53%, cuando en el mismo período, Microsoft creció un 36%.
La connivencia entre el sector financiero y las agencias a la hora de diseñar las complicadas estructuras financieras de las hipotecas subprime parece cada vez más cerca de desenmascararse. Primero, porque el pasado 23 de abril, la comisión del Senado de EEUU que investiga la crisis, retomó el tema y, sobre todo, porque las demandas privadas por fraude contra las agencias de calificación se están disparando en aquel país. "

sábado, 1 de maio de 2010

Dentro do 1º de Maio



É hoje um dia de palavras longas
Um jardim de palavras excessivas

Há cólera subindo nas palavras
E um enorme silêncio intenso e nu

Trabalho é uma flor desabrochada
No segredo da nossa condição

Caminhamos por dentro do destino
Fio de esperança espada da justiça

Nos olhares que perdemos, descobrimos
O caminho de todos os caminhos

As caveiras do tempo decretaram
A noite do futuro o fim do vento

Mas somos nós o centro deste dia
O vento do futuro o fim da noite

Já vimos de outro tempo sendo deste
Somos raiz por sermos horizonte
[ Rui Namorado]

sexta-feira, 30 de abril de 2010

O Outono dos Carpideiros


Esperava-se uma luminosidade cintilante no firmamento do pensamento económico. Uma parada de estrelas em torno de Passos Coelho. A comunicação social acendera todas as velas, para que não esquecêssemos, para que nada nos escapasse do transcendente evento.

Um odor a massa cinzenta haveria de espraiar-se pelos interstícios do espaço mediático, para que, atentos e veneradores, sorvêssemos a sabedoria de tão conspícuos oráculos.

O ambiente condizia: um hotel de luxo. Via-se, assim, como esses distintos faziam o generoso sacrifício de, em tempos de vacas magras, ousarem o altruísmo de uma serena fruição das coisas boas da vida.

Imprudentemente, porém,consentiram algumas imagens. E, onde a cuidadosa encenação esperara que descobríssemos o brilho da ciência exacta e serena, lampejando através do fulgor inteligente de tão distinta assembleia, vimos afinal um simples bafio de ideias velhas, um rumor vagamente ultra-romântico de quem se junta em redor de ideias mortas em melancolia raivosa. Afinal, era apenas um grupo de sorumbáticos banqueiros já um pouco encarquilhados, de académicos versados no discurso conveniente, de ex-governantes vergados pelo peso das suas próprias proezas tristes, de uma sombra saída de um governo de antes do 25 de Abril e até um conhecido urubu de serviço nas arenas da diatribe. Reuniram-se com Passos Coelho, para que fosse bem nítido que à sua volta borbulhava a nata do pensamento económico, conquanto doméstico.

Mas, afina,l foi um velório antecipado o que ali ocorreu. E, ao fim de algumas horas de reflexão aturada, um porta-voz grave deixou que se ouvissem algumas palavras profundas, discretamente entremeadas de silêncios graves, como nas grandes ocasiões.
E, num retoque de colorido, no circunspecto evento, um sujeito careca já entradote, com o ar azedo dos biliosos, trovejou implacável perante uma atenta comunicação social: ”O governo …. renhaunhau..béubéu... ladrão…auau.. criminosos…au..auau …novas gerações… béubéubéu…”
Os jornalistas tomaram notas. Respeitosos.

O país, finalmente, respirou fundo: uma jovem estagiária de jornalismo surpreendeu como balanço feliz da exigente reflexão um sinal encorajador --- um dos crâneos presentes tinha sorrido. E a conclusão foi clara: se um dos abutres reunidos para escarafuncharem na nossa desgraça sorriu, é porque ainda há esperança.

E assim o nosso Coelho de serviço pôde regressar sem angústia para dentro da cartola, as múmias voltaram pausadamente para o cemitério das sua próprias ideias e o povo desconfiado mudou de canal.

O paradoxo das eleições britânicas



No actual parlamento britânico há uma maioria trabalhista : 349 deputados contra 210 Conservadores e 62 Liberais.

Nas eleições da próxima semana, fazendo fé em todas as sondagens, os Trabalhistas sofrerão perdas severas. Simplesmente, uma certa derrapagem dos Conservadores nos últimos meses, atenuou o seu favoritismo. O inesperado crescimento dos Liberais, impulsionados pela popularidade do seu líder, reduziu-o ainda mais.

O sistema eleitoral britânico, uninominal a uma só volta, no quadro da a actual distribuição regional dos eleitores, é amplamente favorável aos Trabalhistas e dramaticamente prejudicial para os
Liberais.

