domingo, 28 de fevereiro de 2010

A jarra quebrada


Na esquerda, desde sempre se confrontaram posições entre si diferenciadas. Em alguns períodos o confronto atravessou até fases dramáticas, mas mesmo então talvez tenha havido sempre a perspectiva de uma reaproximação futura. E nesses períodos a intensidade da crispação, em regra, subiu mediante forte impulso de grandes dinâmicas e clivagens internacionais.

Hoje, não nos chega de fora qualquer estímulo comparável para o encarniçamento dos confrontos, no seio da esquerda. No país a conjuntura política não é dramática, embora a situação económica e as suas sequelas sociais sejam preocupantes. Nada disso, contudo, justificaria, por si só, uma crispação como a que hoje se vive.

E pode perguntar-se : se chegasse a um acordo, uma coligação PCP/BE teria, no horizonte de uma década, alguma probabilidade de chegar a uma maioria parlamentar? O PS já conseguiu essa maioria. Qual a probabilidade de a repetir, na próxima década? Parece claro, que é mais provável uma resposta reconfortante para o PS, do que para os outros dois partidos.

Mas, se a ruptura entre estes dois campos for realmente irrecuperável, pode estar tranquila a direita, durante muitos e muitos anos. E não deixo de estranhar que, sendo um dos grandes desígnios estratégicos da direita portuguesa inviabilizar coligações do PS com o PCP e o BE, estes dois partidos, sabendo disso, aceitem ser actores estrategicamente subalternos da grande cruzada contra Sócrates e o PS que a direita está a protagonizar. Estranho, porque, como tenho dito, se essa cruzada dizimar realmente o PS em termos políticos e eleitorais, entre as vítimas duradouras desse hipotético desastre estaria sempre a esmagadora maioria dos eleitores desses dois partidos de esquerda.

Compreendo que no ambiente de crispação já instalado seja difícil, a cada um de nós, medir com rigor, até que ponto está a passar os limites politicamente aceitáveis, à luz dos seus próprios desígnios estratégicos. Talvez nos pudéssemos ajudar a nós próprios, se cada um de nós conseguisse tomar apenas as posições públicas, susceptíveis de se traduzirem em acções ou em processos políticos realistas, em cujos objectivos cada um se reconhecesse.

As metáforas são expressões imperfeitas na descrição da realidade, mas quase sempre sugestivas. Dentro desses limites, podemos comparar a convivência política, no seio da esquerda, a uma jarra de cristal. Uma vez quebrada , não mais se recomporá.

E que não haja ilusões , se isso vier a acontecer, de pouco adiantará encontrar culpados. O que aliás será difícil, pois cada um há-de, convictamente, imputar todas as culpas aos outros lados. Aliás, de um modo ou de outro, mesmo que se viesse a apurar um culpado, o que seria improvável, a jarra não voltaria a ficar inteira.

As oposições no seu labirinto



O cerco a José Sócrates que, segundo a comunicação social, lhe estão a preparar no Parlamento ou é um puro infantilismo que atesta a mediocridade estratégica, no plano político, das lideranças das oposições ou é inútil.

De facto, as oposições, se querem derrubar o Governo, podem fazê-lo com toda a legitimidade, se depois se conjugarem como alternativa de governo. Deixaríamos de ter um governo minoritário para passarmos a ter um governo de unidade entre as actuais oposições com maioria parlamentar. Esse novo governo “canguru” disporia de muito melhores condições no plano da aritmética parlamentar do que o actual. Por isso, se as oposições não querem Sócrates como primeiro-ministro não precisam de criar um clima de “guerra civil” larvar, basta uma moção de censura na Assembleia da República.

Mas se não querem derrubá-lo, apenas pretendendo exercer normalmente o papel das oposições parlamentares, não se compreende o tipo de iniciativas que têm tomado e encorajado, nem o modo como têm estimulado a crispação política. Será por serem incapazes de calibrar o tom e a intensidade dos ataques que empreendem, não conseguindo adequá-los aos seus objectivos? Se assim for, não estamos perante um radicalismo discutível, mas perante uma incompetência grosseira. Talvez, os acontecimentos futuros nos venham a mostrar qual das duas hipóteses é a verdadeira.

A não ser que as oposições estejam ainda possuídas por alguns restos da ilusão de que conseguirão condicionar o PS, de modo a que possa continuar a haver um Governo da sua responsabilidade, sem Sócrates a liderá-lo e sem eleições. Se assim é, trata-se de burrice em estado puro. Se este Governo for derrubado, haverá eleições, ou o Presidente aceitará que o PS indique de novo Sócrates para continuar a liderá-lo. Mas como esta segunda hipótese não faria sentido, a saída é simples as oposições formam um governo “canguru” ou há eleições.

