
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
Compromisso Histórico

O tema, que também eu glosei em “O Grande Zoo”, é o da apologia do compromisso histórico, feita recentemente por A.J. Jardim. No seu texto, Correia Pinto identifica como denominador comum de todas as oposições o que ele considera ser uma justificada rejeição de Sócrates. Nisso, parece convergir no essencial com o sentido da acção de todas elas.
Devo dizer que não apoiei Sócrates em nenhuma das eleições internas que o conduziram à liderança do PS, e depois nela o confirmaram. As minhas posições críticas estão bem identificadas nos documentos políticos que sustentei publicamente no quadro dos Congressos do PS. Faço parte da Comissão Nacional e da Comissão Política do PS, por força dos votos que a moção vencida obteve no último Congresso. Dito isto, quero sublinhar que estou muito longe de partilhar a posição acima mencionada, embora concorde com Correia Pinto, quando ele se mostra convencido de que o PS não cederá às pressões externas para substituir o seu actual Secretário-Geral.
Tal como não me imagino a pretender participar na indicação de quem deve liderar o PCP ou o PSD, também não concebo que se tenha a ilusão de que se pode ditar do exterior do PS quem o deve liderar. Provavelmente, em próximas eleições internas continuarei a estar num lado oposto ao de Sócrates, mas sou frontalmente contra qualquer tentativa de o remover da liderança do PS, por força de pressões exteriores, sendo claro que contra tal hipótese combaterei firmemente. Se quiserem derrubar o actual primeiro-ministro, ou formam um governo de unidade das oposições, ou fazem novas eleições. O PS nunca indicará outro primeiro-ministro sem novas eleições e está longe de ser provável que o fizesse, na sequência de novas eleições que viesse a ganhar.
Não vem, neste momento, ao caso uma discussão aprofundada quanto a esta questão. Por isso, passo ao que me levou a elaborar este comentário, e que não foi essa possível troca de ideias, mas o significado objectivo da parte do texto de Correia Pinto que vou transcrever de imediato:
“Há na acção dos quatro partidos um denominador comum que nesta legislatura já serviu, por mais de uma vez, depois de negociações verdadeiras e próprias, para derrotar o Partido Socialista. E esse denominador comum é a rejeição absoluta e completa de Sócrates como chefe do governo. Os quatro partidos podem não ter condições políticas para o destituir neste momento, mas sabem, e com eles a maioria da população, que Sócrates é hoje uma fonte permanente de problemas e de crispação da sociedade portuguesa. (… ) E não há igualmente dúvidas para ninguém que Sócrates e a sua gente – e por arrastamento o Partido Socialista – constituem hoje o grande problema do país. Em todos os domínios. Primeiro que todos, o da credibilidade, e depois Sócrates é um factor permanente de agravamento do défice e da divida, da situação política, económica, financeira e social do país.
Há assim uma inequívoca convergência nos partidos políticos da oposição e da maioria dos portugueses no sentido da rejeição de Sócrates. Só que, para governar, é preciso muito mais do que isso. É preciso um acordo de governo.
Não seria impensável um acordo de governo por três anos baseado em metas claras e acções concretas, negociadas ano a ano, com prevalência para a criação de emprego, apoio social, cessação do programa de privatizações, suspensão dos investimentos inúteis ou desnecessários nos próximos anos, ataque generalizado ao despesismo e ao desperdício e por ai fora.
Não seria impensável conversar sobre o assunto. Explorar as suas potencialidades.”
Como é fácil de ver, a partir do que tenho escrito neste blog, não partilho a perspectiva que suporta as ideias deste extracto. No entanto, acho que seria positivo que essa coligação “canguru” fosse governo. Por mim, defenderia que o PS deveria ser uma oposição clara e firme a esse governo, estando certo que o evoluir dos acontecimentos se encarregaria de decidir de que lado estava o futuro entre esses dois campos. E se ele ia identificar com a esquerda, que virá a ser, o PS pecador, mas em oposição a um governo liderado pela direita, ou os virtuosos BE e PCP, mas coligados num governo com dois partidos de direita.
Dito isto, chego ao cerne da razão por que fiz esta transcrição. Fi-la porque acho um facto, objectiva e exemplarmente, significativo que alguém com a inteligência e a sagacidade políticas do Correia Pinto, intelectualmente independente e honesto, admita a hipótese dessa coligação, apesar de ser céptico quanto à sua viabilidade prática. E acho isso significativo, nomeadamente, por mostrar que, quando eu próprio, conquanto num registo crítico, admito essa mesma coligação, não estou a ser insultuoso para o BE ou para o PCP. Estou apenas a mencionar uma das possíveis estações futuras do caminho que têm trilhado as oposições de esquerda, e que até qualificados expoentes dessa área política encaram como concebível.
São muitas e vêm de longe as raízes da diferença de posições que se reflectem no que aqui está em causa. Uma me parece ter apreciável relevo: os partidos da oposição de esquerda colocam no primeiro plano o combate ao Governo e num plano secundário a luta anticapitalista. Daí que não hesitem em aliar-se à direita contra o Governo, deixando assim que os objectivos tácticos da luta contra um governo corrompam o que deveria ser o seu objectivo estratégico do combate ao sistema.
É precisamente por isso que a minha crítica à actual direcção do PS tem contornos muito diferentes dos que subjazem à das oposições. De facto, identificando-me eu com uma estratégia reformista de saída do capitalismo, o que implica um processo longo, mas a presença permanente como horizonte de uma visão alternativa de sociedade, não posso desconsiderar os prejuízos causados a esse processo, por qualquer complacência em face do economicismo neo-liberal. Complacência que tem inquinado a política deste governo e que muito o tem enfraquecido politicamente.
Mas também não me posso identificar com um exacerbar de crispações tácticas tão absorvente como o que tem caracterizado as oposições de esquerda. É que, desse modo, elas acabam por se alhear, ideologicamente, de qualquer tonalidade anti-capitalista que pudesse impregnar a sua luta, sacrificando-a no altar de uma sofreguidão imediatista no combate ao governo.
De facto, a própria ideia de uma coligação “canguru”, concebível, a partir da lógica que tem impregnado o comportamento político das oposições, conduzirá necessariamente, em si própria, a uma subalternização estratégica da sua componente de esquerda, em face da sua componente de direita. Podemos pois dizer que se trata de uma escolha que, objectivamente, implica, por si própria, uma subalternização da estratégia em face da táctica.
Numa última observação marginal, uma outra coisa que me preocupa é o facto de ser muito duvidoso que o definhamento de uma qualquer das esquerdas se traduza no reforço automático das outras, como se estivéssemos perante um sistema de vasos comunicantes: em que os ganhos de uns compensassem as perdas dos outros.