Desse modo, como nos mostram os números de oito sondagens, mencionadas no site do jornal inglês Guardian, difundidas entre os dias 26 e 29 de Abril passados, há hoje uma real incerteza, quanto a saber-se qual o Partido que terá maior número de deputados depois das próximas eleições. Parece, no entanto, seguro que os Conservadores serão os mais votados, indicando algumas sondagens os Liberais como segundo partido e outras, como terceiro. E apesar disso, nenhuma das sondagens consideradas imputa aos Liberais mais do que 88 deputados e nenhuma indica que os Trabalhistas tenham menos de 244.




terça-feira, 27 de abril de 2010

Beato Gay ?

Tenho transcrito neste blog vários textos extraídos da revista brasileira de grande circulação CartaCapital, que infelizmente não é difundida em Portugal pelos canais de distribuição usados por outras revistas brasileiras. Hoje, vou transcrever um texto da responsabilidade da Redacção da referida revista, publicado no respectivo site no passado dia 16 de Abril. "Enfim, um beato homossexual ", eis como ele é intitulado.
Enfim, leiam-no. Ele fala por si:


"Como saber se um prelado é hétero ou homo desde que fez voto de castidade? Há qualquer coisa de muito intrigante na declaração do secretário de Estado do Vaticano, cardeal Tarcisio Bertone: “Numerosos psiquiatras e psicólogos demonstraram que não existe ligação entre celibato e pedofilia, mas muitos outros demonstraram que existe entre homossexualidade e pedofilia”. Pronunciada no começo da semana, atiçou um vespeiro global. Das organizações e associações gays, de boa parte da mídia, até da chancelaria francesa erguem-se protestos, a ponto de provocar na quarta um comunicado em que o Vaticano pretende esclarecer: Bertone apenas se referia aos homossexuais de batina. Com a seguinte revelação: dos 3 mil casos de pedofilia registrados pelas autoridades eclesiásticas (e rigorosamente mantidos sob sigilo) nos últimos 50 anos, 10% são de pedofilia stricto sensu enquanto 90% são, a bem da santíssima verdade, de efebofilia, ou seja, envolvem adolescentes. Reminiscências gregas. Destes, 60% correspondem a práticas homossexuais e 30%, hétero. O que não fica esclarecido é como a Igreja consegue catalogar com tamanha precisão as atividades sexuais dos seus padres, dos quais os fiéis esperam outros gêneros de comportamento. Mas não haverá de ser por acaso que o próprio Bento XVI viaja para a Inglaterra em setembro próximo para a beatificação do cardeal teólogo John Henry Newman, o qual pediu para ser enterrado ao lado do amigão reverendo Ambrose St.-John. Quanto este morreu, o cardeal confessou que sua dor era igual à de um marido, ou de uma esposa. Vale assinalar ainda o surgimento na Áustria de uma associação filantrópica destinada a proteger e educar os filhos abandonados por padres heterossexuais. Uns e outros seriam bastante numerosos.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Sacrifício estranho e inútil


Os polacos da Internacional Socialista (IS) e do Partido Socialista Europeu (PSE) foram aplicadores dóceis da partitura económica neoliberal, na desafinada orquestra dirigida pelo Partido Popular Europeu (PPE) e foram seguidores disciplinados da terceira via na aventura iraquiana de Blair.

Os húngaros da IS e do PSE participaram com denodo na mesma orquestra na execução da mesma partitura.

Os resultados económicos de uns e outros não foram os mesmos, mas com a diferença de alguns anos, primeiro os polacos e agora os húngaros foram varridos pelos eleitores de qualquer verdadeira relevância política do mapa de ambos os países. Num e noutro caso, com exclusivo benefício eleitoral das direitas, mais ou menos radicais.

Se nos recordarmos do que tem vindo a acontecer, em sucessivas eleições, na Dinamarca e na Holanda e se olharmos para a actual paisagem política alemã, bem como para o terrível cinzentismo da esquerda italiana, talvez nos devamos interrogar sobre a razão pela qual, um após outro, os partidos europeus da IS se encaminham mansamente para o altar sacrificial do neo-liberalismo, para sofrerem por deuses que não são seus.

O PS e Portugal passam por tempos difíceis, em boa parte por força da pilhagem financeira perpetrada pelos artefactos mais perversos do capitalismo internacional, mas, mesmo que seja certo tomar como único caminho no curto prazo o que está a ser seguido, não compreendo como se pode ter gerado no seio do PS um silêncio tão pesado sobre tudo o que transcenda o imediato.