Aliás, o próprio facto de haver entre os que odeiam particularmente Sócrates quem ache que deveria haver um governo do PS sem Sócrates, mostra que realmente eles não estão convencidos de que é verdade tudo aquilo de que acusam Sócrates velada ou expressamente. Por que se o estivessem, não faria sentido que aceitassem que continuasse a governar sem novas eleições, um Partido que havia sido dirigido por ele e que o apoiara continuamente nos últimos anos

E com eleições, na actual conjuntura, ou o PS forma novo governo maioritário ou minoritário, ou passa para a oposição, certamente pouco disposto a facilitar a vida a qualquer coligação de alguns ou de todos os que tantos o têm atacado nestes últimos anos. E muito menos alguém pode sonhar que o PS se misture num indigno bloco central com um partido de direita que , com o interregno provável do orçamento, tão miseravelmente o tem atacado nos últimos anos. Quem não vir isto, anda a dormir.

Poderia ainda a dizer-se que eu não tenho razão, uma vez que o que se quer não é apenas destruir Sócrates, mas sim o próprio PS. Se assim fosse, eu perguntaria: então os dois partidos de esquerda ajudantes nessa possível música acham que depois de ajudarem mansamente a direita a destruir-nos como Partido, receberiam o apoio agradecido dos actuais apoiantes e eleitores do PS? Se acham isso, são sonhadores. De facto, apenas teriam contribuído para um dramático enfraquecimento do conjunto da esquerda por décadas, em Portugal. E a direita ganharia alguma coisa com isso? Talvez no estrito plano eleitoral isso pudesse acontecer. Mas no plano da viabilidade democrática do regime e da paz social teria que governar um país muito mais turbulento e imprevisível. Com um detalhe que lhe dificulta as coisas: o PS, os militantes socialistas e os apoiantes socialistas não se deixarão levar pacificamente para o matadouro. Lutarão contra essa eventual tentativa de os destruírem.

Há uma última hipótese que ecoa na algaraviada que tem invadido os jornais a propósito de um hipotético e vago “fim de regime”. É como se , no fundo, o objectivo dos “algazarradores” politico-mediáticos fosse o de se desforrarem do 25 de Abril , preconizando à surrelfa um golpe de estado que, nas actuais circunstâncias históricas, só pode ser fascista. Esses modernizadores autoritários querem regredir um século e os tontos que, não sendo fascistas ou aparentados, lhes fazem o jogo são isso mesmo: politicamente tontos. Tontos, ainda que alguns se possam imaginar verdadeiros “zorros” do século XXI.

Só não compreendo o que faz ao lado de toda essa tropa fandanga tanta gente identificada com as oposições de esquerda, que parecendo deixar-se absorver totalmente pela alergia a Sócrates, esquece tudo o que, em profundidade, se move no contexto social actual e a fragilidade da democracia que usam, sem verdadeiramente com ela se preocuparem. E esquecem que se a direita musculada conquistar o poder com a democracia entre parêntesis, não os irá recompensar pela ajuda que lhe deram.

Portanto, não esqueçam que os riscos que nos esperam não se reduzem a essa dança de algarismos soturnos com que nos assombram todos os dias. Embora ainda distante, espero eu, há também o fantasma sempre latente dos regimes autoritários que “suasticamente” sonham com um país de súbditos, silenciosos e tristes. Tomem atenção quando gritarem que vem aí o lobo com a energia descuidada de quem tem a certeza do contrário, porque os lobos ainda existem e podem querer voltar.

Por tudo o que atrás escrevi, na minha opinião, as oposições de direita precisam de aprender que o seu modo de serem oposição faz parte das condições que a si próprias criarão para quando forem poder. As oposições de esquerda precisam de saber que o seu modo de ser oposição a um governo do PS pode marcar por muito tempo a facilidade ou a dificuldade com que poderão cooperar em todas as instâncias e circunstâncias com os apoiantes e eleitores do PS.

E o PS precisa de perceber que é imprescindível robustecer-se (robustecer-se mesmo!), já que o combate que tem pela frente é exigente e prolongado. Com ele misturam-se novos desafios colocados pela marcha do tempo. Por isso, quem se deixar amodorrar nas rotinas de hoje está a aproximar-se perigosamente do desastre ou da irrelevância.

