Mostrar mensagens com a etiqueta política brasileira. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta política brasileira. Mostrar todas as mensagens
domingo, 9 de junho de 2019
Lula Cruxificado
Reproduzo hoje um vídeo com uma expressiva e eloquente intervenção do ex-Senador brasileiro do Movimento Democrático Brasileiro, Roberto Requião onde este denuncia politicamente a perseguição feita contra Lula pela direita brasileira , ao serviço poderes fácticos e financeiros internacionais .
[ Para ouvir clique sobre a imagem]
Marcadores:
Brasil,
esquerda,
Lula,
política brasileira
segunda-feira, 20 de maio de 2019
PARA ALÉM DO UMBIGO DA EDUCAÇÃO
PARA ALÉM DO UMBIGO DA
EDUCAÇÃO
O perverso furacão Bolsonaro
assola o Brasil. Entre as devastações mais graves, a que atinge a educação dos
brasileiros. Da autoria de Ana Luiza Basilio, foi publicado um texto sobre educação, na página virtual da prestigiada revista de
grande circulação CartaCapital.
No essencial, apela-se para
que o tosco poder atual olhe para alguns exemplos positivos dados por outros
países através do mundo. São mencionados cinco exemplos: Finlândia, Canadá,
Alemanha, Estónia e Portugal.
Para além de alguns detalhes
discutíveis,o texto mostra em si próprio que
Portugal é visto como projetando no campo da educação uma imagem global
suficientemente positiva, para suportar a sua invocação como exemplo.
E,no entanto, na última
década temos sido tolhidos por um grande desperdício de energias, desviadas para
aspetos menores da problemática educativa ou para maneiras tóxicas de abordar
aspetos relevantes dessa problemática. É tempo de arripiar caminho.
Se partirmos do
essencial,provavelmente, criaremos condições para superar sem
dificuldades de maior algumas das
crispações que têm grassado entre nós nos
últimos anos, sem benefício para ninguém e com prejuízo para o país.
Olhemo-nos tal como somos
visto no texto seguinte e aprendamos a aprender com os outros países dados como
exemplo ao nosso lado. Não para os imitarmos acefalamente mas para tirarmos deles as lições que nos possam dar.
Eis o texto que mencionei.
*****************
5
países que apostam, e muito, na educação
(fica
a dica, Bolsonaro)
Conheça a trajetória de nações que valorizam os
professores e são exemplos de modelos educacionais do mundo
Se é difícil
encontrar paralelo no mundo com o que se passa no Brasil de maneira geral, é
quase impossível detectar uma experiência semelhante quando se trata de
educação. Na maioria dos países, ricos ou pobres, ao Norte ou ao Sul, a
compreensão do ensino como esteio da civilização e da prosperidade é
disseminada e defendida pela sociedade. Ninguém se atreveria a cortar o
orçamento das universidades sob a alegação de “balbúrdia”, interromper o
pagamento de bolsistas de mestrado ou doutorado sem critérios claros ou
chantagear os eleitores com a possibilidade de secar as torneiras caso uma
reforma da Previdência não seja aprovada. O mais provável destino de um governo
que assim se comportasse seria uma breve temporada no poder – e o ostracismo
político.
Na Europa, berço do Estado de Bem-Estar Social, o
ensino, do maternal à universidade, é público e gratuito, salvo raras exceções,
e não há líder populista de direita capaz de convencer a população de que o
sistema prejudica a economia e estimula o privilégio. Ao contrário. A educação
universal e às expensas do Estado é vista como uma condição básica para
garantir a igualdade e o desenvolvimento. Nas nações em que escolas públicas e
privadas convivem, o ensino pago é preenchido por uma minoria – ou filhos de
milionários ou estudantes com dificuldades de adaptação.
Não bastasse, enquanto o governo Bolsonaro escolhe a
educação e a ciência como os inimigos número 1, nações que há muito tempo
atingiram a universalização do ensino preparam-se para a nova etapa do
capitalismo: a revolução industrial e tecnológica chamada de 4.0, tsunami que
destruirá milhares de profissões e milhões de empregos ao redor do mundo nas
próximas décadas. Corrida para a qual, obviamente, o Brasil se torna cada vez
menos competitivo.
A seguir, listamos cinco países que, em diferentes
medidas, redobraram seus esforços para adaptar os cidadãos à nova fase do
desenvolvimento:
Portugal
Desde que a OCDE, a organização das nações
desenvolvidas, começou, em 2000, a aplicar um sistema de avaliação entre seus
afiliados, Portugal registra melhoras constantes nos indicadores. Em 2015, os
estudantes do país conseguiram notas acima da média em ciências, leitura e
matemática. Um dos segredos é o maciço investimento nas famílias e nos
primeiros seis anos de uma criança. Entre 2003 e 2015, o total de mães com
ensino secundário completo subiu 41%. Quanto maior a escolaridade materna,
mostram os estudos, maior o rendimento dos filhos na escola. Nem a crise
econômica que devastou Portugal em 2008 interferiu nas políticas públicas.
A educação básica em Portugal é dividida em três
ciclos e leva 12 anos para ser concluída. O Ensino Superior contempla dois
sistemas: universitário e politécnico. No primeiro, são conferidos aos
estudantes os graus de licenciatura, mestrado e doutorado. Os institutos
politécnicos concentram-se na formação profissional prática.