Queremos nós ser mais um cordeiro dócil, sacrificado inutilmente no estéril altar do neoliberalismo do PPE , para desgraça dos portugueses e desconsideração da própria ideia de Europa ?

domingo, 25 de abril de 2010

25 de Abril de 1974 - homenagem



o coração do vento despertou
no dia desde sempre convocado
pela revolta pura pelo sonho
pelos cardos abertos da desgraça

a multidão abriu-se pelas ruas
num grande clamor de liberdade
despertas as palavras eram ditas
de novo desvendadas e exactas

tatuados nos rostos desregrados
iam anos antigos confiscados
uma acre vergonha acumulada
a cólera mais fria solta e dura

invocaram-se os ritos mais audazes
as esperanças mais ardentes
o aço decidido dos punhais
os poemas mais fundos e fatais

saído da tristeza e de si próprio
um povo renascia e inventava
um roteiro para todos os caminhos
um novo infinito uma viagem

de súbito em Abril desvendou-se
o mistério de todos os segredos
e à terra portuguesa regressou
o ousado amor das tempestades

os gestos de novo foram simples
e só braços fraternos deslizaram
pelos rios da nossa desventura

a pele do tempo foi suave
e a vida incendiou-se numa festa

[Rui Namorado]

Contracapa da Vértice - 28


Vértice nº 295 - Abril de 1968


"Quando o oiro fala a eloquência perde a força."


Erasmo

quinta-feira, 22 de abril de 2010

À Esquerda - uma procura incessante


Para os leitores do semanário francês Nouvel Observateur, o nome de Jacques Julliard, que actualmente é director delegado da referida revista, está muito longe de ser desconhecido.
No seu mais recente número, foi publicado um texto desse autor no qual ele nos fala de: “ Ce qui est vivant et ce qui est mort dans la nouvelle gauche”.
É um texto aberto a múltiplos problemas, discutível e incisivo. É um contributo relevante para enriquecer o debate politico-ideológico, ao qual é cada vez menos legítimo que os socialistas se furtem. Um debate que ajude a encontrar vias de superação da crise de identidade que eles têm vindo a atravessar na Europa e no mundo.


Eis o texto:

“ Ce qui est vivant et ce qui est mort dans la nouvelle gauche”.