Pelo contrário, pode muito bem acontecer (e tem acontecido noutras paragens e noutras conjunturas) que o enfraquecimento de uns estimule o enfraquecimento dos outros. Por isso, se, por absurdo, as actuais oposições vissem realizar-se o seu grande sonho de assistirem à destruição do Partido Socialista, muito provavelmente, a direita teria assegurado o poder institucional democrático por algumas décadas.
domingo, 7 de fevereiro de 2010
Ruído

Contracapa da Vértice - 2
Vértice - nº 109 -Setembro de 1952"Para se fazerem grandes coisas não é necessário ser-se um grande homem, não é preciso estar acima dos homens; é necessário estar com eles".
Montesquieu
sábado, 6 de fevereiro de 2010
Briosa !
Contracapa da Vértice - 1
Fiz parte da Redacção da revista "Vértice", entre 1964 e 1974. A sede da revista era então em Coimbra, como sempre o fora desde a sua fundação nos anos 40. Não tenho bem presente o ano em que passou estar sediada em Lisboa, mas penso que isso aconteceu na segunda metade da década de 80.Durante cerca de ano e meio, cheguei mesmo a ser secretário da redacção da revista, como antes o haviam sido, entre outros, José Carlos de Vasconcelos e Fernando António de Almeida, e depois, viriam a sê-lo Carlos Fraião, Fernando Moura e João Seiça Neves.
Esta breve nota sobre a “Vértice” vem a propósito da decisão que tomei de passar a transcrever neste meu blog , ao ritmo de uma por dia, as célebres frases ou textos da contra-capa, que cada número incluía. Uma frase, um pequeno texto, o extracto de um poema, em cada número, nem sempre em português, também sujeitos ao crivo da censura, pelo que tinha sempre ser feita uma escolha que fosse subtil sem ser anódina.
Comeceço hoje pela contra-capa do nº 65, publicado em Janeiro de 1949.
“Os autores dos folhetos patrióticos, que por aí se escrevem, quando falam de Portugal dizem sempre: a pátria dos Albuquerques, dos Castros e dos Pachecos: é preciso honrá-la com os apelidos históricos, como se a pátria se tivesse por desonrada de ser a pátria do povo! "Jardim e o regresso da coligação"canguru"

"Ponho esta em cima da mesa sabendo que posso atrair sobre mim fúrias ainda mais fundamentalistas, mas ficou demonstrado pela primeira vez que era possível um compromisso histórico em Portugal", apontou Jardim, considerando que o comportamento adoptado por Cavaco Silva nestes últimos dias foi "perfeito e impecável".”
Repetidas vezes neste blog tenho referido esta coligação anti-PS, expressa ao longo dos últimos anos em várias circunstâncias, como um deslize objectivo para uma hipótese de concertação política, suficientemente duradoura para poder ser suporte de uma solução governamental que, no actual quadro parlamentar, beneficiaria do tonus estabilizador de ser maioritária. Também tenho sustentado que pela relação de forças objectivamente verificada, no seio do espaço “canguru”, ela será naturalmente hegemonizada ou até liderada pelo PSD. Mas confesso que nunca me passou pela cabeça que esse espaço se viesse um dia a congregar politicamente sob a égide improvável de Alberto João Jardim. Mas o impensável aconteceu, ilustrando que a operacionalização do espaço “canguru” pode afinal ser mais fácil do que os mais cépticos imaginavam. Eis a inusitada bênção do próprio Alberto João Jardim , para o sublinhar fortemente.
Compreendo que esse espaço político descontínuo, que exprime um salto de canguru por cima do PS, seja difícil de interiorizar no plano psicológico e até ético para os dirigentes do subespaço que dentro dele será objectivamente subalterno (ou seja, o subespaço constituído pelo BE e pelo PCP). No entanto, dificilmente se pode fugir ao dilema de se ter que considerar que: 1) ou esse mal-estar interior é uma simples sombra de um anacronismo ideológico, e está certa a caminhada rumo a essa virtuosa aliança;2) ou esse mal-estar é o saudável sobressalto de uma consciência política sobrevivente e atenta, e estão errados os comportamentos de construção desse espaço político atípico que se têm verificado.
Caberá a esses partidos uma decisão final. Por mim, como militante do PS e membro da corrente de opinião Esquerda Socialista, penso que o PS devia pôr em cima da mesa a seguinte alternativa. Ou as oposições se responsabilizam pela projecção no plano do Governo das suas alianças conjunturais e o PS aceita como legítimo um governo “canguru”, prometendo ser uma oposição firme, mas leal; ou as oposições reconhecem a sua incapacidade para transformarem as suas concertações anti-governo numa plataforma de governo e então cessam a guerrilha sectária contra o governo.
O que o PS não pode admitir é uma responsabilidade política global na constância de uma guerrilha mediática e institucional, onde desaguam todas as cumplicidades , que mina de caso pensado a credibilidade de Portugal, na sofreguidão de imputar ao PS a exclusividade da culpa, por tudo o que de negativo acontecer, sem renunciar a ostentar uma partilha de méritos, por tudo o que de positivo ocorrer.

Não menosprezemos a qualidade do Dr. Jardim como barómetro político, aprendamos a olhar para a coisa política como ela objectivamente vai sendo. A sua defesa do que ele curiosamente chama “compromisso histórico”, nos termos em que é feita está muito longe de se poder reduzir a uma simples “boutade”.
E precisamente, por poder vir aí um tempo em que teremos que ser sozinhos oposição a um governo “canguru”, não posso deixar de estranhar que a actual direcção do PS se conforme com o estado de adormecimento político em que deixou cair o Partido. É como se no horizonte se prometesse uma batalha, ao mesmo tempo que num dos exércitos o estado-maior continuasse fechado no quartel-general, talvez desenhando planos, mas esquecendo que os soldados impacientes não sabem, entretanto, o que hão-de fazer. E na política a luta pode ser de baixa ou de alta intensidade, mas nunca pára, por completo.
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
O regresso dos leopardos
No imaginário cultural que sustenta a recusa de uma visão apologética das sociedades actuais, aflora recorrentemente a memória do célebre filme de Visconti, “O Leopardo”, que, aliás, se baseia no não menos importante romance com o mesmo título,de Giuseppe Tomasi di Lampedusa (1896-1957).Para além da fusão magnífica da história e das circunstâncias individuais, da poeira do tempo que corrói as cores que se vão perdendo, é a frase de Tancredi, dita por um exuberante Alain Delon, e mais tarde retomada, no essencial, pelo Príncipe de Salinas, materializado pelo talento sólido de Burt Lancaster, que mais vezes regressa á nossa memória: "Para que as coisas permaneçam iguais, é preciso que tudo mude."
Estávamos então nos relembrados anos sessenta do século XX. E hoje ?
Também não estão com Tancredi os “garibaldinos” que já não existem, mas estão os arautos de um pseudo-reformismo tonitruante, praticado como uma forte maquilhagem das estruturas capitalistas, de modo a dar a entender que rejuvenesce o que de facto apenas dura, à custa da infelicidade de milhões de seres humanos.