Finlândia
Referência mundial, a Finlândia constantemente aparece
no topo das avaliações de qualidade da educação. A revolução no ensino começou
ainda nos anos 1960, quando os impostos gerados pela indústria de papel e
celulose sustentaram a adoção das políticas de Bem-Estar Social. O ensino
gratuito e universal foi adotado na década de 70 e desde então mira o
conhecimento interdisciplinar e não estanque. Matemática, ciência e música são
apresentadas aos estudantes por meio de projetos integrados, forma de combinar
os conteúdos e adaptá-los ao cotidiano dos alunos. Como a individualidade é
estimulada e não reprimida, uma sala reúne até cinco níveis de estudantes em
torno de uma mesma tarefa.
O governo incentiva a adoção de novas tecnologias e
modelos de aprendizagem. Os professores são valorizados e exigidos. É preciso
mestrado para dar aulas em uma escola de Ensino Fundamental. Na Finlândia é
mais difícil ser professor – em 2015, a taxa de aprovação nos cursos de
formação de professores foi de 4,2% – do que médico, cujo índice de aprovação
nas faculdades é de 8,8%.
Canadá
Em 2015, o país ocupou o terceiro lugar do ranking
da OCDE em leitura e ficou entre os dez melhores na avaliação geral. O sistema
canadense organiza-se a partir de províncias autônomas, ou seja, não há um
sistema nacional, mas políticas distintas em cada localidade. Um traço comum no
sistema é, no entanto, a igualdade de oportunidades. Há um esforço para
integrar o grande contingente de migrantes que todos os anos aporta no país. Em
geral, um aluno de fora leva três anos para alcançar uma performance semelhante
aos estudantes de origem canadense.
São também expressivos os investimentos em
alfabetização, treinamento de professores, bibliotecas e reforço para alunos
com dificuldade de aprendizagem.
Os bons índices refletem ainda a homogeneidade
socioeconômica. Há pouca diferença de rendimento escolar entre os alunos mais e
menos pobres. No último Pisa, o Programa Internacional de Avaliação de
Estudantes, a variação de notas causada por diferenças socioeconômicas foi de
apenas 9%, em comparação aos 20% da França e 17% de Cingapura, para citar dois
casos.
A rede pública abriga o maior número de estudantes. Em
Ontário, 94% dos alunos estão matriculados em unidades públicas. De maneira
geral, o sistema repele a lógica “academicista”, de fixação de conteúdos, e
estimula a autonomia. Aos 14 anos, os canadenses podem escolher as disciplinas
que mais interessam e montar a própria grade curricular. A educação obrigatória
vai até os 16 anos.
Alemanha
Depois de um contingenciamento na última década
causado pela crise econômica de 2008, a Alemanha anunciou a retomada dos
investimentos públicos. Serão 160 bilhões de euros a mais entre 2021 e 2030
para universidades e centros de pesquisa científica independentes. “Com isso,
estaremos garantindo a prosperidade do nosso país no longo prazo”, afirmou Anja
Karliczek, ministra da Educação, durante o anúncio dos novos investimentos.
Além de mais dinheiro para a contratação de
professores, as universidades terão acesso a um fundo de 150 milhões de euros
destinado a projetos especiais.
Estônia
Na última edição do Pisa, o ranking da OCDE, a
Estônia apareceu em terceiro lugar, atrás apenas de Cingapura e Japão. O
sucesso educacional recente do pequeno país báltico sustenta-se em um tripé:
acesso universal e gratuito em todas as etapas do ensino, autonomia garantida a
professores e escolas e valorização da educação pela sociedade.
O governo investe atualmente 6% do PIB em educação.
Enquanto o Brasil gasta 6,6 mil reais com estudantes do Ensino Fundamental, a
Estônia aplica o equivalente a 28 mil reais. Boa parte do dinheiro garantiu o
aumento de renda dos professores, que cresceu 80% nos últimos dez anos. O piso
salarial é de 1,2 mil euros, cerca de 5 mil reais.
Um currículo nacional orienta os ciclos de
aprendizagem, mas as escolas têm autonomia para aplicá-lo da maneira que
acharem melhor. Como na Finlândia, as disciplinas são integradas e não
respeitam limites burocráticos. Ética e educação digital estão entre os temas
mais explorados. Exige-se no mínimo mestrado dos professores.
Marcadores:
educação,
política brasileira,
política educativa,
Portugal
segunda-feira, 31 de dezembro de 2018
Carta aberta ao presidente Lula
Uma carta para LULA de um juiz brasileiro.
Neste fim de ano, que antecede um tempo especialmente dramático
para o Brasil, faz sentido enviar uma
mensagem tácita de solidariedade para com o Presidente Lula, transcrevendo da página virtual da revista brasileira
CartaCapital uma carta pessoal do juiz brasileiro Luís Carlos Valois que é juiz de direito no Amazonas, mestre e doutor em
direito penal e criminologia pela USP, pós-doutorando em criminologia em Hamburgo
– Alemanha, membro da Associação de Juízes para Democracia e do Instituto
Brasileiro de Ciências Criminais.
Sem deixar de ser um texto político, tem uma tonalidade pessoal que lhe transmite uma particular humanidade , sublinhando especialmente quão bárbaro é o que a direita brasileira, através das instituições que domina, está a fazer a LULA. Eis a carta:
Lula, meu caro, faz tempo que estou querendo te escrever. Esse pessoal do
meio carcerário tem uma espécie de tara por proibir as coisas, então não sabia
se minha carta ia chegar a ti, já que muita gente importante sequer conseguiu
entrar para trocar umas palavras contigo, razão pela qual resolvi escrever por
intermédio da internet mesmo, um dia tu vais ler.