Contracapa da Vértice - 23


Vértice nº 200- Maio de 1960


"O povo deve combater pela sua lei como pelas suas muralhas "

HERACLITO

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Governo de Jornalistas


Aqui vai, com autorização sua, mais uma crónica do J.L.Pio Abreu, publicada como mais um afloramento do seu Estranho Quotidiano, que desta vez assumiu, no Destak de 25/2/2010, o rosto de uma proposta muito peculiar, um

Governo de jornalistas.


Depois do que tem acontecido, dei por mim a pensar no que seria um governo de jornalistas. Os governantes seriam conhecidos, quase íntimos, já que nos entram todos os dias pela casa dentro. O contacto diário com os cidadãos permitiria explicar e fazer aceitar as suas políticas. Nem teriam oposição, pois esta só poderia transmitir as suas mensagens através dos jornalistas, ou seja, através do governo.

Dir-se-á que os jornalistas são plurais nas suas opiniões e, por isso, não formariam um governo homogéneo. Mas o que se vê é que facilmente se põem de acordo uns com os outros. Defendem acima de tudo a liberdade de dizer o que lhes apetece sobre quem quiserem, um direito que lhes assegura a eficácia, pois qualquer opositor se pode transformar em bode expiatório.

Um governo de jornalistas podia poupar recursos. Trataria da saúde pela televisão, como se fez com as epidemias de gripe, e faria uma telescola que dispensasse os professores. O pesado e dispendioso aparelho de justiça seria substituído pelos julgamentos públicos sumários. Teriam apenas de manter polícias que fizessem escutas e outras invasões da privacidade, e talvez uns magistrados que escrevessem obras de ficção com impacto popular.

Um governo de jornalistas só teria um problema. Como eles não fazem auto-crítica, não diriam mal do governo, arriscando-se a ficar sem audiência. Sem audiência não teriam emprego e, portanto, não haveria jornalistas para formar governo. Ou seja: um governo de jornalistas tornaria impossível a existência de um governo de jornalistas.

[J. L. Pio Abreu]

Contracapa da Vértice - 22




Vértice nº 312- Janeiro de 1970



"A razão quer decidir o que é justo, a violência que seja justo o que decidiu."


SÉNECA

O neoliberalismo e os seus efeitos


Recebi do Júlio Mota o texto que abaixo transcrevo. Informa-nos sobre mais uma etapa da notável sucessão de iniciativas que, ele próprio a Margarida Antunes e o Luís Peres Lopes, têm levado a cabo nos anos mais recentes. Mas se os méritos dessas realizações se impõem objectivamente, sem sequer precisarem já de ser mencionados,não devemos desconsiderar o texto transcrito em si próprio. De facto, para além de contextualizar e de mostrar o sentido desta nova sessão do Ciclo Integrado de Cinema, Debates e Colóquios na FEUC, ele vale por si como um contributo crítico que merece ser lido com toda a atenção. O tema do ciclo deste ano é Economia Global e os Muros da Repartição do Rendimento. Esta sessão terá como tema específico A União Europeia, os Muros da Repartição e a Exclusão Social e como seu suporte o filme 93.

Apenas uma observação. Compreendendo o contexto circunstancial e aceitando como legítima a via seguida, penso que é cada vez mais urgente ir um pouco mais longe ou ser-se um pouco mais explícito, assumindo a complexidade acrescida daí resultante. De facto, diz-se no texto : "Neoliberalismo ou social-democracia, o debate está aberto e é neste debate que se irão situar estas conferências. As duas vias são objectivamente opostas, produzem efeitos sensivelmente diferentes, conforme o “equilíbrio” encontrado opere a favor da primeira ou da segunda destas duas vias". Não contesto, mas gostaria de ver este contraponto integrado num outro mais fundo: capitalismo ou socialismo. Sem excluir uma outra forma de exprimir esta última dicotomia: como aumentar as probabilidades de que o pós-capitalismo se inscreva num horizonte socialista ?
Mas vamos ao que interessa o texto a que me tenho estado a referir:

" O grupo de docentes da FEUC dinamizador e organizador (com a colaboração dos estudantes do Núcleo de Estudantes de Economia da FEUC) do Ciclo Integrado de Cinema, Debates e Colóquios na FEUC vem com a presente dar a conhecer a realização da sexta sessão do Ciclo do presente ano, a decorrer sob o tema Economia Global e os Muros da Repartição do Rendimento, e que se realizará a 2 de Março.
A sexta sessão do Ciclo Integrado de Cinema, Debates e Colóquios na FEUC é a iniciativa da Faculdade de Economia incluída na XII semana cultural da Universidade de Coimbra.
Esta sessão terá como tema específico A União Europeia, os Muros da Repartição e a Exclusão Social e como seu suporte o filme 93: Memória de um território, de Yamina Benguigui. Este filme será comentado por Sami Naïr, Joachim Becker, Carlos Fortuna e António Gama.
O documentário 93: Memória de um território é um pouco a história do departamento de Seine-Saint-Denis que se tornou, com o tempo, o sismógrafo das tensões sociais em França.
Fala-nos de uma história que vem de bem longe, uma história que põe em evidência a inépcia das decisões políticas que conduziram ao acantonamento de populações inteiras em verdadeiros guetos, a uma urbanização desumana concebida em termos de minimização de custos, a uma desindustrialização mal gerida que deixou ao completo abandono uma mão-de-obra pouco ou nada qualificada e os solos ultra-poluídos. Uma história que traça e regista erros de algum capitalismo apressado dos Trinta Gloriosos anos numa região industrial de referência em França, o Departamento 93, como as cidades construídas à pressa, as cidades dormitórios, as cidades guetos, as cidades de bairros pobres e mais tarde os bairros degradados.
A esta história somam-se as consequências económicas e sociais geradas pela dinâmica brutal das desigualdades em que assentou o neoliberalismo destes últimos 30 anos. É assim uma história baseada também na criação relativamente recente de desemprego em massa, de precariedade e de pobreza, e é assim a história da erosão do Estado Providência, temas estes que serão também o suporte do caderno de textos de apoio organizado para esta sessão.
O preço dessa erosão tornou-se evidente, de facto, já no fim do século XX e início do século XXI, com as violências urbanas na Inglaterra, em França, nos Estados Unidos, a expressarem o facto de os direitos sociais já serem claramente insuficientes para integrar cada homem numa sociedade onde a ideia de pertença social passa pela aptidão às conexões sociais, às solidariedades locais e nacionais, se não mesmo também globais. Dessas violências urbanas nos fala o filme, procurando dar-nos a lógica subjacente do descontentamento que elsa revelavam, mas estas violências, rapidamente estancadas, ninguém, ao nível das classes dominantes as quis ver e reparar. Em vez disso, estas classes dominantes trataram sim de dispor ao máximo de um capital social alargado e mostraram ser habilmente capazes de restringir os benefícios da sua utilização como vantagens para eles próprios, com consequência bem expressas na crise que estamos a atravessar.
Pode então estender-se que a resposta à crise actual passará, terá que passar, pela extensão generalizada da riqueza criada à parte “merecedora”, àqueles que dela têm sido sistematicamente excluídos. Ou melhor, trata-se de lhes voltar a dar de novo os meios de uma dinâmica económica e social, de trabalho, de pertença, de partilha. Trata-se de recriar sociedades entretanto desfiguradas. E este é um dos grandes desafios que as forças políticas, em particular as progressistas, terão que saber assumir nos próximos anos ou mesmo décadas e é desses desafios que os nossos conferencistas nos virão falar:
É destas histórias do capitalismo, é desses conflitos e destes desafios, é desta União Europeia que simultaneamente gera milhões de pobres e uma nova classe de assalariados, o precariato, que nos falará Sami Naïr, enquanto Joachim Becker nos falará da Europa de Leste, a quem nem o capitalismo lhes deram, e dos desafios que esta e a União Europeia enfrentam em conjunto.
Neoliberalismo ou social-democracia, o debate está aberto e é neste debate que se irão situar estas conferências. As duas vias são objectivamente opostas, produzem efeitos sensivelmente diferentes, conforme o “equilíbrio” encontrado opere a favor da primeira ou da segunda destas duas vias. No primeiro caso, os raros beneficiários, os utilizadores do capital social-,as multinacionais, os hedge funds, as sociedades de investimentos, bancos de investimento, bancos conmerciais, grandes negociantes de matérias primas e especuladores destes e de todos os outros mercados- não são passíveis de denúncia pelos outros, pelos excluídos na partilha do excedente económico que eles próprios criaram, e porque os maus resultados de cada um destes últimos são ideologicamente considerados não o resultado de más escolhas sociais ou colectivas, mas sim das suas decisões próprias e individuais de quem deve saber assumir o preço da liberdade que os mercados lhes conferem. Enquanto, no segundo caso os ganhos aparecem como a recompensa de um esforço partilhado para ultrapassar as fracturas da sociedade globalizada.
Não é assim que se perpetua, ao longo dos tempos, a distinção entre a desregulação dos mercados e a coordenação dos mercados, cada um com o seu “tempo” de acção e de gestão , onde o Estado deve aparecer afinal, como o senhor dos relógios,o relojoeiro, quem os afina para que no final tenhamos todos direito às mesmas horas? E este debate na sua matriz económica e social está também ele inscrito nesta sexta sessão, para a qual contamos com a vossa presença e solicitamos a sua divulgação.

