segunda-feira, 31 de maio de 2010

Mais um outono em Praga

Segundo a Agência Reuter , num texto remetido de Praga : "Partidos de centro-direita vencem eleições na República Tcheca".



Eis o texto completo: " Partidos de centro-direita favoráveis à austeridade econômica para evitar uma crise como a ocorrida na Grécia venceram as eleições parlamentares da República Tcheca neste sábado e devem formar um governo de coalizão com maioria no Parlamento.Os Sociais Democratas, que prometeram elevar os impostos para empresas e as camadas mais ricas para bancar os custos dos projetos sociais, conquistaram a maioria dos votos entre todos os partidos, com 22,1 por cento. Mas os partidos de centro-direita conseguiram a maioria parlamentar, liderados pelos Democratas Cívicos com 20,2 por cento, de acordo com os resultados de 99 por cento dos votos contabilizados.O conservador TOP09, um de seus prováveis aliados, obteve 16,6 por cento, e o Assuntos Públicos, de centro, ficou com 10,9 por cento.Os resultados acabam com a chance de que os Sociais Democratas poderiam governar com o apoio dos Comunistas, que tiveram 11,3 por cento. Os Comunistas não dividem o poder desde o fim do governo totalitário, em 1989.Os resultados também reduziram o risco de que as negociações sobre a coalizão sejam muito demoradas, um temor dos economistas. Eles temiam que a demora possa espantar investidores que querem um governo decisivo para comandar uma retomada do crescimento do país após uma queda de 4,1 por cento na economia no ano passado."


Mais um exemplo do cortejo triste em que a Internacional Socialista e o Partido Socialista Europeu se têm vindo a transformar, incapazes de recuperar uma identidade que claramente os liberte do colete de forças do neoliberalismo e lhes permita desempenhar um papel autónomo na construção de uma Europa que, ao menos, possa ser aliciante como horizonte.

Mas nem este novo sinal, que a vários outros se segue, impediu que alguns espíritos, ousadamente cautelosos, partilhem na esfera pública o fantástico sonho de que se pode reverter a deriva da IS e do PSE, cavando mais fundo a sepultura onde a terceira via os meteu a ambos.

domingo, 30 de maio de 2010

PS do Concelho de Coimbra - resultados fracos


No dia 9 de Maio de 2008, comentando a conjuntura então vivida no PS no plano da sua concelhia de Coimbra, publiquei neste mesmo blog um texto do qual recordo o seguinte excerto:
“Passou quase um mês sobre o dia das eleições para a Comissão Política Concelhia de Coimbra do PS. Uma quietude sombria parece ter-se apossado novamente da vida política interna. Apenas uma pausa natural para o render da guarda? Esperemos que sim.O combate foi renhido. O vencido (Carlos Cidade) chegou aos 408 votos (43,6 dos votantes), conseguindo 27 eleitos. O vencedor (Henrique Fernandes) teve 528 votos, alcançando 34 lugares na Comissão Concelhia. Juntos obtiveram 936 votos; ou seja, menos de metade dos militantes inscritos no Concelho. Não é inédito, mas é um facto que não deve ser atirado para debaixo do tapete.”


Do Diário de Coimbra de hoje, retiro o seguinte fragmento de texto:
“Carlos Cidade é o novo presidente da Comissão Política Concelhia de Coimbra do Partido Socialista (PS), depois de, nas eleições de ontem, ter derrotado Paulo Valério por números esclarecedores. O candidato da lista A, sob o lema “A Mudança Responsável - Coimbra Vale a Pena”, obteve 69,06 por cento dos votos, enquanto a lista B, com o slogan “Coimbra Com Futuro”, conquistou 30,03 por cento.
Depois de, em 2008, ter sido derrotado por Henrique Fernandes, Carlos Cidade, à segunda tentativa, chegou à presidência da Concelhia de Coimbra do PS mercê dos 663 militantes que confiaram no seu projecto. Nas eleições de ontem, votaram 960 socialistas, tendo Paulo Valério recebido 292 votos. Contas feitas, a lista A conquistou 43 mandatos contra 18 da lista B.”

Comparando os dois resultados, sem prejuízo de ulteriores comentários mais aprofundados, algumas conclusões óbvias podem ser retiradas:


1- Carlos Cidade, que em 2008 era o candidato de oposição à linha dominante na Concelhia e na Federação, dispunha em 2010 da larga maioria dos rostos mais visíveis da actual maioria da Federação de Coimbra, embora tivesse continuado a contar com apoiantes seus de 2008.

Vencido em 2008, saiu agora vitorioso. A mudança atrás referida e alguns meses de campanha fizeram com que subisse de 408, em 2008, para 663 votos em 2010, superando assim os 528 votos que Henrique Fernandes conquistara em 2008. A lista de Carlos Cidade vai ter na actual Concelhia 43 lugares, contra os 27 de que dispunha na anterior.

2. Paulo Valério, que assumia em 2010 uma posição correspondente à de Carlos Cidade em 2008, ficou-se pelos 30, 03 %, com direito a 18 mandatos na CPC. Bastante abaixo do que Cidade conseguira em 2008 (43,6% com 27 eleitos).


3. Hoje, estão filiados no PS no Concelho de Coimbra 2238 militantes, tendo votado 960, enquanto em 2008 estavam inscritos 2053 , tendo votado 936. Portanto, a abstenção subiu de 54,27% em 2008, para 57,6% em 2010. Constata-se assim que vários meses de campanha não chegaram para que os dois candidatos tivessem conseguido o apoio da maioria dos socialistas inscritos no concelho de Coimbra.

O que a nota informativa da Plataforma Socialista dizia no início da semana, acabou por se confirmar.

De facto, como então dissemos:”Nesta eleição abstemo-nos de votar em qualquer dos dois outros candidatos anunciados, o que significa que a nossa opção, muito provavelmente, coincidirá com a posição que irá ser tomada pela larga maioria dos membros do PS, filiados no Concelho de Coimbra”.

Concluindo: acho que a continuação em 2010 do alheamento de uma tão grande percentagem de militantes, já detectado em 2008, evidencia a continuidade de uma estagnação política realmente preocupante. As habituais trombetas da vitória, bem como as mastigações da derrota, com os seus lugares comuns de auto-satisfação, deviam moderar-se, para que se desse espaço para uma análise atenta à persistência do alheamento referido.

sábado, 29 de maio de 2010

Uma esquerda mansa dentro do PS


Há uma esquerda mansa dentro do PS que murmura de vez em quando a sombra de uma ligeira discordância circunstancial com a direcção do partido, para que se desconfie que possa existir.

Move-se com discreta elegância, como um fantasma de uma terceira via de cuja órbita verdadeiramente nunca fugiu, embora sempre tenha mantido a necessária distância para não ser salpicada pelos desastres que ela protagonizou.

Nos órgãos do PS, resguarda-se de fazer ouvir a sua voz, deixando por vezes a subtil demarcação de um sorriso céptico como grau máximo da ostensibilidade que consente a si própria na crítica à linha dominante.

Na comunicação social ou na blogosfera, concede por vezes uma ideia, onde se surpreende um perfume de demarcação em face do Governo ou perante a direcção do partido. A comunicação social noticia a inesperada sombra dessa nuvem passageira.

Ela não gosta do Manuel Alegre como possível candidato apoiado pelo PS. Preferia talvez um português suave que sussurrasse uma campanha serena, susceptível de fazer com que as cinquentonas melancólicas regressassem à breve primavera de um voto. Preferia talvez um candidato sem alma que nos dissesse uma prosa lisa e nos aconchegasse num território centrista, sem gritos e sem arestas. Ou seja, a esquerda mansa, que vive pé ante pé, dentro do PS preferia um candidato asséptico de fato cinzento e gravata azul cobalto, que nos fizesse repousar a todos numa hipotética harmonia universal, para onde felizes se encaminhariam em romaria os apreciados votos do alegado centro. Velha ideia, velha ilusão.

E no meio de uma tão discreta mansidão, pergunto-me: Mas afinal que pequenas coisas ou que grandes cálculos separam estes camaradas da direcção actual do nosso partido ?

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Reestruturar os Saberes na Universidade de Coimbra


O debate sobre a Reestruturação dos Saberes na Universidade de Coimbra, promovido pela respectiva comissão, está a atravessar uma fase penosa e talvez inconclusiva.

O texto que abaixo transcrevo é uma Declaração do Conselho Científico da
Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra
, do qual faço parte, sendo um testemunho expressivo de alguns aspectos do processo acima mencionado. Eis o documento:


" O Conselho Científico da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, reunido no dia 26 de Maio de 2010, apreciou o documento com o qual a Comissão de Reestruturação dos Saberes do Conselho Geral da Universidade de Coimbra lançou a 2ª fase do debate sobre aquela matéria.
O Conselho considerou que o documento apresentado não trata com a devida prudência um assunto desta natureza. Assim como não se reuniram as condições mínimas necessárias para fundamentar o método de cenários com que se ilustram possíveis alternativas para o futuro da Universidade. Ao não reflectir sobre os efeitos negativos que, previsivelmente alguns dos cenários contêm, a Comissão não cuidou devidamente de assegurar um debate global e construtivo.
Por isso, o Conselho Científico da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra considera que esse exercício está ainda obviamente limitado por duas circunstâncias que justificam fortes reservas. O primeiro desses limites resulta do facto de o inventário e o diagnóstico das questões que, na Universidade de Coimbra, suscitam uma reflexão reestruturadora terem sido excessivamente circunscritos. Parece claro que a Comissão não ousou tratar todos os casos. Ao centrar o essencial da discussão em duas áreas principais e em duas Faculdades gerou um desequilíbrio pouco salutar.
O segundo problema é que o documento não preenche a condição principal para que o debate tenha o enquadramento adequado e a pertinência justificada – não define os termos epistemológicos em que um assunto deste género repousa nem explicitou qual é o objectivo estratégico que prossegue. De facto, não há uma reflexão sobre as principais questões que rodeiam a produção do conhecimento nas sociedades contemporâneas nem sobre os problemas a que se justifica dar resposta. Ao contrário, o documento centra-se excessivamente em arranjos organizativos e funcionais.
Parece, pois, que a 2ª fase agora aberta deve reconhecer a insuficiência do trabalho realizado e deve colocar como objectivo ultrapassar os limites mais notórios. Das tarefas que importa desencadear há-de fazer parte uma cuidada inventariação dos problemas epistemológicos que orientam a reflexão e as decisões, procedendo, designadamente, a audições que contribuam para superar os compreensíveis limites da própria Comissão. Não parece possível que um debate deste tipo assente num relatório tão parcial e num apelo difuso à
participação. Importa, pois, considerar interlocuções institucionais que não foram asseguradas até agora. A Comissão deverá, designadamente, assumir um diálogo construtivo com as instituições que compõem diferentes instâncias da vida universitária.
O Conselho Científico da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra declara-se disponível para contribuir positivamente para o aprofundamento da discussão, encaminhando-a para um patamar aceitável em que seja então possível encarar de modo fundamentado as reestruturações orgânicas que se justifiquem, de modo amplo e equilibrado.
O Conselho Científico deliberou ainda, em relação à eventualidade de uma futura arrumação das especialidades e grupos de disciplinas na Universidade de Coimbra, comunicar às autoridades académicas a sua disponibilidade para participar em soluções globais que venham a reestruturar a investigação e o ensino na Universidade implicando o conjunto das áreas disciplinares e a sua indisponibilidade para colaborar na distribuição eventual ou pontual de áreas disciplinares pelas unidades existentes na Universidade. "

Um sério aviso



1. Uma recente sondagem da Marktest, para a TSF e o Diário Económico (trabalho de campo realizado entre 18 e 20 de Maio) apresenta os piores resultados dos últimos anos para o PS. É certo que há uma outra, também recente, da Eurosondagem, com valores diferentes. Mas seria pura inconsciência não interpretar esta sondagem como um aviso sério.