De facto, uma das maiores mistificações ideológicas do conservadorismo neoliberal, defesa estratégica do sistema capitalista como decretada eternidade histórica, é a girândola de reformas sofregamente proclamadas como se fossem a essência da novidade,quando afinal apenas reflectem o apego paroxístico a uma lógica lucrativista, que tritura sem piedade tudo o que realmente identifica a própria humanidade.
De facto, hão-de reparar que quase tudo aquilo que se mascara de reforma, dentro da ideologia dominante, tem como núcleo duro uma regressão social ou a concessão de novas rendas de situação aos detentores do capital, apontando afinal para um objectivo central, o de obstarem à única verdadeira reforma que pode fazer o mundo subir mais um patamar na qualidade de vida dos seres humanos globalmente considerados: a saída do capitalismo. Por isso, se assiste ao paradoxo de se apresentarem perante nós como os mais radicais reformadores aqueles que afinal são o extremo do mais intransigente conservadorismo.
Também eles não esquecem que : "Para que as coisas permaneçam iguais, é preciso que tudo mude."
É pois tempo de vigilância crítica, de atenção permanente às rotinas mediáticas ideologicamente dirigidas que nos inculcam a ilusão da mudança, para ocultarem o sopro violento do conservadorismo mais retrógrado. Hoje como ontem, os conservadores mais subtis são os que sabem usar a voragem das pequenas mudanças, triviais e estruturalmente secundárias, para nos afastarem do apego à verdadeira mudança, a mudança central, a mudança do tipo de sociedade.
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
Lula, a Esquerda e o Brasil

"Minhas senhoras e meus senhores,Em primeiro lugar, agradeço o prêmio “Estadista Global” que vocês estão me concedendo. Nos últimos meses, tenho recebido alguns dos prêmios e títulos mais importantes da minha vida. Com toda sinceridade, sei que não é exatamente a mim que estão premiando – mas ao Brasil e ao esforço do povo brasileiro. Isso me deixa ainda mais feliz e honrado. Recebo este prêmio, portanto, em nome do Brasil e do povo do meu país. Este prêmio nos alegra, mas, especialmente, nos alerta para a grande responsabilidade que temos.Ele aumenta minha responsabilidade como governante, e a responsabilidade do meu país como ator cada vez mais ativo e presente no cenário mundial. Tenho visto, em várias publicações internacionais, que o Brasil está na moda. Permitam-me dizer que se trata de um termo simpático, porém inapropriado.O modismo é coisa fugaz, passageira. E o Brasil quer e será ator permanente no cenário do novo mundo. O Brasil, porém, não quer ser um destaque novo em um mundo velho. A voz brasileira quer proclamar, em alto e bom som, que é possível construir um mundo novo. O Brasil quer ajudar a construir este novo mundo, que todos nós sabemos, não apenas é possível, mas dramaticamente necessário, como ficou claro, na recente crise financeira internacional – mesmo para os que não gostam de mudanças.Meus senhores e minhas senhoras,O olhar do mundo hoje, para o Brasil, é muito diferente daquele, de sete anos atrás, quando estive pela primeira vez em Davos. Naquela época, sentíamos que o mundo nos olhava mais com dúvida do que esperança. O mundo temia pelo futuro do Brasil, porque não sabia o rumo exato que nosso país tomaria sob a liderança de um operário, sem diploma universitário, nascido politicamente no seio da esquerda sindical. Meu olhar para o mundo, na época, era o contrário do que o mundo tinha para o Brasil. Eu acreditava, que assim como o Brasil estava mudando, o mundo também pudesse mudar.No meu discurso de 2003, eu disse, aqui em Davos, que o Brasil iria trabalhar para reduzir as disparidades econômicas e sociais, aprofundar a democracia política, garantir as liberdades públicas e promover, ativamente, os direitos humanos. Iria, ao mesmo tempo, lutar para acabar sua dependência das instituições internacionais de crédito e buscar uma inserção mais ativa e soberana na comunidade das nações. Frisei, entre outras coisas, a necessidade de construção de uma nova ordem econômica internacional, mais justa e democrática. E comentei que a construção desta nova ordem não seria apenas um ato de generosidade, mas, principalmente, uma atitude de inteligência política.Ponderei ainda que a paz não era só um objetivo moral, mas um imperativo de racionalidade. E que não bastava apenas proclamar os valores do humanismo. Era necessário fazer com que eles prevalecessem, verdadeiramente, nas relações entre os países e os povos. Sete anos depois, eu posso olhar nos olhos de cada um de vocês – e, mais que isso, nos olhos do meu povo – e dizer que o Brasil, mesmo com todas as dificuldades, fez a sua parte. Fez o que prometeu. Neste período, 31 milhões de brasileiros entraram na classe média e 20 milhões saíram do estágio de pobreza absoluta. Pagamos toda nossa dívida externa e hoje, em lugar de sermos devedores, somos credores do FMI.Nossas reservas internacionais pularam de 38 bilhões para cerca de 240 bilhões de dólares. Temos fronteiras com 10 países e não nos envolvemos em um só conflito com nossos vizinhos. Diminuímos, consideravelmente, as agressões ao meio ambiente. Temos e estamos consolidando uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo, e estamos caminhando para nos tornar a quinta economia mundial. Posso dizer, com humildade e realismo, que ainda precisamos avançar muito. Mas ninguém pode negar que o Brasil melhorou.O fato é que Brasil não apenas venceu o desafio de crescer economicamente e incluir socialmente, como provou, aos céticos, que a melhor política de desenvolvimento é o combate à pobreza. Historicamente, quase todos governantes brasileiros governaram apenas para um terço da população. Para eles, o resto era peso, estorvo, carga. Falavam em arrumar a casa. Mas como é possível arrumar um país deixando dois terços de sua população fora dos benefícios do progresso e da civilização?Alguma casa fica de pé, se o pai e a mãe relegam ao abandono os filhos mais fracos, e concentram toda atenção nos filhos mais fortes e mais bem aquinhoados pela sorte? É claro que não. Uma casa assim será uma casa frágil, dividida pelo ressentimento e pela insegurança, onde os irmãos se vêem como inimigos e não como membros da mesma família. Nós concluímos o contrário: que só havia sentido em governar, se fosse governar para todos. E mostramos que aquilo que, tradicionalmente, era considerado estorvo, era, na verdade, força, reserva, energia para crescer.Incorporar os mais fracos e os mais necessitados à economia e às políticas públicas não era apenas algo moralmente correto. Era, também, politicamente indispensável e economicamente acertado. Porque só arrumam a casa, o pai e a mãe que olham para todos, não deixam que os mais fortes esbulhem os mais fracos, nem aceitam que os mais fracos conformem-se