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quinta-feira, 29 de março de 2012

PARTIDO SOCIALISTA - romper o cerco.

1. O PS parece cercado. De um lado, acusam-no de submissão injustificada aos ditames da “troika”; do outro, de faltar ao compromisso assumido de acatar esses ditames. Valorizo o respeito pela palavra dada. Mas não me parece racional que se trate toda a questão política envolvida nesta problemática com a linearidade subjacente a essa perspectiva.

Desde logo, acho absurdo que se tenha consentido em misturar a obrigação de o país não ir além de um certo patamar de endividamento e de um certo nível de défice público, com a imposição de serem seguidas certas políticas para se atingirem esses resultados, como se essas políticas os garantissem e fosse certo que com qualquer outro rumo isso não aconteceria. Compreende-se, na verdade, que os nossos "credores"queiram garantir a nossa solvência, mas não se compreende que aproveitem a oportunidade para nos forçarem a engolir medidas neoliberais como se fossem uma imperatividade objectiva.

Do mesmo modo, não parece certo, nem sequer compatível com um mínimo de ética política, que se ponham no mesmo saco, como infracções igualmente censuráveis, quer as derrapagens orçamentais comprovadamente causadas por uma gestão errada, deste ou daquele governo, quer as que claramente resultam da obediência a recomendações ( ou até a imposições) feitas pelos poderes “troikos”.

Também não me parece moralmente justificável que se tratem do mesmo modo despesas públicas feitas para salvar vidas ou para impedir cidadãos de sucumbirem ao flagelo da fome e despesas públicas derivadas da compensação de desfalques bancários feitos por ricaços desonestos.

As coisas são, por isso, bem mais complexas do que a dicotomia simplista e radical entre ferrar-se um calote e pôr-se a cabeça no cepo do absolutismo “troikista”. Entre os dois extremos, há uma imensa série de possíveis atitudes intermédias.

Por outro lado, é certo que, quando se tratava de combater o governo do PS o essencial das causas da crise eram, exclusiva e insistentemente, imputadas à política interna, quer pelas oposições, quer pelos “econúmerodontes” de serviço, quer pelos inefáveis plumitivos da vulgata neoliberal. Mas, hoje, mesmo os mais “amedinados” de entre eles reconhecem a centralidade do factor externo, as motivações europeias dos poderes económicos predatórios e a crise do capitalismo internacional, que procuram pudicamente limitar ao desregramento financeiro

É, por isso, de uma inenarrável má fé pretender que tudo se reduz a um merecido castigo aos malandros, que poderíamos ser nós os portugueses, que se encarregam de infligir os sólidos baluartes de um novo angelismo económico, que seriam os membros do cartel político que quer dominar a Europa, bem como todos os que aceitem servir-lhes de lacaios.

Tudo isto merecia ter sido ponderado pelo PS, como condição para calibrar a sua actuação política, em face do modo como o governo de direita interpreta e executa o memorando da “troika”, de modo a que essa actuação fosse explicada e facilmente compreendida pelo povo socialista.

2. Mas há uma outra dimensão do problema que não deveria ser esquecida. O chamado memorando da “troika” é um documento político e não uma simples lista de actos independentes, cujo cumprimento se apura pela prática isolada e sucessiva de cada um deles. Por isso, o PS ao subscrever o memorando obrigou-se a uma conjugação de medidas interdependentes, cuja imagem global seria outra se algumas delas fossem amputadas ou se outras lhe fossem unilateralmente acrescentadas.

Nessa medida, ao governo saído das eleições caberia negociar com o PS os termos e o quadro de uma cooperação que assegurasse as condições para que fosse cumprido o roteiro político desenhado pela “troika”. Mas mudar esse roteiro, acrescentando-lhe novas medidas, não é o mesmo que colocar um mero apêndice numa lista que manteria o mesmo significado político, apenas o enriquecendo ou empobrecendo mais um pouco. Não é. E mesmo que o pudesse ser na perspectiva do governo, só um processo negocial novo poderia garantir que também o era para o PS. Ou seja, se o governo da direita entendeu que devia mudar o roteiro político inerente ao memorando da “troika”, ou garantiu previamente que o PS se mantinha concordante com essa mudança, ou renunciou ao apoio que até então tinha do PS por causa de compromissos anteriores.

Ora, o facto é que essa negociação não ocorreu, mas o PSD e o CD reformularam o programa que correspondia ao memorando da “troika”, indo assumidamente para além dele. Ou seja, o governo da direita com essa mudança rompeu o pacto gerado a partir da assinatura comum do memorando de entendimento. E, como se isso não bastasse, aquilo que acrescentou ao inicialmente acordado, em regra, representou uma tomada de medidas que genericamente se podia esperar que fossem especialmente desagradáveis na óptica do PS. Ou seja, rompeu o acordo tácito inerente à subscrição conjunta do memorando da “troika” e rompeu-o num sentido que objectivamente significou provocar ou humilhar o PS, procurando forçá-lo a engolir aquilo de que não gosta.

Que o PS não tenha denunciado frontalmente essa provocação irresponsável do governo da direita, avisando solenemente que se ele agravasse as sequelas inerentes ao memorando de entendimento se afastaria de qualquer cooperação, parece-me estranho. Mas que aceite ser amarrado a uma proposta de alteração à lei laboral que ele próprio admite ser contrária à dignidade do trabalho e à identidade histórica dos socialistas, parece-me completamente absurdo.

Tanto mais absurdo, quanto sendo uma condição normal da cooperação política que pedem ao PS a manutenção de um grau de agressividade política, compatível com esse espírito de limitação de hostilidades, a verdade é que os partidos da direita , o aparelho de Estado e o complexo mediático que lhes corresponde, têm vindo a lançar uma miserável campanha de ataque ao PS, só comparável com os períodos mais difíceis dos governos do PS.



Também neste caso, seria um bom índice de firmeza e coragem política, eticamente intocável, que o PS tornasse claro que, se o PSD e o resto dos poderes da direita continuarem a hostilizá-lo nos termos rasteiros e agressivos com que o têm feito, podiam dar por encerrado qualquer tipo de cooperação política até ao fim da legislatura. Na verdade, se insistirem na agressividade contra nós, terão resposta automática à altura. Governem enquanto tiverem maioria, o PS será a oposição que as suas ideias mandarem que seja; sem sectarismo, mas sem a mínima transigência.

Ainda não é tarde, mas já não é cedo. O povo português precisa do PS, o povo socialista quer o seu partido forte e actuante. Mas nem o país precisa de um PS hesitante, inconsequente e amolengado, nem o povo socialista o suportaria.

terça-feira, 27 de março de 2012

PARTIDO SOCIALISTA - para uma metamorfose necessária

1. Não duvido que, subjetivamente, a direcção do PS queira fazer o melhor, em prol dos portugueses, liderando os socialistas. Mas se olharmos para as marcas quotidianas da sua atuação, não podemos deixar de ver nelas uma presença demasiado forte das rotinas habituais da vida política. Os seus rostos mediaticamente mais visíveis desdobram-se em pequenas farpas verbais contra o governo, exteriorizam algumas indignações civilizadas, deixando transparecer uma generosidade social merecedora de aplauso, cercando o atual governo de direita de uma justa teia de preocupação e alarme, pelo que ele é, pelo que ele faz, pelo que o seu fundamentalismo ideológico primário o pode levar a fazer de ainda pior. Mas parecem não conseguir evitar ser arrastados pelo rio de desgraça que se apossou das sociedades atuais.

Batem-se com autenticidade para que os atuais sofrimentos se não agravem, mas parecem não saber como lhes arrancar as raízes. Conseguem assumir-se como barragem contra a desgraça, mas não mostraram ainda a bandeira da esperança. De facto, o problema central está no risco que correm as sociedades onde o capitalismo é dominante de só escaparem duravelmente da desgraça se atingirem um mínimo de concretização as esperanças estruturais dos cidadãos. Pode pois dizer-se com justiça que o PS está envolvido com os portugueses na tempestade, determinado a ajudá-los a suportá-la, mas não tem dado sinais convincentes de estar determinado e preparado para realmente a extinguir, extirpando-lhe as raízes.

Ora, se a fraternidade imediata é um imperativo ético da nossa identidade socialista, extirpar as raízes da tempestade (ou se quisermos, da crise) é um imperativo político da nossa identidade socialista. Se falharmos definitivamente neste último desafio, acabaremos por esmorecer no primeiro. E é preciso ter consciência de que o ataque às raízes da tempestade, incorporando naturalmente o impulso da energia colhida nas pequenas escaramuças do teatro político, exige muito mais do que isso.

Muito mais. E não julguem que estou a pensar em qualquer ferocidade verbal polvilhada de insultos, ou em visões apocalíticas do futuro, que arrasassem os portugueses com um furacão de pessimismo. Muito menos penso que nos devamos exibir como anjos de virtude que mansamente se ofereçam para depositar paraísos no regaço cansado dos aflitos, para que vendo-nos eles tão puros fiquem certos de que o diabo se apossou dos nossos adversários. Nada disso. Precisamos realmente de ser incisivos, mas sem nunca sermos primários ou simplistas, temos que separar as águas sem sermos maniqueístas, temos que ser convincentes sem sermos sectários. Precisamos pois de nos emocionarmos racionalmente, sem permitirmos que a nossa justa indignação se dissipe sem consequências. Precisamos de agir, fortes da nossa razão, sabendo que é da condição humana poder não a ter por completo.
2. É neste contexto que, entre os múltiplos aspetos da ação política dos socialistas que merecem ser cuidados, vou mencionar um e analisar outro.