“ Beaucoup de mes amis et compagnons du passé ont sursauté quand j’ai proclamé, d’abord dans le Nouvel Obs (27 août 2009), puis dans Libé (18 janvier 2010) la mort de la deuxième gauche. Il y avait dans les articles de François Chérèque et Edmond Maire (11 mars 2010), et puis de Michel Rocard (1er avril 2010) parus ici-même des traces de cette surprise. Je veux les rassurer d’emblée : je ne renie rien de nos idées et de ce passé commun : au contraire. C’est au nom de ces idées et de ce passé que j’ai écrit les deux articles en question. Raison supplémentaire d’intervenir : la deuxième gauche appartient à l’histoire du Nouvel Observateur depuis les origines.
C’est que, chers camarades, en raison même de ces engagements, nous avons des devoirs particuliers à l’égard de la vérité. Le "parler vrai" n’a jamais été pour nous un supplément d’âme à ajouter à notre pensée. Il était notre pensée elle-même. Nous avons cru, nous croyons toujours qu’il y a une vérité de la politique ; nous croyons non moins fermement qu’il y a une politique de la vérité et que cette politique vaut politiquement mieux que l’autre. Cette formule de Bernanos, que je rhabille à ma manière, serait à mes yeux, s’il en fallait une, la meilleure définition possible de ce que, après Hamon et Rotman , on a appelé dans le domaine syndical et politique, la deuxième gauche.
Je suis à cent lieues de vouloir polémiquer. Ma seule malice, mais elle s’applique à nous tous, sera de me féliciter que mes deux papiers vous aient amenés à reparler d’autogestion, ce qui, on en conviendra, n’était pas arrivé depuis longtemps. Comme si, à l’égard de ce moment fondateur, nous avions tous désormais quelque gêne à y repenser, tels des amants qui ont cessé de s’aimer.
Non, ce manque de lucidité dont je nous accuse, en quoi consiste-t-il ? Cette vérité qui nous fuit ou que nous fuyons, quelle est-elle ? La voici : le primat de la société civile qui a été durant des années notre marque de fabrique et notre mot de ralliement, ne sert plus depuis longtemps à faire avancer nos idées. Il ne sert plus la démocratie ouvrière. Il ne sert plus les idées libertaires et autogestionnaires qui sont les nôtres. C’est un fait que l’on peut regretter : il sert le capitalisme financier pour faire ses affaires ; pour s’exempter de toute responsabilité ; pour échapper à toute contrainte éthique ; à tout impératif d’intérêt général ; à toute mobilisation populaire ; à toute avancée sociale. Voilà à quoi a servi, pour l’essentiel, l’autonomisation de l’économique et du social par rapport au politique. Les socialistes libéraux ont fait, à leurs corps défendant, la courte échelle aux libéraux sociaux. Pendant que nous suivions, le nez en l’air, l’envol majestueux de nos idées, on nous faisait les poches, tout simplement.
J’exagère ? Mais, bon Dieu, regardons un peu autour de nous. Qui donc défend le plus aujourd’hui le primat de notre société civile ? Le mouvement social ? Que non pas ! Le patronat bobo, bien sûr. Depuis Reagan et Thatcher ; depuis le libéralisme à l’américaine, nous aurions dû nous méfier. La privatisation, la déréglementation aurait pu nous servir. Mais nous n’étions pas de force. Elle a servi au patronat. Ensuite, c’est ce capitalisme hors sol qu’est le pouvoir bancaire qui a pris la relève et qui a retourné comme un gant nos idées saint-simoniennes. Plus d’Etat ! Très peu de politique ! Ah, ils l’ont comprise la leçon ; ils l’appliquent à tour de bras ! Sauf lorsque leurs spéculations fantastiques – il y a une part d’imaginaire et de poésie pure dans le bankstérisme moderne – les conduisent au bord du gouffre : là, tout à coup, ils redécouvrent les vertus de l’Etat.
Voulez-vous que je vous dise ? Nous avons péché par orgueil. Nous avons mal mesuré le rapport des forces. En prétendant nous passer au maximum de l’Etat, nous avons présumé des nôtres. Pourquoi donc le mouvement ouvrier et socialiste a-t-il au contraire, majoritairement, compté sur l’Etat et sur la politique depuis le XIXe siècle ? Parce qu’il ne se sentait pas assez fort pour faire ses affaires tout seul. La science politique américaine n’en finit pas de se gausser de cet étatisme de la gauche française, dans lequel elle voit un trait de caractère. Mais non, imbéciles, ce n’est pas un trait de caractère, c’est un état des lieux ! Du fait de la lenteur et de la modestie du développement industriel français, le mouvement social y a toujours opéré en milieu hostile, en tout cas, majoritairement défavorable. La République politique a presque toujours disposé, sous la Troisième, de la majorité ; la République sociale, non. Et l’Etat, qui dans la vulgate marxiste, est l’auxiliaire des forces économiques dominantes, a au contraire servi à compenser le handicap des forces dominées. C’est comme ça. La journée de huit heures, les lois sur les accidents du travail, les retraites ouvrières, les congés payés, la sécurité sociale, rien de tout cela n’aurait été obtenu sans le recours à la loi, c’est-à-dire le coup de pouce du politique. J’entends bien que nous n’avons jamais dit le contraire et que notre critique de l’Etat porte sur sa fonction productrice, non sur sa fonction régulatrice. Mais le capitalisme s’est servi de cette critique de la première pour invalider la seconde. Je le répète ici : après la victoire intellectuelle de nos idées en 1968, nous nous sommes reposés sur nos lauriers et n’avons pas vu venir la contre-attaque : celle du néo-libéralisme, qui s’est installé comme un coucou dans le nid que nous lui avions bâti. La défaite des forces du progrès, à l’échelle internationale depuis une trentaine d’années, fut d’abord une défaite intellectuelle. Sinon, comment comprendre, comment expliquer que l’idée du libéralisme pur, celui d’une société automatique fonctionnant au mieux des intérêts de tous selon la seule règle du marché, cette idée dont on avait cru longtemps qu’elle ne passerait pas le cap des années 1900, se soit retrouvée seule et triomphante sur le champ de bataille à la fin du XXe siècle ? Nous avons négligé de mener sans relâche la critique sociale ; je veux dire l’examen des conséquences sociales de ce retour triomphal des idées libérales du XXe siècle.
Du reste, Michel Rocard tombe d’accord avec moi quand il dénonce à son tour les déréglementations et le retour à une plus grande brutalité sociale du capitalisme ; quand il reconnaît comme une évidence que « la social-démocratie internationale et sa composante française, la deuxième gauche, se sont "largement enlisées" dans la tâche de modernisation économique, dans le cadre, il est vrai, d’un capitalisme beaucoup moins féroce que celui d’aujourd’hui.
