quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

O sabor dos ruídos


Um sujeito calvo e anafado, alegadamente advogado de longa duração, está sentado confortavelmente, perante o Sr. Crespo.

Crespo, melífluo, pergunta, como se incendiasse gasolina. O homem explode no primeiro-ministro, não deixando pedra sobre pedra.

Mas continua, como justiceiro, saído de algum zorro ignorado. Nada lhe escapa. Ensino, professores, toda a polícia , juízes, magistrados, jornais, e, pasme-se, até advogados. Num meio sorriso sorrelfo, mas contido, o próprio Crespo deixa sussurrar-se que talvez seja a mais, um pouco a mais.

Mas o sujeito vai à desfilada. Os netos aprendem inglês, Portugal está preso por um fio. E, finalmente, mostra de onde veio, citando os velhos tempos que eram bons. Bons tempos esses do antigamente, bem arrumados e com juizinho. Era rapaz novo e respirava . Eram tempos de esperança, tempos lisos. E Crespo ali ficou, muito sereno, enquanto se polia o "estado novo" e se mordia abril surdamente.

E não pude evitar mais um excremento: "Vai realmente mal este país. Não se pode falar, não se pode falar. Ressuscitem o bom do salazar."

Contracapa da Vértice - 6


Vértice - nº 81 - Maio de 1950

"Assim está feito o mundo; dos erros passados e só deles, nascem os acertos".

Mousinho da Silveira

Relatório da lei de 16-5-32

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Pernóstico coelho da cartola


Pernóstico voltou todo rangel. Quer caçar um coelho foragido de uma velha cartola que uns senhores não acham totalmente adequada.

Pernóstico, contudo, já trazia, uma ligeira mossa: antes dissera, com jura e garantia, que com ele, mandatos iam sempre até ao fim. Pernóstico pensou, pensou, pensou. Que mentira diria ser verdade?

E disse: “foi a zelosa mão da consciência que me trouxe de regresso até Lisboa”.

“Porquê”, iriam perguntar.

Respondeu fulminante: “é grave, muito grave, gravíssimo, o estado do país”.

"E quem pode salvá-lo?"

“Pernóstico Rangel, um seu criado.”

Chegou então rompendo a sua boca o tão antigo S de servir. Servir, servir, servir, é sua condição.

Na toca, o coelho estremeceu, por tão furioso e novo caçador.

Estarreceu-se também um ex-ministro, pálido e branco da mais pura raiva. Dissera que sim esse rangel. Também ele diria só depois.

Mas afinal, em ronha, falou antes. E da distante Europa regressado, foi lesto no manejo do punhal. Foi hoje um terramoto desabado. Vai agora cansar-se, a pouco a pouco, até ser um bocejo de si próprio.

Pernósticos e pálidos, coelhos, entre tudo de novo na cartola. E agora só se sai de dentro dela, engomado de luxo, em paletó, gravata firme, sem nenhum desleixo e duros cercos num pescoço só.

Na rua, no entanto, a vizinhança há-de dizer com muita bonomia: "se crescerem realmente um pouco mais, hão-de ir longe os meninos, hão-de ir longe". E é, por isso, que vos venho dizer: está perigosa , a coisa está perigosa..

Contracapa da Vértice - 5


Vértice - nº 60 - Agosto de 1948

"Os fins e os meios estão de tal maneira relacionados , que a alteração de uns obriga à mudança dos outros; cada caminho novo conduz à descoberta de novos fins."
Lassale

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Marcha breve



Têm-se acumulado vozes dentro das várias oposições que, em termos mais ou menos claros, preconizam a demissão do Governo. Numa estranha aliança, cujo modo de se exprimir enlameia muitos dos que nela participam, embora reflicta também o lixo que outros são, vociferam de mão dada na praça pública, esquecidos do respeito que devem a si próprios e dos valores que se julgaria partilharem.

Mas apesar de tudo, espanta-me um tal ruído, pois não passa afinal de um esforço inútil.
De facto, bastaria uma simples, cordata e prosaica moção de censura, apresentada na Assembleia da República pelos partidos cujos representantes se têm sucedido nessas catilinárias veementes contra o Governo, para que Sócrates, o Governo e o PS deixem de ser um problema para eles.

Na verdade, os implacáveis atiradores de lama estão em maioria. Podem, portanto, sem custo formar democraticamente um governo só deles em que mutuamente se possam deleitar com as amplas liberdades com que certamente se presentearão.

No entanto, se o não fizerem, ficam prisioneiros de um incontornável dilema: ou são inconsequentes, por não terem a coragem política necessária para porem em prática aquilo que sustentam; ou são irresponsáveis, já que se metem em caminhos que não podem percorrer.

A não ser que os soldados das oposições parlamentares se tenham deixado envolver pela tropa fandanga dos tecnocratas chiques, numa tempestade gratuita de ruídos sem nexo. Sem nexo e sem sentido, mas com o resultado provável de fazer afundar ainda mais a economia portuguesa. Alguém ganha com isso. Quem puxa os cordelinhos ?

As ovelhas, a raposa e os lobos


Um generoso e simpático rebanho de pacatas ovelhinhas da mais pura esquerda, resolveu manifestar-se contra a alegada matreirice e perigosidade de uma raposa socialista.


Um coro de estonteantes sereias os terá providencialmente acordado para o imperativo profundo dessa imprescindível resistência.


Uma primeira dúvida me assalta, no entanto: serão mesmo sereias ?


Mas confesso uma perplexidade ainda mais funda: se pretendem resistir ao perigo de uma raposa, por que razão se misturam com uma tão grande quantidade de lobos, desses pesados e históricos lobos da direita de sempre, desses lobos subtis em peles de cordeiro?

As hienas de "rating"


As hienas de "rating" uivam nomes de países. Arrepiados, os cientistas neoliberais, dizendo gravemente de sua justiça, mandam ainda mais apertar os cintos, carecidos há muito de buracos no paroxismo de apertos a que a generosidade dos sacrificados capitalistas os tem condenado.