Aquele que vai ser agora apenas mencionado, sem deixar de continuar a exigir no imediato aprofundamento e estudo, é a construção de uma mensagem política clara que evidencie que nós não nos revemos no capitalismo como sendo um sistema que traduza os nossos valores e que materialize os nossos princípios; e que, não sendo o capitalismo eterno, aspiramos a projetar no horizonte pós-capitalista os nossos valores, materializando os nossos princípios, propondo-nos contribuir para uma saída do capitalismo tão rápida e tão pouco dolorosa quanto possível. Encaramos esse processo como um aperfeiçoamento continuado da democracia, o que implica uma opção reformista de transformação social, um processo sempre democrático, necessariamente prolongado, mas sem estagnação.

Por isso, o facto de um partido socialista estar no governo numa sociedade capitalista não pode confundir-se, de modo nenhum, com a implantação do socialismo. Apenas significa que esse governo tem uma tarefa política de gestão administrativa dos mecanismos económico-sociais vigentes, o que deve fazer respeitando o essencial da sua própria identidade histórica, à qual deve acrescentar o início ou a continuação de uma trajetória de transformação social. Essas tarefas (e mais acirradamente a segunda) enfrentam uma resistência irredutível de todas as forças políticas, económicas, culturais e sociais que protagonizam a vontade de perpetuar o capitalismo, sua razão de ser.

Daí resulta, no imediato, que o Partido Socialista, sendo naturalmente responsável pelas consequências e sequelas dos erros técnicos, administrativos, económicos e políticos, que possa ter cometido, enquanto governo, não pode deixar-se responsabilizar pelas sequelas de qualquer natureza que resultem do capitalismo em si próprio. Enquanto isto não for claro para todos aqueles que se identificam política e socialmente com o PS e para todos aqueles que são estruturalmente vítimas do tipo de sociedade atual, o PS arrisca-se a ser acusado, não só pelos erros que os seus Governos realmente cometam, mas também por todas as consequências sociais e económicas negativas inerentes à subsistência do capitalismo, assim encaradas também como se fossem consequência de erros seus. E enquanto isso acontecer, a sua base social será permanentemente confundida, instabilizada e diminuída, com forte corrosão das condições de êxito da sua atividade política.

3. Um outro problema vivido atualmente pelo PS tem a ver com a necessidade crescente de se modernizar profundamente, quer organizativa, quer estruturalmente. Os sinais dados pelo processo de alteração dos estatutos atualmente em curso não são de modo a descansar-nos por completo. De facto, mesmo sem fugirem por completo a uma agenda de mudança, eles parecem indiciar que pode não se ir muito além de simples modificações superficiais.

E, no entanto, parece cada vez mais essencial que se suscite uma verdadeira metamorfose política do partido no seu todo, de modo a que ele possa agir com eficácia como um partido de transformação social, tão consistentemente que possa contaminar com essa novidade auspiciosa todo o Partido Socialista Europeu (PSE). Essa metamorfose necessária só pode ser fruto de um longo processo, mas retardar o seu início é uma negligência arriscada e perigosa.

3.1.De facto, o PS precisa de assumir um novo modelo de inserção no tecido social, que tenha maior amplitude, maior profundidade e maior sistematicidade. Na verdade, a própria crise estrutural do capitalismo exige dele a abertura de um novo espaço de intervenção direta na sociedade, que, pelo menos, o implique por completo na economia social e que reflita uma atitude não predatória nem antropocêntrica, quanto ao planeta de que fazemos parte.

3.2. O PS precisa de instituir na sua vida interna, quer enquanto coletivo de militantes, quer enquanto conjunto de eleitores que lhe são fieis, uma nova convivialidade adequada à criação de condições conducentes a formas de solidariedade organizada no interior do seu espaço político.

3.3 . O PS precisa de transformar a sua maneira de viver a política num ato de cultura, libertando-a estruturalmente do risco de qualquer instrumentalização por estratégias de aproveitamento pessoal.
Para isso, precisa de ser um foco de informação política, objetiva, atualizada e completa, fornecendo sobre o país, a Europa e o mundo uma informação completa, que escape ao império invisível do pensamento único segregado pelo sistema mediático dominante no mundo atual.
Precisa também de inscrever na sua vida como organização a habitualidade de debates, concebidos para romperem o mais possível com a dualidade ouvinte/orador, sistemáticos, balizados por objetivos claros e geradores de conclusões que possam ser tidas em conta nas posições assumidas pelo partido.

3.4. Os principais órgãos políticos não executivos do PS, pelo menos e desde já no plano nacional, têm que ter um trabalho coletivo organizado e permanente, deixando de ser apenas foros de discussão, ocasionalmente deliberativos, vivendo de protagonistas individuais cooptados para essas instâncias por razões mediáticas ou por lógicas de aparelho. Têm que fazer jus realmente à sua qualidade, estatutariamente consagrada, de direção política colegial coletivamente responsável. Tem por isso de se fazer com que sejam seus membros os militantes realmente habilitados a assumir tais responsabilidades.

4. Para se desencadear um processo de transformação do PS que possa conduzir realmente à metamorfose necessária, os primeiros passos têm que ser irreversíveis, sob pena de poderem ficar objetivamente reduzidos a uma vistosa maneira de ser ficar parado. Como ilustração do início do trajeto que temos que percorrer escolho três exemplos entre os mais urgentes e mais estruturantes.
4.1.Eleições Primárias
O primeiro é o que corresponde à necessidade de serem escolhidos em primárias abertas todos os candidatos apoiados pelo PS nas eleições presidenciais, legislativas, autárquicas e europeias. O âmbito do universo eleitoral corresponderia à natureza de cada tipo de eleição. Seriam admitidos como participantes em qualquer eleição primária, não só os militantes do PS, mas também os seus simpatizantes (nos termos estatutários atuais), aqueles que, tendo sido candidatos independentes em qualquer lista do PS, não tenham posteriormente aderido a outro partido ou participado como independentes em listas eleitorais de outro partido e ainda aqueles que formalmente se declarassem eleitores habituais do PS, assumindo-se como politicamente identificados com ele, desde que não estejam inscritos noutro partido.
Garantido, com base nestes parâmetros, o princípio das primárias, haveria que, no respeito pela respetiva lógica, definir um processo político adequado para a legitimação dos pré-candidatos às primárias, radicado nos órgãos do partido. Esse processo poderia assumir uma diversificação de regras, em paralelo com a diversidade dos tipos de eleição. O modo como vários partidos irmãos, que já seguem esta via, têm resolvido essa questão poderia ser uma boa ajuda.

Dentro do PS, vários militantes (entre os quais me incluo), há uns bons dez anos que defendem este caminho. Desde então, vários têm sido os partidos socialistas que têm vindo a optar por eleições primárias. Na própria direita se prometem passos nesse sentido, como se viu no recente Congresso do PSD. A evolução sociopolítica tem vindo a tornar inevitável o que antes parecia um objetivo distante e secundário. Hoje, pretender envolver o PS mais profundamente no tecido social sem que este passo seja dado, parece absurdo ou imprudente. Na verdade, é muito ingénuo pensar-se que os movimentos e os ativistas sociais podem aceitar conjugar-se com o PS, se recearem que este as encare como simples instrumentos; mas é realista esperar-se que, quem se sinta envolvido nas decisões políticas relevantes de um partido de que está próximo, se disponha a cooperar habitualmente com ele, com toda a naturalidade.
Por tudo isto, introduzir as primárias nos estatutos numa versão tímida, de quem pareça querer salvaguardar o máximo do passado embrulhando-o com uma aparência de futuro, pode ser uma fonte de desprestígio político e simbólico que ninguém deve aceitar de ânimo leve.

4.2.Democracia interna
É hoje uma evidência, publicamente revelada por diversos casos mediáticos , em diferentes estruturas do PS, que as regras atuais, por que se regem as eleições internas para os órgãos do partido, são insuficientes para garantir o reconhecimento da sua qualidade democrática por todos os intervenientes.
Ora, sem um claro reforço dessa qualidade que torne objetivamente impossíveis as distorções que geraram as controvérsias públicas conhecidas, algumas das quais dirimidas ou me vias de o serem nos tribunais, a opção pelas primárias é uma aventura imprudente. Efetivamente, se é certo que o questionamento público justificado, quanto à decência das eleições internas no PS, nada tem de politicamente positivo, se incidisse nas eleições primárias poderia ter efeitos políticos devastadores.
Nessa medida, as eleições internas têm que ser rodeadas de, pelo menos, garantias idênticas às que asseguram a transparência e a equidade das eleições para os órgãos do Estado.

Por exemplo, todas as candidaturas têm que ser tratadas em absoluto pé de igualdade pelos órgãos do PS; não podem consentir-se financiamentos externos para cobrir as respetivas despesas, nem o recurso a fundos pessoais do candidatos, pelo que todas as candidaturas têm que ser financiadas pelo partido, em pé de igualdade. Não pode também ser admitida qualquer publicidade externa que não resulte de notícias, dadas sem contrapartidas. Devem ser fixadas sanções efetivas de aplicação rápida contra qualquer possível falcatrua de natureza eleitoral ou contra qualquer tipo de pressão ilegítima para condicionar o sentido de voto dos militantes.

Se nada for feito pelo PS neste campo, as primárias podem transformar-se numa aventura e a imagem externa do partido corre o risco de ser prejudicada, cada vez mais fortemente, por uma sucessão de alegadas fraudes eleitorais desencadeadores de processos judicias.
4.3.A política fora dos negócios, os negócios fora da política.
O PS não conseguiu escapar incólume dos salpicos de alguns escândalos financeiros que atravessaram o mundo da política. Por isso, é preciso reconquistar um brilho até certo ponto perdido. Para isso, é indispensável instituir uma ampla rede de incompatibilidades, justa e preventiva, que previna e evite conflitos de interesses. É decisivo impor a obrigação de declaração de interesses aos titulares dos órgãos mais importantes do PS, especialmente aos de natureza executiva. É ainda muito importante fixar sanções significativas e aplicá-las sem contemplações. Há, finalmente, que instituir um novo tipo de jurisdição interna no PS, tecnicamente crível e eticamente acima de qualquer suspeita.
4.4. Sublinhe-se que estas medidas devem ser tomadas com decisão, conjuntamente e de uma só vez, sob pena de verem comprometida a sua eficácia e de verem o seu eco público positivo muito atenuado.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

TRAGÉDIA APENAS GREGA ?