Ne chipotons pas trop. Il me semble pourtant que c’est singulièrement appauvrir l’héritage historique et l’ambition intellectuelle de la deuxième gauche que de la réduire à une composante française de la social-démocratie. Cette dernière est aujourd’hui tellement compromise avec l’ordre libéral que sans le retour à une critique sociale radicale et une rupture avec cet ordre, je ne donnerais pas cher de son avenir. De même en ce qui concerne les lois du marché : Rocard n’aime pas la formule : "refus de la soumission aux lois du marché". Je les ai toujours respectées, ces lois, même quand tu dirigeais le PSU, mon cher Michel. Pour autant, je ne voudrais pas que la deuxième gauche, si elle doit revivre, se définisse comme le parti de la soumission aux lois du marché. Il faut les respecter, sans doute, mais pour en corriger les tendances profondes à l’inégalité et à la barbarie sociale que l’on voit triompher aujourd’hui. C’est ainsi que je respecte les lois de la gravitation : pour éviter de me casser la gueule.
En revanche, je suis d’accord avec Rocard pour considérer que la deuxième gauche s’inscrit dans un vaste courant d’opposition à l’économie administrée. Le courant a pris naissance au XIXe siècle, en réaction aux tendances centralisatrices du mouvement socialiste international, représenté notamment par Karl Marx. Il aura toujours quelque chose à voir avec Proudhon, le syndicalisme révolutionnaire, et même Louis Blanc, avant que sa pensée ne soit travestie dans la caricature des Ateliers nationaux de 1848. C’est, d’un bout à l’autre, la volonté de donner aux ouvriers la "science de leur malheur" (Pelloutier) et la maîtrise de leur travail. C’est le contraire du socialisme soviétique, évidemment, mais aussi celui de cette vaste entreprise d’asservissement de l’homme à son gagne-pain, de l’ouvrier à son emploi, du consommateur à son pouvoir d’achat, que l’on appelle, par humour noir, le libéralisme. Chaque fois que j’entends dire que nous vivons dans la meilleure société possible, en tout cas la moins mauvaise que celles que l’humanité a connues, je pense aux caissières de supermarchés : c’est peut-être vrai, mais je n’ai jamais entendu une telle réflexion dans leur bouche : le meilleur des mondes n’est pas le même pour tous ses habitants.
Si je n’ai pas parlé ici de la première gauche, c’est qu’à mes yeux ce mélange de maximalisme théorique et d’opportunisme pratique, cette imposture clientéliste et notabiliaire était morte depuis longtemps.
La deuxième gauche, c’est autre chose. Son grand mérité historique est d’avoir su reconnaître l’adversaire. Hier, le colonialisme ; ce fut là le plus beau et le plus honorable de ses combats. Ou encore la centralisation administrative qui faisait de la France une nation gouvernée en pays conquis. Si j’ai dit que la deuxième gauche était morte, ce n’était donc pas de ses idées et de ses valeurs que je constatais le décès. Mais de cette phase historique révolue où elle a fait, au nom de l’intérêt général, un bout de chemin avec un capitalisme civilisé, lui-même révolu.
Comme Rocard et moi sommes d’accord sur ce point ; qu’il analyse dans les mêmes termes que moi le passage du capitalisme managérial au capitalisme d’actionnaires ; que Jean Daniel de son côté se prononce avec force pour un "réformisme radical", où est le problème ? Il n’y a pas de problème, il n’y a que des questions.
Pour ma part, j’en vois deux. La première porte de nouveau sur l’identification de l’adversaire ; la seconde sur les conséquences pratiques à en tirer. Désormais, presque plus personne n’en doute à gauche : le capitalisme financier est devenu l’énorme Léviathan du monde moderne, qui défie les Etats et les peuples. Déchaîné par l’effondrement du pseudo-système socialiste ; renforcé par la mondialisation, qui lui permet d’enjamber les frontières, il est en train de transformer le monde moderne, qui avait cru naguère accéder à la prospérité et à la sérénité, en un système de concurrence effréné, où la "destruction créatrice" se développe à une telle vitesse qu’elle ébranle toutes les sociétés. Il développe un darwinisme social impitoyable qui multiplie les laissés pour compte, fait exploser les solidarités traditionnelles : entre les in et les out, entre les vainqueurs et les vaincus du système, il n’y a bientôt plus rien de commun. Voilà pourquoi la société est en train d’exploser en une multiplicité de tronçons indépendants les uns des autres. Il y eut une courte période, entre l’effondrement du système communiste et l’affirmation à l’échelle mondiale du capitalisme financier où l’on put croire que la lutte des classes était périmée et l’histoire proche de sa fin… Brève illusion : nous sommes devant un nouveau défi, international ; voilà pourquoi il nous faut nous remettre en question et repartir du nouvel état du monde : celui que les gens ordinaires ont été les premiers à identifier, parce qu’ils ont été les premiers à en être les victimes.
La seconde question porte sur les instruments de lutte. Ce n’est pas parce que cette lutte prend désormais une dimension internationale qu’il faut déserter le terrain national. Pour une raison bien simple. Le retard du mouvement social sur le capitalisme est tel qu’il ne dispose pour le moment d’aucun instrument à l’échelle internationale. J’entends bien qu’il existe des institutions internationales, l’Onu, le FMI, l’OMC, le G20, à l’intérieur desquelles il faut mener la lutte et sur lesquelles il faut faire pression.
Mais ne soyons pas naïfs. Ne tombons pas, de grâce, dans le bigotisme institutionnel qui prétend faire faire à la gauche l’économie d’une mobilisation de masse. Voyez d’ailleurs ce qui s’est passé quand les puissants de la planète ont prétendu, avec une ardeur variable, imposer une réglementation à la finance internationale. Echec presque total ! Dans ce domaine, Barack Obama est moins puissant que Goldman Sachs. Voilà pourquoi les forces démocratiques de gauche n’apportent qu’une plus-value, mais elle est de taille, à la contestation du désordre établi dans lequel nous vivons : le poids de l’opinion internationale et de la mobilisation populaire ; voilà pourquoi aussi elles doivent aller à la bataille unies. A chaque élection, les citoyens le martèlent, car ils l’ont compris. L’anticapitalisme radical, mais homéopathique, à la Besancenot, n’est pas un outil de lutte mais une entrave. Ce n’est pas de prototypes que nous avons besoin, c’est d’instruments puissants.
Alors, première ou deuxième gauche, ce n’est plus aujourd’hui le problème. Réformisme ou révolution, c’est aussi une problématique d’un autre temps. Comme chaque fois qu’une nouvelle période s’ouvre, nos valeurs nous servent, mais nos préjugés nous desservent. Il arrive même que notre expérience nous paralyse. Une fois de plus, c’est l’événement qui sera notre maître intérieur".
[Jacques Julliard]