Programa

Sessão 6: Os Muros da Repartição no Interior da União Europeia e os Mecanismos de Exclusão Social

2 de Março, 2010

Hora: 15 h
Local: Sala Keynes, Faculdade de Economia da Universidade Coimbra

Conferências:
Sami Naïr (Conselheiro de Estado em Serviço Extraordinário, Professor de Ciências Políticas na Universidade Paris VIII e Professor-Investigador Convidado da Universidade Pablo de Olavide de Sevilha).

Joachim Becker (Instituto para a Economia Internacional e Desenvolvimento, Universidade de Viena de Economia e Gestão)

Comentários de
Carlos Fortuna (FEUC/CES)
António Gama (FLUC)

Debate

Hora: 21 h 15 min
Local: Teatro Académico de Gil Vicente

Documentário
93, Memória de um território, Yamina Benguigui, 2008, França.

Comentários e debate:
Sami Naïr
Joachim Becker
Carlos Fortuna
António Gama. "

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Contracapa da Vértice - 21


Vértice- nº78 - Fevereiro de 1950

"O equilíbrio intelectual reside na subordinação do subjectivo ao objectivo."

COMTE

Contracapa da Vértice - 20


Vértice nº 361 - Fevereiro de 1974


"Nós gritámos Liberdade!, mas ao pronunciar esta palavra, dávamos-lhe sentidos diferentes. Para uns, era a liberdade de dispor livremente da sua pessoa e do produto do seu trabalho. Para outros, era o direito de dispor dos homens e do produto do seu trabalho."

ABRAHAM LINCOLN

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Contracapa da Vértice - 19


Vértice nº318 - Julho de 1970


"Os homens aprendem enquanto ensinam."


SÉNECA

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Contracapa da Vértice - 18


Vértice nº285 - Junho de 1967

"Que nunca Zeus, que tudo governa, oponha o seu mundo ao meu pensamento."

ÉSQUILO
(Prometeu Agrilhoado)

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Contracapa da Vértice - 17


Vértice nº358-359

- Novembro/Dezembro de 1972

"Não se tira qualquer proveito senão à custa de outrem"

[ Montaigne, Essais I, cap.21]

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Contracapa da Vértice - 16


Vértice nº314 - Março de 1970


"Aquele que não sabe e não sabe que não sabe, é um néscio - foge dele;

Aquele não sabe e sabe que não sabe, é simples - ensina-o;

Aquele que sabe e não sabe que sabe, está a dormir - acorda-o;

Aquele que sabe e sabe que sabe, é sábio - segue-o.


Aforismo Árabe

Rumos da esquerda brasileira


O Partido dos Trabalhadores (PT) acaba de escolher como sua candidata às próximas eleições presidenciais no Brasil, Dilma Roussef, a preferida do Presidente Lula, cuja Casa Civil, aliás, actualmente chefia. Cargo esse que, pelas funções que implica, se aproxima do que é em Portugal o primeiro-ministro, pesem embora as apreciáveis diferenças, induzidas pelas diferenças constitucionais, entre os protagonismos presidenciais no plano da governação no Brasil e em Portugal. Está ainda por resolver quem será o vice-presidente na chapa de Dilma, embora pareça provável que seja alguém indicado pelo PMDB, talvez o seu presidente Michel Temer. Mas também não é certo que não surja um outro candidato: Ciro Gomes, deputado do Partido Socialista Brasileiro, que já foi ministro de Lual e pertence actualmente á coligação que o apoia.

Esta breve instrodução serve para contextualizar a entrevista, que a seguir se transcreve, retirada do importante jornal brasileiro "Folha de S. Paulo". O entrevistado é o politólogo brasileiro André Singer que já foi porta-voz do presidente Lula e que é filho do grande teórico da economia solidária Paul Singer, ele peóprio membro do actual governo de Lula.

A abrir a entrevista assinada pela jornalista Ana Flor , começa por se dizer que um "cientista político defende que partido do presidente Lula oriente suas alianças pelo programa, não pelo pragmatismo", Afirma-se depois que :" ex-porta-voz da Presidência diz poder haver convergência entre adeptos do "lulismo" -base social que elegeu o petista em 2006- e o PT."