Cara, eu sei que tu não és santo, nem eu sou, nem ninguém é, então todos
nós temos um monte de culpa por aí, mas o crime que tu cometeste realmente ninguém
sabe até agora qual foi. Bem, você sabe disso, você já disse que aceitaria a
pena tranquilamente se te mostrassem provas de um crime, só estou repetindo
porque a carta será publicada e porque quero ressaltar uma coisa.
Hoje em dia com tanta culpa por aí, já nem precisa de crime para se
condenar uma pessoa, basta querer condenar alguém que todo mundo já acha esse
alguém culpado. É como um juiz me falou certa vez, que ele não sabia porque
estava condenando o cidadão, mas o cidadão sabia porque estava sendo condenado.
É mais ou menos assim que estamos vivendo, e é cada um por si.
No teu caso, um recibo de pedágio, a tua visita a um apartamento, mais dois
ou três presos dedos-duros loucos para ganhar a liberdade, e pronto, está
formada a prova necessária para a tua condenação, mesmo que ninguém diga onde
está o teu dinheiro, onde está o benefício que tu tiveste nisso tudo, ninguém
diz. E ninguém quer saber.
Pode ser que digam que há mais coisas no teu processo,
pode ser que haja, mas tenho certeza que se houvesse algo tão sério já teria
sido divulgado aos quatro ventos, porque uma das coisas que mais se discute
aqui fora é justamente a tua culpa, ou não culpa, e até agora só essa tua
visita no apartamento que, obviamente, não é teu.
Xará (acabei de me tocar para o fato que temos o mesmo nome…rs…), a coisa
tá difícil. Não quero entrar aqui na questão política, se fizeram tudo para te
tirar da eleição, se têm ódio de ti porque és nordestino, um nordestino que
teria chegado onde incomoda muita gente, e feito outros tantos nordestinos
incomodarem mais gente por chegarem onde chegaram, não quero falar dessas
questões políticas, quero conversar contigo sobre a tua situação atual.
Tenho trabalhado com presos a vida inteira e sei o quanto é difícil,
principalmente em situação de isolamento, o encarceramento. Eu queria
inclusive, com esta carta, te mandar uns livros, mas também não sei se
chegariam até ti, são meios subversivos, acho que tu tens que ler algumas
coisas subversivas, sabe? Tu tens que conhecer o sistema a fundo para entender
a tua própria situação de encarcerado.
Um dia Nilo Batista disse que todo preso é um preso político. Pena que a
maioria dos presos não sabe disso. O sistema, nele incluído o sistema penal,
tem uma função primordial em fazer todos acreditarem, inclusive os próprios
presos, que tudo funciona na mais perfeita ordem e, se tu estás preso, é porque
devias estar preso.
Aliás, falando em Nilo Batista, e desviando do assunto novamente para a
política, esse sim era um nome que tu devias ter nomeado para o Supremo. Poxa,
tu não nomeaste nenhum penalista, e agora o que acontece, acontece que a maior
parte dos integrantes do Supremo não sabe o que é uma prisão, dá para manter
todo mundo preso sem um pingo de peso na consciência, convalidam mandado de
busca e apreensão como se fosse um mandado de penhora, permitem condução
coercitiva como se fosse uma intimação para depor em juizado, autorizam
execução antecipada da pena como se ninguém corresse um grande risco de morrer,
assassinado ou por doenças, atrás das grades.
Eu sei, eu sei, tu vais dizer que já percebeste isso, afinal estás preso e
muitos dos que te mantiveram preso foram nomeados por ti. Eu também sofri na
pele uma medida policial, uma busca e apreensão na minha casa autorizada à
Polícia Federal por um magistrado nomeado por ti, mas até agora, pelo menos
após a violência da busca, não tenho nada para dizer do juiz, apenas que ele
não é da área penal, e ser da área penal é muito importante, porque o direito
penal é como uma metralhadora, só serve para provocar dor e mortes. Não basta
boa vontade para manusear uma metralhadora.
Qual a justificativa dessa medida contra mim? Alguns presos me elogiavam em
interceptações telefônicas. O juiz não pode ser respeitado por preso, juiz deve
ser odiado, essa é a imagem com a qual o poder judiciário tem buscado
legitimidade frente a uma população sofrida por causa da criminalidade
crescente, demonstrando-se rigoroso, mais um temido órgão de repressão. Mas
depois eu volto a falar dos presos, dos outros presos.
Olha, esse fato acima parece irrelevante, mas é a prova de que eu podia
muito bem achar bem feito o que aconteceu contigo, querer te ver preso, mas
não, não quero. Seja pela tua idade, seja pelo que você representou para o Brasil,
seja porque prisão não resolve nada, seja porque ainda não vi efetivamente o
que tu usufruíste do crime, que também não sei qual é, que te imputam.
O mais interessante é que, e isso deve te deixar
louco, tem um monte de gente pega com malas de dinheiro, helicóptero com
cocaína, motorista milionário, ou seja, gente com dinheiro de verdade na conta,
coisa mais fácil de provar, dinheiro na conta, mas estão todos soltos.