Mas estas hienas têm donos que, lambusadamente, colhem depois os doces frutos das desgraças que cientificamente inventaram. E os números das suas contas vão subindo no segredo dos bancos.

Dentro dos lugares que estão por dentro dos nomes uivados, uma matilha cinzenta e circunspecta distribui culpas pelas vítimas, com o máximo rigor.

Os senhores das hienas agradecem.

Contracapa da Vértice - 4

Vértice - nº 54 -Fevereiro de 1948

"O fim de toda a cultura humana consiste em compreender a humanidade."

Eça

Descaradontes, pássaros loucos e comichões

Vi.

Um deputado do PSD num tempo de antena disfarçado de programa de autor, na estação televisiva de que é accionista principal um fundador do PSD, mistura insinuações e factos não provados, indícios e boatos, mistura-os num ataque desembainhado contra o primeiro-ministro e secretário-geral do PS. Imaginando ser verdadeira a fantasia suja que ele próprio, acaba de tecer, troveja contra os malefícios que assim têm sido causados à liberdade de imprensa em Portugal, pelo PS.

Não fico indignado. Fico enjoado. Esta direita perdeu o sentido dos limites. Acalmo-me : o que é ela senão isso mesmo? É essa a sua função, é essa a sua natureza.

E quanto à esquerda que aplaude estes números? Não me indigna, porque me parece, na verdade, ora estrategicamente ingénua, ora tacticamente tonta. Mas se não chega a indignar-me, deixa-me alarmado.
E quanto aos meus camaradas com visibilidade PS que deslizam para tapete, miando qualquer coisa de ambíguo sobre a confusão?


Não chego a enxotá-los. Mas mereciam...

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Jonas, o copromanta

Patrícia Melo, escritora brasileira actual que leio sempre com interesse, é a autora de um romance recentemente publicado, no Brasil e em Portugal, que ostenta o inusitado título de “Jonas, o Copromanta”.

Procurei, no dicionário de português de Cândido de Figueiredo, o significado de tão estranha palavra. Em vão, não consta. Pesquisei palavras próximas: coprologia, coprofagia.
Coprofagia – hábito de se alimentar de excrementos; aberração que leva a ingerir excrementos.
E mencionam-se depois: coprófago e coprofagia, como palavras próximas.
Coprologia – estudo das matérias fecais (do grego – kopros + logos).
E mencionam-se também: coprologia e coprológico.

Estamos, pois, perante um complexo vocabular pouco aprazível.

Os leitores de Rubem Fonseca talvez ainda se recordem do primeiro conto da colectânea “Secreções, excreções e desatinos [Companhia das letras, 2001], cujo título é precisamente Copromancia”. E dando-se ao trabalho de folhear o livro encontrarão este significativo começo, para esse conto: “Por que Deus, o criador de tudo o que existe no Universo, ao dar existência ao ser humano, ao tirá-lo do nada, destinou-o a defecar? Teria Deus, ao atribuir-nos essa irrevogável função de transformar em merda tudo o que comemos, revelado a sua incapacidade de criar um ser perfeito? Ou sua vontade era essa, fazer-nos assim toscos? Ergo, a merda?”

O sentido desta referência é o de dar sinal de uma homenagem peculiar prestada por Patrícia Melo a Rubem Fonseca, escritor que consabidamente ela muito admira. De facto, o romance “Jonas, o Copromanta é uma verdadeira homenagem ao mencionado escritor brasileiro. Homenagem peculiar, uma vez que Rubem Fonseca é uma das personagens do romance, no qual entra precisamente como autor do conto referido, uma vez que o personagem central do romance de Patrícia Melo, Jonas entende que Rubem o plagiou.

De facto, o romance em causa começa precisamente com Jonas a dizer-nos:

“Aquilo não podia ser real.
Fechei o livro com a sensação de que algo sinistro estava acontecendo. Sei que é comum casos da vida imitando a arte e vice-versa, mas não de forma tão escabrosa. EU era o personagem central daquele conto, um eu esquisito, disfarçado, com outro nome, mas ainda assim eu, euzinho da silva, me reconheci com a maior facilidade naquelas páginas, perscrutando diariamente minhas fezes, intrigado com o possível significado das estranhas e múltiplas formas fecais boiando no vaso sanitário. Quem mais no mundo, além de mim, possuía um caderno de excrementos?”


E mais adiante Jonas procura avaliar os méritos de um de outro:

Excetuando o neologismo copromancia, nada traz de novo. Tudo no conto comprova o plágio. Mas devo admitir que o termo copromancia é bem superior ao meu neologismo djetosofia ( substantivo masculino, do latim dejectus, de dejectum +sofia, saber em grego), e por isso adotei-o sem nenhum cosntrangimento. Afinal, se o escritor roubou minha arte, por que eu não poderia surripiar-lhe uma simples palavra?”

Jonas irá sendo apanhado pela teia dessa sua obsessão: o plágio de Rubem Fonseca. Teia que se vai desenvolvendo através daquilo que Patrícia Melo construi como um empenhamento normal e corrente: a copromancia.

Aliás, a autora dá-se ao trabalho de polvilhar o texto com múltiplas ilustrações das formas assumidas pelas fezes de Jonas, formas através de cuja interpretação ele pratica a sua adivinhação do futuro.

Jonas, funcionário da biblioteca que Rubem Fonseca frequenta, vai-se entrelaçando com duas das suas colegas, até acabar parceiro de uma terceira mulher, ela também dada a artes de adivinhação e aberta até a partilhar com ele o seu estranho entusiasmo premonitório.

Jonas, feiticeiro desse novo esoterismo, vai deslizando para um quotidiano cada vez menos parecido com o plano pulsar dos dias que vinha sendo a sua vida e a dos outros parceiros de romance, sendo certo que o próprio Rubem Fonseca é esvaziado de qualquer colorido particular, funcionando afinal como pouco mais do que pólo da obsessão de Jonas.
É como se Patrícia Melo adoptasse uma atitude de plena naturalidade para lidar com o estranho, com o inusitado, funcionando Rubem Fonseca afinal como simples âncora de realidade e verosimilhança, ao mesmo tempo que é objecto de uma expressa homenagem. Homenagem que talvez vá até um pouco mais longe do que a superfície do texto sugere , na medida em que a autora trata o exótico rasteiro da copromancia com a naturalidade com que Rubem Fonseca deixa a violência invadir a sua ficção.