1. O parlamento grego aprovou o plano acordado com a respectiva "troika", parecendo aberta a porta para alguma descompressão no garrote economico-financeiro mais imediato, que tem vindo a estrangular esse país, recorde-se, membro da União Europeia. Em contrapartida, as violentas manifestações de rua , que assinalaram essa aprovação redimensionam objectivamente o significado da aprovação conseguida. Hoje, a agitação violenta parece ser um efeito colateral da mediocridade política dos líderes europeus e da sua acéfala subordinação às pulsões sôfregas do capital financeiro. Mas ela talvez esteja perto do limiar, a partir do qual a todo poderosa tirania dos mercados será apenas um detalhe esquecido na brutal chegada de um novo tipo de revolta popular, que meterá debaixo das mesas os políticos engomados, que agora ocupam a ribalta da cena política. Assim, o que se tem passado na Grécia, o que as instituições da União Europeia têm permitido que os pequenos impérios intra-europeus lhe façam, relativiza bastante o que vierem a ser os resultados eleitorais das próximas eleições legislativas gregas, que vão decorrer em Abril. Mas, seja como for, esses resultados vão ter uma repercussão tanto maior, no desenrolar dos acontecimentos na Grécia e na Europa, quanto mais atípicos forem, quanto menos saídas institucionais permitirem, no quadro dos caminhos habitualmente percorridos.

2. Vale por isso a pena comparar os resultados das eleições legislativas gregas, em Novembro de 2010, com os resultados de duas sondagens feitas na Grécia durante o corrente mês de fevereiro de 2012.

Na primeira linha, estão em itálico os resultados eleitorais de 2010; nas duas seguintes, em castanho, os números de duas recentes sondagens. A vermelho, estão indicados os nomes dos partidos de esquerda; a azul, os de direita. Os Verdes não elegeram deputados; penso que a actual Esquerda Democrática, antes integrada na Esquerda Radical, não concorreu sozinha, mas ficou com quatro deputados retirados ao conjunto desta última. Se as sondagens anteciparem realmente no essencial os resultados das próximas eleições, teremos pela frente uma metamorfose do xadrez político grego.

Ambas as sondagens anunciam para o PASOK uma verdadeira hecatombe política. Mas, na que lhe é mais desfavorável perde 35, 9%, descendo de 43,9 % para 8 %; a que lhe é mais favorável não deixa de ser desastrosa, colocando-o a descer 30,4%. Porém, na primeira sondagem, o PASOK passa a ser o 4 º partido da esquerda em peso eleitoral, quando nas últimas eleições teve sozinho mais do dobro dos votos que o resto da esquerda no seu todo.

Mas, se a sondagem mais desfavorável ao PASOK for a mais certeira, os seus votos mais os do partido de direita Nova Democracia, que seria o mais votado de todos, somando 39% (31+8), ficariam atrás dos três outros partidos de esquerda que atingiriam os 42,5% ( 12,5+12+18 ). Só o apoio da extrema-direita com 5%, colocaria este último conjunto em minoria, mas apenas no caso dos Verdes continuarem a não eleger deputados, já que, somados aos outros três partidos de esquerda, chegariam aos 46 %.

Se pensarmos que a extrema-direita abadonou o actual governo e que houve várias expulsões no PASOK e na ND, podemos avaliar a fragilidade de uma maioria que queira reproduzir o leque partidário que apoia hoje o governo. Mas, obtendo resultados próximos dos indicados por qualquer das sondagens, tem o PASOK o mínimo de condições objectivas para se aliar, qualquer que seja a justificação, à direita? É muito duvidoso.

3. De facto, se compararmos as penalizações eleitorais, a crer nas duas sondagens, que sofrem a direita e a extrema-direita, verificamos que são ligeiras. A ND perde um mínimo de 2,4 % e um máximo de 6,4%; enquanto a extrema direita perde um mínimo de 0,5% e um máximo de 0,6%. A sua base social parece largamente intocada, continuando no essencial a reconher-se neles.

Já o PASOK vê a sua base eleitoral completamente destruída, o que faz pensar que estamos perante um fenómeno socialmente mais fundo do que a simples variação, ainda que dramática, das intenções de voto. Podemos estar a assistir ao desfazer de um bloco social , donde resultará a irrelevância de um partido, até agora determinante na cena política grega. A direita, movendo-se num território que é afinal seu, dá assim sinais de se aguentar muito melhor do que uma esquerda que executou primeiro, partilhando depois, políticas distantes do seu código genético que muitas vezes chegaram a contrariar a sua própria razão de ser.

Poderá o PASOK levar ainda mais longe a sua marcha para um completo suicídio político? Talvez; mas não é provável, correndo aliás o risco de cair numa anemia política de tal ordem, que pode tornar a sua posição irrelevante, seja ela qual for, no plano da simples relação de forças.

4. O PSE (Partido Socialista Europeu) há muito que devia ter apostado na sua própria metamorfose; mas, nestas circunstâncias, não pode, sem potenciar muito os riscos de desmoronamento, continuar a mastigar trivialidades, preso ao efémero dos detalhes, mas inerte perante as dinâmicas de profundidade, que realmente contam. O mesmo acontece, embora em graus diversos, a cada um dos partidos socialistas da União Europeia. Nenhum deles, no entanto, pode justificar a sua própria paralisia estratégica com a inércia do PSE; fazê-lo só agravará o problema. Também no caso português, ou talvez especialmente no caso português, não se pode continuar a cultivar rotineiramente uma irrelevância após outra, como se o essencial fosse cumprir calendário e não inventar com ousadia um futuro outro, onde realmente caiba a sobrevivência da democracia como único caminho contra a desigualdade, pela justiça e pela sobrevivência durável da humanidade.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

O CHARME DISCRETO DOS CROCODILOS

Fui surpreendido, nos últimos dias, por uma desusada afluência nos écrans televisivos de um diversificado leque de crocodilos. Todos choravam: uns quase convulsivamente, outros como se transportassem a discreta dor de viúvas saudosas. É certo que, a fazer fé na aparência que os embrulhava superficialmente, poder-se-ia até confundi-los com gente.

Mas sabendo-se quem eram, tendo-os ouvido, uma e outra vez, louvar, de olhos em alvo, o tipo de sociedade em que vivemos, as lágrimas que tão compulsivamente soltavam só podiam ser de crocodilo. Ora quem chora lágrimas de crocodilo, o que se pode dizer que seja. Um rouxinol ? Um tigre da Sibéria ? Um pacato cidadão ? Uma cobra de água? Não, certamente que não. Só pode ser um crocodilo.

Mas o que afligia os nossos sensíveis répteis ? Muito justamente, comovia-os a solidão e o descaso que assinalou a morte de um, dois, vários idosos, neste janeiro frio e pesado, fustigado pelos ventos insalubres de uma alegada tróica. As suas lágrimas vinham juntas com uma salada de bombeiros, de juntas de freguesia, de misericórdias e de vizinhos, convocando a todos para uma nova piedade, que poupasse à nossa sociedade este efeito colateral, que a tróica se esqueceu de discutir, que não está inscrito na dívida soberana e que não tira o sono à simpática dupla merklo-sarkosiana.

Pouco antes, lágrimas irmãs, talvez ligeiramente mais contidas, haviam chorado o esmorecer demográfico de Portugal, onde as crianças parecem recusar-se a nascer, onde os que podiam ser pais, aflitos pelo não-futuro com que os ameaçam, recusam ser causa de sofrimento para crianças futuras. Comovidos, os crocodilos falam neste caso em circunspectas políticas, desenrolando penosamente rosários de lugares-comuns, cuja lógica é, afinal, a recomendação de que é urgente fazer baixar a febre, mas está fora de questão curar a doença.

De facto, é de algo semelhante a uma doença, aquilo de que estamos a falar. O capitalismo, possuído pela fatalidade neoliberal, é cada vez mais uma doença para um número crescente de cidadãos, que pagam com os seus dramas vivenciais, com a sua infelicidade, os rios de leite e de mel que desaguam com abundância nas flácidas barrigas de um pequeno número de felizardos.

Não cabe na vasta sabedoria dos croquetes economicistas, alguns dos quais fabricados nas melhores universidades, que executam os mais sofisticados cálculos em equações de excelência, para sublinharem a fatalidade da desgraça dos povos e da ventura dos privilegiados, dar uma resposta para a sombra que se adensa sobre os mais velhos e que desencoraja os nascimentos. Por eles, chegaremos um dia ao colossal êxito de uma sociedade suficientemente rigorosa e disciplinada para que ninguém se atreva a nascer e ninguém tenha o desplante de viver .

É certo que qualquer capitalista, com o discernimento de uma criança de cinco anos, sabe que sem pessoas não há capitalismo; ou que, se houvesse um radioso futuro em que qualquer coisa como máquinas mandasse verdadeiramente, elas não teriam certamente um resíduo de generosidade que deixasse escapar com vida os resíduos humanos que embaciassem esse alegado paraíso. Mas, se é pensável, mesmo que absurdo, que essas endinheiradas criaturas possam sonhar com essa desumanidade, todos nós, todos os povos, toda a vasta legião de pessoas que pagam penosamente o preço da subsistência de um sistema retrógrado, imoral e destruidor, têm que acordar para o essencial: ou começamos a breve prazo a percorrer o difícil trajecto de saída deste tipo de sociedade, rumo a um pós-capitalismo humanizante, com justiça e liberdade; ou somos devorados por ele.