terça-feira, 20 de abril de 2010

Brasil - à esquerda, um novo candidato


1. Com a relatividade que tem uma identificação política com protagonistas de outros países, encarando eu na sua globalidade como muito positiva a Presidência de Lula no Brasil, sinto-me próximo dos que apoiam a candidata presidencial do PT (Partido dos Trabalhadores) Dilma Roussef, considerada como a sucessora por ele desejada.

No âmbito de uma sumária contextualização da entrevista que abaixo transcrevo, recordo que a direita brasileira tem como candidato principal à Presidência da República, José Serra, actual governador de S. Paulo, em representação do PSDB (Partido da Social-Democracia Brasleira). Além deste partido, integram o núcleo duro desta candidatura o Partido Democrático (nova designação do Partido da Frente Liberal, oriundo do apoio à ditadura) e o PPS ( Partido Popular Socialista, novo nome assumido, já há alguns anos, pelo antigo Partido Comunista Brasileiro de Luís Carlos Prestes ).
Uma antiga Senadora do PT e ex-Ministra num governo de Lula, dissidente desse partido, Marina Silva, concorre sob a égide do PV (Verdes) seu novo partido, também ele com representação no actual Governo. Não é ainda certo que Ciro Gomes, ex-ministro de Lula e seu apoiante, não seja também candidato pelo PSB ( Partido Socialista Brasileiro ).

Ainda durante o primeiro mandato de Lula, uma das tendências mais à esquerda do PT cindiu-se dando origem ao PSOL (Partido Socialismo e Liberdade). A ex-Senadora Heloísa Helena , candidatando-se com o apoio do novo partido nas últimas presidenciais, chegou aos 11% na 1ªvolta. Há poucos dias, o PSOL escolheu para seu candidato às próximas presidenciais Plínio de Arruda Sampaio, recusando assim a via proposta por Heloísa Helena que defendia o apoio do PSOL a Marina Silva.