Neste livro, talvez Patrícia Melo não tenha atingido a força testemunhal e simbólica do seu “Inferno”, onde alguns chegaram a ver uma recriação moderna desses inesquecíveis “Capitães da Areia”, que Jorge Amado nos legou. Mas, seguramente, que evidenciou com mestria algumas das marcas dramáticas das grandes solidões amargas que se escondem, discretas, no cosmopolitismo impessoal e implacável das grandes cidades. E conseguiu isso, oferecendo ainda um simpático sorriso de homenagem a um escritor de quem gosta.

Contracapa da Vértice - 3




Vértice - nº 87 -Novembro de 1950


"Un pueblo es siempre una empresa futura."


António Machado

Compromisso Histórico


Li hoje no blog, Politeia, do meu estimado amigo J.M. Correia Pinto um texto intitulado : « O Compromisso Histórico, Jardim e a Situação Política Portuguesa [O Que Faz Falta].»

O tema, que também eu glosei em “O Grande Zoo”, é o da apologia do compromisso histórico, feita recentemente por A.J. Jardim. No seu texto, Correia Pinto identifica como denominador comum de todas as oposições o que ele considera ser uma justificada rejeição de Sócrates. Nisso, parece convergir no essencial com o sentido da acção de todas elas.

Devo dizer que não apoiei Sócrates em nenhuma das eleições internas que o conduziram à liderança do PS, e depois nela o confirmaram. As minhas posições críticas estão bem identificadas nos documentos políticos que sustentei publicamente no quadro dos Congressos do PS. Faço parte da Comissão Nacional e da Comissão Política do PS, por força dos votos que a moção vencida obteve no último Congresso. Dito isto, quero sublinhar que estou muito longe de partilhar a posição acima mencionada, embora concorde com Correia Pinto, quando ele se mostra convencido de que o PS não cederá às pressões externas para substituir o seu actual Secretário-Geral.

Tal como não me imagino a pretender participar na indicação de quem deve liderar o PCP ou o PSD, também não concebo que se tenha a ilusão de que se pode ditar do exterior do PS quem o deve liderar. Provavelmente, em próximas eleições internas continuarei a estar num lado oposto ao de Sócrates, mas sou frontalmente contra qualquer tentativa de o remover da liderança do PS, por força de pressões exteriores, sendo claro que contra tal hipótese combaterei firmemente. Se quiserem derrubar o actual primeiro-ministro, ou formam um governo de unidade das oposições, ou fazem novas eleições. O PS nunca indicará outro primeiro-ministro sem novas eleições e está longe de ser provável que o fizesse, na sequência de novas eleições que viesse a ganhar.

Não vem, neste momento, ao caso uma discussão aprofundada quanto a esta questão. Por isso, passo ao que me levou a elaborar este comentário, e que não foi essa possível troca de ideias, mas o significado objectivo da parte do texto de Correia Pinto que vou transcrever de imediato:

“Há na acção dos quatro partidos um denominador comum que nesta legislatura já serviu, por mais de uma vez, depois de negociações verdadeiras e próprias, para derrotar o Partido Socialista. E esse denominador comum é a rejeição absoluta e completa de Sócrates como chefe do governo. Os quatro partidos podem não ter condições políticas para o destituir neste momento, mas sabem, e com eles a maioria da população, que Sócrates é hoje uma fonte permanente de problemas e de crispação da sociedade portuguesa. (… ) E não há igualmente dúvidas para ninguém que Sócrates e a sua gente – e por arrastamento o Partido Socialista – constituem hoje o grande problema do país. Em todos os domínios. Primeiro que todos, o da credibilidade, e depois Sócrates é um factor permanente de agravamento do défice e da divida, da situação política, económica, financeira e social do país.
Há assim uma inequívoca convergência nos partidos políticos da oposição e da maioria dos portugueses no sentido da rejeição de Sócrates. Só que, para governar, é preciso muito mais do que isso. É preciso um acordo de governo.
Não seria impensável um acordo de governo por três anos baseado em metas claras e acções concretas, negociadas ano a ano, com prevalência para a criação de emprego, apoio social, cessação do programa de privatizações, suspensão dos investimentos inúteis ou desnecessários nos próximos anos, ataque generalizado ao despesismo e ao desperdício e por ai fora.
Não seria impensável conversar sobre o assunto. Explorar as suas potencialidades.”


Como é fácil de ver, a partir do que tenho escrito neste blog, não partilho a perspectiva que suporta as ideias deste extracto. No entanto, acho que seria positivo que essa coligação “canguru” fosse governo. Por mim, defenderia que o PS deveria ser uma oposição clara e firme a esse governo, estando certo que o evoluir dos acontecimentos se encarregaria de decidir de que lado estava o futuro entre esses dois campos. E se ele ia identificar com a esquerda, que virá a ser, o PS pecador, mas em oposição a um governo liderado pela direita, ou os virtuosos BE e PCP, mas coligados num governo com dois partidos de direita.

Dito isto, chego ao cerne da razão por que fiz esta transcrição. Fi-la porque acho um facto, objectiva e exemplarmente, significativo que alguém com a inteligência e a sagacidade políticas do Correia Pinto, intelectualmente independente e honesto, admita a hipótese dessa coligação, apesar de ser céptico quanto à sua viabilidade prática. E acho isso significativo, nomeadamente, por mostrar que, quando eu próprio, conquanto num registo crítico, admito essa mesma coligação, não estou a ser insultuoso para o BE ou para o PCP. Estou apenas a mencionar uma das possíveis estações futuras do caminho que têm trilhado as oposições de esquerda, e que até qualificados expoentes dessa área política encaram como concebível.

São muitas e vêm de longe as raízes da diferença de posições que se reflectem no que aqui está em causa. Uma me parece ter apreciável relevo: os partidos da oposição de esquerda colocam no primeiro plano o combate ao Governo e num plano secundário a luta anticapitalista. Daí que não hesitem em aliar-se à direita contra o Governo, deixando assim que os objectivos tácticos da luta contra um governo corrompam o que deveria ser o seu objectivo estratégico do combate ao sistema.