O PSD sobe até aos 43,9%, aproximando-se da maioria absoluta, o PS fica-se por uns inimagináveis 27,6%. O CDS não paga o preço pela subida do PSD e consegue melhor do que no mês passado com 7,5%. O BE fica ligeiramente acima com 7,7% e o PCP fica nos 7,1%.

Ou seja, a direita passa a barreira dos 50%, atingindo os 51,4%, enquanto os três partidos de esquerda somados não vão além dos 42,4%.

Assim, com a descida do PS não beneficiaram os outros dois partidos da esquerda, que em conjunto ficaram abaixo dos 15%.


2. O PS deve reflectir sobre as consequências, para a sua saúde política e para o país, de se deixar penalizar pelo facto de seguir os caminhos impostos pelos poderes fácticos que causaram a crise ( ou que são eles próprios o rosto verdadeiro da crise) e pelo PPE (Partido Popular Europeu), quando parecem beneficiar dessa penalização os ramos portugueses desse mesmo PPE. Força política essa que verdadeiramente é um dos eixos estratégicos da crise e o seu núcleo político.


O PCP e o BE não podem deixar de reflectir sobre o facto de ser agora óbvio que actuaram objectivamente como instrumentos ( decerto involuntários ) da direita, uma vez que afinal é ela que tira proveito da flagelação sistemática do PS e do Governo , na qual tão aplicadamente têm colaborado com a referida beneficiária.


Aos eleitores que se zangaram com o PS cabe perceber que, se procurarem aconchego no regaço da direita, estão afinal a dar o poder aos que agravarão todas as medidas que os levaram a afastar-se do PS.

Mas, mais importante do que tudo isso é que todos os caminhos de reversão do desastre ficarão mais estreitos se o PS se embrenhar por atalhos políticos ou continuara a arrastar os pés. E, antes de tudo, terá que compreender que não pode limitar-se a oferecer, como único futuro, às vítimas das actuais desigualdades sociais a sua eterna reprodução.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

A austeridade leva ao desastre !


Por indicação do blog Ladrão de Bicicletas, fui ler no “Le Monde” a entrevista com Joseph Stiglitz que a seguir transcrevo. Eis uma voz demasiado sonante, para poder ser varrida para debaixo do tapete com um resmungo indiferente, só porque incorre no enorme pecado de destoar da cansada ladainha neoliberal.

Mesmo tendo-se caído no estado de necessidade para onde se deixaram empurrar os poderes instituídos, como se pode ver lendo a entrevista, os trilhos oficiais não são os únicos susceptíveis de ser percorridos. Mas o que também me parece óbvio é que se não se tomarem medidas que preparem primeiro e traduzam depois uma saída controlada do capitalismo, gradual mas efectiva, que implique uma transformação em profundidade do modo de produção actual, envolvendo, nomeadamente, um novo cuidado ecológico, os hábitos de consumo, o estilo de vida, a organização empresarial e as atitudes culturais, vigentes nas sociedades actuais, a chamada crise continuará a assombrar-nos e a estrangular o nosso futuro.

Enfim, ouçamos o que Joseph Stiglitz tem para nos dizer:


"L'austérité mène au désastre"

[Propos recueillis par Virginie Malingre]

Joseph Stiglitz, 67 ans, Prix Nobel d'économie en 2001, ex-conseiller économique du président Bill Clinton (1995-1997) et ex-chef économiste de la Banque mondiale (1997-2000), est connu pour ses positions critiques sur les grandes institutions financières internationales, la pensée unique sur la mondialisation et le monétarisme. Il livre au Monde son analyse de la crise de l'euro.




Vous avez récemment dit que l'euro n'avait pas d'avenir sans réforme majeure. Qu'entendez-vous par là ?
L'Europe va dans la mauvaise direction. En adoptant la monnaie unique, les pays membres de la zone euro ont renoncé à deux instruments de politique économique : le taux de change et les taux d'intérêt. Il fallait donc trouver autre chose qui leur permette de s'adapter à la conjoncture si nécessaire. D'autant que Bruxelles n'a pas été assez loin en matière de régulation des marchés, jugeant que ces derniers étaient omnipotents. Mais l'Union européenne (UE) n'a rien prévu dans ce sens.
Et aujourd'hui, elle veut un plan coordonné d'austérité. Si elle continue dans cette voie-là, elle court au désastre. Nous savons, depuis la
Grande Dépression des années 1930, que ce n'est pas ce qu'il faut faire.


Que devrait faire l'Europe ?
Il y a plusieurs possibilités. Elle pourrait par exemple créer un fonds de solidarité pour la stabilité, comme elle a créé un fonds de solidarité pour les nouveaux entrants. Ce fonds, qui serait alimenté dans des temps économiques plus cléments, permettrait d'aider les pays qui ont des problèmes quand ceux-ci surgissent.
L'Europe a besoin de solidarité, d'empathie. Pas d'une austérité qui va faire bondir le chômage et amener la dépression. Aux Etats-Unis, quand un Etat est en difficulté, tous les autres se sentent concernés. Nous sommes tous dans le même bateau. C'est d'abord et avant tout le manque de solidarité qui menace la viabilité du projet européen.


Vous prônez une sorte de fédéralisme ?
Oui. De cohésion. Le problème, c'est que les Etats membres de l'UE n'ont pas tous les mêmes croyances en termes de théorie économique. Nicolas Sarkozy a eu raison de faire pression sur (la chancelière allemande)

Angela Merkel pour la forcer à payer pour la Grèce. Nombreux sont ceux qui, en Allemagne, s'en remettent totalement aux marchés. Dans leur logique, les pays qui vont mal sont responsables et doivent donc se débrouiller.


Ce n'est pas le cas ?
Non. Le déficit structurel grec est inférieur à 4 %. Bien sûr, le gouvernement précédent, aidé par

Goldman Sachs, a sa part de responsabilité. Mais c'est d'abord et avant tout la crise mondiale, la conjoncture, qui a provoqué cette situation.
Quant à l'Espagne, elle était excédentaire avant la crise et ne peut être accusée d'avoir manqué de discipline. Bien sûr, l'Espagne aurait dû être plus prudente et empêcher la formation de la bulle immobilière. Mais, en quelque sorte, c'est l'euro qui a permis ça, en lui procurant des taux d'intérêt plus bas que ceux auxquels Madrid aurait eu accès sans la monnaie unique. Aujourd'hui, ces pays ne s'en sortiront que si la croissance européenne revient. C'est pour cela qu'il faut soutenir l'économie en investissant et non en la bridant par des plans de rigueur.


La baisse de l'euro serait donc une bonne chose ?
C'est la meilleure chose qui puisse arriver à l'Europe. C'est à la France, et plus encore à l'Allemagne qu'elle profitera le plus. Mais la Grèce et l'Espagne, pour qui le tourisme est une source de revenus importante, en seront également bénéficiaires.


Mme Merkel, pourtant, sait que la solidarité peut être importante. Sans cela, il n'y aurait pas eu de réunification allemande.
Oui. Mais, justement, il a fallu plus de dix ans à l'Allemagne pour absorber la réunification. Et d'une certaine manière, je pense que les ex-Allemands de l'Ouest estiment qu'ils ont déjà payé un prix élevé pour la solidarité européenne.


Pensez-vous que la viabilité de l'euro soit menacée ?
J'espère que non. Il est tout à fait possible d'éviter que la monnaie unique ne périclite. Mais si on continue comme ça, rien n'est exclu. Même si je pense que le scénario le plus probable est celui du défaut de paiement. Le taux de chômage des jeunes en Grèce s'approche de 30 %. En Espagne, il dépasse 44 %. Imaginez les émeutes s'il monte à 50 % ou 60 %. Il y a un moment où Athènes, Madrid ou Lisbonne se posera sérieusement la question de savoir s'il a intérêt à poursuivre le plan que lui ont imposé le Fonds monétaire international (FMI) et Bruxelles. Et s'il n'a pas intérêt à redevenir maître de sa politique monétaire.
Rappelez-vous ce qui s'est passé en Argentine. Le peso était attaché au dollar par un taux de change fixe. On pensait que

Buenos Aires ne romprait pas le lien, que le coût en serait trop important. Les Argentins l'ont fait, ils ont dévalué, ça a été le chaos comme prévu. Mais, en fin de compte, ils en ont largement profité. Depuis six ans, l'Argentine croît à un rythme de 8,5 % par an. Et aujourd'hui, nombreux sont ceux qui pensent qu'elle a eu raison.

terça-feira, 25 de maio de 2010

A Plataforma Socialista não concorre, mas continua

Vou transcrever de imediato, na íntegra, o texto ontem divulgado pela Plataforma Socialista na qual participo.



A Plataforma Socialista não concorre, mas continua.


Com o objectivo de contribuir para dar relevância política à disputa inerente às próximas eleições para a Comissão Política Concelhia de Coimbra do Partido Socialista foi constituída uma Plataforma Socialista que escolheu Luís Santarino, para encabeçar a sua participação nessas eleições.


Verificamos hoje que só muito limitadamente o conseguimos. A alergia dos outros dois candidatos a tomarem uma posição clara e a assumirem responsabilidades inequívocas, quanto às questões políticas cruciais que corroem o Partido Socialista em Coimbra, bem como quanto às que o atingem no plano nacional e às que trazem todo o país em sobressalto, fez com que estivesse para além das nossas forças a possibilidade de o conseguirmos por completo. Também por isso, chegado o momento de avaliarmos o sentido, a oportunidade e o significado político da nossa participação nesse acto eleitoral, tomámos três decisões que vimos tornar públicas.


1º Não concorremos às próximas eleições para a Comissão Política Concelhia de Coimbra do Partido Socialista;


2º A nossa Plataforma Socialista manter-se-á activa, como instância de intervenção política no concelho de Coimbra, sem que isso signifique alheamento, nem quanto à globalidade da vida interna do PS, nem quanto ao combate político em geral;


3º Nesta eleição abstemo-nos de votar em qualquer dos dois outros candidatos anunciados, o que significa que a nossa opção, muito provavelmente, coincidirá com a posição que irá ser tomada pela larga maioria dos membros do PS, filiados no Concelho de Coimbra.