Todos compreendemos que numa sociedade cooperativa e solidária, em que se estimule o protagonismo livre de todos e se assegure a justiça, será muito menos frequente que haja pessoas idosas condenadas ao isolamento, à solidão e à miséria; tal como será mais improvável que os que poderiam vir a ser pais não queiram gerar novas vidas, por julgarem que elas estão, muito provavelmente, condenadas a ser de sofrimento.

Todos temos que compreender que consentir-se na subsistência de uma máquina de produzir injustiça, miséria e infelicidade, ao mesmo tempo que se fazem campanhas de solidariedade para se minorarem os resultados da manutenção dessa máquina, é uma generosidade desesperada, quando não é uma hipocrisia cínica. Tratemos pois das actuais sequelas do funcionamento dessa máquina com empenho e fraternidade, mas acabemos com a máquina.

Não nos conformemos, não aceitemos que se apresentem perante nós, com a pele viscosa dos crocodilos, chorando as suas lágrimas com a duplicidade de quem se recusa a salvar as vítimas, mas tem manha suficiente para chorar por elas.

sábado, 17 de dezembro de 2011

ÉTICA E POLÍTICA

1. Intransigência ética perante a injustiça, serenidade intelectual perante a complexidade e agressividade crítica em face das mistificações, são atitudes que podem contribuir para que se avance muito na compreensão das (e na luta contra as) causas da tempestade que tem vindo a varrer a Europa, no vislumbre de caminhos novos e na capacidade de pôr de pé uma solidariedade prática, que minore sofrimentos e desembarace o futuro das suas piores sombras.

2. Por isso, não é possível que se deixe de questionar a qualidade ética do capitalismo, decorridas pelo menos duas décadas sobre a afirmação inequívoca do seu domínio sem partilha, sobre o nosso planeta. Na verdade, num tempo de acelerada evolução da técnica, de exponencial aumento dos conhecimentos e de enorme crescimento das oportunidades comunicacionais, continuam a somar-se os milhões de seres humanos que sobrevivem na fronteira do insuportável, sucumbem nas margens da doença e da insalubridade, mergulham na violência, na exclusão e na ignorância. E, para agravar a ilegitimidade moral desta vigência, os automatismos predatórios que estruturam o essencial do capitalismo parecem ter desabado sobre a Europa, para anularem séculos de luta dos povos por uma vida melhor, na voragem de uma crise, cujas causas, com um desarmante cinismo intelectual, chegam a ser atribuídas às vítimas, pelos mastins mais lineares da propaganda neoliberal. É como se uma imensa força, intrinsecamente corrupta, tivesse usado o seu poder para se absolver a si própria, pela invenção de uma legalidade espúria, cuja primeira raiz é um salvo-conduto concedido aos protagonistas centrais do capitalismo, para triturarem milhões e milhões de seres humanos. Para os sacrificarem no sombrio altar dos seus interesses económicos, da sua voracidade objectiva, alimentada automaticamente pela lógica do capital. Contra esta injustiça estrutural, os socialistas não podem deixar de ser eticamente intransigentes.

3. Mas ao mesmo tempo que é indispensável que nos deixemos impregnar por esta intransigência ética, não podemos confundi-la com qualquer precipitação voluntarista ou com primarismo intelectual. A complexidade do mundo de hoje, da vida social, da civilização moderna não se compadece com abordagens simplistas, com atitudes políticas unidimensionais, sob pena de ineficácia e de irrelevância. E se a complexidade se enfrenta tanto melhor, quanto mais a acção política conseguir ser um acto de cultura (talvez porque nenhuma atitude crítica pode vicejar à margem da cultura), podemos concluir que a luta política deve ser, cada vez mais, um acto de cultura; principalmente se não renunciar, suicidariamente, à sua dimensão ideológica.

Ao fim e ao cabo, é bem verdade que não se combate adequadamente o modo como se estruturam e reproduzem os tipos de sociedades actuais sem as conhecer, tal como é improvável participar num combate emancipatório, sem se conhecer bem os combates pela libertação e emancipação humanas que fizeram a História.

E, desde logo, entre os muitos rostos da complexidade não podemos deixar de salientar a enorme tensão entre o imperativo de se contribuir para que a sociedade em que vivemos funcione e a recusa a renunciar-se à sua transformação numa sociedade outra. Contribuir para que ela viva o melhor possível, sem deixar de tudo fazer para que ela se encaminhe para uma metamorfose, da qual nasça uma nova sociedade. Uma sociedade humanista, por ser livre, justa e fraterna, à qual só se pode chegar democraticamente.

Por isso, o caminho tem que consubstanciar a dignidade das pessoas, de todas as pessoas, sem que , por isso, se possa consentir na instrumentalização crescente dos seres humanos pela lógica reprodutiva do capital. O lema tem pois que ser: as coisas ao serviço dos seres humanos e não os seres humanos ao serviço das coisas.

Portanto, sendo o Estado transformador a instância politica adequada para pilotar um trajecto que nos leve à metamorfose desejada, ele tem que ser também um Estado social sempre mais ambicioso e mais eficaz. Tem que ser, em sinergia, transformador e social. Os seus eventuais êxitos na transformação da sociedade vão necessariamente potenciar a sua eficácia como Estado social, mas, ao mesmo tempo, a eficácia do Estado social dará forçosamente uma energia acrescida ao Estado transformador.

Por isso, é uma perspectiva, em si própria, mistificatória dizer-se apenas que um certo nível de desenvolvimento económico não é suporte suficiente para um determinado Estado social. Conjunturalmente, isso poder ser certo ou errado, dependendo da conjuntura, das medidas tomadas ou de certas políticas praticadas, mas no médio prazo é necessariamente uma mistificação. De facto, a verdadeira questão é outra. Não a de saber se um determinado nível de desenvolvimento de uma sociedade capitalista pode garantir um Estado social susceptível de assegurar o bem-estar dos seus cidadãos; a verdadeira questão é a de se saber se sociedade se deve manter dentro do sistema capitalista, uma vez que assim não consegue satisfazer as necessidades sociais de todos os seus membros.

Ainda neste plano, é também importante sublinhar que a energia política transformadora tem que se fazer sentir na própria sociedade civil, nas respectivas instituições sociais, económica e culturais, e não apenas nas instituições políticas que constituem o Estado. Nestes vários planos, que traduzem a complexidade do mundo actual, os socialistas têm que ter uma enorme serenidade intelectual, mas não podem estar ausentes de nenhum. Têm que estar organizadamente presentes, valorizando a cultura como seiva de qualquer atitude crítica e aprendendo a conjugar o exercício do poder político e um novo tipo de protagonismo nos movimentos sociais. Não podemos continuar a jogar rotineiramente num só tabuleiro. Não podemos ter a ilusão de que agimos consistentemente numa sociedade multidimensional com base numa visão do mundo unidimensional.

4. Mas manter uma serenidade intelectual exigente e rigorosa, não significa que se caia em qualquer tipo de pusilanimidade crítica. Estamos, na verdade, mergulhados num tempo em que o espaço mediático é ocupado por matilhas de mistificadores que executam uma tarefa vital para a conservação dos poderes instalados: a de ocultar o essencial da realidade social. Ocultar, quer amontoando histericamente pequenos factos irrelevantes, revestidos de uma falsa importância , quer através de autênticas mentiras e falsificações.

Neste contexto, nada justifica que se tergiverse nas respostas à propaganda neoliberal, que se amoleça no combate ideológico, que se deixe os “tartufos” campear sem peias, que se deixem sem réplica os deploráveis bichanos mediáticos que vão ronronando amabilidades junto dos donos. No entanto, esta atitude de combate não pode confundir-se com qualquer girândola de tiros de pólvora seca, mais tributários de uma ingénua ânsia de notoriedade do que de uma genuína vontade de intervir na luta política.

De facto, um combate político digno esse nome é objectivamente exigente. Necessariamente colectivo, há-de ser uma teia viva de protagonismos cívicos individuais. Organizado, não pode renunciar à frescura de uma espontaneidade mínima. Necessariamente criativo, não pode confundir-se com um acumular de frases feitas e de ideias previsíveis.

Honestidade, criatividade, consistência, conhecimento daquilo sobre que se escreve, respeito pela língua portuguesa, não podem estar ausentes, sobe pena de, afinal, se estar apenas a fazer um estéril ruído de fundo, para dissimular o alheamento de um combate de que se desertou por incompetência.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

UM NOVO CLUBE POLÍTICO NO PS

Subscritores do “Manifesto para uma Renovação Socialista”[http://manifestops.blogs.sapo.pt/ ],reunidos em Coimbra, no passado dia 26 de Novembro, fundaram um novo clube político no âmbito do Partido Socialista.

“CLUBE MANIFESTO – para uma renovação socialista”, eis o nome que foi escolhido. Ao novo clube aderiram já quarenta e oito militantes do Partido Socialista, pertencentes a algumas das suas Federações. O documento acima referido é a identidade política do clube. Podem aderir aqueles que, concordando com o Manifesto, o subscrevam. Vai abrir-se, assim, um novo espaço de debate sobre a actualidade política, sobre as questões económicas e sociais mais candentes, sobre a vida do PS, sobre a esquerda em geral, sobre Portugal, a Europa e o Mundo, sobre o injusto garrote neoliberal e a dolorosa agonia do capitalismo, sobre o pós-capitalismo e o horizonte socialista.

Foi constituída uma Comissão Instaladora, destinada a preparar uma nova reunião, em que serão aprovadas as regras essenciais para o funcionamento do Clube e uma estrutura simples de coordenação; bem como a promover outras iniciativas aprovadas.