É precisamente por isso que a minha crítica à actual direcção do PS tem contornos muito diferentes dos que subjazem à das oposições. De facto, identificando-me eu com uma estratégia reformista de saída do capitalismo, o que implica um processo longo, mas a presença permanente como horizonte de uma visão alternativa de sociedade, não posso desconsiderar os prejuízos causados a esse processo, por qualquer complacência em face do economicismo neo-liberal. Complacência que tem inquinado a política deste governo e que muito o tem enfraquecido politicamente.

Mas também não me posso identificar com um exacerbar de crispações tácticas tão absorvente como o que tem caracterizado as oposições de esquerda. É que, desse modo, elas acabam por se alhear, ideologicamente, de qualquer tonalidade anti-capitalista que pudesse impregnar a sua luta, sacrificando-a no altar de uma sofreguidão imediatista no combate ao governo.

De facto, a própria ideia de uma coligação “canguru”, concebível, a partir da lógica que tem impregnado o comportamento político das oposições, conduzirá necessariamente, em si própria, a uma subalternização estratégica da sua componente de esquerda, em face da sua componente de direita. Podemos pois dizer que se trata de uma escolha que, objectivamente, implica, por si própria, uma subalternização da estratégia em face da táctica.

Numa última observação marginal, uma outra coisa que me preocupa é o facto de ser muito duvidoso que o definhamento de uma qualquer das esquerdas se traduza no reforço automático das outras, como se estivéssemos perante um sistema de vasos comunicantes: em que os ganhos de uns compensassem as perdas dos outros.

Pelo contrário, pode muito bem acontecer (e tem acontecido noutras paragens e noutras conjunturas) que o enfraquecimento de uns estimule o enfraquecimento dos outros. Por isso, se, por absurdo, as actuais oposições vissem realizar-se o seu grande sonho de assistirem à destruição do Partido Socialista, muito provavelmente, a direita teria assegurado o poder institucional democrático por algumas décadas.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Ruído


Com a sua expressa autorização, transcrevo mais uma peça do "Estranho Quotidiano" para o qual J.L.Pio Abreu, nos vem chamando regularmente a atenção no DestaK. Desta vez, trata-se de um Ruído, detectado no passado dia 5/2/2010.
Eis a crónica:

“Amanhã haverá um eclipse do sol. Se estiver bom tempo, os soldados formarão na parada para assistir ao fenómeno. Se chover, manter-se-ão na caserna”. Foi isto que o coronel comunicou ao capitão. Logo o capitão disse ao sargento: “Por ordem do nosso Coronel, amanhã haverá um eclipse do sol. Se estiver bom tempo, os soldados formarão na parada. Se chover, será na caserna.”Finalmente, o sargento comunica aos soldados: “Amanhã, se chover, o coronel fará eclipsar o sol dentro da caserna. Se fizer bom tempo, será na parada.” Os soldados comentam entre si: “Parece que amanhã vão eclipsar o coronel dentro da caserna. Nós vamos apanhar sol para a parada.”
Esta é uma história dos compêndios de comunicação. Serve para ilustrar os efeitos do ruído quando se referem factos contados por fulano, que os ouviu de sicrano, e por aí fora. Em cada transmissão, a informação adultera-se. Mas o mais interessante é que cada um acaba por ouvir aquilo que quer. Sobre a historieta que dominou as altas preocupações dos jornalistas, alguns dizem que o Governo, na sua perseguição à liberdade de imprensa, se reúne nas mesas dos restaurantes para sentenciar em voz alta a próxima vítima. Outros dizem que um jornalista, num assomo de auto-importância, se deixou convencer que era temido pelo Governo e aproveitou para se despedir de um trabalho acessório a fim de se dizer perseguido. Alguém terá razão?
[J. L. Pio Abreu]

Contracapa da Vértice - 2

Vértice - nº 109 -Setembro de 1952

"Para se fazerem grandes coisas não é necessário ser-se um grande homem, não é preciso estar acima dos homens; é necessário estar com eles".

Montesquieu


sábado, 6 de fevereiro de 2010

Briosa !


Carvalhal está no bom caminho. Excelente resultado para o Sporting.

Perder em Alvalade com a Académica, apenas por um golo de diferença, é obra!

Contracapa da Vértice - 1

Fiz parte da Redacção da revista "Vértice", entre 1964 e 1974. A sede da revista era então em Coimbra, como sempre o fora desde a sua fundação nos anos 40. Não tenho bem presente o ano em que passou estar sediada em Lisboa, mas penso que isso aconteceu na segunda metade da década de 80.

Durante dez anos, todas as sextas-feiras, com pausas nas férias, integrei a redacção que se reunia na sede da revista na Rua das Fangas. As reuniões eram dirigidas por Joaquim Namorado, director de facto, que coordenava toda a vida da revista. Não é hoje o momento de me deter sobre essas sextas-feiras que, para mim, foram momentos de aprendizagem ímpares, que muito contribuíram para me formar e enriquecer culturalmente. Noutra ocasião talvez vá mais longe nas minhas memórias da “Vértice”.

Durante cerca de ano e meio, cheguei mesmo a ser secretário da redacção da revista, como antes o haviam sido, entre outros, José Carlos de Vasconcelos e Fernando António de Almeida, e depois, viriam a sê-lo Carlos Fraião, Fernando Moura e João Seiça Neves.

Esta breve nota sobre a “Vértice” vem a propósito da decisão que tomei de passar a transcrever neste meu blog , ao ritmo de uma por dia, as célebres frases ou textos da contra-capa, que cada número incluía. Uma frase, um pequeno texto, o extracto de um poema, em cada número, nem sempre em português, também sujeitos ao crivo da censura, pelo que tinha sempre ser feita uma escolha que fosse subtil sem ser anódina.