De facto, apesar de algumas cerimónias públicas de análise de temas cívicos, postas em prática pelas outras duas listas, no essencial, a campanha que fizeram cuidou mais de elogiar as qualidades pessoais dos candidatos, do que tratar da conjuntura política e das dramáticas dificuldades vividas actualmente pelo Governo, pelo PS e pelo país. No essencial, foi como se a grande questão que aflige os cidadãos de Coimbra seja a de saberem se é Carlos Cidade ou Paulo Valério, quem merece ser investido na qualidade de guia do PS de Coimbra.


Mas se já foi negativo que a campanha dessas duas listas tivesse ignorado no essencial, quase por completo, a dramaticidade política do momento que atravessamos, pior foi a baixa qualidade democrática de todo o processo eleitoral. Na verdade, não podemos ignorar que esta campanha eleitoral interna, seguindo o modelo adoptado nos últimos anos, ficou muito longe do nível democrático necessário para que a contenda fosse limpa e equitativa, e eticamente irrepreensível, de modo a poder originar um poder que realmente todos os militantes do PS encarassem como legítimo, de um ponto de vista democrático.


Nomeadamente, uns por ostensiva escolha outros por consentimento tácito, inviabilizaram o caminho que teria feito da campanha uma sucessão de debates abertos e esclarecedores, entre todas as candidaturas, de modo a que nenhuma delas pudesse tirar vantagem do seu possível domínio do aparelho, ou de qualquer outro tipo de renda de situação, para, a seu favor, congelar fidelidades ou petrificar sindicatos de votos.


E para tornar o horizonte ainda mais enublado, se olharmos para alguns sinais políticos, dados por alguns episódios que têm envolvido a difusão da lista liderada por Carlos Cidade, nomeadamente, lendo com atenção, nome a nome, a sua enormíssima Comissão de Honra, constatamos com alarme que em aspectos nevrálgicos do bom nome e da credibilidade externa do PS de Coimbra, parece querer retroceder-se rumo à difícil posição para onde foi arrastado o PS de Coimbra há uns anos atrás.


Paralelamente, os seus opositores, embora alheados dessa deriva, parecem encarar o sentido da sua afirmação como alternativa, não como uma outra forma de se ser partido, mas como a substituição de um aparelho por outro, o que podendo, na melhor das hipóteses, suscitar algumas melhorias, ficará sempre longe da grande metamorfose por que o PS precisa de passar.


Por fim, não podemos deixar de constatar que ambas as candidaturas em liça revelaram, embora em graus diferentes, uma tal exuberância de meios que, ou estamos perante candidatos ricos, ou pairou nesta pugna eleitoral a sombra generosa de ignotos mecenas.Ora, de uma vez por todas, não pode continuar admitir-se que em eleições internas do PS os resultados dependam, mesmo que parcialmente, do dinheiro de que disponham ou que consigam angariar as diversas candidaturas.


Somos um colectivo de militantes que, com base numa plataforma política substancialmente diferenciada e identificável, quer contribuir para retirar o PS no concelho de Coimbra do cinzentismo para onde foi arrastado. Não quisemos ser um terceiro saco de apoiantes de um terceiro nome, fosse ele qual fosse. É claro, que um de nós foi escolhido para liderar a nossa lista, mas é de toda a plataforma política, de todos os participantes na Plataforma Socialista a responsabilidade por tudo o que nesse plano foi feito e decidido.


Compreende-se pois que, se nunca nos quisemos reduzir a uma simples soma de apoiantes fosse de quem fosse, não estejamos agora dispostos a deixarmo-nos meter dentro de qualquer dos dois grupos de apoiantes que disputam entre si uma competição pouco mais do que numérica.

domingo, 23 de maio de 2010

Habermas e a Europa


Jürgen Habermas é um filósofo e sociólogo alemão mundialmente conhecido. Nasceu em Düsseldorf, em 18 de Junho de 1929. Licenciou-se na Universidade de Bonn, 1954. De 1956 a 1959, foi assistente de Theodor Adorno no Instituto de Pesquisa Social de Frankfurt. Em 1968, transferiu-se para Nova York, passando a lecionar na New School for Social Research de Nova York. A partir de 1971, dirigiu o Instituto Max Planck, em Starnberg, na Baviera. Em 1983, transferiu-se para a Universidade Johann Wolfgang von Goethe, de Frankfurt, onde permaneceu até se aposentar, em 1994. Em 2003, foi o vencedor do Prémio Príncipe das Astúrias de Ciências Sociais.
Saiu hoje no diário espanhol "El País" um texto seu , onde analisa a conjuntura politico-económica da Europa, comentando criticamente o papel da Alemanha na crise que assombra o velho continente. No panorama pobre e previsível dos comentadores oficiosos, é importante conhecer a opinião de alguém que sabe realmente pensar (que nos pode ajudar a pensar), estando longe de ser aprisionável pela vulgata do economês neo-liberal ou pelo europês entaremelado dos burocratas de Bruxelas. O texto em causa foi originalmente publicado no jornal alemão "Die Zeit", tendo sido traduzido para espanhol , por Jesús Alborés Rey. Num brevíssimo enquadramento pode ler-se no diário espanhol: "El filósofo alemán Jürgen Habermas exige a los Estados una mayor implicación política para defender a la UE de los ataques financieros y muestra que la Alemania actual no está en el mejor momento para asumir el liderazgo". Eis o texto:


"En el euro se decide el destino de la UE"