com a submissão e com a injustiça. Uma casa só é forte quando é de todos – e nela todos encontram abrigo, oportunidades e esperanças.Por isso, apostamos na ampliação do mercado interno e no aproveitamento de todas as nossas potencialidades. Hoje, há mais Brasil para mais brasileiros. Com isso, fortalecemos a economia, ampliamos a qualidade de vida do nosso povo, reforçamos a democracia, aumentamos nossa auto-estima e amplificamos nossa voz no mundo.Minhas senhoras e meus senhores,O que aconteceu com o mundo nos últimos sete anos? Podemos dizer que o mundo, igual ao Brasil, também melhorou? Não faço esta pergunta com soberba. Nem para provocar comparações vantajosas em favor do Brasil. Faço esta pergunta com humildade, como cidadão do mundo, que tem sua parcela de responsabilidade no que sucedeu – e no que possa vir a suceder com a humanidade e com o nosso planeta. Pergunto: podemos dizer que, nos últimos sete anos, o mundo caminhou no rumo da diminuição das desigualdades, das guerras, dos conflitos, das tragédias e da pobreza?Podemos dizer que caminhou, mais vigorosamente, em direção a um modelo de respeito ao ser humano e ao meio ambiente? Podemos dizer que interrompeu a marcha da insensatez, que tantas vezes parece nos encaminhar para o abismo social, para o abismo ambiental, para o abismo político e para o abismo moral? Posso imaginar a resposta sincera que sai do coração de cada um de vocês, porque sinto a mesma perplexidade e a mesma frustração com o mundo em que vivemos. E nós todos, sem exceção, temos uma parcela de responsabilidade nisso tudo.Nos últimos anos, continuamos sacudidos por guerras absurdas. Continuamos destruindo o meio-ambiente. Continuamos assistindo, com compaixão hipócrita, a miséria e a morte assumirem proporções dantescas na África. Continuamos vendo, passivamente, aumentar os campos de refugiados pelo mundo afora. E vimos, com susto e medo, mas sem que a lição tenha sido corretamente aprendida, para onde a especulação financeira pode nos levar.Sim, porque continuam muitos dos terríveis efeitos da crise financeira internacional, e não vemos nenhum sinal, mais concreto, de que esta crise tenha servido para que repensássemos a ordem econômica mundial, seus métodos, sua pobre ética e seus processos anacrônicos.Pergunto: quantas crises serão necessárias para mudarmos de atitude? Quantas hecatombes financeiras teremos condições de suportar até que decidamos fazer o óbvio e o mais correto? Quantos graus de aquecimento global, quanto degelo, quanto desmatamento e desequilíbrios ecológicos serão necessários para que tomemos a firme decisão de salvar o planeta?Meus senhores e minhas senhoras,Vendo os efeitos pavorosos da tragédia do Haiti, também pergunto: quantos Haitis serão necessários para que deixemos de buscar remédios tardios e soluções improvisadas, ao calor do remorso? Todos nós sabemos que a tragédia do Haiti foi causada por dois tipos de terremotos: o que sacudiu Porto Príncipe, no início deste mês, com a força de 30 bombas atômicas, e o outro, lento e silencioso, que vem corroendo suas entranhas há alguns séculos.Para este outro terremoto, o mundo fechou os olhos e os ouvidos. Como continua de olhos e ouvidos fechados para o terremoto silencioso que destrói comunidades inteiras na África, na Ásia, na Europa Oriental e nos países mais pobres das Américas. Será necessário que o terremoto social traga seu epicentro para as grandes metrópoles européias e norte-americanas para que possamos tomar soluções mais definitivas?Um antigo presidente brasileiro dizia, do alto de sua aristocrática arrogância, que a questão social era uma questão de polícia. Será que não é isso que, de forma sutil e sofisticada, muitos países ricos dizem até hoje, quando perseguem, reprimem e discriminam os imigrantes, quando insistem num jogo em que tantos perdem e só poucos ganham? Por que não fazermos um jogo em que todos possam ganhar, mesmo que em quantidades diversas, mas que ninguém perca no essencial?O que existe de impossível nisso? Por que não caminharmos nessa direção, de forma consciente e deliberada e não empurrados por crises, por guerras e por tragédias? Será que a humanidade só pode aprender pelo caminho do sofrimento e do rugir de forças descontroladas? Outro mundo e outro caminho são possíveis. Basta que queiramos. E precisamos fazer isso enquanto é tempo.Meus senhores e minhas senhoras,Gostaria de repetir que a melhor política de desenvolvimento é o combate à pobreza. Esta também é uma das melhores receitas para a paz. E aprendemos, no ano passado, que é também um poderoso escudo contra crise. Esta lição que o Brasil aprendeu, vale para qualquer parte do mundo, rica ou pobre. Isso significa ampliar oportunidades, aumentar a produtividade, ampliar mercado e fortalecer a economia. Isso significa mudar as mentalidades e as relações. Isso significa criar fábricas de emprego e de cidadania.Só fomos bem sucedidos nessas tarefas porque recuperamos o papel do Estado como indutor do desenvolvimento e não nos deixamos aprisionar em armadilhas teóricas – ou políticas – equivocadas sobre o verdadeiro papel do estado. Nos últimos sete anos, o Brasil criou quase 12 milhões de empregos formais. Em 2009, quando a maioria dos países viu diminuir os postos de trabalhos, tivemos um saldo positivo de cerca de um milhão de novos empregos.O Brasil foi um dos últimos países a entrar na crise e um dos primeiros a sair. Por que? Porque tínhamos reorganizado a economia com fundamentos sólidos, com base no crescimento, na estabilidade, na produtividade, num sistema financeiro saudável, no acesso ao crédito e na inclusão social. E quando os efeitos da crise começaram a nos alcançar, reforçamos, sem titubear, os fundamentos do nosso modelo e demos ênfase à ampliação do crédito, à redução de impostos e ao estímulo do consumo.Na crise ficou provado, mais uma vez, que são os pequenos que estão construindo a economia de gigante do Brasil. Este talvez seja o principal motivo do sucesso do Brasil: acreditar e apoiar o povo, os mais fracos e os pequenos. Na verdade, não estamos inventando a roda. Foi com esta força motriz que Roosevelt recuperou a economia americana depois da grande crise de 1929. E foi com ela que o Brasil venceu preventivamente a última crise internacional.Mas, nos últimos sete anos, nunca agimos de forma improvisada. A gente sabia para onde queria caminhar. Organizamos a economia sem bravatas e sem sustos, mas com um foco muito claro: crescer com estabilidade e com inclusão. Implantamos o maior programa de transferência de renda do mundo, o Bolsa Família, que hoje beneficia mais de 12 milhões de famílias. E lançamos, ao mesmo tempo, o Programa de Aceleração do Crescimento, o PAC, maior conjunto de obras simultâneas nas áreas de infra-estrutura e logística da história do país, no qual já foram investidos 213 