E, pior, nessas horas eles alegam o princípio da presunção de inocência, o
devido processo legal, a ampla defesa, essas garantias jurídicas facilmente
manuseáveis, principalmente em uma sociedade de memória fraca.
Sabe o que é, Lula, o sistema capitalista é feito de dinheiro, status,
aparência e malícia, muita malícia, mas acima de tudo o sistema é feito de
instituições, todas funcionando sob a mesma base, a que privilegia o acúmulo de
capital, a que privilegia o mercado financeiro, em detrimento dos pobres.
Lá estou eu falando de política novamente. Nesse assunto, do mercado
financeiro, nem quero tocar mesmo, porque seria a única coisa que estragaria
esta carta, pois poderia falar coisas mais pesadas, a ponto de te deixar
chateado comigo. Fostes muito bom para os bancos, para o mercado financeiro.
Bem, deixa pra lá, pode ser que tu não tenhas tido outra saída, pois, afinal,
ninguém ajudou mais os pobres do que você.
O fato é que tu és, além de tudo, um cara simpático. Não sei se vou te
conhecer pessoalmente um dia, mas se isso acontecer, tenho muito mais coisa
para te falar do que permite uma carta, “privada” (na condição em que tu estás
nada é privado, e esse é um agravamento da pena, os presos perdem além da
liberdade, a privacidade) ou principalmente pública, como essa que escrevo
gora.
O que é importante é ter força, cara, as coisas mudam muito rapidamente
nesse mundo. Nunca abaixe a cabeça, porque a esperança combina com cabeças
erguidas, e há milhares de pessoas que ainda acreditam em ti, estão te
esperando aqui fora, e isso deve ser capaz de te dar uma força tremenda.
Já recebi, na vida, milhares de cartas de presos, e em resposta a quase
todas eu vou até o presídio e falo pessoalmente com o preso, mas essa é a
primeira vez que escrevo a um preso. E não podia encerrar sem te dizer isso,
Lula, mesmo que você tivesse cometido o crime mais bárbaro do mundo, todos os
presos são seres humanos, todos os presos têm, acima de tudo, direito, se não
porque são seres humanos, porque esse direito está na lei e na Constituição, de
serem tratados com dignidade.
Espero que saias daí logo, possas voltar a conviver
com os teus familiares, teus netos, mas não esqueças nunca essa situação de
encarceramento, percebas o que muitas pessoas passam e passam em condições
muito mais severas, em celas imundas, lotadas, com ratos e baratas, do que
essas que tu estás vivendo.
Falo isso porque tu és, ainda és, um porta-voz do povo, de boa parte do
povo, brasileiro, e grande parte desse povo está atrás das grades.
No mais, quero te desejar sorte, muita sorte. Que as pessoas que te odeiam,
que também não são poucas, percebam a covardia que é espezinhar de uma pessoa
presa, porque, acredite, Lula, não há limites para o ódio à pessoa encarcerada.
Sorte, meu caro, não só tu como todos os brasileiros vão precisar neste novo
ano de sorte. Não sou um cara religioso, posso até me considerar um ateu,
embora essa conceituação não seja lá de muita importância para mim, mas te
desejo muita sorte e, ainda com pouca fé, que tu fiques com Deus.
Grande abraço,
Luís Carlos Valois
quarta-feira, 19 de setembro de 2018
No Brasil, a democracia desobedece aos golpistas
O texto que a seguir transcrevo
da página virtual do jornal brasileiro de S. Paulo, conhecido por ESTADÃO,
sublinha os sinais recentes de mutação na corrida eleitoral brasileira para a
Presidência da República :
“A quarta pesquisa Ibope/Estado/TV Globo desde
o início oficial da campanha eleitoral nas eleições 2018 revela que o
candidato do PT à Presidência da República, Fernando Haddad, subiu 11
pontos porcentuais em uma semana e se isolou na segunda colocação, com 19%,
atrás de Jair Bolsonaro (PSL), que
oscilou dois pontos porcentuais para cima e chegou a 28%.
A seguir aparece Ciro Gomes (PDT), que se
manteve com os mesmos 11% da semana anterior. Geraldo Alckmin (PSDB) oscilou
dois pontos para baixo, de 9% para 7%. E Marina Silva (Rede) caiu
três pontos, de 9% para 6%. “
Os golpistas que
tomaram o poder ao arrepio da vontade popular, abusando da lei, parecem
encurralados. De facto, tornou-se provável que sejam obrigados a optar entre um
candidato de extrema-direita, que causaram mas que receiam, e o candidato de
esquerda que representa o poder democrático que derrubaram.
quinta-feira, 31 de maio de 2018
PAUL SINGER - segunda-feira, dia 4 de junho, em LISBOA
Na apresentação dos "Ensaios sobre Economia Solidária"de Paul Singer, recentemente publicados em Portugal, vai ser homenageado o seu autor, ilustre e saudoso economista, político e intelectual brasileiro que acaba de nos deixar.
O evento vai ter lugar na próxima segunda-feira , dia 4 de Junho, em Lisboa , na Rua Castilho-nº5 [Espaço Atmosfera M]. Participarão o brasileiro Dimas Gonçalves e os portugueses Jorge de Sá e Rui Namorado.
[ Pode clicar para ampliar]
Marcadores:
Brasil,
cooperativismo,
economia social,
Paul Singer,
política brasileira
sábado, 7 de abril de 2018
BRASIL - JORNALÕES OU LIXÕES ?