2. Plínio Soares de Arruda Sampaio nasceu em São Paulo, em 1930.É licenciado em Direito pela Universidade de São Paulo , tendo militado na Juventude Universitária Católica, da qual foi presidente. Em 1962, foi eleito deputado federal pelo Partido Democrata Cristão . Após o golpe de 1964, foi um dos 100 primeiros brasileiros a terem seus direitos políticos cassados por dez anos. Viveu exilado no Chile e nos Estados-Unidos. Regressado ao Brasil, militou no PMDB, pelo qual foi eleito como suplente para o Senado federal em 1978. Viria a sair desse partido para participar na fundação do PT em 1980. Em 1986, foi eleito deputado federal constituinte. Foi ainda vice-líder da bancada do PT em 1987, e substituiu Luís Inácio Lula da Silva na liderança do partido, em 1988. Após ter saído do PT, do qual foi um dos fundadores e histórico dirigente, ingressou no Partido Socialismo e Liberdade (PSOL). A sua candidatura presidencial recebeu já um expressivo apoio de um vasto leque de personalidades, permitindo-me eu destacar entre muitos: Fábio Konder Comparato, Carlos Nelson Coutinho, Leandro Konder, Chico de Oliveira, Chico Alencar; bem como relevantes figuras internacionais, como é o caso de István Mészáros e de François Chesnais.


Recorde-se que Plínio de Arruda Sampaio é um respeitado expoente intelectual da esquerda católica e um decidido defensor da
Teologia da Libertação. Tem também apoiado com firmeza a reforma agrária, tendo um grande prestígio no seio dos movimentos sociais de trabalhadores sem-terra.

Se eu pudesse votar nessas eleições , provavelmente votaria em Dilma Roussef, mas isso não me impede de considerar do maior interesse a entrevista com Plínio de Arruda Sampaio, da responsabilidade de Sérgio Lírio e difundida pela revista brasileira de grande circulação CartaCapital.


2. Eis o texto da entrevista:

"Após fortes embates internos, Plínio de Arruda Sampaio venceu a disputa com o grupo da ex-senadora Heloísa Helena e foi escolhido candidato à Presidência pelo PSOL. Dissidência do PT, o partido alcançou expressiva votação em 2006 ao apostar em um discurso moralista. Há mais de 60 anos na vida política, Sampaio garante que o tom de sua campanha será outro. “Quero discutir as coisas que importam.”

CartaCapital: Em 2006, Heloísa Helena chegou a 11% de intenção de voto baseada em um discurso udenista.[ Para ajudar a compreender a alusão, julgo que ela se reporta à UDN(União Democrática Nacional) um grande partido de direita que liderou a oposição ao Getúlio Vargas democraticamente regressado ao poder, muito baseada no combate à corrupção; e que tinha como máximo expoente mediático e político Carlos Lacerda, que viria a ser um dos mentores e incentivadores da posterior ditadura militar iniciada em 1964]] Qual vai ser o tom da campanha do PSOL neste ano?

Plínio de Arruda Sampaio: Esse foi um ponto de discussão nas prévias do partido, pois não tenho esse tipo de discurso. E tenho medo de que esse tipo de discurso distorça o problema real do País. Há, sem dúvida, um problema de corrupção e essa corrupção precisa ser denunciada e combatida, mas, na verdade, esse combate não pode obscurecer o confronto principal, a contradição desse regime capitalista selvagem. Peguemos o caso da tragédia no Rio de Janeiro. Se houve corrupção ali, é necessário denunciar, mas o importante é debater a especulação imobiliária, o peso que ela tem no desenvolvimento das cidades. Por que aquela população está lá, mal alojada em favelas, morros? Por falta de uma reforma agrária. Por que há 80 mil imóveis estocados em áreas melhores do Rio de Janeiro para serem alugados durante as Olimpíadas? O objetivo da minha campanha é fazer um diagnóstico real dos problemas do Brasil.

CC: Por que não avançaram as conversas com o PV de Marina Silva?

PAS: O PV é uma proposta ecológica muito limitada. A ideologia dele é “salvar a natureza” e isso escamoteia o verdadeiro debate. O verdadeiro debate é que o capitalismo, enquanto tal, não tem condições de preservar a natureza, pois a solução para o problema teria como consequência limitar o lucro. Tanto é verdade que, apesar de todo o discurso, o ataque à natureza só cresce, não reduz. Para se preservar a natureza é preciso outro tipo de economia, uma economia que não se baseie no lucro infinito, sem limites. Sem uma perspectiva claramente socialista, é impossível preservar.
CC: Como é possível, nas próximas eleições, escapar da polarização PT-PSDB?
PAS: O PT e o PSDB são dois partidos da ordem. A divergência entre eles é menor porque o modelo de desenvolvimento é o mesmo. Vamos fazer outra proposta. Defendemos uma economia muito mais voltada para as necessidades da população, capaz de resolver, por exemplo, o problema da habitação, da educação, da terra. Forçar mesmo a mão na reforma agrária. Nem o (José) Serra nem a Dilma (Rousseff)- farão um discurso real sobre o problema agrário. Ambos vão louvar o agronegócio, a monocultura. E a monocultura e o agronegócio atingem a natureza.