Não seguirei qualquer roteiro cronológico; apenas publicarei, aleatoriamente, textos que tenham sido publicadas na contracapa da revista, mencionando, naturalmente, o número e a respectiva data, com transcrição literal do que foi publicado.

Comeceço hoje pela contra-capa do nº 65, publicado em Janeiro de 1949.

“Os autores dos folhetos patrióticos, que por aí se escrevem, quando falam de Portugal dizem sempre: a pátria dos Albuquerques, dos Castros e dos Pachecos: é preciso honrá-la com os apelidos históricos, como se a pátria se tivesse por desonrada de ser a pátria do povo! "

Camilo Castelo Branco – As três irmãs, pag 72

Jardim e o regresso da coligação"canguru"


Do Diário de Notícias de hoje, retirei o extracto que a seguir transcrevo, referindo uma posição de Alberto João Jardim, preconizando que o Presidente da República tenha em conta a coligação “canguru” ontem verificada na AR, assumindo-a como solução de um novo Governo para Portugal. Eis o extracto:

“ A partir de agora há uma hipotética alternativa desenhada, não pode o Presidente da República pensar que não há outras soluções de governo até maioritárias, haja é bom senso", reforçou.
"Ponho esta em cima da mesa sabendo que posso atrair sobre mim fúrias ainda mais fundamentalistas, mas ficou demonstrado pela primeira vez que era possível um compromisso histórico em Portugal", apontou Jardim, considerando que o comportamento adoptado por Cavaco Silva nestes últimos dias foi "perfeito e impecável".”

Repetidas vezes neste blog tenho referido esta coligação anti-PS, expressa ao longo dos últimos anos em várias circunstâncias, como um deslize objectivo para uma hipótese de concertação política, suficientemente duradoura para poder ser suporte de uma solução governamental que, no actual quadro parlamentar, beneficiaria do tonus estabilizador de ser maioritária. Também tenho sustentado que pela relação de forças objectivamente verificada, no seio do espaço “canguru”, ela será naturalmente hegemonizada ou até liderada pelo PSD. Mas confesso que nunca me passou pela cabeça que esse espaço se viesse um dia a congregar politicamente sob a égide improvável de Alberto João Jardim. Mas o impensável aconteceu, ilustrando que a operacionalização do espaço “canguru” pode afinal ser mais fácil do que os mais cépticos imaginavam. Eis a inusitada bênção do próprio Alberto João Jardim , para o sublinhar fortemente.

Compreendo que esse espaço político descontínuo, que exprime um salto de canguru por cima do PS, seja difícil de interiorizar no plano psicológico e até ético para os dirigentes do subespaço que dentro dele será objectivamente subalterno (ou seja, o subespaço constituído pelo BE e pelo PCP). No entanto, dificilmente se pode fugir ao dilema de se ter que considerar que: 1) ou esse mal-estar interior é uma simples sombra de um anacronismo ideológico, e está certa a caminhada rumo a essa virtuosa aliança;2) ou esse mal-estar é o saudável sobressalto de uma consciência política sobrevivente e atenta, e estão errados os comportamentos de construção desse espaço político atípico que se têm verificado.

Caberá a esses partidos uma decisão final. Por mim, como militante do PS e membro da corrente de opinião Esquerda Socialista, penso que o PS devia pôr em cima da mesa a seguinte alternativa. Ou as oposições se responsabilizam pela projecção no plano do Governo das suas alianças conjunturais e o PS aceita como legítimo um governo “canguru”, prometendo ser uma oposição firme, mas leal; ou as oposições reconhecem a sua incapacidade para transformarem as suas concertações anti-governo numa plataforma de governo e então cessam a guerrilha sectária contra o governo.
Se a oposição não fizer nem uma coisa, nem outra, acho que o Governo se deve demitir de imediato, pois é um suicídio inútil aceitar ser um governo minoritário perante a constante incerteza sobre a questão de se saber se a concertação de hoje se converte ou não amanhã numa ruptura, ao sabor dos humores ou das conveniências dos partidos da oposição. Caberá então à actual maioria parlamentar de obstrução decidir se que quer ser uma maioria de governação, ou se prefere conformar-se com as eleições tão depressa quanto possível.

O que o PS não pode admitir é uma responsabilidade política global na constância de uma guerrilha mediática e institucional, onde desaguam todas as cumplicidades , que mina de caso pensado a credibilidade de Portugal, na sofreguidão de imputar ao PS a exclusividade da culpa, por tudo o que de negativo acontecer, sem renunciar a ostentar uma partilha de méritos, por tudo o que de positivo ocorrer.


Não menosprezemos a qualidade do Dr. Jardim como barómetro político, aprendamos a olhar para a coisa política como ela objectivamente vai sendo. A sua defesa do que ele curiosamente chama “compromisso histórico”, nos termos em que é feita está muito longe de se poder reduzir a uma simples “boutade”.


E precisamente, por poder vir aí um tempo em que teremos que ser sozinhos oposição a um governo “canguru”, não posso deixar de estranhar que a actual direcção do PS se conforme com o estado de adormecimento político em que deixou cair o Partido. É como se no horizonte se prometesse uma batalha, ao mesmo tempo que num dos exércitos o estado-maior continuasse fechado no quartel-general, talvez desenhando planos, mas esquecendo que os soldados impacientes não sabem, entretanto, o que hão-de fazer. E na política a luta pode ser de baixa ou de alta intensidade, mas nunca pára, por completo.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Flores


Duas novas flores no jardim do Jardim.


Murcharão ?

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

O regresso dos leopardos

No imaginário cultural que sustenta a recusa de uma visão apologética das sociedades actuais, aflora recorrentemente a memória do célebre filme de Visconti, “O Leopardo”, que, aliás, se baseia no não menos importante romance com o mesmo título,de Giuseppe Tomasi di Lampedusa (1896-1957).

Para além da fusão magnífica da história e das circunstâncias individuais, da poeira do tempo que corrói as cores que se vão perdendo, é a frase de Tancredi, dita por um exuberante Alain Delon, e mais tarde retomada, no essencial, pelo Príncipe de Salinas, materializado pelo talento sólido de Burt Lancaster, que mais vezes regressa á nossa memória: "Para que as coisas permaneçam iguais, é preciso que tudo mude."