Desde já, ficou decidida a realização de um Colóquio, a realizar em Fevereiro próximo, que irá centrar-se em dois temas principais:

- primeiro, a renovação político-organizativa do Partido Socialista, com destaque para a questão das eleições primárias abertas, para escolha dos candidatos a apresentar pelo PS nas diversas eleições; para o imperativo de serem criados obstáculos estruturais que tornem objectivamente inviável, dentro ou a partir do PS, qualquer promiscuidade entre política e negócios; e para a necessidade de um grande passo em frente na senda de uma maior qualidade democrática na vida do partido, especialmente nos processos eleitorais internos;
-segundo, o projecto autárquico do PS concebido no quadro de uma reforma do Estado, numa perspectiva potenciadora da qualidade de vida das pessoas, através da territorialização de uma economia plural, ecologicamente amigável.

No decurso da reunião do passado dia 26, foi debatida a actual conjuntura portuguesa, a situação do PS, o bloqueio do projecto europeu, a estagnação do Partido Socialista Europeu e o extravio da Internacional Socialista.

Pela Comissão Instaladora .

Rui Namorado

domingo, 27 de novembro de 2011

NA EUROPA: melancolia socialista.

Hoje, vou dar-vos a conhecer um pequeno texto noticioso, publicado no diário espanhol El País, escrito em Bruxelas, pelo jornalista , Ricardo Martínez de Rituerto, intitulado “Papandreu culpa a los conservadores de "hacer fracasar a Europa" ”, cujo subtítulo é “Los socialistas europeos buscan respuestas a la crisis que los arrolla”.
Pelo texto, se pode confirmar a gravidade do esvaziamento político que atingiu o Partido Socialista Europeu. Em contrapartida, não se consegue vislumbrar o mínimo sinal de esperança nos horizontes por ele sugeridos. Tenhamos esperança, apesar de tudo, de que se trate apenas de uma falha de informação e fiquemos a aguardr melhores notícias.


Mas se isso não acontecer , talvez não nos reste outra saída do que a de nos rebelarmos contra a inércia cinzenta das burocracias que sufocam o socialismo europeu, condenando-o a uma quase irrelevância. Uma irrelevância que as dificuldades presentes tornam insuportável.


Vejamos o texto:

"Los socialistas europeos celebran este viernes y sábado en Bruselas el congreso de su partido en la atmósfera de depresión y desorientación propia de quienes se han convertido en los administradores de políticas que sus electores consideran serviles a las ideas liberales y a los mercados. “Necesitamos otro espacio político”, dice el danés Poul Nyrup Rasmussen en el discurso de despedida como presidente del Partido de los Socialistas Europeos (PSE), un mandato que comenzó con otras expectativas en 2004. En su parlamento, Rasmusen ha dado calor político al ex primer ministro griego Yorgos Papandreu, quien, a su vez, ha arremetido contra “la Europa conservadora que ha hecho muy poco y muy tarde” por evitar la crisis que tiene a la UE contra las cuerdas.
Papandreu ha sido el penúltimo socialista al que la crisis le ha costado el cargo, justo por delante de los socialistas españoles barridos en las urnas el pasado domingo. A ambos les precedió el portugués José Socrates. Ante este panorama, Rasmussen ha animado a sus correligionarios con el hecho de la llegada de socialistas a los Gobiernos de Irlanda, Finlandia y Dinamarca, en todos lo casos en coalición y sólo en Copenhague al frente del Ejecutivo. Socialistas quedan también en las coaliciones gubernamentales de Eslovaquia (con próximas elecciones que pintan mal para ellos), Austria y Bélgica (en funciones).
Para animar al auditorio ha dicho Ramussen que quizá haya de nuevo socialistas al frente de Bélgica (si es que Elio di Rupo, que hace unos días tiró la toalla de formador de Gobierno, acepta el encargo regio de seguir intentándolo), Alemania (donde hay elecciones el próximo otoño), Francia (con François Hollande deseoso de desplazar a Nicolas Sarkozy en mayo de 2012) e Italia, en fecha imprevisible.
En buena ley, más deseos que realidades. “El enfado contra la austeridad está ahí fuera”, ha dicho Rasmussen a un auditorio que lo sabe de sobra porque lo está pagando caro. Con ánimo batallador ha pedido que estos dos días de debate y reflexión sean los de renovación y reactivación del socialismo europeo.
Papandreu ha reconocido las cosas como son: Europa “hoy está dominada por los conservadores”, antes de arrojar sobre ellos toda la responsabilidad de lo que ocurre: “Son los que han hecho fracasar Europa y han fallado al pueblo”. En el caso griego, subraya, fueron los conservadores de Nueva Democracia quienes minaron el territorio. Él, ha dicho, sólo heredó los problemas y adoptó medidas impopulares “para poner la casa en orden”, siguiendo los dictados de la Comisión Europea, el Banco Central Europeo y el Fondo Monetario Internacional.
Las referencias le han servido para explicar su órdago fallido del referéndum sobre el plan de rescate griego: se trataba de “redistribuir el poder, dar el poder a la gente, voz a su voluntad e ir más allá de los intereses conservadores”. En el aire ha quedado por qué no llegó hasta el final en su deseo de dejar al pueblo que “decidiera su futuro” mientras ha vuelto a hacerse eco de palabras que de repetidas suenan a hueco a electores de izquierda frustrados: estrategia responsable de crecimiento, Europa competitiva, necesidad de invertir en la juventud y el empleo...
Rasmussen cede la presidencia del PSE al exprimer ministro búlgaro Serguei Stanishev, que en 2009 perdió en su país las elecciones generales y europeas."

domingo, 13 de novembro de 2011

UM PASSADO COM FUTURO

Algumas centenas de antigos militantes do MES comemoraram, ontem, na Costa da Caparica, os trinta anos da sua extinção. Estiveram presentes protagonistas das principais cisões e vários rostos da vida completa do MES. Estiveram presentes cidadãos que usaram a sua vida sem protagonismo na esfera pública, militantes de diversas causas generosas, militantes políticos sem exposição mediática, detentores de prestígios exteriores à política, deputados e ex-deputados, ex-Ministros, ex-Secretários de Estado, ex-Secretários Gerais do Partido Socialista, um ex-Presidente da República. Sem mesas de honra, sem primeiras filas, sem vénias, mas com um grande calor humano, com uma fraternidade subtil mas patente, bem dispostos. Gente com uma auto-imagem suficientemente afirmativa para pensar que o que fez, em conjunto, sob aquela bandeira, por pouco que tivesse sido, foi importante; mas com a auto-ironia bastante para saber que essa importância não justifica a empáfia da grandiloquência.

Se um voo rápido da imaginação nos levasse a ver toda aquela gente, apostando numa iniciativa política comum, é realista pensar-se que a paisagem política portuguesa seria outra. E mesmo que, num assomo de modéstia, a imaginação se limitasse ao espaço de um único partido (pensando naquele a que pertenço, penso no PS), é realista pensar-se que, se aqueles que ali estavam e são militantes do PS, traduzissem o sentido que atribuíram aos sonhos ali comemorados numa imaginação política actual, em que todos se reconhecessem, rapidamente nos afastaríamos de qualquer cinzentismo abafado. Mas todos sabemos que essa imaginação não é realizável, embora a devamos deixar pairar como sombra orientadora ou como amável e virtuosa ameaça, ainda que frágil e suave.

O tempo deixou, no que cada um de nós viu no rosto dos outros, a sua implacável marca e uma discreta melancolia. A memória foi-nos reconduzindo aos rostos dos nossos passados, num intercâmbio de recordações dispersas e calorosas, por vezes simplesmente intuídas, às vezes passageiras, sempre luminosas. As diferenças antigas tornaram-se pequenas e amigáveis. O essencial ficou de pé, como uma saudade da razão.

Vivemos um tempo em que algumas narrativas das grandes esquerdas já foram encerradas nos atalhos da história, enquanto outras parecem ter perdido o futuro, quando se deixaram extraviar demasiadas vezes nos seus presentes. Mas o tempo cruel do capitalismo agonizante não conseguiu fechar, na arca dos impossíveis e do esquecimento, as desamparadas narrativas das pequenas esquerdas. Elas que nasceram frágeis e minoritárias (quando eram enormes as narrativas dum realmente existente, que afinal não existia), questionando-se ao mesmo tempo que questionavam, subsistem com simplicidade, abertas a novos sonhos e a novas maneiras de sonhar um futuro.

Cientes da diversidade de opiniões ali presente, mas que a ninguém embaraçou, aquelas centenas de cidadãos, sob a superfície emocionada de uma simples efeméride, penso eu, que homenagearam a semente de utopia que há trinta e quarenta anos os animou. Uma utopia feita de palavras simples, virtuosamente indissociáveis, sedentas de uma sinergia insubstituível: liberdade e democracia; igualdade e justiça; fraternidade e solidariedade. Ou seja, sair do capitalismo pela mão do povo, através da sua vida e da sua força, através de mutações sociais politicamente sustentadas, com a ajuda (apenas ajuda, ainda que importante) de um Estado que seja democraticamente seu. Numa palavra, levar a democracia ao extremo de si própria.

domingo, 16 de outubro de 2011

SINAIS DE ALARME E DESAFIOS

1. As manifestações que, no sábado passado, ocorreram, um pouco por todo o mundo, mostraram que há uma enorme energia política de resistência aos automatismos predatórios do capitalismo dominante. Mas, olhando-se para as imagens mediáticas mais correntemente difundidas, verifica-se que não predominavam entre os manifestantes sinais que sugerissem uma identificação clara daquilo que é essencial combater-se. na verdade, embora abundassem as críticas a muitos dos frutos da árvore que tem que ser destruída, raramente ela foi explicitamente mencionada.