E prossegue-se nos seguites termos:" Num momento em que a simples menção ao PMDB no documento petista sobre políticas de alianças provocou intenso debate no congresso do partido que terminou ontem -e que resolveu não citar a sigla como principal aliada na campanha-, o cientista político André Singer vai além: defende que o PT tenha coragem de dizer "não" ao PMDB. Singer, que foi secretário de Imprensa e porta-voz da Presidência no primeiro mandato de Lula, afirma que o "baixo teor programático do PMDB é danoso para o sistema partidário brasileiro" e que o PT ganharia mais se desse preferência a uma aliança com o PSB. "

FOLHA - O PT ainda é um partido de massas e de trabalhadores?

ANDRÉ SINGER - Continua sendo, mas já com as mudanças que eram previsíveis, de acordo com a trajetória dos grandes partidos socialistas das democracias ocidentais. O PT teve uma trajetória de sucesso eleitoral relativamente rápida. Isso faz com que o peso no partido dos que têm mandato comece a crescer. Essa trajetória faz com que o grau de participação, a chamada militância, vá diminuindo ao longo do tempo. Não é mais a militância da primeira década.

FOLHA - O que fez a influência de Lula crescer tanto no partido?

SINGER -O principal fator é o que eu tenho chamado de lulismo. É um fenômeno novo. Não é o resultado, ao meu ver, de um realinhamento eleitoral. A base social que elegeu Lula em 2006 é diferente da que o elegeu em 2002. Essa nova base social são os eleitores de baixíssima renda, foram o resultado de políticas de governo do primeiro mandato. Esse primeiro mandato significou uma mudança tão importante na estrutura eleitoral do país que deu ao presidente uma base que é relativamente autônoma do partido.

FOLHA - É uma base diferente daquela que sustenta o PT?

SINGER - O PT tem uma base eleitoral ampla, mas é uma base historicamente de classe média. O lulismo trouxe essa novidade de estar ancorado nessa base de baixo. Isso faz com que a adesão seja mais a uma figura que tem grande visibilidade do que a uma instituição, a um partido. Eu acho que é possível que haja uma convergência entre essa base social e o PT.

FOLHA - Se essa adesão ao projeto se confirmar, garantiria, então, a eleição da escolhida do presidente?

SINGER - É a minha percepção. É mais uma adesão de projeto do que carismática.
FOLHA - Quais os efeitos, para o PT, de uma aliança com o PMDB?

SINGER - O PMDB tem se caracterizado por ser um partido de baixo teor programático, o que é danoso para o sistema partidário brasileiro. Faz com que a política fique parecendo algo que diz respeito aos interesses dos políticos.

FOLHA - Então é ruim para o PT?
SINGER - A opção preferencial pelo PMDB fortalece esse aspecto negativo. Ela é compreensível do ponto de vista pragmático. Na minha opinião, o PT deveria arcar com um certo risco de procurar primeiro os partidos que estão mais próximos a ele no campo de esquerda e de centro-esquerda. No caso, o PSB, que tem como pré-candidato Ciro Gomes. O PSB ainda é um partido ideologicamente mais próximo do PT. Eu também poderia me referir ao PDT, ao PC do B. O PT deveria retomar uma prática de que suas alianças fossem orientadas pelo programa.

FOLHA - O PT decidiu não correr o risco por ter uma candidata eleitoralmente fraca?
SINGER - Eu acho que o problema é de outra natureza. Acho que o pragmatismo é uma força extraordinária em partidos eleitorais. Todo partido tende a ser fortemente pragmático.

FOLHA - Mas se o candidato fosse alguém mais conhecido do eleitor, seria diferente?

SINGER - Eu não sei. Uma vez estabelecidos os critérios pragmáticos, como o tempo na TV e essa relativa capilaridade eleitoral [do PMDB], sempre será um elemento fortemente levado em consideração. O que está em jogo é pragmatismo versus opção programática.
FOLHA - O fato de Lula ter escolhido a candidata enfraquece o PT?

SINGER - Essa é uma condição que está relacionada com a grande influência de uma liderança carismática, que tem os votos. Sem dúvida, ela significa que o partido é fortemente influenciado por essa liderança.

FOLHA - O lulismo pode engolir o PT?