Días decisivos: Occidente celebra el 8 de mayo y Rusia el 9 de mayo la victoria sobre la Alemania nacionalsocialista; también aquí, en Alemania, se habla de día de la liberación. Este año, las fuerzas de la alianza que lucharon contra Alemania (con la participación de una unidad polaca) celebraron conjuntamente un desfile de la victoria. En la Plaza Roja de Moscú Angela Merkel estaba justo al lado de Vladímir Putin. Su presencia confirmaba el espíritu de aquella nueva Alemania surgida en la posguerra, cuyas distintas generaciones no han olvidado que también fueron liberadas, a costa de los mayores sacrificios, por el Ejército ruso.
La canciller llegó desde Bruselas, donde había tratado de una derrota de un tipo completamente distinto. La imagen de la conferencia de prensa en la que se anunció la decisión de los jefes de Gobierno de la UE sobre el fondo de rescate común para contrarrestar los ataques al euro traicionaba la convulsa mentalidad no de aquella nueva Alemania, sino de la Alemania de hoy. La chirriante foto muestra las caras petrificadas de Merkel y Nicolas Sarkozy: unos jefes de Gobierno exhaustos que ya no tienen nada que decirse. ¿Acabará siendo esa foto el referente iconográfico del fracaso de una manera de ver Europa que ha marcado su historia durante más de medio siglo?
Mientras que en Moscú Merkel estaba a la sombra de la tradición de la antigua República Federal, este 8 de mayo pasado, en Bruselas, la canciller dejaba tras sí algo distinto: la lucha de semanas de una empedernida defensora de los intereses nacionales del Estado económicamente más poderoso de la UE. Apelando al ejemplo de la disciplina presupuestaria alemana, había bloqueado una acción conjunta de la Unión que habría respaldado a tiempo la credibilidad de Grecia frente a una especulación que buscaba la quiebra del Estado. Una serie de declaraciones de intenciones ineficaces había impedido una acción preventiva conjunta. Grecia como un caso aislado.
Hasta que no se ha producido la última conmoción bursátil, la canciller no ha cedido, ablandada por el masaje anímico colectivo del presidente de Estados Unidos, del Fondo Monetario Internacional y del Banco Central Europeo. Por temor a las armas de destrucción masiva de la prensa amarillista parecía haber perdido de vista la potencia de las armas de destrucción masiva de los mercados financieros. No quería de ninguna manera una eurozona sobre la que el presidente de la Comisión Europea, José Manuel Barroso, pudiera decir al día siguiente: quien no quiera la unificación de las políticas económicas, debe olvidarse también de la Unión Monetaria.
La cesura. Desde entonces, todos los afectados empiezan a vislumbrar el alcance de la decisión que se tomó el 8 de mayo de 2010 en Bruselas. Las medidas de emergencia sobre el euro adoptadas de la noche a la mañana han tenido consecuencias distintas de las de todos los bail outs habidos hasta la fecha. Como ahora es la Comisión quien suscribe los créditos en los mercados representando a la Unión Europea en su conjunto, este mecanismo de crisis se ha convertido en un instrumento de comunidad que transforma las bases económicas de la Unión Europea.
El hecho de que a partir de ahora los contribuyentes de la zona euro avalen solidariamente los riesgos presupuestarios del resto de los Estados miembros supone un cambio de paradigma. Se ha tomado conciencia así de un problema reprimido desde hacía mucho tiempo. La crisis financiera, amplificada a crisis de Estado, nos trae el recuerdo de los errores originales de una Unión Política incompleta que se ha quedado a mitad de camino. En un espacio económico de dimensiones continentales, sumamente poblado, surgió un Mercado Común con una moneda parcialmente común, sin que al mismo tiempo se introdujeran competencias que sirvieran para coordinar eficazmente las políticas económicas de los Estados miembros.
Hoy ya nadie puede rechazar de plano, calificándola de irrazonable, la exigencia formulada por el presidente del Fondo Monetario Internacional de un "gobierno económico europeo". Los modelos de una política económica "conforme a las reglas" y de un presupuesto "disciplinado", según lo establecido en el Pacto de Estabilidad, no están a la altura de los desafíos de una adaptación flexible a constelaciones políticas en rápida transformación. Claro que hay que sanear los presupuestos nacionales. Pero no se trata únicamente de las trapacerías griegas o de las ilusiones de bienestar españolas, sino de una equiparación político-económica de los niveles de desarrollo dentro de un espacio monetario con economías nacionales heterogéneas. El pacto de Estabilidad, que precisamente Francia y Alemania tuvieron que dejar en suspenso en 2005, se ha convertido en un fetiche. No bastará con endurecer las sanciones para equilibrar las consecuencias no deseadas de la deseada asimetría entre la completa unificación económica de Europa y su incompleta unificación política.
Incluso la sección de Economía del Frankfurter Allgemeine Zeitung considera que "la unión monetaria está en la encrucijada". El periódico atiza con un escenario de horror la nostalgia por el marco alemán en contra de los "países con monedas débiles", mientras que una amoldable canciller habla repentinamente de que los europeos deben buscar "una mayor integración económica y financiera". Pero no hay, a lo ancho y a lo largo, huella alguna de la conciencia de una profunda cesura. Unos confunden la conexión causal entre la crisis del euro y la crisis bancaria y apuntan exclusivamente el desastre a la falta de disciplina presupuestaria. Otros se afanan denodadamente en reducir el problema de la falta de coordinación entre las políticas económicas nacionales a una mera cuestión de mejora de la gestión.
La Comisión Europea quiere que el fondo de rescate, de duración limitada, se mantenga a largo plazo, además de inspeccionar los planes presupuestarios nacionales, incluso antes de que estos se hayan sometido a los parlamentos nacionales. No es que estas propuestas sean descabelladas. Pero es una falta de vergüenza sugerir que semejante intervención de la Comisión en el derecho presupuestario de los parlamentos no tocaría los tratados y no aumentaría de forma inaudita el déficit democrático que se arrastra desde hace tanto tiempo. Una coordinación eficaz de las políticas económicas debe conllevar un reforzamiento de las competencias del Parlamento de Estrasburgo; también planteará, en otros ámbitos políticos, la necesidad de una mejor coordinación.
Los países de la zona euro se enfrentan a la alternativa entre una profundización de la cooperación europea y la renuncia al euro. No se trata de la "vigilancia recíproca de las políticas económicas" (Trichet), sino de una actuación común. Y la política alemana está mal preparada para esto.
Cambio generacional y nueva indiferencia. Tras el Holocausto, hicieron falta esfuerzos de décadas -desde Adenauer y Heinemann, pasando por Brandt y Helmut Schmidt, hasta Weizsäcker y Kohl- para el retorno de la República Federal al círculo de las naciones civilizadas. No bastaba con la astuta táctica marcada por el ministro de Exteriores, Hans Dietrich Genscher, de orientarse a Occidente por razones de oportunidad. Era precisa una transformación, infinitamente trabajosa, de la mentalidad de toda la población. Lo que acabó por propiciar un talante conciliador en nuestros vecinos europeos fueron, en primer término, la transformación de las convicciones normativas y el cosmopolitismo de las generaciones más jóvenes, crecidas en la República Federal. Y, naturalmente, en la actividad diplomática marcaron la pauta las convicciones creíbles de los políticos en activo durante aquella época.
El manifiesto interés de los alemanes por una unificación europea pacífica no era suficiente para desactivar la desconfianza hacia ellos, históricamente fundamentada. Los alemanes occidentales parecían conformarse con la división nacional. A ellos, con el recuerdo de sus excesos nacionalistas, no habría de resultarles difícil renunciar a la reivindicación de sus derechos de soberanía, asumir en Europa el papel del principal contribuyente neto y, si hacía falta, adelantar créditos que, en cualquier caso, redundaban en beneficio de la República Federal. El compromiso alemán, para ser convincente, tenía que tener un arraigo normativo. Jean-Claude Juncker ha descrito bien esa prueba de esfuerzo cuando, en alusión al frío cálculo de intereses de Angela Merkel, echaba en falta la disposición a "aceptar riesgos en la política interna en pro de Europa".
La nueva intransigencia alemana tiene raíces profundas. Ya con la reunificación se transformó la perspectiva de una Alemania que había crecido y se ocupaba de sus propios problemas. Más importante fue la quiebra de las mentalidades que se produjo tras la marcha de Helmut Kohl. Con la excepción de un Joschka Fischer prematuramente agotado, desde la toma de posesión de Gerhard Schröder gobierna una generación normativamente desarmada que permite que una sociedad cada vez más compleja le imponga un trato cortoplacista con los problemas del día a día. Consciente de la reducción de los márgenes de juego político, renuncia a fines y a intenciones de transformación política, por no hablar de un proyecto como la unificación de Europa.
Hoy las élites alemanas disfrutan de una recuperada normalidad nacional estatal. Al final de un largo camino hacia Occidente han adquirido su certificado de madurez democrática y pueden volver a ser como los demás. Ha desaparecido aquella nerviosa disposición a acomodarse con mayor prontitud a la constelación posnacional de un pueblo vencido también moralmente y obligado a la autocrítica. En un mundo globalizado todos deben aprender a incorporar a la propia perspectiva la de los otros, en vez de retraerse a la mezcla egocéntrica de esteticismo y optimización del beneficio. Un síntoma político del retroceso de la disposición a aprender son las sentencias sobre los tratados de Maastricht y Lisboa del Tribunal Constitucional alemán, que se aferran a superados dogmatismos jurídicos relativos a la soberanía. La mentalidad del ensimismado coloso centroeuropeo, que gira en torno a sí misma y que carece de ambición normativa, ya no es ni siquiera garantía de que la Unión Europea se mantendrá en su tambaleante status quo.
La adormecida conciencia de crisis. Cambiar de mentalidad no es razón alguna para hacer reproches; pero la nueva indiferencia tiene consecuencias para la percepción política del desafío actual. ¿Quién está realmente dispuesto a sacar de la crisis bancaria aquellas conclusiones que la cumbre del G-20 de Londres plasmó en bellas declaraciones de intenciones... y a luchar por ellas?
Por lo que respecta a la doma del asilvestrado capitalismo financiero, nadie puede engañarse sobre la voluntad mayoritaria de las poblaciones. Por primera vez en la historia del capitalismo, en el otoño de 2008 sólo pudo salvarse la columna vertebral del sistema económico mundial, impulsado por los mercados financieros, gracias a las garantías de los contribuyentes. Y este hecho -que el capitalismo no pueda ya reproducirse por sus solas fuerzas- se ha fijado desde entonces en las conciencias de los ciudadanos que, como ciudadanos-contribuyentes, tuvieron que salir fiadores del fracaso del sistema.
Las exigencias de los expertos están sobre la mesa. Se está hablando sobre el aumento de los fondos propios de los bancos, una mayor transparencia para las actuaciones de los fondos especulativos de inversión, la mejora de los controles de las bolsas y las agencias de calificación de riesgos financieros, la prohibición de instrumentos especulativos llenos de imaginación pero dañinos para las economías nacionales, la imposición de una tasa a las transacciones financieras, el reforzamiento de las provisiones bancarias, la separación de la banca de inversión y comercial o la disgregación preventiva de los complejos bancarios demasiados grandes para caer. En la cara de Josef Ackermann, presidente del Deutsche Bank y astuto lobbista mayor de la banca alemana, se reflejaba un cierto nerviosismo cuando la periodista televisiva Maybrit Illner le daba a elegir entre algunos de estos "instrumentos de tortura" de los legisladores.
No es que la regulación de los mercados financieros sea tarea sencilla. Para llevarla a cabo también se requiere, sin duda, el conocimiento especializado de los banqueros más taimados. Pero las buenas intenciones fracasan no tanto por la complejidad de los mercados como por la pusilanimidad y falta de independencia de los Gobiernos nacionales. Fracasan por una apresurada renuncia a una cooperación internacional que se ponga como fin el desarrollo de las capacidades de actuación políticas de las que se carece... y ello en todo el mundo, en la Unión Europea y en primerísimo lugar dentro de la zona euro. En el asunto de la ayuda a Grecia, los negociantes y especuladores en divisas creyeron antes el hábil derrotismo empresarial de Ackermann que la tibia aprobación de Merkel al fondo de rescate del euro; realmente, no tienen confianza alguna en la decidida disposición a cooperar de los países de la zona euro. ¿Cómo podrían ser de otra manera las cosas en una Unión que derrocha sus energías en peleas de gallos para llevar a las figuras más grises a los cargos más influyentes?
En épocas de crisis, incluso los individuos pueden hacer historia. Nuestra enervada élite política, que prefiere seguir los titulares del Bildzeitung, no puede convencerse a sí misma de que son las poblaciones quienes impiden una unificación europea más profunda. Saben perfectamente que el retrato demoscópico de la opinión de la gente no es lo mismo que el resultado de la formación de una voluntad democrática deliberativamente constituida de los ciudadanos. Hasta hora, no ha habido en país alguno una sola elección europea o un solo referéndum en el que se haya decidido sobre algo que no sean temas y listas electorales nacionales. Sin mencionar siquiera la miopía nacional-estatal de la izquierda (y aquí no hablo sólo del partido alemán La Izquierda), hasta este momento todos los partidos políticos nos deben el intento de conformar políticamente la opinión pública mediante una Ilustración a la ofensiva.
Con un poco de nervio político, la crisis de la moneda común puede acabar produciendo aquello que algunos esperaron en tiempos de la política exterior común europea: la conciencia, por encima de las fronteras nacionales, de compartir un destino europeo común.

A sangria



Saiu no DESTAK mais uma manifestação do Estranho quotidiano que regularmente J.L.Pio Abreu traz ao nosso encontro. A sangria é o seu título, desta vez. Vou publicar o texto com autorização do autor. Ei-lo:

A SANGRIA

Antes do Século XVII, os médicos europeus prescreviam a sangria por tudo e por nada. Na verdade, eram tão incompetentes como grandiloquentes. Agarrados aos dogmas, pouco mais sabiam do que profetizar a desgraça com nomes sonantes ou prescrever sangrias. E mesmo estas eram executadas por barbeiros de casta inferior, pois os sacrossantos médicos não podiam sujar as mãos com o sangue dos desgraçados.

No século XVIII as coisas começaram a mudar por várias razões. Primeiro, os barbeiros tornaram-se cirurgiões e médicos, confiando mais na observação directa do que nos dogmas. Segundo, descobriu-se que a cólera vinha da água contaminada. Pasteur e a imunização viriam a seguir e, só no século passado, passaríamos a dispor dos antibióticos. Identificados os agressores – vibriões, bacilos, cocos, riquétsias, vírus – existem hoje várias formas de nos defendermos. A sangria desactualizou-se.

Parece que também existem comunidades – instituições e países – que estão doentes. Os seus médicos – os economistas – só sabem profetizar desgraças ou receitar sangrias. Do cimo da sua arrogância e dos seus dogmas, também eles entregam a sangria nas mãos da casta inferior dos políticos. Entretanto, vão-se conhecendo os nomes de alguns agressores: short-selling, naked CDSs, agências de rating, edge funds e outros. O remédio, porém, parece ser sempre o mesmo: sangria.

Não se percebe porque é que os tratamentos dos economistas são tão básicos. Mas há quem lembre que os médicos privados podem ganhar mais com a doença do que com a saúde dos outros.

[J. L. Pio Abreu]

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Estudos


1. Há estudos que demonstram...
Encomendei um estudo que mostra que...
Todos os estudos internacionais indicam que ...
Os empresários vendedores de bebidas espirituosas encomendaram um estudo que demonstra que devem ser extintos dez lugares de deputados na Assembleia da República.
Estudos encomendados pela Associação dos Banqueiros Responsáveis pela Crise mostram, sem margem para dúvidas, que em Portugal os desempregados, os reformados, os pobres, os excluídos têm que apertar o cinto para que a crise não se repita.

2. Pensativo, pergunto-me: mas afinal o que é um estudo?

E, no pesado dicionário das minhas dúvidas e inquietações, são me oferecidas três respostas.
1ª resposta : Opinião previsível (ou encomendada) de um ou vários cavalheiros, bem radicada num suporte textual, cujos nomes, em si próprios, se fossem destacados, só retirariam credibilidade ao que lhes fosse atribuído.
2ª resposta: Rol de conclusões ou ideias banais, cuja trivialidade seria evidente, se não as embrulhassem cuidadosamente na palavra "estudo".
3ª resposta: Ao contrário do que foi dito, realmente, sobre isso não há estudo nenhum.

Respiração brasileira - Mercadante

O senador Aloizio Mercadante, um dos mais destacados dirigentes do PT, é candidato ao Governo de S.Paulo nas próximas eleições, tendo sido até há pouco líder da bancada que apoiava o Governo no Senado. O jornalista Celso Marcondes entrevistou-o para a importante revista brasileira de grande circulação CartaCapital . Permitimo-nos transcrever alguns extractos da longa entrevista que aí foi publicada.
Recorde-se, entretanto, que no Estado de S.Paulo , o PT é oposição, ao Governador cessante do PSDB, José Serra, que é o candidato da direita às próximas eleições presidenciais brasileiras.