bilhões de dólares e que alcançará, no final do ano de 2010, um montante de 343 bilhões.Volto ao ponto central: estivemos sempre atentos às politicas macro-econômicas, mas jamais nos limitamos às grandes linhas. Tivemos a obsessão de destravar a máquina da economia, sempre olhando para os mais necessitados, aumentando o poder de compra e o acesso ao crédito da maioria dos brasileiros. Criamos, por exemplo, grandes programas de infra-estrutura social voltados exclusivamente para as camadas mais pobres. É o caso do programa Luz para Todos, que levou energia elétrica, no campo, para 12 milhões de pessoas e se mostrou um grande propulsor de bem estar e um forte ativador da economia.Por exemplo: para levar energia elétrica a 2 milhões e 200 mil residências rurais, utilizamos 906 mil quilômetros de cabo, o suficiente para dar 21 voltas em torno do planeta Terra. Em contrapartida, estas famílias que passaram a ter energia elétrica em suas casas, compraram 1,5 milhão de televisores, 1,4 milhão de geladeiras e quantidades enormes de outros equipamentos.As diversas linhas de microcrédito que criamos, seja para a produção, seja para o consumo, tiveram igualmente grande efeito multiplicador. E ensinaram aos capitalistas brasileiros que não existe capitalismo sem crédito. Para que vocês tenham uma idéia, apenas com a modalidade de “crédito consignado”, que tem como garantia o contracheque dos trabalhadores e aposentados, chegamos a fazer girar na economia mais 100 bilhões de reais por mês. As pessoas tomam empréstimos de 50 dólares, 80 dólares para comprar roupas, material escolar, etc, e isto ajuda ativar profundamente a economia.Minhas senhoras e meus senhores,Os desafios enfrentados, agora, pelo mundo são muito maiores do que os enfrentados pelo Brasil. Com mudanças de prioridades e rearranjos de modelos, o governo brasileiro está conseguindo impor um novo ritmo de desenvolvimento ao nosso país. O mundo, porém, necessita de mudanças mais profundas e mais complexas. E elas ficarão ainda mais difíceis quanto mais tempo deixarmos passar e quanto mais oportunidades jogarmos fora. O encontro do clima, em Copenhague, é um exemplo disso. Ali a humanidade perdeu uma grande oportunidade de avançar, com rapidez, em defesa do meio-ambiente.Por isso cobramos que cheguemos com o espírito desarmado, no próximo encontro, no México, e que encontremos saídas concretas para o grave problema do aquecimento global. A crise financeira também mostrou que é preciso uma mudança profunda na ordem econômica, que privilegie a produção e não a especulação. Um modelo, como todos sabem, onde o sistema financeiro esteja a serviço do setor produtivo e onde haja regulações claras para evitar riscos absurdos e excessivos.Mas tudo isso são sintomas de uma crise mais profunda, e da necessidade de o mundo encontrar um novo caminho, livre dos velhos modelos e das velhas ideologias. É hora de re-inventarmos o mundo e suas instituições. Por que ficarmos atrelados a modelos gestados em tempos e realidades tão diversas das que vivemos? O mundo tem que recuperar sua capacidade de criar e de sonhar. Não podemos retardar soluções que apontam para uma melhor governança mundial, onde governos e nações trabalhem em favor de toda a humanidade.Precisamos de um novo papel para os governos. E digo que, paradoxalmente, este novo papel é o mais antigo deles: é a recuperação do papel de governar. Nós fomos eleitos para governar e temos que governar. Mas temos que governar com criatividade e justiça. E fazer isso já, antes que seja tarde. Não sou apocalíptico, nem estou anunciando o fim do mundo. Estou lançando um brado de otimismo. E dizendo que, mais que nunca, temos nossos destinos em nossas mãos. E toda vez que mãos humanas misturam sonho, criatividade, amor, coragem e justiça elas conseguem realizar a tarefa divina de construir um novo mundo e uma nova humanidade. Muito obrigado.”
sábado, 30 de janeiro de 2010
A força objectiva de uma candidatura

No decorrer desta semana, entre as notícias políticas relevantes, recordo o artigo de Vital Moreira no “Público”. Recordo-o, pelo facto de ele ter sido um dos mais expressivos reconhecimentos públicos da incontornabilidade da candidatura de Manuel Alegre à Presidência da República. E reconheça-se que foi, por isso, um poderoso apoio objectivo a essa candidatura. E foi-o tanto mais quanto se tratou de um texto criticamente desfavorável à candidatura que objectivamente acabou por favorecer.
Na verdade, Vital Moreira não gosta da candidatura de Alegre . Não gosta especialmente que o PS venha a apoiar essa candidatura. E mesmo assim vê-se forçado a reconhecer que o PS e a esquerda não têm objectivamente outra saída que não seja a de apoiarem Manuel Alegre.
Não imagino um atestado de força a uma candidatura mais expressivo do que este.
Bem sei que Vital Moreira expressou uma preferência política por um candidato ideal que fizesse o pleno das virtudes e se mostrasse vazio de defeitos, tendo sido claro a dizer que, para ele, esse candidato não era Manuel Alegre.
Mas quem não acompanhará Vital Moreira nessa preferência? Estou certo que o próprio Manuel Alegre não hesitaria um instante em desistir de imediato, se lhe assegurassem, a cem por cento, que um anjo seria destacado pelo Altíssimo, para vir à terra assumir a veste de candidato ideal da esquerda em geral, e do PS em particular, à Presidência da República. Um anjo de esquerda, inevitável e infalível, que concitasse o entusiasmo de Vital Moreira, das direcções do PS, do BE e do PCP, numa beatitude militante que arrastasse todo o eleitorado de esquerda, numa caminhada gloriosa que o instalasse em Belém.
No entanto, como a política terrena não se faz com anjos, nem com candidatos ideais, mas com a carne-e-osso relativa e imperfeita dos homens, Manuel Alegre não tem outro remédio que não seja o de continuar a robustecer a sua candidatura, fazendo jus ao facto de ser, entre os humanos, o melhor candidato presidencial, quer do ponto de vista do PS, quer do ponto de vista da esquerda , em geral, quer do ponto de vista do interesse histórico prospectivo do país, no seu todo.
Como moralidade final, posso alegar que é esta uma das riquezas da atmosfera democrática que se respira, e deve continuar a respirar, na área socialista. Assim, de facto, da pluralidade de opiniões, naturalmente mostrada, podem emergir objectivamente caminhos que transcendem a própria subjectividade de quem, demarcando-se deles, acaba por favorecê-los.
terça-feira, 26 de janeiro de 2010
A corja - regresso indecente

Estes textos falam por si; e falam bem. Alertam-nos para uma pirataria moderna melifluamente ungida por imaginária virtude e falsamente revestida de um alegado rigor, que mais não é do que um colete de ferro, destinado a impedir que as nossas sociedades evoluam para novos patamares de justiça e de liberdade.