SINGER - A questão se vai haver essa convergência ou não vai depender de em que medida esses eleitores que a meu ver aderiram ao lulismo irão pouco a pouco votar no PT. Nas eleições de 2006 os estudos mostram que isso não aconteceu. A base social do PT continua sendo a base social tradicional, mais forte no Sudeste e no Sul do que no interior do Norte e Nordeste. Dá para ver essa diferença entre lulismo e petismo.
[André Singrer, Lula e Celso Amorim]

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Contracapa da Vértice - 15

Vértice nº209
- Fevereiro de 1961





"Outros vejo por aí,

A que se acha mal o fundo,

Que andem emendando o mundo

E não se emendem a si."


CAMÕES

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

O suave caudilho


Os indícios de ontem não me enganaram. Acabo de ouvir na rádio palavras do candidato presidencial Fernando Nobre. Palavras destacadas pelo critério jornalístico da estação.

Lá disse o médico internacional que estava para lá do centro, da esquerda ou da direita, uma vez que valorizava a cidadania. Como se houvesse uma valorização genérica da cidadania que transcendesse a dicotomia esquerda/direita. Como se a esquerda e a direita valorizassem a cidadania nos mesmos termos. Na verdade, também neste caso me parece operativo o velho critério prático: quando alguém diz que não é de esquerda nem de direita, mostra que estamos perante alguém que sendo direita disfarça por manha o sentido das suas opções. Aliás, Nobre cortou a própria relevância de um centro ao recusar sequer admitir-se como tal.

Mas ou a sua argúcia política é limitada; ou então terá pensado à pressa. De facto, os extractos do seu discurso que a rádio difundiu, mostram com clareza um discurso anti-partidos, disfarçado pela habilidade de dizer que não é contra os partidos , é contra o sufoco partidário. De facto, quem assim se pronuncia está a dizer que a nossa democracia está sufocada pelos partidos, o que não sendo seguramente de esquerda está longe de espelhar as posições da própria da direita democrática. Se alguma coisa nos faz lembrar é uma deriva populista, de um populismo talvez suave, mas que, pelo facto de o poder ser, não deixa de ser populismo.

Noticiaram jornais de hoje que entre os mais entusiastas promotores desta candidatura estavam ex-apoiantes de Alegre que se afastaram dele pelo facto de não ter querido fundar um novo partido, a partir da sua primeira candidatura. Esses estranhos personagens , ontem auto-identificados como artefactos puros de uma esquerda sem mácula, absorvidos pelo paroxismo de uma radicalidade transviada desaguaram rapidamente num caldeirão difuso que, podendo vir a ser várias coisas, não terá decerto nada a ver com a esquerda, com qualquer das esquerdas. E, não sendo a lógica uma batata, se esses radicais se zangaram com Alegre, por ele não ter criado um novo partido e aparecem agora apoiando Nobre, isso parece significar que lhes foi prometido que a nova candidatura presidencial poderá vir a gerar um novo partido político.

Não bastava pois este “poujadismo” à portuguesa, este “qualunquismo” do século XXI, como marcas infelizes de uma iniciativa. Paira agora também sobre ela a hipótese de estarmos perante uma tentativa de aproveitar uma candidatura presidencial para constituir um partido populista.

Os excitados políticos


Há extremismos políticos que são autenticamente isso mesmo, extremismos de ambos os lados do espectro. São clássicos e em regra previsíveis.

Mas há também a volátil família dos excitados políticos que se exacerbam facilmente por questões limitadas mesmo que relevantes. Confundem impulsos de ocasião com opções de fundo e podem dispor-se a combater hoje o que incensaram ontem.

O perfume de radicalidade que, ás vezes, julgam exalar, é realmente o odor doentio de um simples umbiguismo político, que confunde com valores e ideias universais os seus pequenos e estéreis desesperos pela imperfeição do mundo.

Hoje, podem julgar que o coração lhes bate incondicionalmente à esquerda, amanhã podem descobrir que já não há direita nem esquerda e, se a vertigem político-mediática os abalar mais profundamente, podem mesmo descobrir-se aguadeiros daquilo que antes julgavam combater.

Quando são poucos, limitam-se a contribuir para o colorido da cena política. Se forem alguns , podem chegar a ser detonadores de explosões que em muito os ultrapassam. Sempre em nome de seráficas generosidades, embrulhadas nas palavras mais limpas da história da humanidade, mas completamente cegas quanto aos efeitos políticos que podem produzir.

Por isso, não é prudente menosprezar o perigo que pode transpirar dos excitados políticos, por mais ortorrômbico que seja o resultado da sua excitação. Quase sempre são fogos–fátuos, mas em momentos especiais e inesperados podem ser detonadores de evitáveis desastres.