Também parece predominar a opção pela acção não-violenta e uma inequívoca vontade de aprofundamento da democracia. Por outro lado, em muitos casos, explicitam-se reivindicações dirigidas a uma entidade outra, talvez o Estado de cada um dos países, como se no horizonte se perfilasse a ambição predominante de ver uma entidade omnipotente resolver os problemas individuais de cada um dos manifestantes (ou dos seus próximos) e de corresponder aos seus sonhos e às suas legítimas ambições.

Esta perspectiva é ilusória, ainda que provavelmente seja uma primeira etapa que tem que ser percorrida como experiência. O próprio facto de os manifestantes se assumirem como "indignados" é emocionalmente forte, eticamente legítimo, mas politicamente fraco. Há aqui muito caminho a percorrer. Se não se perderem na névoa da desilusão e do desânimo, ou se não se extraviarem por caminhos fechados, tenderão a aprender que só colherão os frutos que eles próprios gerarem, ou em cuja gestação participarem decisivamente. Poderão agir a partir das suas próprias forças num protagonismo totalmente autónomo; ou procurarem sinergias e alianças com todas as forças políticas, sociais e culturais que se movam com base em lógicas diferentes da lógica capitalista, ou que inscrevam num horizonte pós-capitalista o sentido último da sua identidade histórica.

Esta última via parece-me a mais fecunda e a mais desejável. Se vier a verificar-se a sua impossibilidade, os riscos de dissipação de toda esta energia política, ou de conversão em alternativas violentas, que subalternizem a democracia, aumentam. E, de algum modo, podem ser, em si próprios, a materialização antecipada de um fracasso. Por isso me parece importante apostar-se no caminho mais cooperativo.


2. Mas se este levantamento pacífico universal, que dá os seus primeiros passos, for aniquilado ou esvaziado, não serão só os seus protagonistas os derrotados. Toda a esquerda será derrotada. E dentro dela terá contornos mais dramáticos a derrota da esquerda que se reconhece no Partido Socialista Europeu e á escala mundial no significado histórico (hoje adormecido) da Internacional Socialista. E isto será particularmente nítido no quadro europeu, no âmbito da União Europeia.

Na verdade, tem sido esta a componente da esquerda que mais frequentemente tem assumido responsabilidades governamentais, talvez por ser aquela que, em regra, dispõe de maior peso eleitoral. Por isso mesmo, é-lhe imputada uma parte da responsabilidade política pela situação actual, o que torna um processo ainda mais complexo a sua aproximação institucional com o movimento dos "indignados". Mas nem estes têm, em tempo útil, hipótese de uma intromissão directa nas esferas institucionais de decisão política, sem a sua inserção nos partidos socialistas, nem estes últimos têm qualquer hipótese de uma governação, que reflicta os seus valores e projecte na prática a sua identidade histórica, sem uma dinamização convergente dos movimentos sociais, os quais só podem verdadeiramente atingir os seus objectivos e multiplicarem-se, num contexto de inconformismo social assumido, como aquele agora protagonizado pelos "indignados".

Não afasto por completo a possibilidade do entrelaçamento do movimento dos "indignados" com as outras esquerdas, aliás aparentemente muito mais fácil. Mas, nesse caso, haverá duas dificuldades que embaraçam o potencial de mudança dessas possíveis aproximações. Por um lado, embora daí possa sair um alargamento das frentes de protesto, dificilmente se entrará numa dinâmica transformadora da sociedade, conducente a outros modos de viver e de produzir. Por outro lado, sem absolver por completo os socialistas da tentação instrumentalizadora, não é realista ignorar-se que nas outras esquerdas essa tentação está inscrita muito mais profundamente no respectivo código genético. Ora, quanto maior for o êxito das tentativas de instrumentalização dos "indignados" maior será o risco da sua banalização; e consequente enfraquecimento.


3. E se olharmos, mesmo num breve relance, para o que se passa na vida recente dos partidos que integram o Partido Socialista Europeu, podemos verificar sem pessimismo que se acumulam sinais de alarme. Sem empolarmos a relevância dos resultados do PS nas recentes eleições na Madeira, não os podemos desconsiderar por completo: foram os piores desde a refundação da nossa democracia em 1974. Se olharmos para a Polónia, constatamos que os sociais-democratas polacos permanecem enterrados na irrelevância política, abaixo dos dez por cento, tendo sido ultrapassados por um partido de uma esquerda atípica, surgido de novo; e continuando assim a permitir que a alternativa de governo na Polónia se jogue entre liberais e conservadores. Para quem, no fim dos anos 90 do século XX, tinha feito eleger um Presidente da República e era o partido claramente liderante de um governo de esquerda é certamente uma enorme provação e um dramático retrocesso. Talvez, em parte, deva agradecer a sua decadência à docilidade com que seguiu Blair na sua lamentável aventura iraquiana. Os sociais-democratas dinamarqueses, à frente de uma coligação de esquerda, voltaram ao Governo, depois de uma cura de oposição de mais de dez anos, apesar de, enquanto partido isolado, terem tido os piores resultados dos últimos cem anos. Na Alemanha, em sucessivas eleições estaduais, tem-se solidificado o feliz prenúncio de uma derrota da direita, nas próximas eleições federais. Mas o Partido Social-democrata Alemão (SPD), força nuclear do PSE, tem beneficiado muito modestamente do recuo das direitas. Pelo contrário, têm sido os Verdes a aproveitá-lo, perfilando-se no horizonte um acréscimo espectacular da sua relevância política, em detrimento do SPD.

Neste panorama cinzento do espaço socialista europeu, irrompeu recentemente um sinal de efectiva novidade. Realmente, as primárias abertas a toda a esquerda, organizadas pelos socialistas franceses para escolher o candidato presidencial que vão apoiar, transformaram-se num facto político de enorme repercussão em França. O PSF tinha apontado um milhão de votantes como o patamar cuja superação significaria um êxito político claro. Na primeira volta, votaram mais de dois milhões e seiscentos mil eleitores e na segunda volta, disputada entre os dois candidatos mais votados na primeira, votaram mais de dois milhões e oitocentos mil votos, tendo triunfado François Hollande. Sabendo-se que o universo de membros inscritos no PSF ronda os cento e vinte mil, pode avaliar-se o significado e a importância das referidas primárias abertas.


4. Dada a história recente e a importância do PS na cena política portuguesa, compreende-se que ele esteja a atravessar uma fase muito complexa e difícil da sua vida. Mas não pode olvidar-se como é crucial, para si e para o país, que ouse viver uma metamorfose que verdadeiramente o coloque à altura dos desafios que o esperam. Por isso, o processo de alteração dos estatutos não pode vir a reduzir-se a uma sombra empobrecedora do que seria necessário pôr em prática.

É assim imprescindível que acordem os que tenham caído na ilusão perigosa de que a alteração dos estatutos do PS pode não ir além de uma esgrima subtil entre vírgulas e pontos finais, de um regateio entre artigos e alíneas, de um deslizar ronceiro de "poréms " e "todavias".

Em suma, não se pode repousar numa simples engenharia artesanal concebida para tapar pequenos buracos ou para espalhar subtis armadilhas mansas, destinadas a apanharem, com a doçura possível, algum infractor mais descarado ou mais estúpido. Isto é, todos aqueles que verdadeiramente seria escandaloso não deslegitimar. Percorra-se, pois, esse previsível rosário de pequenos detalhes, mas não se esqueça que eles apenas são uma modesta parte da superfície do que deve ser feito.

Usando uma metáfora clarificadora, é urgente deixarmos de ser um partido unidimensional, para darmos um passo inequívoco rumo à pluridimensionalidade. Ou seja, há que prosseguir na procura de uma melhoria clara da nossa capacidade de intervenção institucional, como partido que aspira exercer o poder democrático, em todas as instâncias do Estado Português e da União Europeia. Há mesmo que procurar o reforço dessa vocação, estreitando e enriquercendo os nossos laços com os cidadãos que integram o espaço social que se identifica politica e ideologicamente com o PS; e, muito especialmente, com o nosso eleitorado fiel, mesmo que sem menosprezo por aqueles que apenas irregularmente nos apoiam.

E, para isso, uma das vias mais relevantes é a realização de eleições primárias abertas para a escolha dos candidatos do PS a todas as eleições, com a natural diferenciação de processos correspondente às diferenças que as distinguem. Após o que se passou com os socialistas franceses seria de uma enorme miopia política insistir nos preconceitos que aprisionam o PS numa estrutura obsoleta e em preconceitos organizativos claramente passadistas.

Mas não basta ficarmos por aqui. É preciso criar raízes mais fundas na sociedade em que vivemos. E só um radical arejamento cívico pode dar ao PS energia para passar a ter um papel novo como impulsionador, aliado e globalizador dos movimentos sociais radicados em lógicas não-capitalistas. E só uma energia poderosa e nova o pode conduzir a essa nova intervenção em territórios politico-sociais dos quais sempre esteve ausente. Complementarmente, a intromissão do PS em novos territórios de acção política socialmente relevantes será um enorme factor de aproximação do PS aos movimentos de "indignados". Aprendendo a mover-se como força dinamizadora das sinergias entre estes três pólos, o PS terá alcançado a renovação de que necessita e terá oportunidade de viver a desejada metamorfose.


5. Por isso, repito-o, parece-me de uma enorme miopia política reduzir um indispensável processo de renovação do PS, com a amplitude suficiente para provocar a sua metamorfose, a uma modesta reforma estatutária, que não seja mais do que uma caricatura do que é realmente necessário.