A entrevista é assim apresentada num pequeno texto introdutório: “O senador Aloizio Mercadante, pré-candidato ao governo de São Paulo pelo PT, deu uma longa entrevista à CartaCapital dia 10 de maio último. Criticou duramente a gestão tucana no Estado, avaliou a conjuntura nacional, as chances de Dilma Rousseff e as realizações do governo Lula. Comemorou as articulações para ampliar a frente partidária que lhe dará suporte e falou sobre os principais pontos de seu futuro plano de governo” .

… … …
CartaCapital : Vamos falar um pouco de programa de governo. Na convenção do PSDB que lançou o Alckmin, o discurso dele e do Fernando Henrique em particular, foram destoantes da linha que o Serra ameaça desenvolver na eleição presidencial, digamos, menos beligerante. Serra tinha falado até em governar todo mundo junto, chamar o PT e o PV para governar...
AM: Eu acho que na convenção eles falaram de improviso. Não foi o marketing que escreveu o discurso. E de improviso eles falaram o que sempre foram. Na verdade, o PSDB sempre foi contra o Lula, fez de tudo para não existir o governo Lula, e ainda repete uma parte do discurso do Fernando Henrique, novamente tentando dizer que se a Dilma ganhar a eleição pode ser um desastre, disse “que Deus nos socorra”, algo como tentando retomar uma retórica do medo, que eu achei que já estava totalmente ultrapassada, porque eles foram derrotados com essa retórica, a esperança venceu o medo. E também porque o governo Lula teve um êxito inquestionável. É o presidente mais popular da história do Brasil, talvez a personalidade com mais prestígio internacional da história do país internacionalmente. Recebeu prêmio do El País, da Espanha, do Le Monde Diplomatique, da revista Time dos EUA, do Fórum Econômico Global, agora da ONU como campeão mundial de combate à fome, um prestígio, uma liderança, que é impressionante. O País hoje tem inflação menor que a do governo do Fernando Henrique Cardoso, a economia cresce duas vezes mais do que crescia nos 25 anos anteriores a ele. No IBGE, que tem sessenta anos de história, foi a maior redução da pobreza, 23 milhões de pessoas deixaram à linha da pobreza, com a ampliação da classe média, mais de 32 milhões de pessoas. Da história documentada do IBGE, o índice Coeficiente de Gini que é um índice inquestionável, é o melhor evolução que nos tivemos. Os mais pobres tiveram um ritmo de crescimento, no governo Lula um ritmo chinês em torno de 9% ao ano, isso em 7 anos. O salário mínimo cresceu 74%, o Bolsa Família atinge dois milhões de famílias, o crédito consignado massificou o consumo popular. O Minha Casa Minha Vida já tem 410 mil casas sendo construídas e contratadas. O Prouni atinge 726 mil famílias que estão sendo beneficiadas.
… … …

CC: Mas o senhor acha que a identificação da Dilma com o Lula já está clara para a maioria da população?
AM: A minha visão, é que essas coisas só vão ficar claras a partir de agosto, quando a televisão for para o ar. A Dilma vai ter quase metade do tempo de televisão da campanha, nunca tivemos isso. Em 2002 nós tínhamos 21% e o Serra tinha 47% do tempo de televisão, agora vai inverter, ele vai ter em torno de 26%, 27% e a Dilma deve ter em torno de 50% do tempo de televisão. Nós vamos poder mostrar uma coisa que o Brasil sente. 75% dos brasileiros apoia o governo Lula, porque o País cresce, tem estabilidade, foi precavido em relação à crise; nós somos hoje o segundo maior produtor e exportador de alimentos do mundo, a safra agrícola é recorde este ano, com149 milhões de toneladas, o pré-sal aponta uma perspectiva fantástica para a economia brasileira. Nós criamos um mercado interno de massa, que é o que faz o Brasil crescer hoje, porque a Europa está mal, o Japão e os EUA continuam com dificuldades e o Brasil retomou um crescimento de mais de 7% nesse primeiro trimestre. Então, meu livro vai contar isso detalhadamente, é um balanço do governo, o prefácio é do Lula. Chama-se “O Brasil, a Construção Retomada”. Acho que vai ser um bom momento para o debate político. Eu usei a “construção retomada” dialogando com “o Brasil construção interrompida”, do Celso Furtado. Eu publico uma carta em que ele me mandou em 2002, aonde ele dizia a angústia que sentia em relação ao período neoliberal, as dificuldades do país, ele achava que ia ser muito difícil dar um salto histórico, mas achava que era possível, que as nossas propostas caminhavam nesta direção. Ele não viveu para ver, mas a gente retomou a construção da nação.

… … …

CC: E dá para adiantar para nós a questão central que aborda no livro?
AM: Eu acho que vai dar uma bela discussão, falo sobre como foi colocar o social como eixo estruturante do econômico e criar um mercado de consumo de massa, que era nosso projeto desde a origem. Porque nós fizemos a “Carta ao Povo Brasileiro” para fazer uma transição, na medida em que nossa margem de manobra era muito pequena quando nós chegamos. A crise cambial, a taxa de juros estava em torno de 27,5%, a inflação estava em 17%, então se precisava de uma política de transição, para criar condições, acúmulo de forças, governabilidade, para implantar um modelo onde o social fosse o eixo estruturante do econômico, porque esse que é o novo desenvolvimentismo que o Lula trouxe: o protagonismo internacional do Brasil, a liderança dos países em desenvolvimento, a integração regional da América do Sul. Foi um trabalho que me deu muito orgulho de ter participado como líder do governo. Esse balanço do governo Lula é muito importante para a disputa em São Paulo. Eles estão aqui no governo há 27 anos, 16 anos com o PSDB, o Alckmin foi governador por 12 anos, seis anos governador, seis anos vice-governador, e mais um ano e quatro meses como secretário de governo. Então, eu não posso comparar um governo que eu não fiz com um governo em que eles estão tanto tempo se alternando. Eu posso comparar o governo que nós fizemos no Brasil, com o governo que eles fizeram no Brasil e posso destacar o que do governo Lula nós fizemos em São Paulo.
CC: No debate do Sérgio Guerra com o José Eduardo Dutra (presidentes do PSDB e do PT) Guerra insistiu que o governo Lula era uma continuação da política econômica e dos programas sociais do governo Fernando Henrique, que Lula não fez outra coisa senão adaptar tanto a política econômica quanto os programas sociais.
AM: Evidente que, primeiro, a política externa é outra. O Serra disse que acha o Mercosul um desastre e nós investimos muito na integração. Nossas exportações para o Mercosul cresceram duas vezes mais, que as nossas exportações para o resto da economia mundial. Investimos na integração regional, isso ajudou no protagonismo internacional do país. Investimos em sair da ALCA, por uma política de articular os países em desenvolvimento e recolocá-los em uma agenda global. Não nos acomodamos com o papel subalterno, secundário em relação ao G-20, nós implodimos o G-8 e criamos o G- 20.Nessa crise o Brasil presidiu o G-20 no momento da sua constituição, nós tivemos uma liderança inquestionável em Copenhague na agenda ambiental. E o presidente Lula é o presidente que mais vezes viajou à África, à Ásia, que mais viajou para a América Latina. Nós construímos realmente uma grande liderança internacional, que o mundo hoje aplaude e reconhece. Diferente da agenda de uma inserção subalterna que era o projeto deles. O Cavallo (Domingo Cavallo, ex-ministro da Economia da Argentina nos governos Menem e Fernando de la Rúa) também dizia que o Mercosul era um projeto que tinha que ter uma relação carnal com os EUA e nós fizemos uma outra construção histórica cujo resultado, na balança comercial e nas contas externas do país, foi exuberante.
CC: E quais as diferenças sobre o papel do Estado, tema que deve também ocupar um espaço importante na campanha?
AM: Nós retomamos o estado planejador, o estado protagonista, nós fortalecemos as empresas estatais. Eles venderam quase todo o patrimônio. Se você pegar a revista Exame em 2006, eles diziam temos que vender a Petrobras e o Banco do Brasil. Na crise o que nós fizemos? O Banco do Brasil empresta mais hoje do que todos os bancos públicos emprestavam em 2002. O BNDES hoje é maior que o Banco Mundial. Na Caixa Econômica Federal só de crédito imobiliário são 47 bilhões de reais, tem 410 mil casas sendo construídas na faixa de 0 a 3 salários mínimos e esse programa foi lançado no auge da crise. Uma política que nunca foi feita no passado. O que eles fizeram na crise? O Serra, vendeu a Nossa Caixa. No auge da crise, quanto estávamos usando os bancos públicos para fazer uma política de crédito em um grave cenário de crise de liquidez, eles estavam vendendo a Nossa Caixa. Aumentaram os impostos na capital, o IPTU, fizeram um programa de distribuição tributária em São Paulo que aumentou a carga tributária do estado, enquanto nós estávamos desonerando o setor estratégico, dando liquidez e colocando nos bancos públicos.
CC: Mas o Brasil tem ainda sérios entraves nas áreas de energia e infraestrutura, não é?
AM: Vamos começar pela Petrobras: eles venderam um terço por 5 bilhões de dólares. A Petrobras hoje vale 208 bilhões de dólares e é a 18ª maior empresa do mundo na bolsa, segunda maior empresa de petróleo do mundo. Isso e a descoberta do pré-sal mostram a força da Petrobras ao substituir importações na cadeia produtiva de petróleo. O Lula acabou de inaugurar o primeiro navio construído em Pernambuco, no estaleiro, que é uma coisa que foi construída nesse governo. A Ferrovia Norte-Sul está com 7 mil pessoas trabalhando, com uma velocidade fantástica, estava parada há 20 anos.E o que eles fizeram em ferrovias? Em 16 anos que eles governaram o estado de São Paulo? Venderam a FEPASA e privatizaram todo o setor ferroviário nacional, abandonaram qualquer planejamento de projeto estruturante sobre trilho. O modelo de estado era outro, a política externa era outra, a política econômica foi outra. Nós fizemos uma política econômica de um perfil keynesiano, inclusive na crise, anti cíclico, para retomar a capacidade de investimento e formulação de políticas públicas. O PAC é a reconstrução da capacidade de planejamento estratégico de projetos estruturantes de investimentos do estado, em parceria com a iniciativa privada, que o Brasil tinha perdido a ideia de planejamento, projeto estruturante, papel protagonista do estado no impulso de seu desenvolvimento. Nós somos, na realidade, o que um novo desenvolvimentismo e a marca fundamental desse novo desenvolvimentismo é o social como eixo estruturante do econômico. A ideia força desse governo foi criar um mercado de consumo de massa, eles diziam que se o salário mínimo crescesse a inflação voltava. Teve um crescimento de 74% do salário mínimo, eles jamais pensaram em um programa como o Prouni. Nunca existiu um Prouni antes, ele colocou 726 mil alunos na universidade com bolsa de estudos.
… … …