É como se nos quisessem impor um falso critério de excelência, cuja única finalidade é prender-nos irremediavelmente à mediocridade.
Mas, percorramos as três crónicas do Pio Abreu saídas no DestaK, ao longo deste mês de Janeiro de 2010.
1. A corja
8/1/2010
Uma vantagem da crise foi livrar-nos da petulância dos economistas liberais. Eles, que nos anos 90 sonhavam um mundo perfeito comandado pelo Mercado, que apregoavam as vantagens do Estado mínimo, que viam como crime a injecção de moeda pelos Bancos Centrais, que apontavam como modelo a Islândia e a Irlanda, que achavam seguros os negócios do Lehman Brothers, calaram-se e esconderam-se quando viram tudo isso ruir numa crise que não souberam prever.
Quando apareciam, envergonhadamente, era para pedir a salvação dos bancos e felicitar os Governos que o faziam. Já aceitavam a injecção de dinheiro, achavam bem a nacionalização dos Bancos e que os Estados se endividassem para os salvar. Até pediam ética na actividade económica, chegando a criticar os ordenados milionários e a existência de Offshores.
Foi assim que os Bancos foram salvos e a sua crise acabou. Mas continua a crise das empresas a quem eles cobram juros elevadíssimos, aumentando, por arrasto, o desemprego. O problema já não é dos Bancos, mas sim dos Governos que perdem receita e gastam na protecção social. Mas o pior é que estão aí de novo os economistas em todo o seu esplendor.
E o que dizem eles agora? O mesmo que há 10 anos, quando glorificavam a Islândia e a Irlanda: que o Estado não se pode endividar e, como perde receita e aumenta a despesa, só lhe resta vender-se. Vender-se, a começar pelas escolas e hospitais, dizem eles. A mim, dá-me vontade de dizer que nos livrem dessa gente. O seu receituário já fez mal que chegue.
2. O homem do fraque
15/1/2010
Lembram-se do homem do fraque? Era uma alternativa às “cobranças difíceis”. Um homem vestido com um fraque acompanhava o devedor para todo o lado, chamando a atenção para o “caloteiro”. Quem o contratava era, evidentemente, o credor, esperando assim que a vergonha do perseguido o levasse a pagar.
Os Estados também têm o seu homem do fraque. Pertence às agências de rating que, entretanto, introduziram algumas diferenças. Ele não assinala quem deve (quase todos os Estados devem), mas quem não tem possibilidade de pagar o que deve. Além disso, ele não é pago pelos credores, mas sim pelos devedores. Talvez lhe paguem para que se mantenha longe. De facto, enquanto a crise já corria, com grandes instituições e alguns Estados a falir, ele não assinalou qualquer risco para os credores.
Para recuperar a credibilidade perdida, as agências de rating estão aí de novo. Descobriram que só acertam quando trazem más notícias, como aconteceu em tempos no Canadá. Basta prever algum risco para que a reacção dos mercados e o aumento dos juros endividem mais o Estado. O pior é que os Bancos locais ficam com o negócio estragado porque, também eles, passam a pagar taxas de risco. A simples profecia faz realizar o desastre.
O homem do fraque anda agora na Europa. Está na Grécia, que teve de recorrer ao FMI. Foi à Espanha, a França e ao Reino Unido, por adoptarem medidas keynesianas para vencer a crise, o que parece ser crime. Mas veio também a Portugal para condicionar o próximo orçamento. Os nossos banqueiros andam assustadíssimos.
3 . CDSs
22/1/2010
Suponha o leitor que acaba de descobrir que terá uma vida curta. Tem vários seguros de vida mas precisa do dinheiro agora. Pode então nomear algumas pessoas como beneficiários, com a condição de lhe pagarem. Como a indemnização estará próxima, elas pagarão bem o benefício que lhes oferece. Mas a venda dos seguros de vida fará com que os compradores fiquem atentos à sua saúde: se um médico certificar que está mais doente, os seguros valerão mais, e mais gente se dispõe a comprá-los. A revenda começa então a ser um negócio. Quanto mais doente estiver, maiores os lucros de quem aposta na sua morte rápida. Imagina agora o que lhe pode acontecer?
Se este cenário é ficção, ele existe com os seguros sobre a vida económica de empresas e nações, os CDS (Credit Default Swaps). Compram-se e vendem-se num mercado desregulado e deixaram de cumprir os objectivos para que foram criados. Várias vozes, incluindo as de Obama, Alan Greenspan, Warren Buffet e Myron Scholes, que participou na organização dos swaps, avisaram para o perigo que representam e clamam por regulação. George Soros tem demonstrado que o seu valor, agravado pela especulação, já não reflecte a saúde das empresas e nações, sendo antes factor de destruição que pode gerar novas crises.
Da influência dos CDSs na crise actual, já ninguém se lembra. Estes produtos tóxicos estão de novo a enriquecer os ex-falidos Bancos de Investimento e a destruir a saúde das nações. Contam com a ajuda das agências de rating que, para já, nos diagnosticaram uma “morte lenta”.
segunda-feira, 25 de janeiro de 2010
Se o inimigo me ataca...
Crise na esquerda chilena?

E, no entanto, se é exagerado qualificar essa derrota como inevitável, há muito no horizonte chileno que se acumulavam sinais que a tornavam uma contrariedade possível. Hoje, sabemos que esses sinais não configuravam um engano.
Por isso, acho útil colocar à disposição dos leitores deste blog um sugestivo texto publicado no jornal argentino Página 12, da autoria de Santiago O’Donnell. O escrito intitula-se, significativamente, Puñales e contém elementos informativos que não se encontram habitualmente reunidos em textos publicados na imprensa europeia de grande circulação. Eis o texto:
“ Es verdad, Chile dio al mundo un ejemplo de transparencia y convivencia política en las elecciones del domingo pasado. Pero cuando se apagaron las cámaras empezó un festival de puñaladas en la espalda entre los líderes de la Concertación. No bien Eduardo Frei había terminado de admitir su derrota, el ex presidente Ricardo Lagos dio inicio a las hostilidades al tomar el micrófono para decir que el pueblo chileno había hablado y había que dar paso a la nueva generación. El discurso no le cayó nada bien a Frei y al eterno presidente del partido socialista, Camilo Escalona, ni a la presidenta Michelle Bachelet, que fue la principal sostenedora de Escalona contra los embates del ex socialista Marco Enríquez-Ominami durante la campaña presidencial. Lagos es el referente del PPD, uno de los partidos chicos de la Concertación, junto con el Partido Radical. Y en las filas del PPD se alistan dos de las principales figuras de la “nueva generación”, la jefa de la campaña Carolina Tohá y el senador Ricardo Lagos Weber, hijo del ex presidente.