CC: Que avaliação o senhor faz dos oito anos de Lula?

PAS: Há uma realidade que, na superfície, parece tranquila. De certa maneira existe uma melhora em relação ao governo Fernando Henrique, que foi um terror. Mas isso escamoteia a verdade. A educação brasileira está em um nível inacreditavelmente ruim. Outro dia mencionei Getúlio Vargas em uma palestra. Notei que a plateia, cerca de 40 jovens entre 20 e 30 anos, não entendeu bem. Perguntei quem já tinha ouvido falar do Getúlio Vargas. Só quatro levantaram a mão. A saúde vai pelo mesmo caminho. A desnacionalização da nossa indústria é um fato patente. Estamos regredindo ao estágio de uma economia primária, exportadora de quatro produtos: soja, cana-de-açúcar para fazer etanol, carne bovina para não ter colesterol e celulose para fazer papel higiênico. É um absurdo.

CC: O senhor foi um dos autores de um plano engavetado pelo governo Lula de assentar 1 milhão de famílias. É esse o tamanho da reforma agrária necessária?
PAS: A pobreza no campo é um problema do poder. A concentração da terra concede poder a uma capa que domina o camponês. Por isso ele é pobre, miserável. É preciso quebrar esse poder e ele só pode ser quebrado se for criado outro poder para o camponês. Uma reforma agrária precisa ter certo impacto para provocar desequilíbrios em cadeia que permitam à massa camponesa alcançar um mínimo de conforto. A reforma agrária é uma proposta capitalista. Caso me pergunte qual a minha visão do campo, direi que não é essa. Tenta-se reformar o capitalismo porque falta força para erguer outra organização da agricultura. No início, acreditei que o governo Lula tinha força para fazer. Estava equivocado. Era colocar 1 milhão de pessoas na terra em quatro anos. Isso criaria um entusiasmo na população rural. Era o que se pretendia, sobretudo, se fosse realizada de uma maneira estratégica, não jogando pontualmente um assentamento aqui, outro ali. Era preciso se concentrar em pontos focais do território, como aconteceu no noroeste do Paraná. Como lá foi implantado um número grande de assentamentos, os trabalhadores ganharam o poder de eleger prefeitos, vereadores etc.

CC: O presidente Lula não sofreu do mesmo mal da conciliação em excesso?

PAS: Florestan Fernandes dizia que o militante socialista tem três deveres: não se deixar cooptar, não se deixar liquidar e obter vitórias para o povo. Lula deixou-se cooptar. O poder burguês, da ordem, o fascinou. Fui um dos cinco coordenadores da primeira campanha presidencial de Lula, em 1989. Tínhamos um projeto de reforma radical do capitalismo. Em 2002, não. Ele aderiu à ordem. Por que o fez? Não sei. O PT inteiro o fez.

CC: Mesmo assim essa elite não o aceita?

PAS: Ah, bom, pois ele é inconfiável. Para o mundo capitalista, confiável é quem detém capital. E Lula não tem capital. De transfusão de sangue que passou a ser aceito mesmo só conheço o caso de Fernando Henrique Cardoso. Mas esse era filho de general, originário da elite. FHC passou a ser encarado como alguém que teve seus devaneios na juventude, depois criou juízo e seguiu as regras. Lula não. Ele é perigoso por ser um líder popular. Mas, sejamos claros, nem essa burguesia o combate mais com tanta ferocidade. Você é jovem e não viu o que fizeram com João Goulart. Eles estrangularam Jango. Quando eles atacam, Nossa Senhora, é terrível! Eu vivi isso. Atrás, não dá muita colher de chá para ele, mas não ataca. Quando ataca, meu filho, Nossa Senhora, é terrível. Eu vivi isso.

CC: O senhor tinha mais esperanças nos anos 60 ou agora?

PAS: Se não acreditasse no Brasil não seria candidato à Presidência. Tenho enorme convicção das nossas condições de superar as adversidades, de construir uma nação mais justa. Mas acho que o caminho hoje é mais pedregoso. Celso Furtado publicou, em 1992, um livro pequeno de uma lucidez espantosa. Chama-se Brasil, a Construção Interrompida. Naquele tempo, ela estava mesmo interrompida. Veio a empresa de demolição de Fernando Henrique e demoliu o que havia. E Lula terminou o trabalho do antecessor. A construção interrompida virou uma construção destruída.