BRASIL - JORNALÕES OU
LIXÕES ?
Os grandes grupos mediáticos brasileiros, que tanto contribuíram para a instalação de uma ditadura
militar em 1964, são uma peça nuclear da grande conspiração contra a democracia
e pela manutenção do Brasil como uma sociedade profundamente injusta e desigual que está em curso. O primeiro passo foi a destituição
golpista de Dilma sob a capa de um rito jurídico-constitucional baseado numa
materialidade factual inventada ou distorcida . O segundo passo foi impedir Lula de concorrer a uma
eleição que muito provavelmente venceria; usando o sistema judicial, não como balança
que mede a culpa e a ilicitude com objetividade,mas como arma que agride quem a
lógica global de um sistema aflito indicar.
Sabemos , por experiência vivida durante o salazarismo, o
que é uma máquina judicial que, no essencial, foi docilmente subordinada ao poder
político fascista. O caso do Brasil atual é diferente. A máquina judicial
brasileira, ao longo de anos, foi sendo impregnada por um processo de degradação intrínseca que se disfarçou do seu contrário. Assim, foi sendo contaminada por uma estratégia destinada no essencial à
destruição dos partidos e líderes de esquerda que pudessem ser ou continuar a
ser poder. Uma destruição que nunca poderia parecer propositada, devendo não
apenas destruir institucionalmente, mas apagar simbolicamente e desprestigiar, as principais lideranças e organizações da
esquerda, ou pelo menos as que fossem poder ou pudessem vir a sê-lo. Para isso,
tinham também que atingir alguma gente e algumas entidades da direita, de modo
a ser aparente que era uma virtuosa limpeza que estava a ser feita e não uma
vergonhosa perseguição.
Não pretendo aqui analisar globalmente a questão em causa, mas tocar apenas num ponto
sintomático. Está em vias de ocorrer, em poucas horas, a prisão de Lula. Foi-lhe dado um prazo para
se apresentar voluntariamente, mas ele não se apresentou. Desde logo, trovejaram impropérios nos
jornalões : desobediência, falta de respeito pelas instituições, desconsideração
pela lei. Foi dada, entretanto, a notícia de que os advogados de Lula estavam a
combinar com a Polícia Federal o momento e o local em que Lula se poria à sua
disposição. Os mesmos megafones mediáticos, que haviam gritado contra uma
imaginária "desobediência", passaram agora a noticiar uma imaginária “rendição” de Lula. Sem
vergonha, sem estados de alma, sem nível.
Tenho assistido à degradação dos grandes meios de
comunicação social brasileiro pelo que
este episódio não me espanta, sendo apenas mais um sinal menor
e caricato dessa degradação. Mas acho estranho que em Portugal sejam
difundidos acriticamente simples ecos dessa sujeira. Fica-me uma dúvida:
aqueles que protagonizam esses ecos em Portugal são braços conscientes do lixo
mediático brasileiro ou são apenas idiotas?
O Brasil entra num período de incerteza. Viu-se ontem que
Lula poder ser preso, pode ser impedido de ser candidato, mas é de longe o líder mais acarinhado pelos setores populares brasileiros. Podem prendê-lo , mas só o conseguiram aumentando a sua popularidade.
O poder
subsequente ao golpe, bem mergulhado na untuosa imagem da traição e da pequenez, está em deliquescencia. O anti-lulismo perde cada vez mais o seu verniz
democrático, deixando a nu a sua estrutura verdadeira: a extrema-direita
"bolsonárica" e os seus mandantes armados com saudades da ditadura militar.
Os” incendiários”da direita brasileira têm-se esforçado por atear o “fogo”. Mas
não podem depois queixar-se de o terem conseguido.
quinta-feira, 30 de novembro de 2017
Um teólogo da libertação fala sobre o Brasil.
Um teólogo da
libertação fala sobre o Brasil.
O teólogo brasileiro Leonardo Boff, um dos mais destacados protagonistas da teologia
da libertação, publicou no passado dia 26 de Novembro no Jornal do Brasil um
texto sobre a actualidade política brasileira, intitulado “É
importante derrotar as elites do atraso”.
Para escaparmos ao
unilateralismo favorável ao poder político atual que , em regra,engessa a
comunicação social portuguesa nada melhor do ler atentamente o referido texto
que a seguir transcrevo:
“Por mais
críticas que se faça e se tenha que fazer ao PT, com ele ocorreu algo inédito
na história política do país. Alguém do andar de baixo conseguiu furar a
blindagem que as classes do poder, da comunicação e do dinheiro, por séculos,
montaram, para minimizar ao máximo políticas públicas em benefício de milhões
de empobrecidos. O mote era: políticas ricas para os ricos e políticas pobres
para os pobres. Assim estes não se rebelariam.
A verdade é que as elites endinheiradas nunca
aceitaram um operário, eleito por voto popular, a chegar ao poder central. É
fato que elas também se beneficiaram, pois a natureza de sua acumulação, uma
das mais altas do mundo, sequer foi tocada.
Mas permanecia aquele espinho dolorido: ter que
aceitar que o lugar supostamente deles, fosse ocupado por alguém vindo de fora,
sobrevivente da grande tributação, imposta aos pobres, negros, indígenas,
operários durante todo o tempo da existência do Brasil. O nome de seu horror é Luiz
Inácio Lula da Silva.