CC: Mas, senador, apesar de tudo isso, como é que se explica essa distância tão grande do Alckmin nas pesquisas hoje em relação à sua candidatura?
AM: Quem foi governador e vice-governador doze anos e mais um ano e quatro meses como secretário, quem disputou a presidência da República e acaba de disputar a eleição para a Prefeitura, é natural que com essa exposição e essa presença, e com a mesma equipe se alternando no governo há vinte e sete anos, tenha esse posicionamento nas pesquisas. Agora se isso fosse uma intenção de voto consolidada, como é que se explica que ele (Geraldo Alckmin) saiu com 45% para a prefeitura (em 2008) e terminou com 22%, nem para o segundo turno foi há um ano atrás? A intenção de voto que ele tinha para a prefeitura é a mesma que ele tem hoje para o governo do Estado, só que nem chegou ao segundo turno. Eu acho que não é consistente e à medida que o debate avançar à medida que nós tivermos acesso à televisão e rádio para poder fazer esse debate aprofundado, nós vamos crescer. Na hora em que o Lula começar a se despedir do povo brasileiro definitivamente, eu acho que vai ter uma grande emoção e São Paulo, que durante tanto tempo, não acreditou que o Lula poderia ser presidente, um bom presidente e hoje aplaude, eu acho que pode votar no Mercadante e acreditar que é possível fazer em São Paulo o que nós já fizemos no Brasil. Um governo muito melhor do que o do PSDB.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Nunca renunciar a um horizonte socialista


O texto que se segue integrou o documento político fundador do clube político Margem Esquerda (ME), instituído no PS pouco depois da viragem de século. No âmbito da auto-reflexão permanente que, julgo eu, está inscrita no código genético da Corrente de Opinião Esquerda Socialista (COES), merece que o recordemos para reapreciar ou aprofundar o seu conteúdo, para calibrarmos com mais rigor as ideias expressas, para as tornarmos mais claras. E o texto que se segue, é tanto mais importante, quanto constitui o cerne da nossa identidade político-ideológica, no seio da constelação socialista. Uma identidade que deu sentido à existência do referido clube e, na minha perspectiva, está na base da criação da COES, na medida em que marcou o sentido estratégico mais fundo da moção”Mudar para Mudar”.

Falo em reapreciar e aprofundar o seu conteúdo, melhorando-o, uma vez que sendo este texto de grande amplitude conceptual, faz sempre sentido procurar melhorá-lo. Melhorá-lo, mas não esquecê-lo ou passar a recusá-lo como matriz da nossa identidade, pois se assim acontecesse seria esta que estaríamos a mudar e não apenas um texto.

Ora, uma mudança tão essencial teria exigido um processo explícito de reexame, que nunca ocorreu. E, é claro, que nem me passa pela cabeça, que se deva sequer pôr a hipótese de que essa possível mutação tivesse ocorrido sem que o tivéssemos querido ou sem que disso nos tivéssemos apercebido.

E, sublinho, isto vale tanto para a Margem Esquerda como para a Esquerda Socialista, já que a nossa corrente surgiu assumindo a continuidade política com o clube. Ora, se ela tivesse querido romper com a identidade referida, essa continuidade teria desaparecido e haveria de ter sido ao menos mencionada se, facto, tivesse ocorrido. Não foi isso que aconteceu. E, falando por mim, eu nunca teria aderido à ES se ela não tivesse sido a continuidade da ME.

Por isso, parece-me que será este território conceptual o primeiro que devemos percorrer para tornarmos ainda mais claros e inequívocos os alicerces político-ideológicos da COES. Eis o texto:




Nunca renunciar a um horizonte socialista


Mais de dois séculos decorreram desde a Revolução Francesa. Não foram, contudo, suficientes para apagar muitas das chagas sociais e humanas que continuam a desafiar o mundo.
A aceleração do tempo histórico e do progresso tecnológico, com a dinâmica de mudança que implica, tornou-se um factor social de uma importância decisiva, surgindo como um desafio que tem que ser enfrentado com uma eficácia muito maior do que aquela que até agora tem sido conseguida. Mas não podemos confundir o relevo da aceleração da mudança com uma certa retórica ilusionista da modernidade, que ignora a complexidade das sociedades actuais, encarando-as numa perspectiva redutora, de índole economicista e anti-humanista, que, em larga medida, se destina a servir de cortina de fumo para ocultar alguns dos problemas mais graves do mundo de hoje.
Se o socialismo se quer afirmar como a juventude do mundo, não pode ficar preso a um passado que já não existe, isto é, tem de saber compreender as novas tendências de mudança das sociedades actuais. Mas, sob pena de perder a alma, de deixar de ser ele próprio, tem de aprender a reencontrar-se mais profundamente com os seus valores históricos. Não pode alhear-se dos flagelos sociais que estão na raiz da sua existência e que se mantêm ou se agravaram. Não pode ficar indiferente aos problemas e às angústias dos traba­lhadores, bem como de todos os que sofram exclusão, exploração ou opressão.
Muitos serão os problemas e os temas dignos de atenção que elegeremos como objectos de reflexão e debate. Queremos, no entanto, desde já destacar duas áreas de incerteza, entre as várias que podiam ser escolhidas, que merecem ser exploradas, para que possamos compreender melhor tudo o que com elas se relaciona.
A primeira diz respeito à fluidez do conceito actual de socialismo, ao carácter discutível do que significa um horizonte socialista como objectivo e como possibilidade histórica que se mantém em aberto.
A segunda diz respeito à dificuldade em aferir com precisão em que medida as grandes linhas de orientação política por que optamos, bem como os objectivos políticos genéricos que assumimos conjun-turalmente em termos programáticos, nos aproximam ou nos afastam de um horizonte socialista. E essa dificuldade aumenta, quando estão em causa medidas políticas pontuais de significado limitado.
Os socialistas têm que ser capazes de fazer sempre uma dupla ava­liação das suas orientações e das medidas políticas que preconizam. Têm de saber em que medida elas perturbam ou melhoram o fun­cionamento corrente da sociedade, em que medida elas são harmo­nizáveis ou contraditórias com a procura de um horizonte socialista e com a trajectória a percorrer para dele nos aproximarmos.
Isso nunca foi fácil, mas o desmoronamento do modelo soviético tornou possível uma consciência mais aguda da sua dificuldade. Não porque ele tenha atingido directamente os partidos da Internacional Socialista, mas porque tornou evidente que o problema da alternativa ao capitalismo deveria ser colocado em termos mais complexos do que até então.
De facto, mesmo não tendo inscrito no seu código genético o sonho
do assalto a um Palácio de Inverno como acto fundador e purificador, era dominante na Internacional Socialista a valorização da ideia de uma espécie de "grande noite eleitoral", que abrisse abruptamente um novo tempo, em que os socialistas, a partir do governo de um único país, aí construíssem democraticamente uma sociedade dife­rente.
A Internacional Socialista recusava-se a caminhar para o socialismo, sacrificando a democracia. Na sua identidade era central a ideia de que só em democracia era possível alcançá-lo. No entanto, ainda que difusamente, encarava a falta de democracia como o problema essencial do modelo soviético,
Com o seu desmoronamento, todavia, ficou claro que o modelo soviético não foi um simples atalho histórico, penalizado apenas por ter escolhido uma rota que sacrificou a democracia para atingir mais depressa uma sociedade justa. Foi, sim, um colectivismo produtivista de Estado, globalmente diferente do socialismo, que em vez de con­duzir rapidamente ao um futuro libertador, deixou milhões de seres humanos divididos entre uma miragem que afinal nunca existiu e um passado a que é impossível voltar.
Hoje, é mais fácil perceber que não será o simples exercício do poder político num determinado Estado que, por si só, nos aproximará deci­sivamente de um horizonte socialista.
Hoje, é mais fácil perceber que a actualidade da ideia socialista se radica na possibilidade do socialismo ser um horizonte qualificante da democracia e da civilização humana, para o qual a sociedade no seu todo caminhará ou não, com naturais sobressaltos e retrocessos, no quadro de um processo prolongado, ainda distante do seu termo. Horizonte que não deve confundir-se com um destino pré-defenido, já
que é antes uma referência que sustenta uma ambição reformadora radical, fundada num projecto aberto sempre em evolução. Uma ambição guiada pelos valores do socialismo, em permanente cons­trução crítica no quadro de uma atitude prospectiva, realista e incon­formada, que não aceita que o capitalismo seja o fim da história.
Renunciar a esse horizonte é perder a identidade socialista. Valori­zá-lo é uma opção que está longe de estar balizada e caracterizada, podendo dizer-se que estamos perante um espaço problemático e não perante um conjunto de orientações reflectidas e testadas.
Está em causa um processo de amadurecimento social que deve contar com um importante protagonismo do Estado, mas que está muito longe de lhe ficar circunscrito. A evolução do tecido social terá de conjugar-se com o exercício do poder político, numa sinergia vir­tuosa. A valorização do Estado como expressão plena da política é uma prioridade que implica uma renovada atenção sobre as suas crescentes responsabilidades reguladoras e uma rigorosa dinâmica reformadora da administração pública. Mas não pode dispensá-lo também de um novo tipo de relacionamento com as dinâmicas soci­ais de base, que constituem uma vertente insubstituível do desen­volvimento social, assumindo-se como instância de permanente encorajamento e de apoio crítico às suas iniciativas.
Neste contexto, percebe-se que a estatização dos meios de produção não seja encarada como etapa necessária de uma evolução socia­lista. Ficou mais nítido o seu carácter instrumental, bem como os riscos de, por si só, poder não conduzir aos objectivos que a justifi­cavam, ou contribuir mesmo para nos afastar deles.
No entanto, também não parece sustentável querer substituir um fundamentalismo económico de pendor estatizante, por um funda-
mentalismo privatizador, radicado no neo-liberalismo como numa ver­dadeira religião do mercado.
Na época da globalização, em que é visível o seu carácter contra­ditório, temos de assumir a incomodidade de um pensamento crítico. Um pensamento capaz de combater as ideias feitas, mediaticamente inculcadas peio aparelho ideológico-cultural dominante, como se re­presentasse a verdade definitiva. Um pensamento crítico que nos impeça de confundir a realidade com aquilo que gostaríamos que ela fosse, mas que esteja longe de aceitar aquilo que existe.
Por isso, em cada conjuntura, devemos procurar perceber sempre qua! é a força propulsora principal, qual é o obstáculo mais difícil. Estarão estes aspectos devidamente ponderados nas questões que ocupam a ribalta das nossas ideias? E estarão estas irremediavel­mente ancoradas na nossa experiência histórica, correspondendo, por isso, a uma sociedade que já é passado? Por que outras vias de­veremos prosseguir? Com base em que novas referências? Alguma vez transformaram os homens a sociedade, a não ser a partir da va­lorização das questões que lhes ocorreram? Se não devemos va­lorizar as questões que refiectidamente nos ocorrerem, que questões devemos, então, valorizar?
Sem nunca renunciarmos a uma atitude anti-dogmática, poderemos orientar-nos melhor nesta multiplicidade de interrogações, se con­frontarmos sempre o presente com o horizonte socialista que nos identifica e que ambicionamos como futuro.
É, por isso, preciso que estejamos atentos às transformações do ca­pitalismo, sabendo que elas podem, eventualmente, conduzir a pro­fundas alterações da própria natureza da luta política, sem nunca cairmos na ilusão de que o capitalismo se extinguiu.
Seria de facto a suprema ironia que os socialistas renunciassem a combatê-lo, com a alegação de que já não existe, precisamente num tempo em que os seus arautos decretaram a sua irreversível vitória histórica.
Isto não significa que encaremos o capitalismo numa óptica simplista e redutora, que menospreze a sua complexidade, os seus aspectos ambivalentes, as suas virtualidades de dinamização económica. Significa antes, que o consideramos incapaz de eliminar a pobreza e a marginalidade, de suscitar a felicidade humana e a melhoria da qualidade de vida das pessoas, generalizada e sustentadamente, dado o facto de ser predominantemente predatório e desumanizante. Nesta medida, é decisiva a nossa capacidade para revitalizar os va­lores socialistas da liberdade, da justiça, da igualdade, da frater­nidade, da solidariedade, do respeito pela natureza, da cooperativi-dade, da criatividade cultural, da inovação organizacional, subme­tendo-os a uma permanente reactualização crítica, que os complete e enriqueça. No fundo, será talvez um caminho para encarar o socia­lismo como um humanismo que possa aproximar o mundo de hoje da felicidade, livrando-o dos pesadelos colectivos que continuam a povoá-lo.
Por tudo isto, o território conceptual assinalado pelo leque de hipóte­ses e de interrogações que acabamos de percorrer constituirá um dos principais objectos da nossa atenção e da nossa actividade.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Frasquíssimo