Contracapa da Vértice -14

Vértice nº 329 - Junho de 1971

"Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem".

BRECHT

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Ainda o candidato catavento


Foram vários os comentários ao texto que difundi no Grande Zoo sobre o novo candidato presidencial Fernando Nobre. Aí, baseando-me na diversidade de posições políticas que ele assumiu nos últimos anos, qualifiquei-o como candidato catavento. Sem procurar responder a todas as reacções, vou falar um pouco mais dessa candidatura, tentando tornar mais claro o que penso dela.

Não faria sentido questionar a legitimidade de qualquer cidadão se apresentar como candidato presidencial, muito menos se esse cidadão é uma figura pública, cuja notoriedade se deve a um tipo de actividade, em si, dignificante.

Não sendo conhecido o perfil político-ideológico da candidatura, é claro que ele pode levar-me a atenuar a distância que me separa dela ou a aumentá-la; mas nunca votarei num candidato, que projecta uma atitude e uma mundividência, situados longe do povo de esquerda.

Porém, o que é iniludível é o modo errático como o candidato tem interagido com a esfera politico-partidária, nos anos mais recentes, mesmo que em benefício dos apoiados . De facto, saltar em poucos anos do PSD, para o PS, depois para o BE, e logo depois e ao mesmo tempo, para o PS e para o PSD, concentrar, em poucos meses, a qualidade de mandatário nacional do BE, bem como a de apoiante, em concelhos vizinhos, de candidaturas autárquicas do PS e do PSD, não é sintoma de coerência, nem indício de autenticidade.

Aliás, a sua ubiquidade política foi tão intensa, em tão pouco tempo, que, agora que sabemos ter sido protagonizada, por alguém que já então sabia que viria a ser candidato presidencial, é legítimo pensarmos que, no fundo, não foram os seus apoiados que se aproveitaram do seu apoio. Pelo contrário, foi Fernando Nobre que, ao publicitar premeditadamente apoios diversificados, estava a procurar preparar o terreno para uma candidatura presidencial. Uma candidatura que ficasse com a possibilidade de lançar pontes para vários lados. A imagem do cidadão angélico, acima de toda a suspeita, fica assim algo embaciada. Afinal, eis mais um político matreiro, parecido com os que frequentam os tais partidos de que ele tanto quer parecer distante.

Por isso, é um equívoco discutir-se se vem dividir o eleitorado do PS, ou se é um candidato para unir toda a esquerda, ou é, simplesmente, um candidato do fantasma do soarismo.
Como o ouvi dizer a um repórter televisivo, Fernando Nobre é um candidato cidadão, que só reconhece, como seu, esse "pilar". Isto é, que protagoniza uma cidadania que quer apagar as diferenças entre esquerda e direita, através de uma espécie de neo-franciscanismo induzido, que salvaria o país pelo exemplo de um “presidente-santo”.

Não sei que adereços programáticos usará para evitar uma excessiva exposição do essencial da sua candidatura, mas a sua matriz identificadora é um providencialismo, tecido de uma solidariedade subtilmente ostentada, de modo a sensibilizar um eleitorado cansado de sofrimento, que só por equívoco não vota à esquerda.

Por isso mesmo, se a candidatura de Fernando Nobre for encarada , não por aquilo que ela quer fazer-nos crer que é, mas por aquilo que no essencial ela realmente é, facilmente vemos que é a Cavaco que ela mais directamente disputa espaço. Se isso acontece no quadro de uma qualquer concertação entre ambos, ou se visa competir com ele é o que havemos de ver.
Mas, seguramente, que é uma candidatura para concorrer na 1ª volta com Cavaco e não com Alegre.

Contracapa da Vértice - 13


Vértice nº 208 - Janeiro de 1961


"Um anão no cimo de uma montanha, nem por isso é maior."

Seneca

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

O candidato catavento


No site de um semanário de grande circulação acabo de ler que Fernando Nobre, médico, Presidente da AMI e pai de quatro filhos, vai ser candidato a Presidente da República.

Adianta, entretanto, o essencial do seu currículo político:

1. participou na Convenção do PSD, em 2002;
2. foi membro da Comissão de Honra e da Comissão Política da candidatura de Mário Soares à Presidência da República, em 2006;
3. nas últimas eleições para o Parlamento Europeu, em Junho de 2009, foi mandatário nacional para a campanha do Bloco de Esquerda;
4. ainda em 2009, foi membro da Comissão de Honra da candidatura de António Capucho à presidência da Autarquia de Cascais, em 2009.

Em termos políticos, isto não é um candidato, é um catavento!