Esa noche se sumó a la refriega el presidente del partido demócrata cristiano, Juan Carlos Latorre, el partido de Frei, que culpó por la derrota a su principal socio en la Concertación, el Partido Socialista. Latorre dijo que las candidaturas de los ex socialistas Jorge Arrate por el Partido Comunista y Marco Enríquez-Ominami como independiente, habían dividido el voto de la Concertación en favor del ahora presidente electo Sebastián Piñera, el candidato de la derecha unificada. Como que los socialistas no habían podido contener a sus propios cuadros y disciplinarlos detrás del candidato consensuado por todos los partidos de la Concertación.
La evaluación de Latorre estaba cargada de cinismo. Es cierto, el Partido Socialista no había podido contener a Arrate y a Enríquez-Ominami, justamente por no permitirles presentarse en una elección primaria contra Frei, el candidato demócrata cristiano, para dirimir la candidatura de la Concertación. Y no los dejaron presentarse precisamente para evitar una fractura en la Democracia Cristiana, que venía muy golpeada después de perder dos internas consecutivas contra candidatos socialistas. Si ganaban la interna otra vez los socialistas, el miedo era que la mitad de la Democracia Cristiana se mudara a la coalición de la derecha.
Después saltó a la refriega José Antonio Gómez, ex presidente del Partido Radical, el otro partido chico de la Concertación. Gómez dijo que la culpa la tenían los jefes de la Democracia Cristiana, el socialismo y el PPD porque aceptaron que el candidato se elija a dedo. Los radicales, en cambio, se habían opuesto y habían conseguido una “preprimaria” en la que su candidato había sido fácilmente derrotado. La “autocrítica” de Gómez era no haber luchado lo suficiente por sus ideas. Cuando renunció a la presidencia de su partido en plena campaña de ballottage, con la esperanza de que los demás presidentes lo imitaran para dar paso a la tan reclamada “renovación”, sólo lo siguió Pepe Auth, presidente del PPD. En cambio, los dinosaurios Escalona y Latorre, los de los partidos grandes, los que realmente importaban, se atornillaron a sus sillones y siguieron ahí, como un lastre, durante toda la campaña. Hasta el día de ayer, cuando finalmente renunciaron (a Latorre la DC le rechazó la dimisión)..
A las críticas de Gómez se sumaron las del presidente interino que lo había reemplazado, Fernando Meza, quien le apuntó los cañones directamente a la presidenta Bachelet y su ministro de Economía Andrés Velazco, las figuras políticas con el más alto índice de aprobación de Chile. Según Meza, Bachelet tardó demasiado en alinearse detrás de Frei y Velasco tendría que haberles aumentado el sueldo a los maestros en vez de ahorrar tanto y dejarle a Piñera el aumento servido en bandeja.
Acto seguido el diputado Meza tuvo la delicadeza de pactar un acuerdo parlamentario con la derecha a espaldas de los popes de la Concertación, ganándose el mote de “traidor” de toda la Concertación. El escándalo obligó a Meza a renunciar a su cargo partidario y abortó el acuerdo para rotar la presidencia de la Cámara Baja entre los radicales y los partidos de la coalición de la derecha.
Todos esos reproches y pases de facturas demuestran la dificultad para absorber una derrota que a todas luces fue autoinflingida. Los chilenos estaban más que conformes con las políticas públicas de los gobiernos de la Concertación, con el manejo de la economía. Perdieron porque los cuatro presidentes de los partidos, cuatro iluminados, decidieron elegir el candidato de la Concertación en vez de dejar esa elección en manos de la gente, por temor a que la gente se equivocara. Y se equivocaron ellos porque eligieron un candidato “fome”, como dicen los chilenos, para colmo una figurita repetida. A los chilenos no les gustó el candidato y tampoco la forma en que lo eligieron, y no lo votaron. Encima los excluidos se presentaron por afuera y sus críticas a la Concertación fueron capitalizadas por la derecha en la segunda vuelta. Es cierto lo que dice Atilio Boron que al parecerse tanto Frei a Piñera fue más fácil para los votantes pegar el salto, pero no fue la ideología el causal de la derrota. Es más, los votantes de izquierda, los que más podrían disentir con el perfil socialdemócrata de Frei, fueron sus votantes más fieles. Los que se fueron, liberales, independientes, centristas, lo que sea, se fueron no por ideología sino por desacuerdos con una cultura política que consideran anquilosada y anticuada.
Piñera no tuvo que hacer demasiado, más allá de despegarse del legado de Pinochet, unificar a la tropa detrás de su candidatura, repetir la palabra “cambio” cada vez que abría la boca y hacer la plancha mientras la Concertación se enredaba en sus propias telarañas. Piñera no era un candidato invencible ni mucho menos. Ya había perdido en la elección anterior contra Bachelet por un margen importante. Y encima viene a representar al neoliberalismo en plena crisis del neoliberalismo ante un electorado que venía votando centroizquierda desde que le devolvieron el voto. Su encanto radica en que es el más argentino de los candidatos chilenos. En una sociedad ordenada y estructurada por demás, Piñera es el vivo, el piola, el tipo que se hace millonario con un negocio que no se le ocurrió a nadie, que juega siempre al límite de lo legal, que se come multas por usar información privilegiada en la compraventa de acciones. Un tipo que toda la vida se dedicó a la especulación, tanto política como financiera, y que se vende como emprendedor. Un díscolo, un rebelde entre los políticos de la derecha, que se da el lujo de diferenciarse en temas progre como el matrimonio gay porque es dueño de medio país y tiene plata para armar equipos de campaña y controla medios de comunicación y es el dueño de Colo Colo. Un tipo con algunas cualidades que muchos chilenos admiran, pero al que nadie considera un estadista o una autoridad moral. No lo votaron por sus ideas. Ya intentó meter mano en Codelco, la minera estatal, con una modesta inyección de capital privado, pero se chocó contra una pared. Ya tuvo que prometer que no va a tocar la red social que armó la Concertación. Ya tuvo que reconocer que Bachelet hizo una gestión “excelente” y que él no se va a apartar mucho de esa línea.
Entonces es más difícil digerir la derrota y por eso los puñales están a la orden del día. Todo muy lindo con el traspaso ejemplar. Pero la derrota de la Concertación, cuando tenía todo para ganar, dejó otro mensaje para el mundo y sobre todo para sus vecinos.
Porque el problema no estuvo en la ideología, ni en la economía, ni en la gestión.
Parafraseando a Bill Clinton: es la participación, estúpido.”
domingo, 24 de janeiro de 2010
Sampaio honoris causa em Coimbra

A Sala dos Capelos estava bem emoldurada pelas cores das Faculdades, ostentadas nas insígnias dos vários doutores. Apadrinhou o acto Avelãs Nunes, professor catedrático da Faculdade de Direito. Foram apresentantes do Candidato e do Padrinho, respectivamente, Costa Andrade e Rui Marcos, professores da mesma Faculdade.