Agora esta elite despertou. Deu-se conta de que
estas políticas de inclusão social poderiam se consolidar e modificar a lógica
de sua abusiva acumulação.
Como é conhecido pelos historiadores que leram e
leem a nossa história a partir das vítimas, como é o caso do mulato Capistrano
de Abreu, do acadêmico José Honório Rodrigues e do sociólogo Jessé Souza entre
outros, diferente da história oficial, sempre escrita pela mão branca, todas as
vezes que as classes subalternas ergueram a cabeça, buscando melhorar a vida,
esta cabeça foi logo golpeada e os pobres reconduzidos à margem, de onde nunca
deveriam ter saído.
A violência nas várias fases de nossa história
foi sempre dura, com prisões, exílios, fuzilamentos e enforcamentos ao revoltosos
e particularmente com referência aos pobres e negros, estes últimos
centenas deles assassinados ainda neste ano.
A política de conciliação das classes opulentas,
à revelia dos reclamos populares, sempre detiveram o poder e os meios de
controle e repressão. E o usaram vastamente.
Não é diferente no atual golpe
jurídico-parlamentar de 2016 que injustamente apeou do poder a Presidenta Dilma
Rousseff.
O golpe não precisou mais de cassetetes e de
tanques. Bastou aliciar as elites endinheiradas, as 270 mil pessoas (menos
de 1% da população) que controlam mais da metade do fluxo financeiro do país,
associadas aos meios massivos de comunicação, claramente golpistas e
anti-populares, para assaltar o poder de Estado e a partir daí fazer as
reformas que os beneficiam absurdamente.
O Brasil ocupa uma posição importante no cenário
geopolítico mundial. É a sétima economia do mundo, controla o Atlântico Sul e
está voltada para a Africa. Esta área, na estratégia do Pentágono que cuida, ao
sul, pela segurança do Império norte-americano, estava a descoberto. Havia aí
um país, chamado Brasil, chave para a economia futura, baseada na ecologia, que
tentava conduzir um projeto de nação autônomo e soberano, mas aberto à nova
fase planetária da humanidade. Precisava ser controlado.
A Quarta Frota que fora suspensa em 1950 voltou
a partir dos anos 90 a ser ativada com todo um arsenal bélico, capaz de
destruir qualquer país oponente. Ela vigia especialmente a zona do pré-sal,
onde se encontram as jazidas de petróleo e de gás, as mais promissoras do
planeta.
Consoante à própria estratégia do Pentágono, bem
estudada pelo recém falecido Moniz Bandeira e denunciada nos EUA por Noam
Chomsky, era decisivo desestabilizar os governos progressistas
latino-americanos, desfigurar suas lideranças, desmoralizar a política como o
mundo do sujo e do corrupto e forçar a diminuição do Estado em favor da
expansão do mercado, o verdadeiro condutor, creem eles, dos destinos do país.
Pertence a esta estratégia difundir o ódio ao pobre, ao negro e aos opositores
deste projeto entreguista.
Pois este é o projeto atual das elites do atraso
(no dizer de Jessé Souza). Não pensam num projeto de nação, preferem uma
incorporação, mesmo subalterna, ao projeto imperial. Aceitam, sem maiores
reticências, a sua recolonização para serem meros exportadores de commodities para
os países centrais.
Argumentam: para que termos uma indústria
própria e um caminho próprio para o desenvolvimento, se tudo já está construído
e montado pelas forças que dominam o mundo?
O capital não tem pátria, apenas interesses no
Brasil e em qualquer parte do mundo. Estas elites do atraso colocam-se
decididamente do lado do Império e de seus interesses globais.
Atrás do vergonhoso desmonte dos avanços sociais
com o propósito de transferir a riqueza da nação e dos pobres para os já
super-ricos, estão estas vorazes elites do atraso. Estão reconduzindo o Brasil
às condições do século XIX até com trabalho semelhante ao escravo.
Bem intuía, pesaroso, Celso Furtado no
entardecer de sua vida, que as forças contrárias à construção do Brasil como
nação forte, vigorosa e ecumênica, poderiam triunfar e destarte interromper o
nosso processo de refundação do Brasil. Basta ler seus dois livros: Brasil:
a construção interrompida (1993) e o outro O longo
amanhecer (1999).
Nas próximas eleições devemos derrotar
democraticamente estas elites do atraso, porque querem implacavelmente acabar
de desmontar o Brasil social, pois não mostram nenhum interesse pelo país e
pelo povo, apenas como oportunidade de negócios.
Se por nosso infelicidade, triunfarem, poderão
levar consigo outros países latino-americanos para o mesmo caminho fatal.
Teríamos sociedades altamente controladas, ricas por um lado e paupérrimas por
outro, tremendo com medo da violência que fatalmente surgiria como está
efetivamente surgindo com a polícia militar fazendo a obra repressiva dos
militares no tempo da ditadura civil-militar de 1964.
Então, seríamos ainda positivamente cordiais?”
terça-feira, 18 de julho de 2017
LULA - um alvo estratégico
Publico hoje mais um texto de Roberto Amaral, extraído da página virtual da excelente revista brasileira CartaCapital. É um texto sobre a recente condenação de Lula. Parece--me muito importante desfazer a cortina de fumo lançada sobre esse triste evento pela grandes empresas brasileiras de comunicação social, que encontra estranhos ecos na comunicação social portuguesa. Que a direita lusitana morda desalmadamente em Lula, compreende-se. É o seu jeito canino de argumentar. Que figuras que se pretendem fora desse espaço também mastiguem dislates e desinformações sobre o assunto já é um pouco mais enjoativo. Enfim, leiam o que nos diz um importante político e intelectual brasileiro que nem é membro do PT. Entretanto, para vos pôr mais alerta aqui fica uma muito breve síntese do seu currículo.