Estávamos então nos relembrados anos sessenta do século XX. E hoje ?

Também não estão com Tancredi os “garibaldinos” que já não existem, mas estão os arautos de um pseudo-reformismo tonitruante, praticado como uma forte maquilhagem das estruturas capitalistas, de modo a dar a entender que rejuvenesce o que de facto apenas dura, à custa da infelicidade de milhões de seres humanos.

De facto, uma das maiores mistificações ideológicas do conservadorismo neoliberal, defesa estratégica do sistema capitalista como decretada eternidade histórica, é a girândola de reformas sofregamente proclamadas como se fossem a essência da novidade,quando afinal apenas reflectem o apego paroxístico a uma lógica lucrativista, que tritura sem piedade tudo o que realmente identifica a própria humanidade.

De facto, hão-de reparar que quase tudo aquilo que se mascara de reforma, dentro da ideologia dominante, tem como núcleo duro uma regressão social ou a concessão de novas rendas de situação aos detentores do capital, apontando afinal para um objectivo central, o de obstarem à única verdadeira reforma que pode fazer o mundo subir mais um patamar na qualidade de vida dos seres humanos globalmente considerados: a saída do capitalismo. Por isso, se assiste ao paradoxo de se apresentarem perante nós como os mais radicais reformadores aqueles que afinal são o extremo do mais intransigente conservadorismo.

Também eles não esquecem que : "Para que as coisas permaneçam iguais, é preciso que tudo mude."

É pois tempo de vigilância crítica, de atenção permanente às rotinas mediáticas ideologicamente dirigidas que nos inculcam a ilusão da mudança, para ocultarem o sopro violento do conservadorismo mais retrógrado. Hoje como ontem, os conservadores mais subtis são os que sabem usar a voragem das pequenas mudanças, triviais e estruturalmente secundárias, para nos afastarem do apego à verdadeira mudança, a mudança central, a mudança do tipo de sociedade.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Lula, a Esquerda e o Brasil


Abaixo reproduzo o discurso do Presidente Lula, que acabou por não ser dito por ele, em Davos, dada a sua ausência, por razões de saúde. Foi lido pelo Ministro dos Estrangeiros do Brasil, Celso Amorim. Eis o texto:

"Minhas senhoras e meus senhores,Em primeiro lugar, agradeço o prêmio “Estadista Global” que vocês estão me concedendo. Nos últimos meses, tenho recebido alguns dos prêmios e títulos mais importantes da minha vida. Com toda sinceridade, sei que não é exatamente a mim que estão premiando – mas ao Brasil e ao esforço do povo brasileiro. Isso me deixa ainda mais feliz e honrado. Recebo este prêmio, portanto, em nome do Brasil e do povo do meu país. Este prêmio nos alegra, mas, especialmente, nos alerta para a grande responsabilidade que temos.Ele aumenta minha responsabilidade como governante, e a responsabilidade do meu país como ator cada vez mais ativo e presente no cenário mundial. Tenho visto, em várias publicações internacionais, que o Brasil está na moda. Permitam-me dizer que se trata de um termo simpático, porém inapropriado.O modismo é coisa fugaz, passageira. E o Brasil quer e será ator permanente no cenário do novo mundo. O Brasil, porém, não quer ser um destaque novo em um mundo velho. A voz brasileira quer proclamar, em alto e bom som, que é possível construir um mundo novo. O Brasil quer ajudar a construir este novo mundo, que todos nós sabemos, não apenas é possível, mas dramaticamente necessário, como ficou claro, na recente crise financeira internacional – mesmo para os que não gostam de mudanças.Meus senhores e minhas senhoras,O olhar do mundo hoje, para o Brasil, é muito diferente daquele, de sete anos atrás, quando estive pela primeira vez em Davos. Naquela época, sentíamos que o mundo nos olhava mais com dúvida do que esperança. O mundo temia pelo futuro do Brasil, porque não sabia o rumo exato que nosso país tomaria sob a liderança de um operário, sem diploma universitário, nascido politicamente no seio da esquerda sindical. Meu olhar para o mundo, na época, era o contrário do que o mundo tinha para o Brasil. Eu acreditava, que assim como o Brasil estava mudando, o mundo também pudesse mudar.No meu discurso de 2003, eu disse, aqui em Davos, que o Brasil iria trabalhar para reduzir as disparidades econômicas e sociais, aprofundar a democracia política, garantir as liberdades públicas e promover, ativamente, os direitos humanos. Iria, ao mesmo tempo, lutar para acabar sua dependência das instituições internacionais de crédito e buscar uma inserção mais ativa e soberana na comunidade das nações. Frisei, entre outras coisas, a necessidade de construção de uma nova ordem econômica internacional, mais justa e democrática. E comentei que a construção desta nova ordem não seria apenas um ato de generosidade, mas, principalmente, uma atitude de inteligência política.Ponderei ainda que a paz não era só um objetivo moral, mas um imperativo de racionalidade. E que não bastava apenas proclamar os valores do humanismo. Era necessário fazer com que eles prevalecessem, verdadeiramente, nas relações entre os países e os povos. Sete anos depois, eu posso olhar nos olhos de cada um de vocês – e, mais que isso, nos olhos do meu povo – e dizer que o Brasil, mesmo com todas as dificuldades, fez a sua parte. Fez o que prometeu. Neste período, 31 milhões de brasileiros entraram na classe média e 20 milhões saíram do estágio de pobreza absoluta. Pagamos toda nossa dívida externa e hoje, em lugar de sermos devedores, somos credores do FMI.Nossas reservas internacionais pularam de 38 bilhões para cerca de 240 bilhões de dólares. Temos fronteiras com 10 países e não nos envolvemos em um só conflito com nossos vizinhos. Diminuímos, consideravelmente, as agressões ao meio ambiente. Temos e estamos consolidando uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo, e estamos caminhando para nos tornar a quinta economia mundial. Posso dizer, com humildade e realismo, que ainda precisamos avançar muito. Mas ninguém pode negar que o Brasil melhorou.O fato é que Brasil não apenas venceu o desafio de crescer economicamente e incluir socialmente, como provou, aos céticos, que a melhor política de desenvolvimento é o combate à pobreza. Historicamente, quase todos governantes brasileiros governaram apenas para um terço da população. Para eles, o resto era peso, estorvo, carga. Falavam em arrumar a casa. Mas como é possível arrumar um país deixando dois terços de sua população fora dos benefícios do progresso e da civilização?Alguma casa fica de pé, se o pai e a mãe relegam ao abandono os filhos mais fracos, e concentram toda atenção nos filhos mais fortes e mais bem aquinhoados pela sorte? É claro que não. Uma casa assim será uma casa frágil, dividida pelo ressentimento e pela insegurança, onde os irmãos se vêem como inimigos e não como membros da mesma família. Nós concluímos o contrário: que só havia sentido em governar, se fosse governar para todos. E mostramos que aquilo que, tradicionalmente, era considerado estorvo, era, na verdade, força, reserva, energia para crescer.Incorporar os mais fracos e os mais necessitados à economia e às políticas públicas não era apenas algo moralmente correto. Era, também, politicamente indispensável e economicamente acertado. Porque só arrumam a casa, o pai e a mãe que olham para todos, não deixam que os mais fortes esbulhem os mais fracos, nem aceitam que os mais fracos conformem-se com a submissão e com a injustiça. Uma casa só é forte quando é de todos – e nela todos encontram abrigo, oportunidades e esperanças.Por isso, apostamos na ampliação do mercado interno e no aproveitamento de todas as nossas potencialidades. Hoje, há mais Brasil para mais brasileiros. Com isso, fortalecemos a economia, ampliamos a qualidade de vida do nosso povo, reforçamos a democracia, aumentamos nossa auto-estima e amplificamos nossa voz no mundo.Minhas senhoras e meus senhores,O que aconteceu com o mundo nos últimos sete anos? Podemos dizer que o mundo, igual ao Brasil, também melhorou? Não faço esta pergunta com soberba. Nem para provocar comparações vantajosas em favor do Brasil. Faço esta pergunta com humildade, como cidadão do mundo, que tem sua parcela de responsabilidade no que sucedeu – e no que possa vir a suceder com a humanidade e com o nosso planeta. Pergunto: podemos dizer que, nos últimos sete anos, o mundo caminhou no rumo da diminuição das desigualdades, das guerras, dos conflitos, das tragédias e da pobreza?Podemos dizer que caminhou, mais vigorosamente, em direção a um modelo de respeito ao ser humano e ao meio ambiente? Podemos dizer que interrompeu a marcha da insensatez, que tantas vezes parece nos encaminhar para o abismo social, para o abismo ambiental, para o abismo político e para o abismo moral? Posso imaginar a resposta sincera que sai do coração de cada um de vocês, porque sinto a mesma perplexidade e a mesma frustração com o mundo em que vivemos. E nós todos, sem exceção, temos uma parcela de responsabilidade nisso tudo.Nos últimos anos, continuamos sacudidos por guerras absurdas. Continuamos destruindo o meio-ambiente. Continuamos assistindo, com compaixão hipócrita, a miséria e a morte assumirem proporções dantescas na África. Continuamos vendo, passivamente, aumentar os campos de refugiados pelo mundo afora. E vimos, com susto e medo, mas sem que a lição tenha sido corretamente aprendida, para onde a especulação financeira pode nos levar.Sim, porque continuam muitos dos terríveis efeitos da crise financeira internacional, e não vemos nenhum sinal, mais concreto, de que esta crise tenha servido para que repensássemos a ordem econômica mundial, seus métodos, sua pobre ética e seus processos anacrônicos.Pergunto: quantas crises serão necessárias para mudarmos de atitude? Quantas hecatombes financeiras teremos condições de suportar até que decidamos fazer o óbvio e o mais correto? Quantos graus de aquecimento global, quanto degelo, quanto desmatamento e desequilíbrios ecológicos serão necessários para que tomemos a firme decisão de salvar o planeta?Meus senhores e minhas senhoras,Vendo os efeitos pavorosos da tragédia do Haiti, também pergunto: quantos Haitis serão necessários para que