O homenageado chamou a Coimbra não só alguns dos seus amigos de sempre, mas também alguns dos militantes estudantis de Coimbra do tempo em que Jorge Sampaio era dirigente estudantil em Lisboa. Misturando uns e outros, e mesmo sabendo que vou falhar alguns nomes, cuja presença não notei, ou que se escaparam indevidamente da lembrança de uns breves minutos, recordo: Manuel Alegre, Alberto Martins, António Arnault, Artur Santos Silva, José Carlos de Vasconcelos, Maria José Lobo Fernandes, Conceição Fernandes, Parcídio Summavielle, José Vera Jardim, Nuno Brederode Santos, José Manuel Galvão Teles, Jorge Galamba Marques, Francisco Soares, Joaquim Mestre, José Dias, João Serra. E, claro, marcaram também presença nos cadeirais dos doutores, que ocuparam por direito próprio, mas por dever de natural solidariedade, no caso concreto, vários amigos do homenageado, como foi o meu caso.
sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
O estranho caso do leão arraposado

Vestia com alguma elegância uma certa ousadia parlamentar, embora às vezes parecesse tropeçar numa certa superficialidade. Um estro fracturante parecia polvilhar prometedoramente a sua retórica fácil.
Ao mesmo tempo, entre os seus pares, um outro deputado, figura nacional de resistente e poeta, tecia com tranquilidade mais um episódio parlamentar de uma longa trajectória, cujo começo se perdia de vista, nas difíceis brumas da resistência. Com bonomia e naturalidade, acolheu com fraternidade o promissor despertar do jovem político.
Mas nas voltas rápidas da política, abriu-se de súbito uma contenda no partido de ambos. E quando se pensaria ver a irrequieta esperança partilhar uma aventura com a histórica figura, num combate comum, ei-lo inesperadamente feroz nas hostes dominantes, a zurzir sem contenção o mesmo que antes ungira de quase veneração. E, em vez de responder com ousadia ao desafio de ser futuro, aconchegou-se na modesta alegação de um imaginário “capitalismo popular”, que imprudentemente propagandeou, como a quinta essência de qualquer socialismo que se pretendesse moderno. A vida esqueceu-se do dislate e o jovem lá prosseguiu na Europa um percurso bordejado de pequenas venturas e de mansas glórias. O resistente lá seguiu o seu caminho através da História..

Foi, por isso, sem surpresa , mas com um ligeiro perfume de mágoa, que o ouvi regougar, num programa televisivo recente, explicitamente, contra o velho combatente. Percebi então que aquele que um dia pareceu poder vir a ser um “jovem leão”, corre o risco de nunca conseguir ser mais do que uma “velha raposa”.
Sondagem - os números da esperança


No "Correio da Manhã" de hoje é publicada uma sondagem respeitante às próximas eleições presidenciais , comparando o apoio de que dispõem Cavaco Silva e Manuel Alegre. O modo como os resultados são apresentados reflecte um ponto de vista predominante na conjuntura mediática, cujo sentido essencial é o apoucamento da posição de Manuel Alegre.
quinta-feira, 21 de janeiro de 2010
Bolívia : um despertar ?

"Hoy hay un Estado colonial que se va y un Estado plurinacional que llega", proclamó Morales ante miles de seguidores, en un discurso tras el ritual en el que el presidente de etnia aimara recibió los bastones de mando de los pueblos originarios.
A las puertas del templo de Kalasasaya de Tiwanaku, Morales sostuvo que el Estado colonial permitió "el saqueo permanente de los recursos naturales de esta noble tierra" y discriminó a los pueblos indígenas al tratarlos como "salvajes" y "animales".
"Ese Estado colonial no trajo ninguna esperanza para los pueblos del mundo. Hermanos y hermanas tuvimos que esperar 180 años para refundar Bolivia (...) y garantizar un estado plurinacional donde todos los originarios tenemos los mismos derechos", dijo Morales.
El gobernante sostuvo que los "originarios milenarios" son millones y pobres y los "originarios contemporáneos" pocos y ricos, pero todos tienen sus derechos garantizados en el nuevo Estado.
En su discurso, también dijo que el proceso iniciado por su Gobierno es "sin retorno e irreversible", porque "los pueblos han decidido dignificarse y liberarse del imperialismo norteamericano".
Pidió a los ciudadanos, organizaciones sociales y a la "Madre Tierra" que le den "fuerza, sabiduría y humildad para servir cinco años más" en su país, hasta 2015.
Según Morales, en este milenio los movimientos sociales deben defender los derechos de la "Madre Tierra" ante el capitalismo, al que atribuye la culpa de los daños que sufre la naturaleza.
El gobernante boliviano jurará mañana en el Congreso para su segundo mandato, para el período 2010-2015, en un acto donde se espera la llegada del heredero de la Corona española, el príncipe Felipe de Borbón, y de los presidentes de Venezuela, Hugo Chávez; de Ecuador, Rafael Correa; y de Chile, Michelle Bachelet.
quarta-feira, 20 de janeiro de 2010
Economia Social - nova pós-graduação

Economia Social - Cooperativismo, Mutualismo e Solidariedade
Março, Abril e Maio de 2010, FEUC, Coimbra
Organização:
Centro de Estudos Cooperativos e da Economia Social
Faculdade de Economia
Universidade de Coimbra
O objecto desta pós-graduação é o estudo da economia social nas suas várias vertentes organizativas, com destaque para as que têm uma identidade historicamente mais marcada e uma importância social mais nítida, como é o caso das cooperativas, das mutualidades e das instituições de solidariedade social no seu todo. Isso não significa que se ignorem os outros aspectos da economia social.
ECTS distribuídos pelas áreas científicas de Gestão, Economia, Sociologia e Direito.
- Rui Namorado
A classificação final do curso é obtida pela avaliação do trabalho final, com um peso de 80 %, e pelo resultado da avaliação contínua da participação no conjunto dos módulos temáticos, com um peso global de 20%, repartido pelos módulos na proporção dos ECTS correspondentes a cada um deles.Pela conclusão com aprovação do curso, será atribuído um Diploma de Pós-Graduação em “Economia Social – cooperativismo, mutualismo e solidariedade.”
Serão admitidos à candidatura a matrícula no curso os titulares de licenciatura, ou equivalente legal.Excepcionalmente, no caso de existirem vagas, podem ser admitidos os detentores de um currículo profissional relevante marcado pela sua actividade em organizações da economia social, mesmo que não sejam titulares de uma licenciatura.
Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra
www4.fe.uc.pt/cec
www.fe.uc.pt
domingo, 17 de janeiro de 2010
A segunda candidatura de Manuel Alegre
1. Apoiei Mário Soares nas últimas eleições presidenciais e continuo a pensar que, na conjuntura que então se atravessava, perante o perfil político assumido pelas várias candidaturas e dadas as circunstâncias particulares que rodearam a respectiva apresentação, foi essa a melhor opção sendo eu, então como agora, militante do PS.