Os sinais de aviso e de alarme vão-se acumulando. Ignorá-los pode ser devastador. Nas ruas parece crescer a indignação da esperança. Se não queremos murchar em conjunto com este tipo de sociedade, gerador de injustiça e potenciador de desigualdade, temos que ser capazes de fundir generosidades sem arrefecer a revolta. Mas, para isso, temos que ir muito além das rotinas mansas que se apossaram da luta política, fazendo com que ela mais pareça um ritual destinado a cumprir calendário, do que um combate que não se pode perder.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

SONAMBULISMO POLÌTICO

Cada uma das várias componentes políticas da esquerda esmiúça, com frequência até ao tutano, os erros e as limitações de cada uma das outras, com um rigor por vezes compulsivo, com um bisturi analítico verdadeiramente implacável. O mesmo acontece também entre as várias tendências entretanto surgidas dentro de cada uma delas. E o mesmo ocorre até dentro de cada uma dessas tendências. Acontece, mesmo que não faça muito sentido.

De facto, é um estranho sonambulismo político este, em que cada um parece comprazer-se com a desgraça própria de ficar mais isolado, perante o peso implacável dos poderes instituídos, perante o conservadorismo hábil da direita. Estranho sonambulismo político este, em que cada um parece retirar uma inesperada energia da demonstração, que consiga fazer, de que o vizinho do lado, fazendo-se passar por esquerda, é afinal de direita, ou faz objectiva e totalmente o seu jogo; de que o vizinho do lado, em vez de somar a sua força à força dele, alinha afinal com o inimigo. Estranho sonambulismo político este, em que cada um parece mais preocupado em agredir (para afastar) os possíveis aliados do que em seduzir (para conquistar) novos companheiros.

E assim descubro-me a pensar que uma tão forte e generalizada compulsão dificilmente pode ser imputável a uma simples deficiência de carácter ou a uma desagradável falha da inteligência. Mais provável é estarmos perante um sentimento forte de ausência, de um auto-diagnóstico generalizado de uma carência que aflija. De facto, neste doentio esmiuçar da proximidade acontecida, como esteio desejado de uma diferença que afaste, só pode estar uma humilhante cegueira quanto ao futuro, uma ausência total de um pensamento verdadeiramente estratégico, uma embaraçosa nudez prospectiva. Uma falha que se quer esquecer, que se recalca, mas que volta por esses atalhos para a todos assombrar.

Embaraçadas e aflitas, as esquerdas, em todos os seus estados, esmagam ou cobrem de esquecimento, dentro de cada uma das suas famílias, as vozes, mais ou menos isoladas, que realmente se interrogam quanto ao futuro, que realmente interpelam as rotinas instituídas, que realmente se recusam a olhar para o futuro como se este pudesse ser uma reprodução cinzenta e nebulosa do presente. Mas essa crispação autocentrada não chega para afastar o nevoeiro, não basta para colmatar essa falta de horizonte, não supera essa carência completa de um verdadeiro futuro.

É essa aflição lancinante de se sentir sem horizonte, precisamente, quem se quer peregrino de todas as viagens, que pode explicar o acumular de gestos sem sentido, o percurso reiterado por caminhos sem saída, a agressão implacável ao companheiro mais próximo, com esquecimento do inimigo que nos espera em todas as tocaias da vida.

Mas por mais enérgico que se consiga ser no compulsivo esmiuçar do acabado de acontecer, por mais implacável que se consiga ser na destruição do vizinho, nada de essencial mudará enquanto não se reconquistar o futuro, reaprendendo-se a pensá-lo para que seja objectivamente possível caminhar para ele. E não se pense que se tem pela frente uma tarefa hercúlea a roçar o impossível. Pelo contrário, trata-se simplesmente de ter presentes dois pontos de partida indissociáveis:


1) se o capitalismo se tem vindo a transformar aceleradamente no túmulo da história, o futuro só é pensável como um pós-capitalismo;


2) se há um longo caminho de transformações sociais encadeadas entre si para nos levar até ele, não o poderemos percorrer sem usar em simultâneo o protagonismo de um Estado transformador, cujas alavancas temos de conquistar, e o dinamismo social da teia de entidades guiadas pela cooperação e pela solidariedade, cujo quotidiano temos que partilhar.

Enquanto as esquerdas continuarem historicamente paradas e estrategicamente desarmadas, serão tentadas a continuarem compulsivamente a interpelarem-se como passados e a desconsiderarem-se como futuro. E as sociedades que temos, guiadas pela direita sua guardiã histórica, continuarão a perder-se lentamente na desesperança que, dia a dia, mais e mais, nos vai sufocando.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

UM SILÊNCIO SEPULCRAL

Os eleitores gregos deram ao PASOK o encargo de tirar a Grécia do buraco onde a tinha deixado cair a direita. O buraco era afinal um abismo. A lógica dominante no actual sistema económico acicatou as matilhas especulativas, transformando a vida política grega numa agonia. O governo socialista faz o que pode, dentro das condições draconianas que lhe impõem e sob o receituário económico, desorientado e insalubre, que o obrigam a cumprir. Outros têm sido atraídos para a mesma voragem, entre os quais nós, os portugueses. Os poderes de facto e a direita europeia parecem mais animados por uma inexplicável sanha vingadora do que por uma solidariedade inteligente. Os povos agitam-se , resmungam, protestam. Cresce a incerteza quanto ao futuro.



Entretanto, perante o assédio violento aos socialistas gregos, condenados a pagar uma factura alheia, um silêncio sepulcral tolhe o PSE ( Partido Socialista Europeu), uma reacção mole e desgarrada é o nível de solidariedade máximo onde parecem poder chegar os partidos europeus que integram o PSE. E isto significa que se o povo grego parece estar a ser condenado a um pesadelo económico-social que pode contagiar toda a Europa, o PSE, e com ele os socialistas europeus, parece estar a mergulhar lentamente num abismo político.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

PÉS PARA ANDAR .

Concluo a divulgação, parcela a parcela, do Manifesto para uma Renovação Socialista. Por isso, hoje, há apenas lugar para se transcrever uma curta Conclusão. Sublinha-se nela o sentido essencial do Manifesto, a sua ambição de contribuir para uma verdadeira metamorfose do Partido Socialista, que o tansforme numa organização multifacetada, capaz de se ocupar de novas vertentes de intervenção política, social e cultural. Uma transformação que o torne uma entidade capaz de interferir no processo histórico com efectividade, para o que tem que ser impregnado por uma sinergia profunda com os interesses históricos dos sectores da sociedade, dos grupos sociais, para quem o presente é um pesadelo (ou um sonho perdido) e o futuro é o único possível lugar da esperança. Uma transformação que, ao mesmo tempo que enriqueça as virtualidades do PS como protagonista institucional liderante, lhe dê a força de um autêntico movimento social e o qualifique como um lugar de cultura novo, permitindo-lhe que progrida no campo da solidariedade social, quer como uma das suas instâncias, quer pela centralidade que ele dê às políticas que a impulsionem no horizonte que procura e no modo como ambiciona aproximar-se dele.

É uma tarefa difícil que implica uma nova abertura na mentalidade dos socialistas, uma persistência árdua e quotidiana, mas que é a condição necessária para que as nossas esperanças sejam realizáveis. E é também uma tarefa decisiva, dado que sem o seu cumprimento, não só o PS corre o risco de perder em definitivo um contacto vivo com a História, mas também as sociedades que conhecemos correrão o risco de resvalarem para um tempo de angústia e pesadelo, muito mais negros do que as nuvens de medo que já hoje toldam o horizonte.

Tal como ficou dito nos comentários anteriores:"Quem desejar conhecer o texto integral do documento e a lista dos seus subscritores iniciais, pode clicar sobre a imagem que se situa na coluna lateral deste mesmo blog, já que desse modo poderá aceder ao blog do próprio Manifesto. Quem, sendo militante do PS, quiser subscrever o Manifesto, basta deixar nesse outro blog um comentário em que afirme a vontade de ser um dos subscritores, o nº de militante e o concelho a que pertence". Hoje, é como se disse transcrita a última parte do Manifesto:


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9. Conclusão

Este Manifesto parte da necessidade de uma metamorfose do PS que o coloque em condições de responder com êxito aos desafios históricos suscitados pela conjuntura vivida pelas sociedades actuais. Não pretende ser um programa, nem um projecto fechado. Quer apenas afirmar um horizonte de referência correspondente à identidade socialista, procurar caminhos que dele nos aproximem e partilhar uma visão do mundo emancipatória e solidária, que leve a liberdade ao extremo de si própria.

Afinal, o que essencialmente se pretende, é a socialização dos direitos humanos fundamentais, com vista a garantir a dignidade e a igualdade real de todos os portugueses.Essa necessária metamorfose do PS não pode afastá-lo da sua identidade histórica, nem dos seus valores, nem da sua base social e eleitoral, mas tem que o adequar à sua missão histórica.

Uma missão exigente que o século actual tornou mais visível e que implica um PS, não só capaz de interferir em todos os planos do combate político e de ser digno de um horizonte socialista, mas também capaz de ser um movimento social, culturalmente vivo, ecologicamente activo e humanamente solidário.Para isso, gostaríamos que se abrisse, o mais rapidamente possível, um processo de profunda renovação estrutural e funcional do Partido Socialista, que venha culminar num Congresso especialmente destinado a potenciar essa renovação

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

IMAGINAR UM HORIZONTE SOCIALISTA

Prossigo com a divulgação do Manifesto para uma Renovação Socialista . Hoje, vou difundir a parte do Manifesto que identifica algumas das áreas políticas essenciais para darem consistência à imaginação de um horizonte socialista. não há preocupação de estabelecer um elenco exaustivo dos tópicos relevantes, mas apenas a ideia de sublinhar alguns dos mais importantes.