Frasquíssimo é um guia para daltónicos. É ele que lhes diz aquele cão é azul, aquela gato é verde, aquela galinha é lilás.

Dois daltónicos diferentes perguntaram-lhe: de que cor é aquele estranho animal que olha tão fixamente para o infinito.

-“É negro como a noite.” - disse para um deles.
-“É branco como a neve” - disse ao outro.

Um deles foi enganado, concluiria qualquer jornalista inteligente.

Concordo, mas eu ainda perguntaria: “Não terá dito a ambos o que cada um queria ouvir”?

Talvez, [responderia um observador experimentado], mas se assim for, ele não é bem um guia para daltónicos. Parece ser simplesmente a voz do dono, de um dono, dois donos, três, quatro. Enfim, quantos vierem. Depois, no recato de um banco, a continha lá se encarregará de engordar.


E assim se continua sem saber qual é a cor do estranho animal.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

O Sol espreita em Coimbra


O Sol espreita em Coimbra


o Sol é esta tarde sem cuidados

e Antero descansa sem angústias

sonhando liberdade e horizonte


domingo luz aberta pela relva

pessoas que se perdem nas conversas

sem as rugas do tempo sem temores

sem ódios e sem sonhos sem fronteiras


e o Mondego respira com saudade

nesta tarde plana exacta limpa


Rui Namorado
17 de Maio de 2010











domingo, 16 de maio de 2010

Giddens e a terceira via

No passado dia 13 de Maio, escrevi aqui no GZ um pequeno texto sobre a terceira via britânica do qual transparece com clareza o que penso dela.

Li hoje no site do jornal francês " Le Monde", datado do dia 16, um texto de Anthony Giddens que, sem prejuízo de estar muito distante dessa minha posição, me pareceu dever ser facultado aos leitores deste blog. O referido texto foi originalmente publicado em "The New Statesman", tendo sido traduzido para francês por Gilles Berton. De facto, para além do interesse intrínseco do que nos diz, é um documento relevante, já que exprime uma apreciação geral do trajecto da "3ª via"feito pelo seu ideólogo de referência. Merece ser lido com toda a atenção.

Na minha opinião, o próprio modo como A. Giddens analisa o "new labour" ilustra as limitações da perspectiva ideológica que o estruturou, ou seja, os limites por ele próprio assumidos como balizas do "blairismo". De facto, como poderão ver, A. Giddens conclui o seu texto, afirmando que o Labour deve fazer todos os esforços para se renovar e sublinhado que :" esses esforços ainda tímidos devem ser prosseguidos e colocados ao serviço da construção de uma forma responsável de capitalismo, associado a uma abordagem subtil dos problemas de durabilidade". "Uma forma responsável de capitalismo " é, na verdade, um objectivo modesto que, aliás, qualquer partido integrado no Partido Popular Europeu poderia inscrever com naturalidade entre os seus objectivos.

Mas vejamos como o principal ideólogo da "terceira via" faz o balanço da vida da sua própria criatura. O texto é longo, mas pareceu-me óbvio que não deveria ser truncado.

New Labour : de l'ascension à la chute

Anthony Giddens

LEMONDE.FR 15.05.10 13h01 • Mis à jour le 16.05.10 08h52



L'ère de l'hégémonie du New Labour est révolue. Quel bilan en tirer ? Beaucoup aujourd'hui ont tendance à décrier l'action du New Labour au cours des treize années où il a été aux affaires. Même des observateurs bien disposés conviennent que peu de résultats substantiels ont été atteints. Pour les critiques les plus déterminés, le Labour au pouvoir – c'est-à-dire le Labour mué en New Labour – a généré plus qu'une déception ; ce fut un vrai désastre. Le parti a grignoté les libertés civiques, trahi les idéaux de gauche, n'a en rien réduit les inégalités et, le pire de tout, s'est lancé dans une guerre calamiteuse en Irak. Alors que le New Labour avait promis une "aube nouvelle", beaucoup se sont sentis floués.

"LE 'NEW LABOUR' N'EST PAS UNE SIMPLE FORMULE"

J'admets certaines de ces critiques. Mais on peut aussi leur opposer une défense solide de beaucoup des politiques de fond menées par les travaillistes. Et il est nécessaire de dresser un bilan équilibré si l'on souhaite que ce parti se fixe une orientation efficace pour l'avenir. Un point de départ réaliste pour y parvenir est de comparer l'action du Labour au cours de la période où il a été au pouvoir à celle de partis frères dans d'autres pays à peu près à la même époque –
Bill Clinton et les démocrates aux Etats-Unis, les socialistes de Lionel Jospin en France et le SPD allemand dirigé par Gerhard Schröder.
Le Labour a réussi à rester au pouvoir plus longtemps qu'eux, plus longtemps même, en vérité, que tout autre parti de gauche dans la période récente, y compris les partis scandinaves. Les changements idéologiques qui ont motivé l'adoption du terme "New Labour" expliquent en grande partie ce succès électoral. Car l'appellation "New Labour" n'était pas une simple formule conçue pour masquer un vide politique.
Dès le départ, les architectes du New Labour ont procédé à un diagnostic convainquant des raisons pour lesquelles la politique de centre-gauche avait besoin d'innovation, et ils ont, sur cette base, défini un agenda politique clair. En gros, ce diagnostic établissait les points suivants : les valeurs de la gauche – la solidarité, la volonté de réduire les inégalités et de protéger les plus vulnérables, la croyance au rôle actif du gouvernement – demeuraient intactes, mais les politiques conçues pour atteindre ces objectifs devaient être radicalement redéfinies en raison des profonds changements que connaissait le monde. Ces changements étaient provoqués entre autres par l'accélération de la mondialisation, par le développement d'une économie post-industrielle ou de services et, à l'ère de l'information, par l'émergence d'une opinion publique qui s'exprime plus, qui est plus combative et qui marque moins de déférence qu'autrefois à l'égard des représentants de l'autorité (un processus que l'apparition d'Internet n'a fait qu'accentuer).
La plupart des propositions politiques du Labour ont procédé de cette analyse. L'époque de la gestion keynésienne de la demande, couplée à la mainmise étatique sur l'entrepreneuriat économique, était révolue. Une nouvelle relation entre l'Etat et les entreprises devait être établie, qui reconnaisse le rôle vital de l'entreprise dans la création de la richesse et admette les limites du pouvoir étatique. Aucun pays, aussi vaste et puissant soit-il, ne peut contrôler ce marché : d'où l'"offensive des cocktails de crevettes" que le Labour lança au milieu des années 1990 pour courtiser la
City de Londres.


"TONY BLAIR, LOIN D'ÊTRE UN TRAVAILLISTE PUR SUCRE"

L'expansion de l'économie de services eut pour conséquence une forte diminution de la classe ouvrière, bastion historique des travaillistes. C'est pourquoi, pour gagner les élections, un parti de centre-gauche devait s'adresser à une catégorie beaucoup plus large d'électeurs, y compris parmi ceux qui n'avaient jamais voté travailliste jusque-là. Le Labour ne pouvait plus se contenter de ne représenter que des intérêts de classe particuliers. En
Tony Blair – qui était loin d'être un travailliste pur sucre – le parti sembla avoir trouvé le leader parfait pour atteindre ce but.
La politique du Labour a évolué au cours de ses années au gouvernement. Certaines idées fondamentales, pourtant, sont restées les mêmes. La prospérité économique, dans un marché mondialisé, devait prendre la première place comme condition préalable à une politique sociale efficace. Une économie de plus en plus prospère générerait des ressources permettant de financer l'investissement public tout en évitant d'avoir à instaurer de nouveaux impôts. Le Labour chercha à rompre avec sa vieille tendance à "taxer pour dépenser". "Prudence" fut le maître-mot de
Gordon Brown lorsqu'il était ministre des finances. Une gestion économique prudente était essentielle si l'on voulait augmenter les dépenses sociales et améliorer la justice sociale.
Dans ce domaine, le Labour dut affronter l'héritage désastreux des années Thatcher. L'inégalité avait plus fortement augmenté au Royaume-Uni au cours de ces années-là que dans tout autre pays industrialisé à l'exception de la Nouvelle-Zélande (laquelle avait également mené une politique thatchérienne). Le système de prestations sociales étant exsangue, l'investissement dans les services publics, accompagné de réformes visant à les rendre plus souples et plus adaptés aux besoins de leurs utilisateurs, devint le principe directeur de l'action des travaillistes. Le Labour ne serait pas le parti du "plus d'Etat", mais le parti de l'Etat intelligent.
Une autre caractéristique importante de la politique du New Labour fut son refus de laisser la droite s'approprier certains problèmes, et de leur apporter à chaque fois des solutions de centre-gauche. Cette stratégie, qui fut attaquée par certains au motif qu'elle mettait en danger les libertés civiques, fut un élément essentiel de la longévité du Labour au pouvoir. Dans d'autres pays, les sociaux-démocrates ont perdu le pouvoir en raison de leur incapacité à faire la même chose. Au lieu d'affronter directement les questions liées à la criminalité, au désordre social, à l'immigration et à l'identité culturelle, la gauche avait jusqu'ici voulu leur trouver des explications et les avait en fait esquivées – comme si les inquiétudes éprouvées par les citoyens étaient déplacées ou injustifiées. On partait par exemple du principe que la plupart des comportements criminels provenaient des inégalités et, donc, qu'une fois ces inégalités réduites, la délinquance diminuerait automatiquement. Sans nier le lien, le Labour adopta une autre attitude. Quand Tony Blair, dans le manifeste qu'il publia en 1997, s'engagea à se montrer "dur envers la criminalité et dur envers les causes de la criminalité", il ne s'agissait pas d'un simple slogan ; c'était un principe d'action qui fut effectivement mis en œuvre.