Roberto Amaral nasceu em 1939. Cientista
político, jornalista, escritor, conferencista e político militante, tem artigos
científicos publicados em revistas académicas do Brasil e de outros países Com
vasta colaboração na imprensa brasileira, escreve semanalmente na versão online
da revista CartaCapital.
Com a redemocratização, retomou a atividade política legal, tornando-se um
dos re-fundadores do Partido Socialista Brasileiro (PSB), em 1985. Foi seu secretário-geral
entre 1985 e 1993 e em seguida vice-presidente, assumindo mesmo a Presidência do
PSB em três ocasiões: em 2005, em 2006 e em de 2014. A deriva direitista desse
partido levá-lo-ia a abandonar a sua presidência , tendo posteriormente rompido
com o próprio partido.
Nos dois primeiros mandatos do presidente Lula e no primeiro mandato da presidente
Dilma, representou o PSB no Conselho Político da Presidência da República. Exerceu
o cargo de ministro da Ciência e Tecnologia de janeiro de 2003 a 2004, no
Governo Lula.
É professor adjunto (licenciado) da Pontifícia Universidade Católica do Rio
de Janeiro e professor titular da Faculdade Hélio Alonso.É membro titular do
Instituto dos Advogados Brasileiros (IAB), do Pen Clube do Brasil, da
Internacional Political Science Association, da International Association of
Judicial Methodology. Integrou (2004) o Conselho Estadual de Cultura do Estado
do Rio de Janeiro.
Eis o seu artigo, datado do passado dia 17 de Julho de 2017:
“Sem surpresa, o País recebeu a anunciada condenação de Lula,
sentença que já estava pronta antes mesmo da mal articulada denúncia do
Ministério Público Federal, antes mesmo do julgamento na ‘República de
Curitiba’, pois, antes de tudo, estava lavrada pelas classes dominantes –
os rentistas da Avenida Paulista, as "elites" alienadas, a burguesia
preconceituosa, um empresariado sem vínculos com os destinos do povo e de seu
país. Uma "elite" movida pelo ódio e pela inveja que alimenta a
vendeta. Denúncia, julgamento, condenação constituem uma só operação política,
cujo objetivo é avançar mais um passo na consolidação do golpe em progresso
iniciado com a deposição da presidenta Dilma Rousseff.
Tomado de assalto o poder, cumpriria agora destruir eleitoralmente a
esquerda, numa ofensiva que lembra a ditadura instalada em 1964. Para destruir
a esquerda é preciso destruir seu principal símbolo, assim como para destruir o
trabalhismo caberia destruir o melhor legado de Getúlio Vargas. Não
por mera coincidência, o dr. Sérgio Moro decidiu dar à
luz a sentença a ele encomendada no dia seguinte em que o Senado Federal
violentava a Consolidação das Leis do Trabalho.
PUBLICIDADE
Desinformando e formando opinião, exaltando seus apaniguados e difamando
aqueles que considera seus inimigos, inimigos de classe, a grande imprensa
brasileira promove o cerco político, e tece as base da ofensiva ideológica
unilateral, porque produto de um monólogo.
Essa imprensa – um oligopólio empresarial, um monopólio
político-partidário-ideológico e na verdade o principal partido da
direita – que exigiu e obteve a condenação de Lula (e presentemente tenta
justificá-la, embora carente de argumentos) recebeu com rojões juninos a
sentença encomendada, mas logo se enfureceu porque Lula recusou o cadafalso
político e anunciou sua candidatura à presidência.
Ora, dizem os editoriais, os articulistas, os colaboradores, dizem os
"cientistas" políticos do sistema, Lula não pode ser candidato, o que revela a motivação da
sentença. Já há "cientistas" exigindo que o TRF-4, em Porto Alegre,
confirme sem tardança a condenação, e "filósofos" anunciando que a
candidatura Lula é um desserviço à democracia (ela que lidera todas as
pesquisas de intenção de voto) porque "polarizaria" o debate e as
eleições. Doria, não. Bolsonaro, não. Caiado, não. Alckmin tampouco polariza.
Mas Lula, sim; por isso precisa ser defenestrado.
A "vênus de prata" já começou a campanha visando à condenação de
Lula na segunda instância, e o Estadão (edição
de 14 último) anuncia que o "Supremo deve manter condenação de
Lula”.
Somos testemunhas da tentativa de revanche da direita brasileira. Impedir a
candidatura Lula é a defesa prévia ante a ameaça de a população demolir o golpe
com as eleições de 2018.
O fato de o libelo (e jamais sentença) de Moro ser obra conhecida, segredo
de polichinelo, não releva seu caráter mesquinho e iníquo, ademais de sua
inépcia jurídica, desnudada. Do ponto de vista do direito, a
"sentença" é um mostrengo e se fundamenta em ilações, presunções,
talvez "convicções", artifícios de raciocínio em conflito com a
lógica.