Tal como ficou dito nos comentários anteriores:"Quem desejar conhecer o texto integral do documento e a lista dos seus subscritores iniciais, pode clicar sobre a imagem que se situa na coluna lateral deste mesmo blog, já que desse modo poderá aceder ao blog do próprio Manifesto. Quem, sendo militante do PS, quiser subscrever o Manifesto, basta deixar nesse outro blog um comentário em que afirme a vontade de ser um dos subscritores, o nº de militante e o concelho a que pertence". Hoje, é transcrita a oitava parte:


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8. Algumas das áreas políticas essenciais na imaginação de um horizonte socialista


Vamos, por fim, sem a preocupação de sermos exaustivos, pronunciarmo-nos sobre algumas das áreas políticas estruturantes de um horizonte socialista, as quais irão ser no futuro objecto de um trabalho sistemático, por parte dos subscritores deste manifesto. Apostamos nestas áreas como espaços prioritários de afirmação desse horizonte. Em tópicos muito sintéticos, vamos procurar identificar o sentido geral porque se deverão pautar as políticas respeitantes a cada uma dessas áreas.

8.1.Trabalho

A repartição da riqueza produzida entre o capital e o trabalho tem de passar para o primeiro plano da concertação social e ser explicitada com transparência nos programas políticos dos socialistas. Não podemos continuar a consentir que o trabalho vivo seja instrumentalizado, completa e grosseiramente, pelo “trabalho morto”. E para sair desta subalternidade estrutural o primeiro caminho a percorrer há-de levar-nos a uma justa repartição do trabalho, do lazer e dos rendimentos. O capital, enquanto “coisa”, tem de se converter num instrumento de humanização do trabalho, para assim deixar de ser um factor de “coisificação” das pessoas. “Coisificação” resultante do facto de se sujeitar o trabalho à lógica linear e irrestrita da reprodução do capital.

8.2. Ambiente

Os seres humanos são seres vivos que fazem parte da Terra, mas o modo de produção social universalmente dominante na actualidade, o capitalismo, se continuar movido sem peias pelos seus automatismos suicidários conduzirá, seguramente, à extinção da espécie humana. As políticas ambientais não podem ser, por isso, meros enfeites secundários de programas políticos, sendo imperioso que passem a ser um vector nuclear da estratégia socialista. Não adianta, de facto, imaginar futuros para uma humanidade que se condene a si própria ao desaparecimento. Por isso mesmo, tem que ser assumido como o direito humano primordial, o direito a políticas ambientais que revertam as derivas suicidárias em curso, restituindo à humanidade uma esperança fundada de futuro.

8.3.Educação

A educação é um processo de transformação das pessoas, através do conhecimento, é um factor de integração social, hoje indispensável para a impregnação cultural dos seres humanos. Sendo o direito à educação um direito humano fundamental, a aprendizagem ao longo da vida é um elemento integrante do processo de repartição do trabalho, do lazer e do rendimento, um campo central da transformação da sociedade. Como agente dessa transformação, o Estado é o responsável por um sistema público de educação, o qual é um elemento estruturante de qualquer democracia como factor insubstituível do seu reforço e como índice da sua qualidade.

8.4. Saúde

A garantia do direito à saúde implica um processo permanente de absorção, pelas estruturas do Serviço Nacional de Saúde, das inovações científicas, tecnológicas e organizativas, que a evolução da humanidade vá suscitando. Esse direito, naturalmente, só pode ser garantido pela responsabilização directa do Estado, nos termos da Constituição, a qual se há-de robustecer através de uma íntima conexão com o processo de desenvolvimento social no seu todo.

8.5. Segurança social

Um sistema público de protecção social é um vector estruturante das democracias modernas, nomeadamente, no que concerne a pensões de reforma, a subsídios de doença e de desemprego. A sua garantia reforça-se pela sua sustentabilidade financeira, sendo certo que o seu limite, em democracia e em última instância, é o da própria subsistência e reprodutibilidade do Estado no seu todo.

8.6. Qualificação equilibrada dos territórios

O território, como espaço onde se conjugam iniciativas e protagonismos nele enraizados, é o ponto de partida e a referência básica para o desenvolvimento local. As sinergias entre processos geograficamente articuláveis são um poderoso factor de propulsão de uma expansão democraticamente vivida de todos eles. E serão especialmente potenciadas por uma diversificação dos patamares de decisão democraticamente legitimados, permitindo uma adequada descentralização de competências, indutora de uma maior agilidade do poder político e de um acréscimo da sua racionalidade.

8.7. Agricultura

O incremento da produção agrícola tem vindo a reemergir lentamente como um imperativo nacional, quer como elemento central de uma maior auto-suficiência alimentar, quer como factor decisivo de uma reversão do processo de desertificação dos campos portugueses. O regresso a uma agricultura de subsistência, também em áreas urbanas, bem como o incentivo à agricultura biológica, são alguns dos caminhos a percorrer, todos eles em articulação com um pleno aproveitamento das vantagens suscitadas pela nossa geografia.

8.8. Recursos marítimos

A parcela de mar em que é reconhecida a soberania económica portuguesa faz com que os recursos marítimos ocupem um lugar de relevo entre as actividades económicas a desenvolver. Aproveitá-los implica não só reanimar sectores de actividade, radicados na nossa posição geográfica, nos quais já fomos relativamente fortes, mas também apostar em sectores tecnologicamente inovadores de grande potencial diferenciador e futurante.

8.9. Cultura

A cultura é uma condição da liberdade. E no mundo de hoje é a principal instância geradora do espírito crítico indispensável a uma filtragem rigorosa do manancial de informação posto, dia a dia, ao nosso dispor. Ser culto é também uma condição necessária para um autoconhecimento efectivo, um ponto de partida para a criação literária e artística bem como para acordar em cada um de nós, um interesse continuado na fruição de bens culturais. Por último, se a política é também uma imaginação sustentada do futuro, a cultura é um factor de qualidade dessa imaginação. Por isso, a actividade cultural e a política cultural hão-de inscrever-se no cerne das nossas preocupações.Um dos eixos estruturantes dessa política será a valorização da lusofonia, através de uma estratégia de sistemática de cooperação com os outros países de língua portuguesa, o que nos colocará em posição de estreitar laços culturais e linguísticos com a Espanha, rumo a um grande espaço ibero-afro-americano mundialmente relevante.

8.10. Energia

É necessário intensificar o fomento das energias renováveis e limpas, como vector decisivo de qualquer política económica, potenciando assim as políticas de protecção ambiental; e conjugar esta política com estratégias sistemáticas e continuadas de poupança energética, alargando ao máximo a independência energética.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

O PS E A ECONOMIA SOCIAL

A divulgação do Manifesto para uma Renovação Socialista prossegue. Hoje, vou difundir a parte do Manifesto que se ocupa da Economia Social. Como podem ver, trata-se de um conjunto de orientações de natureza muito genérica. Quando o PS se puser, finalmente, em movimento neste campo, de forma sistemática e sustentada, chegará o tempo dos detalhes. O importante é começar a caminhar na senda proposta. O actual Governo pode vir a ser um semeador de equívocos nesta matéria, especialmente se o PS lhe deixar, por completo o campo livre, como tem ocorrido até aqui. Mas não tem condições para desconsiderar totalmente a sua relevância. Aliás, quanto ao PS, há que sublinhar negativamente a pobreza de abordagem que a economia social mereceu a qualquer das recentes candidaturas a secretário-geral. Já na anterior campanha eleitoral para as legislativas, o PS descurara estranhamente essa temática, apesar de os Governos de Sócrates terem no seu activo o mais importante conjunto de medidas fomentadoras e reestruturadoras da economia social das últimas décadas. Foi como se o próprio PS se não tivesse apercebido da importância política do que, nesse campo, tinha feito. E se, em termos absolutos, se podia ter feito mais e, principalmente, mais depressa, em termos relativos, comparando -se com o que fizeram outros governos, o que se fez foi imenso. Não dar sequência política ao que se assim se desencadeou é por isso um absurdo, para o qual não há outra explicação que não seja a da falta de uma consciência efectiva, quanto à energia futurante da economia social e quanto à sua importância em qualquer política transformadora protagonizada pelo PS. E esta triste falha é tanto mais preocupante, quanto abre a porta ao esvaziamento estratégico do que veio sendo feito, para já não falar na oportunidade assim oferecida à exclusividade de outras visões da economia social, que assim livremente a podem encerrar nos seus estreitos limites.

Tal como ficou dito nos comentários anteriores:"Quem desejar conhecer o texto integral do documento e a lista dos seus subscritores iniciais, pode clicar sobre a imagem que se situa na coluna lateral deste mesmo blog, já que desse modo poderá aceder ao blog do próprio Manifesto. Quem, sendo militante do PS, quiser subscrever o Manifesto, basta deixar nesse outro blog um comentário em que afirme a vontade de ser um dos subscritores, o nº de militante e o concelho a que pertence". Hoje, é apenas transcrita a sétima parte:

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7. A economia social como sinal estratégico nuclear e como lugar central de intervenção estruturante do PS
7.1.Valorizou-se já a importância da intervenção nas organizações da economia social, aliás inscrita numa longa tradição programática de fomento do cooperativismo e do associativismo. Foi assim com naturalidade que o PS contribuiu , no plano nacional, para o regresso da economia social a uma relevância que não tem cessado de crescer. Isso mesmo foi espelhado, com maior ou menor intensidade, em múltiplos programas eleitorais, em diversas moções apresentadas nos seus congressos, bem como na sua acção política, quer no plano governamental, quer no plano parlamentar.
7.2. Foram já dados os primeiros passos num caminho que é necessário percorrer. Sem menosprezar a cooperação com os protagonistas directos da economia social, é a passagem para um novo patamar de importância política que está em causa quanto a ela.
Nomeadamente, há que, por um lado, apoiar sistematicamente os socialistas que já têm protagonismo nas organizações da economia social, congregando-os e estimulando-os. E, por outro lado, fazer com que o PS torne o fomento da economia social como um elemento central da sua política, quer no plano governamental à escala nacional, quer no plano regional, quer no plano autárquico.