deixemos de buscar remédios tardios e soluções improvisadas, ao calor do remorso? Todos nós sabemos que a tragédia do Haiti foi causada por dois tipos de terremotos: o que sacudiu Porto Príncipe, no início deste mês, com a força de 30 bombas atômicas, e o outro, lento e silencioso, que vem corroendo suas entranhas há alguns séculos.Para este outro terremoto, o mundo fechou os olhos e os ouvidos. Como continua de olhos e ouvidos fechados para o terremoto silencioso que destrói comunidades inteiras na África, na Ásia, na Europa Oriental e nos países mais pobres das Américas. Será necessário que o terremoto social traga seu epicentro para as grandes metrópoles européias e norte-americanas para que possamos tomar soluções mais definitivas?Um antigo presidente brasileiro dizia, do alto de sua aristocrática arrogância, que a questão social era uma questão de polícia. Será que não é isso que, de forma sutil e sofisticada, muitos países ricos dizem até hoje, quando perseguem, reprimem e discriminam os imigrantes, quando insistem num jogo em que tantos perdem e só poucos ganham? Por que não fazermos um jogo em que todos possam ganhar, mesmo que em quantidades diversas, mas que ninguém perca no essencial?O que existe de impossível nisso? Por que não caminharmos nessa direção, de forma consciente e deliberada e não empurrados por crises, por guerras e por tragédias? Será que a humanidade só pode aprender pelo caminho do sofrimento e do rugir de forças descontroladas? Outro mundo e outro caminho são possíveis. Basta que queiramos. E precisamos fazer isso enquanto é tempo.Meus senhores e minhas senhoras,Gostaria de repetir que a melhor política de desenvolvimento é o combate à pobreza. Esta também é uma das melhores receitas para a paz. E aprendemos, no ano passado, que é também um poderoso escudo contra crise. Esta lição que o Brasil aprendeu, vale para qualquer parte do mundo, rica ou pobre. Isso significa ampliar oportunidades, aumentar a produtividade, ampliar mercado e fortalecer a economia. Isso significa mudar as mentalidades e as relações. Isso significa criar fábricas de emprego e de cidadania.Só fomos bem sucedidos nessas tarefas porque recuperamos o papel do Estado como indutor do desenvolvimento e não nos deixamos aprisionar em armadilhas teóricas – ou políticas – equivocadas sobre o verdadeiro papel do estado. Nos últimos sete anos, o Brasil criou quase 12 milhões de empregos formais. Em 2009, quando a maioria dos países viu diminuir os postos de trabalhos, tivemos um saldo positivo de cerca de um milhão de novos empregos.O Brasil foi um dos últimos países a entrar na crise e um dos primeiros a sair. Por que? Porque tínhamos reorganizado a economia com fundamentos sólidos, com base no crescimento, na estabilidade, na produtividade, num sistema financeiro saudável, no acesso ao crédito e na inclusão social. E quando os efeitos da crise começaram a nos alcançar, reforçamos, sem titubear, os fundamentos do nosso modelo e demos ênfase à ampliação do crédito, à redução de impostos e ao estímulo do consumo.Na crise ficou provado, mais uma vez, que são os pequenos que estão construindo a economia de gigante do Brasil. Este talvez seja o principal motivo do sucesso do Brasil: acreditar e apoiar o povo, os mais fracos e os pequenos. Na verdade, não estamos inventando a roda. Foi com esta força motriz que Roosevelt recuperou a economia americana depois da grande crise de 1929. E foi com ela que o Brasil venceu preventivamente a última crise internacional.Mas, nos últimos sete anos, nunca agimos de forma improvisada. A gente sabia para onde queria caminhar. Organizamos a economia sem bravatas e sem sustos, mas com um foco muito claro: crescer com estabilidade e com inclusão. Implantamos o maior programa de transferência de renda do mundo, o Bolsa Família, que hoje beneficia mais de 12 milhões de famílias. E lançamos, ao mesmo tempo, o Programa de Aceleração do Crescimento, o PAC, maior conjunto de obras simultâneas nas áreas de infra-estrutura e logística da história do país, no qual já foram investidos 213 bilhões de dólares e que alcançará, no final do ano de 2010, um montante de 343 bilhões.Volto ao ponto central: estivemos sempre atentos às politicas macro-econômicas, mas jamais nos limitamos às grandes linhas. Tivemos a obsessão de destravar a máquina da economia, sempre olhando para os mais necessitados, aumentando o poder de compra e o acesso ao crédito da maioria dos brasileiros. Criamos, por exemplo, grandes programas de infra-estrutura social voltados exclusivamente para as camadas mais pobres. É o caso do programa Luz para Todos, que levou energia elétrica, no campo, para 12 milhões de pessoas e se mostrou um grande propulsor de bem estar e um forte ativador da economia.Por exemplo: para levar energia elétrica a 2 milhões e 200 mil residências rurais, utilizamos 906 mil quilômetros de cabo, o suficiente para dar 21 voltas em torno do planeta Terra. Em contrapartida, estas famílias que passaram a ter energia elétrica em suas casas, compraram 1,5 milhão de televisores, 1,4 milhão de geladeiras e quantidades enormes de outros equipamentos.As diversas linhas de microcrédito que criamos, seja para a produção, seja para o consumo, tiveram igualmente grande efeito multiplicador. E ensinaram aos capitalistas brasileiros que não existe capitalismo sem crédito. Para que vocês tenham uma idéia, apenas com a modalidade de “crédito consignado”, que tem como garantia o contracheque dos trabalhadores e aposentados, chegamos a fazer girar na economia mais 100 bilhões de reais por mês. As pessoas tomam empréstimos de 50 dólares, 80 dólares para comprar roupas, material escolar, etc, e isto ajuda ativar profundamente a economia.Minhas senhoras e meus senhores,Os desafios enfrentados, agora, pelo mundo são muito maiores do que os enfrentados pelo Brasil. Com mudanças de prioridades e rearranjos de modelos, o governo brasileiro está conseguindo impor um novo ritmo de desenvolvimento ao nosso país. O mundo, porém, necessita de mudanças mais profundas e mais complexas. E elas ficarão ainda mais difíceis quanto mais tempo deixarmos passar e quanto mais oportunidades jogarmos fora. O encontro do clima, em Copenhague, é um exemplo disso. Ali a humanidade perdeu uma grande oportunidade de avançar, com rapidez, em defesa do meio-ambiente.Por isso cobramos que cheguemos com o espírito desarmado, no próximo encontro, no México, e que encontremos saídas concretas para o grave problema do aquecimento global. A crise financeira também mostrou que é preciso uma mudança profunda na ordem econômica, que privilegie a produção e não a especulação. Um modelo, como todos sabem, onde o sistema financeiro esteja a serviço do setor produtivo e onde haja regulações claras para evitar riscos absurdos e excessivos.Mas tudo isso são sintomas de uma crise mais profunda, e da necessidade de o mundo encontrar um novo caminho, livre dos velhos modelos e das velhas ideologias. É hora de re-inventarmos o mundo e suas instituições. Por que ficarmos atrelados a modelos gestados em tempos e realidades tão diversas das que vivemos? O mundo tem que recuperar sua capacidade de criar e de sonhar. Não podemos retardar soluções que apontam para uma melhor governança mundial, onde governos e nações trabalhem em favor de toda a humanidade.Precisamos de um novo papel para os governos. E digo que, paradoxalmente, este novo papel é o mais antigo deles: é a recuperação do papel de governar. Nós fomos eleitos para governar e temos que governar. Mas temos que governar com criatividade e justiça. E fazer isso já, antes que seja tarde. Não sou apocalíptico, nem estou anunciando o fim do mundo. Estou lançando um brado de otimismo. E dizendo que, mais que nunca, temos nossos destinos em nossas mãos. E toda vez que mãos humanas misturam sonho, criatividade, amor, coragem e justiça elas conseguem realizar a tarefa divina de construir um novo mundo e uma nova humanidade. Muito obrigado.”