Contrariando o direito, que só conhece propriedade e posse, o juiz inventa
a figura do "proprietário de fato". A propriedade, segundo nosso
Código Civil, se prova mediante o registro em Cartório, mas para acusar Lula se
aceita que uma simples delação do proprietário real seja recebida como
transferência, e como esse proprietário supostamente doador, empreiteiro
respondendo a processos, é usufrutuário de falcatruas, conclui o juiz açodado
que o apartamento deve ter sido dado em retribuição a alguma facilidade
propiciada pelo ex-presidente, trata-se, portanto, de uma propina. E se é
propina, Lula é agente passivo de corrupção.
E por tais caminhos sinuosos, mediante tal exercício de lógica pedestre,
condena à cadeia o ex-presidente, para puni-lo, evidentemente, mas para punir
antes de tudo com a decretação de sua inelegibilidade. É disto que se trata.
Não cabe, pois, discutir a gramática processualística, simples apoio formal de
uma decisão eminentemente política, e, do ponto de vista político, um golpe
preventivo em face das eleições de 2018, das quais previamente e precatadamente
se elimina o candidato que lidera as pesquisas de intenção de voto. É preciso
abater esse candidato, pelo que ele simboliza. E assim, e só assim, as eleições
poderão realizar-se, disputada a presidência entre Francisco e Chico.
Como temos insistido, às forças do atraso não bastava o impeachment de
Dilma Rousseff, pois, o projeto em andamento é a implantação de um regime de
exceção jurídica voltado para a desmontagem de um projeto de Estado social, mal
enunciado. E um regime com tais características e com tais propósitos jamais
alçaria voo dependendo do apoio popular. Daí o golpe. À sua execução se
entregou o Congresso, sem ouvidos para as vozes das ruas, surdo em face dos
interesses do País e de seu povo, desapartado da representação popular, a
serviço do mercado, como tonitrua, sem pejo, o atual presidente da
Câmara.
A eliminação de Lula é, pois, a conditio
sine qua non do novo sistema para manter o calendário eleitoral,
pois as eleições, para serem realizadas, não poderão importar em risco. De uma
forma ou de outra, trata-se de um golpe, afastando-se uma vez mais do povo o
direito de escolher seus dirigentes.
A identificação de Lula como alvo da reação não é gratuita, nem fato
isolado. Lula de há muito transcendeu os limites de eventual projeto
pessoal, é mais do que um ex-presidente da República, e é muito mais que
fundador e presidente do PT. Independentemente de sua vontade e da vontade de
seus inimigos, é, para além de sua popularidade, o mais destacado ícone
da esquerda e das forças populares brasileiras. Lula é, hoje, e em que pesem
suas contradições, um símbolo, um símbolo da capacidade de nosso povo fazer-se
agente de sua História. É um símbolo das possibilidades de o ser humano vencer
suas circunstâncias, romper com as contingências e fazer-se ator. Simboliza a potência do
povão, do povo-massa, dos "de baixo", dos filhos da
Senzala como sujeitos históricos. Simboliza a possibilidade de o homem comum,
um operário, romper com as amarras da sociedade de classes, racista e
preconceituosa, e liderá-la num projeto de construção de uma sociedade em busca
de menos desigualdade social. Por isso é amado e odiado.
Símbolos assim constituem instrumentos de importância capital nos confrontos
políticos por sua capacidade de emocionar e mobilizar multidões. Símbolos deste
tipo não surgem como frutos do acaso nem se multiplicam facilmente, nem se
constroem da noite para o dia. Emergem em circunstâncias especiais, atendendo a
demandas concretas da sociedade. São construídos ao longo de certo tempo de
provação, de testes dolorosos, como ocorre com os heróis clássicos, percebidos
pela comunidade como portadores de virtudes.
O símbolo Lula não é produto do acaso, nem consequência de um projeto individual.
Trata-se do fruto histórico resultante do encontro do movimento sindical com as
lutas populares, construindo a primeira liderança política brasileira que
emergiu do proletariado, do chão de fábrica, para a Presidência da República.
Um feito de dificílima repetição, neste país aferrado ao autoritarismo
conservador.
É contra esse instrumento da luta política de massa que se arma a
prepotência das classes dominantes brasileiras, filhas do escravismo,
incuravelmente reacionárias, incuravelmente atrasadas, presas à ideologia da
Casa Grande, desapartadas dos interesses do povo e da nação, descomprometidas
com o futuro do país.
Ao abater Lula, pretende a direita brasileira
dizer que o povo – no caso um ex-imigrante do Nordeste profundo, sobrevivente
da fome, um ex-metalúrgico, um brasileiro homem-comum, um dos nossos –, não
pode ter acesso ao Olimpo reservado aos donos do poder. É um "chega
prá-lá", um "conheça o seu lugar", um "não se atreva",
um "veja com quem está falando".
A condenação de Lula tem o objetivo de barrar a emergência das
massas, barrar os interesses da nação, barrar o avanço social, barrar o ideal
de um Brasil desenvolvido e justo. Visa a barrar não o lulismo, mas todo o
movimento popular brasileiro. Quer deter não apenas o PT, mas todas as
organizações políticas do espectro popular (que não se enganem a esse respeito
aqueles que sonham em crescer nos eventuais escombros do lulopetismo).
A defesa de Lula, a partir de agora, não é uma tarefa, apenas, de seu
partido e dos seus seguidores. Ela representa, hoje, a defesa da democracia. É
só a primeira batalha, pois muitas nos aguardam até 2018".
Subscrever:
Mensagens (Atom)