UNE POLITIQUE ÉTRANGÈRE ACTIVISTE

Evoquer à présent l'importance accordée par le Labour à la mise en œuvre d'une politique étrangère activiste pourrait sembler éloigné des préoccupations précédentes. Il n'en est rien. En raison de la mondialisation, politiques nationale et étrangère se superposent désormais beaucoup plus que par le passé. Même s'il est clair que la Grande-Bretagne n'est pas menacée d'invasion, elle doit être prête à jouer un rôle actif dans le monde. L'interventionnisme devient une doctrine nécessaire lorsque la souveraineté nationale a perdu une grande partie de son sens et que les préoccupations humanitaires universelles l'emportent sur les intérêts locaux. Le terrorisme transnational, lui-même généré par la mondialisation, constitue une menace bien plus grande que les formes localisées de terrorisme qui prévalaient autrefois.

Dans quelle mesure ces stratégies et politiques ont-elles porté leurs fruits ? S'il est évident que le bilan travailliste est imparfait, il serait pourtant difficile de nier que le Labour a eu un impact beaucoup plus fort que n'importe lequel des gouvernements de centre-gauche précédemment mentionnés. Le Royaume-Uni a connu dix années d'une croissance économique ininterrompue qu'on ne peut écarter d'un revers de manche en affirmant qu'elle n'était due qu'aux bulles de l'immobilier et du crédit. Cette croissance est intervenue alors qu'était instauré un salaire minimum national. Des investissements de grande ampleur ont été réalisés dans les services publics et des réformes importantes conduites dans les domaines de l'éducation et de la santé.
L'inégalité entre salaires et revenus a été contenue, même si elle n'a pas été réduite de manière significative. La condition des plus pauvres s'est toutefois nettement améliorée. Les objectifs de réduction de la pauvreté des enfants n'ont pas été atteints, mais avant la récession, 600 000 enfants ont été extraits d'une relative misère ; par rapport à une norme absolue, ce nombre peut être quasiment doublé.
Les programmes du
New Deal et du Sure Start ainsi que les politiques de crédit d'impôt ont certes connu des difficultés, mais ils ont en général prouvé leur utilité. Même la PFI (Private Finance Initiative) tant décriée a fonctionné, surtout quand on la compare aux systèmes de financement public. La dévolution de pouvoir à l'Ecosse et au Pays de Galles a été pour l'essentiel une réussite, et une paix durable semble avoir été établie en Irlande du Nord. Les chiffres de la criminalité ont substantiellement baissé dans l'ensemble du Royaume-Uni et la Grande-Bretagne a réussi de manière plus féconde que la plupart des autres pays européens à s'adapter à une diversité culturelle croissante.
Venant d'un parti si souvent considéré comme antilibéral et autoritaire, ce sont là des réalisations appréciables dans la direction opposée. Le Labour a souscrit au Chapitre social de l'Union européenne ainsi qu'à la Convention européenne des droits de l'homme, adopté une loi sur la liberté d'information et instauré un partenariat civil pour les couples homosexuels. La Grande-Bretagne est devenue une société plus libérale et plus tolérante qu'avant, et les politiques du Labour ont incontestablement joué un rôle dans cette évolution. En matière de politique étrangère, l'aide à l'étranger a été portée à des niveaux bien supérieurs à tout ce qu'avaient fait jusque-là les gouvernements conservateurs.


DÉCISION CALAMITEUSE À PROPOS DE L'IRAK

Les interventions militaires en Bosnie, au Kosovo – où Blair a joué un rôle crucial pour inciter les Américains à envisager de déployer des forces terrestres – et en
Sierra Leone ont été largement considérées comme des succès. Si seulement Tony Blair s'en était tenu là ! Rien n'a entaché plus fortement sa réputation que sa calamiteuse décision de devenir le principal partenaire de George Bush dans l'invasion de l'Irak.
D'autres erreurs graves ont été commises. Les expérimentations dans le domaine de l'image et de la gestion des médias au cours des premières années du gouvernement travailliste ont eu l'effet inverse de celui escompté et ont donné l'impression que le
New Labour était plus préoccupé de communication que de politique. Blair a échoué à mieux intégrer la Grande-Bretagne dans l'Union européenne, et certaines relations étroites qu'il entretenait avec d'autres dirigeants européens – notamment avec le premier ministre italien Silvio Berlusconi – ne manquaient pas de surprendre.
Il était juste d'affirmer que le Labour devait améliorer son rapport au monde des affaires, et il était également juste de reconnaître l'importance de la City pour l'économie britannique. Mais ce fut une erreur fondamentale d'autoriser "l'offensive des cocktails de crevettes" à sombrer dans une dépendance servile, ce qui eut pour résultat de transformer le Royaume-Uni en une sorte de gigantesque paradis fiscal. L'idée selon laquelle le Labour devrait avoir "l'esprit absolument tranquille à l'égard des gens qui s'enrichissent de manière éhontée" n'a pas seulement exacerbé les inégalités au sommet de l'échelle sociale, mais a contribué à l'émergence d'une culture de l'irresponsabilité. Les patrons se protégeaient des risques qu'ils demandaient à leurs employés d'endosser.


BLAIRISME DIFFÉRENT DU THATCHÉRISME

Je n'accepte pas l'idée simpliste qui voudrait que le blairisme soit la simple prolongation du thatchérisme. La politique travailliste s'est traduite par une large intervention gouvernementale dans la vie économique – même si cela s'est produit surtout au niveau de l'offre. Et elle entendait sincèrement améliorer la justice sociale - une notion totalement étrangère à
Margaret Thatcher, Keith Joseph et à leur gourou Milton Friedman. Pourtant Blair et Brown auraient dû affirmer beaucoup plus clairement qu'ils ne l'ont fait que reconnaître les vertus du marché ne veut pas dire se prosterner devant lui. Le fanatisme du marché aurait dû être plus explicitement critiqué et ses limites clairement dénoncées. Quant à la représentation proportionnelle et autres réformes constitutionnelles, le Labour aurait dû en faire une question de principe, et non donner l'impression de les défendre par opportunisme.
Les autres partis ont dû se repositionner par rapport à l'agenda fixé par le
New Labour. Les conservateurs défendent aujourd'hui les droits des homosexuels, acceptent la nécessité de réduire la pauvreté, soutiennent les lois sur le changement climatique et l'énergie que le Labour a initiées, et poursuivront la plupart des réformes du marché du travail qui ont été mises en route. En défendant leur idée de "grande société", les conservateurs entendent s'inspirer des mêmes traditions communautaires que Tony Blair a en son temps défendues. Bien entendu, ils pourraient revenir sur ces engagements, mais pour l'instant ils paraissent sincères.

La
crise financière mondiale, dont rares ont été ceux qui l'ont vue venir, semble avoir signé la fin du monde qui avait contribué à façonner le New Labour. Tout s'est brusquement inversé : le keynésianisme et l'intervention gouvernementale dans l'économie sont de retour. Plus personne ne nie la nécessité de trouver un moyen de réguler les marchés financiers qui semblaient autrefois omnipotents. Une taxe sur les transactions financières mondiales, jusqu'ici jugée totalement irréaliste, est de nouveau sur la table. Il est, somme toute, possible d'augmenter le taux d'imposition des plus riches.
Pendant ce temps, les principaux partis discutent d'un retour à une politique industrielle active et d'une renaissance de l'industrie manufacturière. Le changement climatique et d'autres menaces environnementales, dont le Labour ne s'est préoccupé que très tardivement, sont aujourd'hui au cœur des préoccupations politiques de tous. La planification, reléguée aux oubliettes depuis des années, est de nouveau d'actualité, tout comme les coupes sévères dans les dépenses publiques – l'exact contraire de l'audacieux et massif investissement social sur lequel était fondée la politique du New Labour. La prudence budgétaire a cédé la place à d'énormes emprunts et à une gigantesque dette cumulée.


LE NEW LABOUR EST MORT

Le New Labour en tant que tel est mort, et il est temps d'abandonner le terme lui-même. Pourtant certaines des évolutions sociales et économiques auxquelles il apportait une réponse sont toujours en cours, et des pans significatifs de son cadre de travail politique restent valables. Le Labour devra continuer demain à séduire des électeurs traditionnels et aisés, au sein d'une culture politique changeante dans laquelle les médias électroniques joueront un rôle de plus en plus important. Même s'il apparaît éminemment sensé de vouloir réduire la domination du secteur financier dans l'économie et encourager une renaissance de l'industrie manufacturière, le Royaume-Uni restera une économie post-industrielle dans laquelle les activités fondées sur les services et la connaissance resteront prédominantes.
La réforme des prestations sociales constituera un problème toujours aussi épineux, surtout lorsque l'efficacité des dépenses sera devenue une priorité. Mener une politique progressiste sur l'immigration et le multiculturalisme sans se couper de l'électorat demeurera une question délicate, tout comme celle de trouver une façon d'apaiser les peurs de la population à l'égard de la criminalité. Problématique, également, sera la manière de trouver un juste équilibre entre les libertés civiques d'une part, la protection du pays contre la menace du terrorisme international d'autre part. Keynes est redevenu à la mode, mais il ne peut y avoir de retour à une gestion keynésienne de la demande telle qu'elle a été pratiquée entre 1945 et 1979. Le défi auquel nous devrons répondre sera de préserver et d'améliorer la flexibilité et la créativité qu'engendrent les marchés tout en orientant ces qualités vers des objectifs à long terme socialement souhaitables.
Une révision fondamentale de la pensée est nécessaire et de nouvelles politiques doivent être définies. Le principal problème du Labour dans l'opposition sera de contenir les querelles intestines qui affectent tant de partis, surtout à gauche, au lendemain d'une défaite politique. La reconstruction idéologique pourrait jouer là un rôle décisif. Son point de départ pourrait être la redéfinition du rôle de la sphère publique.
Les "blairistes", pourrait-on dire, penchaient plus vers le marché que les "brownistes", plus attachés à l'Etat. La sphère publique doit toutefois être distincte à la fois des marchés et de l'Etat, et peut être utilisée comme un tremplin pour reconstruire les uns et l'autre. Si l'on en croit ses tentatives, à la suite de la crise financière, de réintroduire dans le débat politique la notion de mutualisme, il semble que le Labour tâtonne dans cette direction. Ces efforts encore timides doivent être poursuivis et mis au service de la construction d'une forme responsable de capitalisme, associée à une approche subtile des problèmes de durabilité.

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Anthony Giddens est professeur de sociologie à l'Université de Cambridge et ancien directeur de la London School of Economics (1997-2003). Il a été le concepteur de la "troisième voie", socle de la refondation du Parti travailliste par Tony Blair, dont il fut l'un des principaux conseillers. Anobli en 2004, il siège à la Chambre des Lords.